Trégua nos preços, riscos à frente
A inflação enfim começa a dar sinais mais consistentes de arrefecimento. O IPCA-15 de julho, prévia da inflação oficial calculada pelo IBGE, surpreendeu positivamente ao subir apenas 0,06%, a menor variação para o mês em três anos, puxado sobretudo pela queda dos preços dos alimentos.
O alívio se espalha por diferentes componentes do índice, levou consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA deste ano e reforça a expectativa de que o Banco Central volte a cortar a taxa de juros na reunião da próxima semana, hoje em 14,25% ao ano.
A desaceleração merece ser comemorada. Depois de meses em que alimentos pesaram no orçamento das famílias, produtos como tomate, batata e café registram quedas expressivas.
Mais importante, a melhora não ficou restrita aos itens mais voláteis. Medidas de inflação subjacente também mostram perda de fôlego, sugerindo que a desinflação ganha consistência.
As boas notícias levaram bancos e consultorias a reduzir suas projeções para o IPCA de 2026. Mas as estimativas permanecem ao redor de 5%, acima do teto de 4,5% da meta perseguida pelo BC.
O cenário, portanto, recomenda cautela, não complacência. O Copom deve encontrar espaço para mais uma redução modesta da Selic, mas dificilmente poderá acelerar esse movimento.
O principal fator interno de preocupação é a política fiscal expansionista. O governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) amplia estímulos para sustentar a atividade no período pré-eleitoral. Indicadores do Instituto Brasileiro de Economia da FGV mostram que o impulso fiscal é muito superior ao sugerido pelo resultado primário das contas públicas.
Em uma economia próxima do pleno emprego, a alta dos gastos públicos tende a manter a demanda aquecida, dificultar o trabalho do BC e retardar a convergência da inflação para a meta.
Também não faltam ameaças externas. O retorno do fenômeno El Niño pode comprometer safras e reverter parte da recente queda dos preços dos alimentos.
Nos Estados Unidos, a disposição do novo presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, de adotar uma postura mais dura contra a inflação aumenta a possibilidade de juros elevados por mais tempo. Se isso ocorrer, o diferencial de taxas exigido pelos investidores reduzirá o espaço para cortes mais profundos da Selic.
Some-se a esse quadro a instabilidade geopolítica. Uma escalada do conflito envolvendo o Irã poderia levar novamente o petróleo para acima de US$ 100 por barril, pressionando combustíveis, fretes e diversos preços.
A inflação oferece uma trégua e o Banco Central pode iniciar um ciclo gradual de redução dos juros, desde que mantenha a prudência. Sem disciplina fiscal, com riscos climáticos e geopolíticos relevantes e diante da perspectiva de uma política monetária mais dura nos EUA, o caminho para levar a inflação mais para o centro da meta continua estreito.
Ministros do TSE veem interferência de Moraes em cobrança sobre IA de Bolsonaro
O uso de vídeo de inteligência artificial com a imagem de Jair Bolsonaro na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência abriu uma disputa de bastidores entre integrantes do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, com críticas de magistrados sobre o papel das duas cortes nas eleições deste ano.
Ministros do TSE viram a cobrança feita por Moraes nesta semana sobre esse tema como uma forma de pressão. Na avaliação de três membros do tribunal ouvidos sob reserva, o tema está na esfera da disputa de outubro e, portanto, deve ser tratado pela corte eleitoral, não pelo STF.Moraes pediu explicações de Bolsonaro no processo que disciplina a execução da pena do ex-presidente por tentativa de golpe de Estado, em que o ministro do STF impôs restrições como proibição do uso de redes sociais.
No TSE, há divergências internas sobre o tratamento a ser dado ao uso da IA pela campanha do PL, mas nenhum dos grupos pretende propor sanções graves a Flávio. Dos sete integrantes, ao menos dois ministros tendem a dar uma abordagem mais liberal e outros dois a aplicar medidas que sirvam como alerta.
Na determinação à defesa de Bolsonaro para explicar a participação do ex-presidente no episódio, Moraes sugeriu que a conduta pode acarretar tanto o retorno de Bolsonaro ao regime fechado quanto a inelegibilidade de Flávio.
