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Inteligência artificial e pirata

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

Ainda não se sabe qual será a dimensão do impacto da inteligência artificial (IA) sobre a sociedade, mas já é certo que essa tecnologia será cada vez mais utilizada em diversos setores. Também é certo que seus sistemas precisam ser treinados com gigantescas bases de dados e que a qualidade desses dados tem efeito significativo sobre a performance das ferramentas.

Nesse contexto, produtos jornalísticos, sobre os quais há controle de qualidade, tornam-se insumo importante para desenvolvedores de IA, sobretudo quando lidam com modelos de linguagem capazes de responder a questões da atualidade.

O problema é que, em vez de pagarem pelo direito de utilizar esses textos, como qualquer fabricante honesto faz quando compra matérias-primas, vários optam por piratear sites e arquivos de veículos de imprensa.

A prática é disseminada e inclui desde desenvolvedores de fundo de quintal, cujas ferramentas não tão inteligentes se limitam a reproduzir trechos inteiros de reportagens e colunas, até gigantes do setor, como a Open AI, que criou o popular ChatGPT.

Há casos de robôs que são ensinados a driblar as barreiras tecnológicas instaladas por sites jornalísticos para tentar impedir a entrada desses autômatos, algo análogo ao furto qualificado.

As regras de direitos autorais já vedam esse tipo de uso de dados, mas seria importante criar uma legislação mais específica, que coíba o treinamento de ferramentas com dados adquiridos sem autorização expressa.

Há projetos com esse teor em tramitação, no Brasil e em outras países, e julgamentos que deverão estabelecer paradigmas globais. Um deles envolve o The New York Times, que processou a Open AI e sua sócia, a Microsoft.

O prejuízo para a imprensa é duplo. Além de não ser devidamente remunerada pelo seu trabalho, também perde tráfego —e, portanto, faturamento— com a concorrência desleal colocada pelos resumos gerados por IA.

Tais resumos hoje aparecem no alto da maioria dos mecanismos de busca da internet. Muitos usuários se satisfazem com eles e deixam de acessar os sites que originaram o conteúdo.

Os desenvolvedores que acreditam que suas ferramentas se firmarão no mercado deveriam ser os mais interessados em criar um ambiente sustentável em que a imprensa siga existindo e produzindo o material que lhes servirá como fonte de alto valor agregado —dada a maior confiabilidade dos textos jornalísticos, em comparação com opiniões despejadas em redes sociais.

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Falta de esgotamento sanitário coloca 3 cidades do CE entre as 40 piores em ranking de saneamento

Escrito por
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 / DIARIONORDESTE

 

A garantia do direito ao saneamento básico – acesso à água, coleta de lixo e rede de esgoto – ainda é um desafio para as três maiores cidades do Ceará. FortalezaCaucaia e Juazeiro do Norte se posicionam entre as 40 menores notas no Ranking do Saneamento 2025, divulgado pelo Instituto Trata Brasil nesta terça-feira (15). 

O estudo considera os indicadores mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (Sinisa), publicado pelo Ministério das Cidades em 2023, e avalia os 100 municípios mais populosos do Brasil, dando a eles uma nota de 0 a 10. Entre eles, estão os três cearenses:

  • Fortaleza: 62ª posição, com nota total de 7,19;
  • Caucaia: 79ª posição, com nota total de 5,51;
  • Juazeiro do Norte: 85ª posição, com nota total de 4,43.

Para os resultados, o ranking analisa a cobertura de distribuição de água e de acesso à rede de esgoto nas populações urbana e rural dos municípios. Nas três cearenses, os indicadores de acesso à água avançaram, em relação ao ano anterior, mas a ausência de ligação das residências à rede de coleta de esgoto ainda representa um gargalo significativo.

Na quarta cidade mais populosa do Brasil, a cobertura de rede de esgoto saltou de 49,9% em 2019 para 66,5% em 2023. Fortaleza fez o 3º maior investimento do Brasil em saneamento, entre 2019 e 2023, com R$ 1,8 bilhão, atrás apenas de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em Caucaia, na Região Metropolitana, o cenário piora: apenas 42% da população tem a casa conectada à rede de esgoto. Considerando apenas a zona urbana do município, a cobertura é de 47%, de acordo com os dados do ranking. Em resumo, mais da metade (58%) dos caucaienses não têm acesso ao esgotamento sanitário.

