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Tarifaço de Trump traz prejuízo a toda a economia

Por  Editorial / O GLOBO

 

É difícil estimar o prejuízo para a economia brasileira do tarifaço de Donald Trump. O Brasil não é o único alvo da política comercial insana de Trump. Depois da primeira rodada de aumento em abril, ele reavivou a guerra tarifária enviando cartas ameaçando novas altas a países da Ásia, África, Europa e Américas. É impossível saber de antemão a tarifa final que cada país pagará ou a capacidade americana de dar conta da demanda interna. Ainda que não se confirme o aumento anunciado de 50% no caso do Brasil, uma coisa é certa: empresas e setores que dependem das exportações para os Estados Unidos têm mais a perder.

 

O setor industrial brasileiro é um dos mais vulneráveis. Os Estados Unidos são um dos principais mercados para produtos brasileiros de maior valor agregado. Como mostrou reportagem do GLOBO, as exportações de manufaturados bateram recorde no primeiro semestre e chegaram a US$ 16 bilhões, aumento de quase 9% na comparação com os primeiros seis meses do ano passado. Entre as empresas com forte presença no mercado americano estão Embraer (aviões), Weg (equipamentos elétricos), Suzano (papel e celulose), Tupy (metalurgia) e Alpargatas (calçados). No setor de commodities, os mais afetados são as indústrias petrolífera, metalúrgica e siderúrgica.

 

No agronegócio, um dos pontos de preocupação é o café. Os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileiras. Com mais de 30% do mercado local, o Brasil é o maior fornecedor dos americanos. Com o tarifaço, os produtores nacionais perdem competitividade ante concorrentes das Américas e da Ásia. Nas vendas externas de suco de laranja, os Estados Unidos têm peso ainda maior: 42%.

 

Caso a tarifa de 50% passe a valer em três semanas, os exportadores brasileiros terão de analisar o saldo final para seus concorrentes e avaliar se há chance de continuar competitivos. Uma saída é procurar mercados alternativos, tarefa nem sempre fácil ou rápida. Antecipando o pior, frigoríficos dizem já ter suspendido a produção de cortes de carnes para o mercado americano e estudam realocar vendas para China, Sudeste Asiático e Oriente Médio. Produtores de pescados avaliam acelerar as entregas aos Estados Unidos até o fim do mês.

 

No pior cenário, a inflação será afetada de dois modos. Primeiro, a queda nas exportações para os Estados Unidos diminui a entrada de divisas no Brasil, aumentando o valor do dólar e encarecendo todos os importados. Segundo, a pressão será ainda maior se o Brasil levar adiante a proposta de retaliar as exportações americanas também em 50%, por isso essa ideia é desaconselhável. A perspectiva inflacionária provavelmente levará o Banco Central a antecipar uma eventual alta de juros, encarecendo o crédito e freando o crescimento da economia.

 

As empresas americanas que garantem o superávit comercial dos Estados Unidos com o Brasil há mais de 15 anos também estão preocupadas com a nova frente da guerra comercial. A possibilidade de retaliação do governo brasileiro afeta negativamente setores como motores e máquinas, óleos combustíveis, aeronaves e petróleo. O tarifaço de Trump, sob o pretexto absurdo de livrar Jair Bolsonaro da Justiça, é um jogo de perde-perde. Empresas e consumidores tanto dos Estados Unidos como do Brasil pagarão a conta. É indigno o apoio a essa medida por parte de Bolsonaro, familiares e aliados.

 

 

Café: os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileirasCafé: os Estados Unidos são destino de 16% das exportações brasileiras — Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo

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