O PT acionou o STF e o TSE sobre o uso da IA de Bolsonaro na convenção do PL e afirmou ser um caso semelhante (porém mais grave pela sofisticação e reincidência) ao da leitura da carta de apoio do ex-presidente a Flávio que gerou proibição de visitas do candidato ao pai.Para integrantes do TSE, o despacho de Moraes é um sinal de tentativa de interferência nos trabalhos da corte e no processo eleitoral.
Como mostrou a Folha, um grupo de magistrados do STF vinha se preparando para atuar como uma espécie de instância revisora de decisões do TSE e fazer frente à gestão de Kassio Nunes Marques na corte.
Mesmo ministros do TSE que defendem sanções a Flávio pelo uso do avatar do pai demonstram preocupação com a medida de Moraes e com o que ela pode simbolizar na relação entre a Justiça Eleitoral e o Supremo nas eleições.
Até aqui, os conflitos surgiram diante de controvérsias estaduais, como a das eleições suplementares em Roraima ou a da definição do Executivo do Rio de Janeiro.
No caso do uso do avatar, ministros do TSE estudam caminhos diferentes do sinalizado por Moraes. De um lado, ao menos dois que recusam, de início, aplicar qualquer punição ao senador têm um entendimento de que a inteligência artificial foi usada para favorecer, e não prejudicar, um candidato. Nessa visão, o emprego da ferramenta para lesar uma campanha é que deveria ser punido.
Outra possibilidade aventada é aplicar uma multa ao PL, determinar a remoção do material das redes sociais e pontuar que a reincidência poderia ser entendida como abuso de poder. Ao menos dois ministros avaliam que Flávio usou a chamada deepfake, e uma resolução proíbe o uso dessa ferramenta para atacar o adversário ou para favorecer o candidato.
Esse conjunto de medidas funcionaria como uma advertência, para prevenir o uso sistemático de inteligência artificial e evitar que, por esse meio, Bolsonaro acabasse entrando em campanha pelo filho.
Mesmo essa visão estaria distante da levantada por Moraes de que o ato do partido mereceria algumas das condenações mais graves da legislação eleitoral. A respeito desse ponto, portanto, parte dos ministros do TSE prevê penalidade, mas não cassação ou vedação do registro de candidatura.
O abuso de poder em campanha eleitoral para esses magistrados seria aquele ato com potencial de causar danos ao equilíbrio do pleito ou à integridade do processo eleitoral. O avatar de Bolsonaro em um evento do PL, sozinho, não teria capacidade para tal.
Agora, Kassio também relata a representação apresentada ao TSE contra o uso do avatar de Bolsonaro, cabendo a ele a decisão inicial sobre a regularidade da conduta. O ministro poderá enviar a decisão ao plenário para validação, ou fazê-lo apenas se houver recurso contra a sua conclusão.
Até o momento, ele tem afirmado a interlocutores que o tema está sob análise e ainda não indicou previsão para decidir. No Supremo, no entanto, na noite desta terça-feira (28), o relator da execução da pena por golpe de Estado agiu rápido e deu 48 horas para os advogados dele responderem se o ex-presidente tinha autorizado a apresentação do avatar no evento que definiu Flávio como o candidato do partido à Presidência.
Os advogados de Bolsonaro negaram nesta quarta (29). Na resposta, o ex-presidente, por meio de sua defesa, afirmou que nem sequer teria meios para dar tal autorização a Flávio para a exibição do vídeo, já que está proibido de receber visitas do filho.
Segundo Moraes, uma autorização para isso seria uma violação grave das restrições impostas por ele e pelo Supremo. Essa anuência poderia, inclusive, tirar o benefício da prisão domiciliar concedido a Bolsonaro.
Por outro lado, com a negativa, a responsabilização recairia sobre Flávio e o PL. O ministro do STF afirmou, no despacho, que o uso de deepfake é expressamente proibido pela legislação. Apontou ainda que, de acordo com resolução de março deste ano, o TSE aperfeiçoou o combate aos ilícitos eleitorais, em especial para o enfrentamento do uso indevido da IA, caracterizando o uso dessas ferramentas como abuso do poder político e econômico.
"A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral, igualmente, é pacífica no sentido de que a utilização indevida dos meios de comunicação social, inclusive por meio das redes sociais, configura grave desrespeito à legislação eleitoral, podendo, inclusive, acarretar a inelegibilidade", diz Moraes.