A situação mais alarmante, porém, é de Juazeiro do Norte, na Região do Cariri. A cidade é a 10ª pior do Brasil em número de população com rede coletora de esgoto. Em 2023, apenas 27% dos moradores tinham acesso ao sistema de esgoto, número que sobe ligeiramente (28,53%) se recortada apenas a área urbana.

No Ceará, a rede de esgotamento é manejada por uma parceria público-privada entre a Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece) e a Ambiental Ceará. Para Fábio Arruda, diretor executivo da Ambiental, o saneamento “ficou para trás” no Brasil, com 50% de coleta e tratamento de esgoto, e esse cenário é replicado em todos os estados.

Ele destaca que, nas 24 cidades cearenses onde a Ambiental atua, cerca de 180 mil imóveis têm acesso à rede coletora de esgoto, mas não estão conectados. “O pessoal possui a infraestrutura, mas de alguma forma está causando degradação ambiental, seja com fossa séptica, seja com lançamento in natura nos nossos rios e córregos”, afirma.

 

Entre os municípios que contam com a atuação da Ambiental Ceará, Fábio Arruda destaca que o caririense é a que conta com o maior efetivo de obras da empresa. “Temos quase 40 frentes de obra lá. Em 2023, era 37% de cobertura. Em 2025, fechamos com 46% de cobertura, são mais de 100 km de rede executada, 56 mil moradores beneficiados”, afirma.

De acordo com o diretor executivo, a Ambiental Ceará realiza o “trabalho de formiguinha” de ir a cada uma dessas residências para explicar a importância da conexão à rede de esgoto e como ela deve ser feita, apontando os custos e a economia para o morador.

“Quando as pessoas fazem a conta do quanto gastam para chamar o caminhão auto-fossa, veem que é muito mais viável se conectar ao esgoto, ao longo do tempo, porque a fossa tem tempo de vida útil”, avalia Arruda.

Em média, o valor para realizar a ligação é de R$ 300 a R$ 350, quando a fossa ou o sistema de esgoto existente já estão direcionados para a rua, mas esse valor pode ser de R$ 800 a R$ 900 em alguns casos. Porém, Arruda destaca a realização dessa obra intradomiciliar de forma gratuita para quem está cadastrado como tarifa social na Cagece.

 

Marco Legal do Saneamento

A parceria público-privada entre a Cagece e a Ambiental Ceará, segundo Arruda, busca “tirar esse déficit todo no saneamento”, obedecendo às regras do Marco Legal do Saneamento. Instituída em 2007 pela Lei nº 11.445 e atualizada em 2020 Lei n.º 14.026, a norma tem a meta de chegar ao final de 2033 com 99% da população brasileira com acesso à água tratada e 90% à coleta e tratamento do esgoto.

No Ceará, o objetivo é que até 2030 a cobertura de esgoto seja de 95%, com investimento de R$ 6,2 bilhões para a universalização, segundo Arruda. Em Fortaleza, ele explica que a cobertura era de 66% em 2023, aumentará para 75% até o final de 2025 e chegará a 90% nos próximos anos.

“Isso impacta diretamente na saúde da população, [para] as crianças não estarem doentes nem faltarem à escola. E tem o benefício ambiental, porque estamos preservando nossos mananciais”, avalia.

Metade da água é perdida

Outro indicador que compromete o sistema de saneamento das cidades cearenses é o acesso à água. Em Fortaleza e Juazeiro do Norte, mais de 90% dos moradores têm abastecimento garantido, conforme os dados do estudo. Na Capital, o atendimento total de água é de 98,1%; no município caririense, 90,1%, subindo para 92% em zona urbana.

Caucaia, por outro lado, protagoniza um dado negativo: a cidade é a 8ª pior do Brasil em população com abastecimento de água, com apenas 76,2% de cobertura. Isso significa que em cada quatro moradores, um não tem o recurso na torneira.