No início do acirramento entre as cortes, em junho, integrantes do STF também fizeram chegar a Kassio a intenção de derrubar a decisão dele de censurar a pesquisa Atlas/Bloomberg que apontou queda de Flávio após diálogos entre o senador e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
O presidente do TSE afirmou a aliados ter a possibilidade no radar e articulou um acordo interno para esmorecer a tensão. Agora, mais uma vez, a expectativa nos bastidores do TSE é que a questão eleitoral pode chegar ao Supremo e, nesse caso, a depender da relatoria definida, ser rediscutida.

Congresso adotou agenda nefasta de retrocesso ambiental
EDITORIAL DE O GLOBO
A frequência e a intensidade crescentes dos eventos climáticos extremos — como as enchentes no Rio Grande do Sul ou as ondas de calor e incêndios florestais devastadores em curso na Europa — recomendam um zelo também crescente com a conservação do meio ambiente. Infelizmente, não é a visão que tem prevalecido no Congresso Nacional, onde prosperou nos últimos anos a agenda antiambiental, por meio de projetos que fragilizam a proteção da natureza.
Tramitam 13 propostas para reduzir Unidades de Conservação (UCs), alterar categorias ou extinguir áreas protegidas, revelou levantamento do GLOBO com apoio do Observatório de Leis da Frente Parlamentar Mista Ambientalista e da Rede Pró-UC. Entre 1988 e 2018, o Brasil registrou 46 iniciativas do tipo, diz a ONG WWF-Brasil. “O Congresso vem banalizando a redução de Unidades de Conservação e ignorando limites constitucionais já estabelecidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF)”, afirma Douglas Montenegro, advogado da Rede Pró-UC.
Entre os projetos controversos, estão a redução de 40% da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, no Pará, a anulação da ampliação da Estação Ecológica (Esec) de Taiamã, no Pantanal Mato-Grossense, — essencial para preservar espécies ameaçadas como a onça-pintada — e a diminuição da Área de Proteção (APA) Baleia Franca, em Santa Catarina (que abrange dez municípios e protege um dos principais corredores ecológicos do Litoral Sul). Há ainda propostas para reduzir o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e anular a criação do Parque Nacional do Albardão, no Rio Grande do Sul.
No Jamanxim, o projeto, já aprovado na Câmara e no Senado, converte em Área de Proteção Ambiental (APA) 486 mil hectares retirados da floresta (do total de 1,3 milhão). A APA segue legislação mais flexível de ocupação e exploração econômica. A proposta, que não foi precedida de estudos técnicos, não tem qualquer relação com a obra da Ferrovia Ferrogrão — esta não afeta a floresta e foi referendada por decisão recente do STF. Objetiva essencialmente permitir a exploração agropecuária. Seus defensores alegam o intuito de resolver conflitos fundiários históricos — o trecho subtraído é ocupado por agricultores. Ora, obviamente não se deve resolver o problema chancelando uma ocupação irregular.
O avanço sem pudor sobre UCs em ano eleitoral adiciona mais um capítulo à agenda ambiental retrógrada do Congresso. Nos últimos anos, parlamentares têm se empenhado em desmontar o arcabouço legislativo de proteção, visto equivocadamente como entrave ao agronegócio e ao desenvolvimento. Em boa parte, têm conseguido seu objetivo, como ocorreu na flexibilização do licenciamento ambiental. Ignoram que uma legislação frouxa deixa o Brasil mais vulnerável às mudanças climáticas e restringe o mercado para exportações agrícolas.
UCs não são criadas à toa. Servem para proteger flora e fauna, conter a pressão sobre a vegetação nativa, blindar mananciais fundamentais ao abastecimento e preservar o clima e o regime de chuvas essencial ao agronegócio. Por isso precisam ser mantidas, quando não ampliadas. Reduzi-las ou extingui-las representa um retrocesso — e traz riscos. É preciso barrar tais desvarios no nascedouro. A conta da irresponsabilidade já chegou num planeta acossado por tragédias climáticas cada vez mais intensas e frequentes.
Recém-ampliada, estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso, corre risco de encolher — Foto: Márcia Foletto/8-09-2022
É descabido sigilo de cem anos sobre visitas a Vorcaro na cadeia
Por Editorial / O GLOBO
Lula criticava segredos durante gestão Bolsonaro, mas seu governo lança mão do mesmo expediente
Não faz sentido o sigilo de cem anos decretado sobre a lista de visitas recebidas na prisão por Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, enquanto esteve detido na Superintendência de Polícia Federal (PF) em Brasília. O pedido, feito pela coluna Ancelmo Gois, do GLOBO, via Lei de Acesso à Informação, foi negado pela PF. Depois de recurso da coluna Malu Gaspar, também do GLOBO, a mesma solicitação foi recusada pelo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva. O que pode haver de tão bombástico numa simples lista para justificar sigilo de um século?
Os registros compreendem nome, CPF, data, horário e grau de parentesco dos visitantes. “Caracterizam-se como informações pessoais sensíveis à esfera privada tanto do visitante quanto do detento”, diz a PF em comunicado. “O tratamento de informações pessoais deve observar, de forma estrita, a proteção à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, bem como às liberdades e garantias individuais.” Lima e Silva alegou a necessidade de preservar informações “relacionadas à intimidade e à vida privada”. Mas o pedido para que fosse encaminhada a lista com tarjas protegendo dados sensíveis também foi negado pela PF.
É louvável o zelo da PF e do ministério com a intimidade dos presos. Mas qualquer dado relacionado a Vorcaro hoje é de interesse público. O próprio Supremo Tribunal Federal (STF) divulgou informações sobre suas prisões, relações com o poder, mensagens pessoais e até o financiamento ao filme sobre a vida de Jair Bolsonaro. Tudo pode ser relevante. O cidadão tem o direito de saber quem visitou o banqueiro na cadeia. Até porque não há nenhum crime em ter visitado Vorcaro.
A despeito de promessas de campanha, o atual governo continua a impor sigilos centenários. O mesmo Luiz Inácio Lula da Silva que tanto criticou Bolsonaro pelos abusos lança mão do expediente. “Vou pegar o sigilo e botar o povo brasileiro para saber por que você esconde tanta coisa. Afinal de contas, se é bom, não precisa esconder”, disse Lula em 2022. Uma vez no poder, o roteiro saiu diferente. O atual governo tem negado informações em patamares não muito diferentes do anterior.
Não é prática apenas do Executivo. O Senado negou pedido da coluna Malu Gaspar para informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa. Alegou seguir a Lei Geral de Proteção de Dados e um decreto sobre acesso a “informações pessoais relativas à intimidade, vida privada, honra, e imagens detidas pelos órgãos e entidades”. No ano passado, o Senado já decretara sigilo de cem anos sobre entradas e saídas do lobista acusado de chefiar o esquema que lesou milhões de aposentados.
Vorcaro é acusado de ter liderado uma das maiores fraudes bancárias da História do país. Milhares de investidores tiveram de ser socorridos. Fundos de Previdência de servidores terão de recorrer aos cofres públicos. As investigações mostram que ele pagava uma milícia particular para intimidar e ameaçar quem o contrariasse, em especial jornalistas. E quem o visitou não é de interesse público?
Pesquisam mostram cenário mais favorável para Lula nos maiores colégios eleitorais, mas Bahia e ‘fator Tarcísio’ são desafio
Por Caio Sartori — Rio de Janeiro / O GLOBO
A menos de três semanas para o início da campanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registra desempenho favorável no conjunto dos quatro maiores colégios eleitorais do país quando comparado à votação que alcançou no segundo turno de 2022, com destaque para o Rio. Com base nos dados da nova rodada de pesquisas da Genial/Quaest, a projeção de votos válidos mostra o petista com variação negativa apenas na Bahia, mas por pouco e dentro da margem de erro do levantamento. Já em São Paulo, embora o panorama atual também indique a possibilidade de avanço, há o desafio de evitar que a corrida estadual acabe no primeiro turno diante das dificuldades de Fernando Haddad (PT) contra o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), o que deixaria o postulante à reeleição sem palanque no maior estado brasileiro em um eventual segundo turno nacional.
Em solo paulista, Lula tem hoje, na simulação de segundo turno contra Flávio Bolsonaro (PL), 1,9 ponto a mais do que conseguiu há quatro anos no segundo turno diante de Jair Bolsonaro (PL). A flutuação fica próxima da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos percentuais.
O desempenho em 2022, quando perdeu por 10,5 pontos para o pai de Flávio no estado, já havia sido considerado satisfatório e decisivo para a vitória nacional, uma vez que perder em São Paulo é algo precificado pelas campanhas petistas há várias eleições. A questão, portanto, é o tamanho da derrota. A Genial/Quaest divulgada na quarta-feira apontou uma dianteira de 6,6 pontos para o bolsonarista junto ao eleitorado paulista.