O ranking elaborado pelo Instituto Trata Brasil também avalia o nível de eficiência, que conta com três indicadores, entre eles o de Perdas na Distribuição, que busca estabelecer uma relação entre a água produzida e a que efetivamente é consumida nas residências.

O patamar ideal de perdas de um município é 25%, conforme definido pela Portaria 490/2021. Dessa forma, caso a perda de água seja de 25% ou menos, a cidade tem indicador considerado bom e recebe nota 10 para o cálculo no Ranking Saneamento 2025. Caso o índice de perda seja superior a esse patamar, a nota é calculada proporcionalmente à distância em relação ao ideal.

Em Caucaia, o indicador foi de 20,27% e foi uma das 20 cidades com nota 10 nesse quesito do ranking. Fortaleza e Juazeiro do Norte, por sua vez, tiveram índices de 47,96% e 48,64%, respectivamente — os maiores desde 2019. Com isso, quase metade da água é perdida e as cidades tiveram notas de 5,21 e 5,14.

Um dos aspectos que explicam esses resultados são as obras em setores hidráulicos, segundo a gerente de Combate às Perdas da Cagece, Isabel Lima Freitas. “Quando você faz obras dentro do sistema, acaba perdendo muita água. Temos uma redução na performance para, depois das obras concluídas, começar a reduzir as perdas e melhorar a performance do sistema”, afirma.

Além disso, ela aponta que Fortaleza e Juazeiro do Norte, duas cidades grandes e com fortes problemáticas sociais — com áreas de risco e construções irregulares — sofrem com fraudes e ligações clandestinas, que têm aumentado ano após ano.

Desde o fim de 2024, as pesquisas de irregularidade foram intensificadas e a expectativa é que já exista uma melhoria dessas perdas neste ano. “É um desafio, para a Companhia, enfrentar essas perdas. Temos alguns contratos com a PPP do esgoto [com a Ambiental Ceará] para intensificação da regularização das fraudes”, afirma.

Outro indicador utilizado pelo Instituto Trata Brasil para avaliar o nível de eficiência é o Indicador de Perdas por Ligação. “É o que a gente de fato ataca”, afirma Freitas, explicando que ele é observado para priorizar ações, uma vez que possibilita a comparação entre municípios de diferentes tamanhos.

As cidades cearenses tiveram os seguintes indicadores litros de água perdidos diariamente por ligação:

  • Fortaleza: 410,98 L/lig/dia
  • Juazeiro do Norte: 314,88 L/lig/dia
  • Caucaia: 305,26 L/lig/dia

“Se um tem 200 mil ligações e outro, 10 mil ligações, [e os dois] têm essa perda diária de 411 litros, são problemas similares. Nesse caso, o volume perdido é rateado entre a quantidade de ligações”, afirma. De acordo com ela, as obras realizadas pela Cagece têm objetivo de reduzir 20% do volume perdido, o que representaria uma redução de 20% das perdas por ligação.

Na Capital, Isabel Lima Freitas explica que existe um centro de monitoramento do volume diariamente, com informações sobre o volume que sai das Estações de Tratamento de Água (ETAs) e o que está chegando em cada setor. Nas áreas com distritos de medição e controle, é feito o controle ativo das pressões. “Quanto menor a pressão na rede, menor é a perda real”, pontua.

“Dentro do nosso balanço, 15% são perdas aparentes, [a água] chegou no cliente final, mas não contabilizamos. O restante da perda é real, física, por vazamentos na rede de distribuição. Precisamos fazer um combate mais ativo nas infraestruturas, por isso as obras de substituição de redes, adutoras e ramais”, explica a gerente da Cagece.

 CAUCAIA Ecobarreira

FORTALEZA DAVI ROCHA VISITA DOMICILIOS SEM LIGACAO ESGOTO

 

Na briga de Eduardo e Tarcísio quem pode se dar bem é Michelle Bolsonaro

Por Roseann Kennedy / O ESTADÃO DE SP

 

 

Enquanto o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) briga com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) pela fidelização dos votos bolsonaristas, estrategistas do PL fazem contas pragmáticas sobre quem pode levar vantagem rumo a 2026. E, nas últimas 24 horas, a principal avaliação foi de que a “intriga” pode beneficiar outra pessoa desse segmento político: a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).