Por lá, contudo, o cenário eleitoral pode se tornar mais complicado para Lula do que esses números desenham. Se em 2022 o PT chegou ao segundo turno local com o mesmo Fernando Haddad, agora há risco de a eleição ser decidida no primeiro turno, ainda de acordo com a pesquisa.
Caso isso aconteça, Lula amargaria a ausência de palanque no estado durante as semanas de embate direto com Flávio, o que deixaria a campanha menos encorpada numa arena decisiva. Ainda é uma incógnita dentro do próprio PL, porém, o quanto Tarcísio, uma vez tendo liquidado a fatura interna, engajaria-se com afinco na postulação do presidenciável.
A mesma variação de 1,9 ponto, próxima ao limite da margem de erro da pesquisa, é vista em Minas Gerais — que, além de ser o segundo maior colégio eleitoral do país, tem a característica de espelhar o resultado nacional. Lula recebeu 50,2% dos votos válidos há quatro anos, e a simulação de agora o coloca com 52,1%.
Indefinição mineira
Contribui para a incerteza em Minas, no entanto, o grau de indefinição do jogo local, ainda com candidaturas pendentes. Flávio Bolsonaro esperava ter o senador Cleitinho (Republicanos) ao seu lado na disputa pelo governo, mas a sigla dele indicou na quarta-feira que não levará o plano adiante. Enquanto o líder absoluto das pesquisas caminha para não encarar a eleição, o PL busca agora uma nova solução (leia mais na página 9).
No Rio, berço do bolsonarismo e terceiro maior colégio, Lula ensaia a recuperação mais significativa. O PT conta com as crises do PL no estado, a força do palanque do ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), que lidera as pesquisas, e o fato de o governo estar hoje nas mãos do desembargador Ricardo Couto, o que fez a máquina sair das mãos do partido de Flávio.
O presidente teria, conforme o levantamento, 4,4 pontos percentuais a mais nos votos válidos dos fluminenses na comparação com 2022 — aumento acima da margem de erro, que é de três. Isso significaria, em tese, uma derrota por 4,2 pontos para Flávio, bem mais tranquila que a por 13 pontos amargada para Jair em 2022, com quase 1,3 milhão de votos de diferença.
Entre 2002 e 2014, o PT venceu as eleições presidenciais no Rio no segundo turno. Com a ascensão do bolsonarismo, contudo, o estado deu votações expressivas à direita nas últimas duas disputas.
— Onde Lula mais pode crescer, e está crescendo, é no Rio. Crescendo pelo centro. O palanque é amplo — afirma o coordenador da campanha do presidente no estado, Washington Quaquá (PT), prefeito de Maricá. — Espero que o Rio ajude o presidente a resolver a eleição no primeiro turno.
Para essas projeções, é preciso levar em conta a margem de erro das sondagens, que faz com que a maioria das flutuações seja apenas uma tendência. Além disso, embora a análise mais fidedigna fosse alicerçada na comparação com pesquisas do mesmo instituto na véspera da eleição de 2022, a Genial/Quaest não fez levantamentos em todos esses estados naquele momento. Especialistas explicam que, neste cenário, o resultado eleitoral pode servir como parâmetro.
— Lula é quem mais perde intenções de voto para a abstenção e até para os que votam nulo — exemplifica o cientista político Antonio Lavareda, fundador do Ipespe, ao avaliar o paralelo entre pesquisa e placar eleitoral. — Mas, com esse esclarecimento, o levantamento é válido para entender a conjuntura.
Reeleições em risco
Dos quatro estados com maior volume de votos, o único com mudança negativa para Lula é a Bahia, principal reduto do partido entre os maiores colégios. A oscilação, contudo, é pequena, de apenas 1,2 ponto para baixo, e está dentro da margem de erro, que no estado é de três pontos. A vantagem ainda é superlativa: 70,9% dos votos válidos para o presidente, na projeção de hoje.
Mas o PT enfrenta um desafio extra entre a maior população do Nordeste. Atual detentor do governo estadual, com Jerônimo Rodrigues, que almeja a reeleição, o partido tem pela frente um adversário forte: o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União). Diante do eleitorado local expressivo e de uma corrida presidencial apertada, qualquer perda percentual pode ser decisiva para Lula.