 

A avaliação é objetiva, considerando o cenário atual. Eduardo está nos Estados Unidos e já falou que não volta enquanto entender que há risco de ser preso. Seu pai, Jair Bolsonaro, está prestes a ser condenado e posto em regime fechado. Para Tarcísio, não faz nenhum sentido abrir mão de uma reeleição estadual considerada certa para aventurar-se enfraquecido numa corrida ao Planalto. Resultado é que esse eleitorado pode cair no colo de Michelle.

 

Pesquisas recentes apontam avanço da ex-primeira-dama nas intenções de voto para a próxima eleição presidencial. Levantamento da AtlasIntel/Bloomberg divulgado no último dia 8 mostrou Michelle empatada com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em eventual segundo turno entre os dois - o petista teria 48% contra 47,5% da presidente do PL Mulher.

 

Michelle tem evitado falar sobre planos eleitorais e nem sequer confirma se tem essa pretensão. Sua assessoria reforça, sempre que indagada, que o foco de sua atuação no momento é a presidência do PL Mulher. Também ressalta que o candidato dela à Presidência em 2026 é seu marido.

 

“Qualquer decisão futura será tomada no tempo certo e será conjunta com Bolsonaro”, afirmou à assessoria de Michelle em recente nota à Coluna, quando perguntada sobre movimento de ala feminina do partido que torce pelo protagonismo da ex-primeira-dama em 2026.

 

 

A pífia reforma administrativa

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), colocou a crise do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de lado para defender a reforma administrativa. O deputado disse que o grupo de trabalho coordenado por Pedro Paulo (PSD-RJ) deve apresentar uma proposta em breve, e que sua intenção é submetê-la ao plenário até o fim deste ano, demonstração do compromisso da Casa com a “agenda da eficiência e da sustentabilidade fiscal do Estado brasileiro”.

 

A julgar pela hostilidade que tem marcado as relações entre os Três Poderes, o cronograma de Motta parece deveras otimista. Por menor que seja a base de apoio do governo Lula no Congresso, é improvável que um tema tão polêmico possa ser aprovado sem o apoio do Executivo e a menos de um ano e meio das eleições. E nada indica que o Legislativo esteja disposto a enfrentar assuntos como os supersalários e a estabilidade, verdadeiras vacas sagradas do setor público.

 

Pesquisa divulgada pela Quaest há alguns dias informa que mais da metade dos deputados federais são contrários ao projeto que limita a remuneração dos funcionários públicos ao teto remuneratório de R$ 46.366,19. Dos 203 parlamentares consultados, 53% rejeitam a proposta, 32% apoiam e 15% não sabem ou não responderam.

 

O rechaço ao tema dos supersalários é majoritário: une grupos de deputados que se identificam como governistas, oposicionistas e independentes, e supera até mesmo a resistência do Congresso à elevação do Imposto de Renda para os mais ricos e à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública.

 

Ao Estadão, o deputado Pedro Paulo explicou que a proposta sob sua coordenação deve abordar metas de resultados atreladas a bônus e uma flexibilização das normas que permita a contratação de temporários. Ele admitiu, porém, que não pretende tratar da questão da estabilidade e reconheceu que o tema dos supersalários é um dos maiores desafios políticos do projeto.

 

Há, por óbvio, carreiras que precisam ser protegidas de eventual perseguição política quando muda o governo que nomeou os servidores. Mas o fato é que nada menos que 70% dos servidores do governo federal não podem ser demitidos, o que é uma evidente distorção do princípio da estabilidade. Na Suécia, por exemplo, menos de 1% dos funcionários públicos detêm esse privilégio, segundo o Centro de Liderança Pública (CLP), e até mesmo na França, conhecida por sua vasta máquina pública, a estabilidade tem alcance menor e regras mais flexíveis do que no Brasil.

 

Já os supersalários chocam a sociedade com escândalos revelados com frequência praticamente semanal. Membros do Judiciário e do Ministério Público se beneficiam das boladas pagas ao fim de cada ano, conhecidas como a “dezembrada”. Bônus pagos a título de eficiência e produtividade, mas que também chegam a aposentados e pensionistas, são meros pretextos para elevar a remuneração da elite do serviço público. Verbas indenizatórias livres do recolhimento de Imposto de Renda só servem para favorecer servidores.

 

Uma proposta de reforma administrativa que abdique de debater esses temas já começa muito enfraquecida. Se a Proposta de Emenda à Constituição sobre o tema enviada pelo governo Jair Bolsonaro já foi completamente desfigurada pela Câmara, a ponto de o texto final ter ampliado, e não diminuído, o número de carreiras típicas de Estado, o que esperar de um texto que nem sequer pretende tratar do assunto?

 

Algo semelhante ocorreu com o projeto dos supersalários. Em vez de limitar os penduricalhos, como propunha o texto da Comissão Especial do Extrateto em 2016, os deputados, quando analisaram a matéria, em 2021, aceitaram nada menos que 32 exceções que poderiam ser pagas fora do teto remuneratório, entre elas auxílio-moradia, horas extras e os célebres pagamentos retroativos do Judiciário e do Ministério Público.

 

O lobby dos servidores públicos contra qualquer mudança em seu regime de trabalho é forte, e do governo Lula da Silva, que entrou de cabeça na campanha de 2026 e trata os servidores como base eleitoral, não se deve esperar nada. Um Legislativo que almeje deixar um legado para a sociedade precisa ter um pouco mais de ambição.

Tarifaço de Trump traz prejuízo a toda a economia

Por  Editorial / O GLOBO

 

É difícil estimar o prejuízo para a economia brasileira do tarifaço de Donald Trump. O Brasil não é o único alvo da política comercial insana de Trump. Depois da primeira rodada de aumento em abril, ele reavivou a guerra tarifária enviando cartas ameaçando novas altas a países da Ásia, África, Europa e Américas. É impossível saber de antemão a tarifa final que cada país pagará ou a capacidade americana de dar conta da demanda interna. Ainda que não se confirme o aumento anunciado de 50% no caso do Brasil, uma coisa é certa: empresas e setores que dependem das exportações para os Estados Unidos têm mais a perder.

 

O setor industrial brasileiro é um dos mais vulneráveis. Os Estados Unidos são um dos principais mercados para produtos brasileiros de maior valor agregado. Como mostrou reportagem do GLOBO, as exportações de manufaturados bateram recorde no primeiro semestre e chegaram a US$ 16 bilhões, aumento de quase 9% na comparação com os primeiros seis meses do ano passado. Entre as empresas com forte presença no mercado americano estão Embraer (aviões), Weg (equipamentos elétricos), Suzano (papel e celulose), Tupy (metalurgia) e Alpargatas (calçados). No setor de commodities, os mais afetados são as indústrias petrolífera, metalúrgica e siderúrgica.

 

No agronegócio, um dos pontos de preocupação é o café. Os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileiras. Com mais de 30% do mercado local, o Brasil é o maior fornecedor dos americanos. Com o tarifaço, os produtores nacionais perdem competitividade ante concorrentes das Américas e da Ásia. Nas vendas externas de suco de laranja, os Estados Unidos têm peso ainda maior: 42%.

 

Caso a tarifa de 50% passe a valer em três semanas, os exportadores brasileiros terão de analisar o saldo final para seus concorrentes e avaliar se há chance de continuar competitivos. Uma saída é procurar mercados alternativos, tarefa nem sempre fácil ou rápida. Antecipando o pior, frigoríficos dizem já ter suspendido a produção de cortes de carnes para o mercado americano e estudam realocar vendas para China, Sudeste Asiático e Oriente Médio. Produtores de pescados avaliam acelerar as entregas aos Estados Unidos até o fim do mês.

 

No pior cenário, a inflação será afetada de dois modos. Primeiro, a queda nas exportações para os Estados Unidos diminui a entrada de divisas no Brasil, aumentando o valor do dólar e encarecendo todos os importados. Segundo, a pressão será ainda maior se o Brasil levar adiante a proposta de retaliar as exportações americanas também em 50%, por isso essa ideia é desaconselhável. A perspectiva inflacionária provavelmente levará o Banco Central a antecipar uma eventual alta de juros, encarecendo o crédito e freando o crescimento da economia.