Também no Nordeste, em Pernambuco, o petista aparece em posição mais confortável do que no segundo turno de 2022, que já foi positivo. Com crescimento de 3,8 pontos, tende a se beneficiar ainda da ausência de uma oposição robusta. Dos dois candidatos ao governo que dominam a eleição estadual, a governadora Raquel Lyra (PSD) é uma aliada pragmática do presidente, enquanto o ex-prefeito recifense João Campos (PSB) ostenta aliança formal com Lula e pretende explorar a relação para engrenar até o dia do pleito.
Os outros dois locais que já registraram pesquisas Genial/Quaest esta semana, Paraná e Pará, apresentam oscilações dentro da margem de erro. No estado do Sul, onde Lula vai mal, a variação negativa foi de 1,7 ponto. No do Norte, no qual venceu em 2022, o movimento foi ainda mais tímido, com 0,5 para baixo.
Hoje, o instituto divulgará os levantamentos feitos no Ceará e no Rio Grande do Sul. Há expectativa em torno do caso cearense. O estado é governado pelo petista Elmano de Freitas, que tenta a reeleição enquanto vê o ex-governador Ciro Gomes (PSDB) ameaçar a hegemonia do partido — e, talvez, prejudicar a votação de Lula.
A fé que move as políticas públicas
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Uma reportagem publicada recentemente pelo Estadão informa que o setor de construção ficou frustrado com os resultados do Programa Reforma Casa Brasil. Anunciada pelo governo Lula em outubro do ano passado, a iniciativa conta com um orçamento de R$ 40 bilhões, mas apenas R$ 1,3 bilhão havia sido contratado até maio. Um governo responsável teria examinado as razões por trás do fracasso do programa antes de ajustar seus critérios e, no limite, poderia até mesmo suspendê-lo para análise e eventual reformulação.
Mas o governo Lula, guiado pelas pesquisas e de olho exclusivamente nas eleições, prontamente ampliou o prazo dos financiamentos de 60 para 72 meses, elevou o limite de renda familiar para enquadramento de R$ 9,6 mil para R$ 13 mil e reduziu a taxa de juros de 1,17% para 0,99% ao mês. O montante contratado até subiu para R$ 2,7 bilhões até o dia 16 de julho, mas o fato é que apenas 6,7% do orçamento do programa foi executado até agora. Decepcionada, a indústria de materiais de construção reduziu sua projeção de crescimento neste ano de 1,9% para 0,5%.
O curto histórico descrito nesta nota evidencia o padrão pernicioso que orienta as políticas públicas no País há décadas. Em muitos casos, em vez de identificar um problema, avaliar suas causas, traçar metas e propor medidas que conduzam aos resultados almejados, a solução mágica já está pronta, à espera de um suposto problema a ser resolvido.
Para justificar o Reforma Casa Brasil, por exemplo, o governo mencionou a necessidade de reduzir o déficit habitacional brasileiro, elevar o estoque de unidades qualificadas e prover fontes de financiamento imobiliário às classes baixa e média. São, de fato, problemas conhecidos da economia brasileira.
Resolvê-los, no entanto, requer mais que intenção. E a julgar pelos resultados, o Reforma Casa Brasil era mais uma demanda da indústria de materiais de construção do que de famílias propensas a executar obras em seus lares – ao menos neste momento, em que o nível de endividamento e a inadimplência voltaram a registrar recorde.
Com o orçamento apertado e a renda consumida por outras dívidas, compreende-se que a disposição das famílias para fazer obras seja baixa. O setor de materiais de construção explicou que as reformas têm sido feitas aos poucos, de forma que haja tempo para recuperar o fôlego financeiro até assumir um novo compromisso.
Mas nem mesmo a realidade é capaz de abalar a crença do governo no programa. A despeito de os números dizerem o oposto, o Ministério das Cidades afirma que “o programa tem alcançado efeitos desejáveis até o momento”.
Como um disco riscado, o governo Lula recorre incessantemente a medidas já testadas e reprovadas no passado. Rever gastos públicos, aprovar reformas estruturais e reequilibrar as contas públicas de forma a conter a trajetória da dívida pública permitiria criar condições para que o País tivesse juros mais baixos.
Assim, não apenas os interessados em reformar suas casas poderiam assumir empréstimos com taxas mais civilizadas e prazos de pagamento mais longos, mas toda a sociedade e para qualquer objetivo.