 

As empresas americanas que garantem o superávit comercial dos Estados Unidos com o Brasil há mais de 15 anos também estão preocupadas com a nova frente da guerra comercial. A possibilidade de retaliação do governo brasileiro afeta negativamente setores como motores e máquinas, óleos combustíveis, aeronaves e petróleo. O tarifaço de Trump, sob o pretexto absurdo de livrar Jair Bolsonaro da Justiça, é um jogo de perde-perde. Empresas e consumidores tanto dos Estados Unidos como do Brasil pagarão a conta. É indigno o apoio a essa medida por parte de Bolsonaro, familiares e aliados.

 

 

Café: os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileirasCafé: os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileiras — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

O patriotismo e a canalhice

Por  Merval Pereira / O GLOBO

 

É temerário afirmar em política que fulano está perdido ou que beltrano não tem mais chance de recuperar a popularidade. Faltando pouco mais de um ano para as eleições presidenciais, é difícil prever quem vencerá, ou até quais serão as alianças políticas. Mas o momento político não é nada bom para fulano e ajuda beltrano a se recuperar. No caso, fulano pode ser o ex-presidente Bolsonaro ou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Beltrano é, sem dúvida, Lula, que até há pouco tempo estava no desvio e hoje voltou à trilha principal.

 

Erros políticos crassos como os cometidos por Bolsonaro e seus filhos são previsíveis, mas reforçam a ideia de que são arrivistas políticos e se meteram em enrascada na tentativa de escalar alturas não compatíveis com seus talentos. Unir-se a Trump é uma jogada abusada, que foi além de suas capacidades. Intuir que a intervenção dele seria capaz de dobrar a espinha institucional brasileira, um erro crucial.

 

Não se trata de patriotada afirmar que a soberania nacional foi afrontada, mesmo que não se concorde com a política externa de viés esquerdista do governo brasileiro. A de viés direitista de Bolsonaro também merecia críticas contundentes, pois nos transformou em párias por vontade própria. Nada, porém, justifica uma intervenção de Trump: chantagem barata na forma e cara nas consequências.

 

Não falar em soberania num caso como esse seria alienação indesculpável. Como já disse Samuel Johnson, pensador inglês do século XVIII, “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas”. Johnson se referia aos canalhas que se valem do sentimento nobre do patriotismo para tirar proveito político. Foi assim com Bolsonaro, que se enrolou na camisa amarela da seleção brasileira para vender seu pretenso patriotismo. Agora, os petistas são acusados de se aproveitar do patriotismo para revigorar a popularidade de Lula, que estava em baixa. Pode ser que o uso político como mote de campanha seja um tiro no pé do próprio Lula, dependendo do abuso do sentimento.

 

Mas a decisão de Trump de ligar as sanções econômicas ao bolsonarismo, aceita no primeiro momento como grande trunfo pelos bolsonaristas, acabou se revelando um tiro pela culatra. A não ser o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro, que vive numa realidade paralela nos Estados Unidos, ninguém pode dizer que deu certo. Não há possibilidade de achar que ajudou Bolsonaro de alguma maneira; pelo contrário, ajudou Lula e os adversários do bolsonarismo.

 

O erro de avaliação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, foi brutal. Ele terá de fazer muita força para recuperar a condição de candidato viável à Presidência no ano que vem. A reação dele foi absurda, pois prejudicou sua condição de se candidatar à Presidência e até a governador de São Paulo, pois o principal atingido pelas sanções é o estado que governa. A avaliação distorcida dos Bolsonaros de que Trump poderia interferir no julgamento do Supremo Tribunal Federal (STF) foi um erro crasso, primário, de avaliação política.

 

Até o projeto de anistia que está no Congresso morreu. Seria um ato de submissão vergonhoso a uma intervenção estrangeira. Trump usa sanções financeiras com objetivos políticos, seja como reação à existência do Brics, aproveitando-se do pretexto do julgamento de Bolsonaro, seja na pressão contra a Rússia para pôr fim à guerra com a Ucrânia. Mesmo que o objetivo final seja elogiável, como no caso da guerra, o uso e abuso da força econômica dos Estados Unidos transforma-se em instrumento de desequilíbrio internacional perigoso para todos.

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