Busque abaixo o que você precisa!

Estouro da inflação expõe política econômica inconsistente

EDITORIAL DA FOLHA DE SP

Descumprimentos dos limites máximos fixados para a inflação não são novidade no país. Somente nos últimos quatro anos, quando se estabeleceram metas mais ambiciosas, o teto foi rompido em três deles.

Neste 2025 teve início um novo sistema de apuração das metas, pelo qual o estouro se caracteriza quando o IPCA acumulado em 12 meses fica acima do permitido por seis meses consecutivos —e, como se divulgou nesta quinta-feira (10), foi o que ocorreu já em junho, quando o índice acumulou 5,35%, ante um teto de 4,5% (meta de 3% mais margem de 1,5 ponto percentual).

Os resultados deveriam ser suficientes para derrubar discursos politiqueiros e teorias conspiratórias que atribuem os juros elevados no Brasil a algum conluio entre magnatas e o Banco Central. Se as taxas fossem desnecessariamente altas, o IPCA, por óbvio, estaria bem abaixo da meta.

Ao contrário, o BC mostrou flexibilidade para diluir ao longo do tempo a dosagem da política monetária, sem derrubar a atividade econômica na tentativa de cumprir as metas a ferro e fogo.

A questão relevante nesse caso é bem diversa: por que uma taxa Selic que, entre idas e vindas, subiu de 2% ao ano, no início de 2021, para os atuais 15%, maior patamar em quase duas décadas, ainda não foi capaz de trazer de volta a inflação a limites que são usuais em países emergentes?

Uma parte da resposta foi ensaiada pelo presidente do BC, Gabriel Galípolo, em depoimento na quarta (9) à Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Ele levantou a hipótese de que no Brasil a política monetária possa não funcionar com a mesma "fluidez" observada em outros países devido, por exemplo, a subsídios que permitem a tomada de crédito a taxas abaixo da Selic.

A tese não é nova —novidade é vê-la esboçada por um indicado pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Já se apontou antes que a ampla oferta de financiamentos favorecidos no país, em especial nos bancos públicos, reduz a eficácia dos juros do BC, que só afetam as operações com taxas definidas pelo mercado.

Mais claro, no entanto, é que o estouro da inflação reflete uma política econômica inconsistente —na qual seus dois principais eixos, o monetário e o fiscal, apontam para direções opostas.

Enquanto o BC busca inibir o consumo e os investimentos para esfriar a economia e tirar fôlego da alta de preços, a administração petista estimula a atividade com mais gasto público e novas modalidades de crédito. Numa analogia didática, infelizmente já gasta pelo uso necessário no país, é como pisar no freio e no acelerador ao mesmo tempo.

Como também já deveria estar claro, a troca de comando no BC em nada alterou o diagnóstico do cenário e o rumo dos juros, ainda que Lula e correligionários continuem alegremente a culpar a gestão anterior. Enquanto isso, as taxas impulsionam a dívida pública e o Orçamento federal se aproxima do estrangulamento.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Por que todos estão falando sobre a COP30? Veja o que você precisa saber sobre a conferência

Escrito por Bergson Araujo Costa / diarionordeste
 
 

Em novembro, o estado do Pará será palco da 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, também conhecida como Conferência das Partes (COP). A COP30 reunirá lideranças mundiais e autoridades em meio ambiente para debater o futuro do planeta. 

 

Governo Federal espera um fluxo de mais de 40 mil visitantes durante os principais dias da conferência. Deste total, aproximadamente 7 mil compõem a chamada "família COP", formada pelas equipes da ONU e delegações de países membros.

 

"Agora nós vamos discutir a importância da Amazônia dentro da Amazônia. Nós vamos discutir a questão indígenas, vendo os indígenas. Nós vamos discutir a questão dos povos ribeirinhos, vendo os povos ribeirinhos e vendo como eles vivem", declarou o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O que é e quem criou a COP30?

A Conferência das Partes caracteriza-se como um encontro global anual em que líderes mundiais, cientistas, organizações não governamentais e representantes da sociedade civil discutem ações para combater as mudanças do clima. 

 

O evento é considerado um dos principais encontros ligados ao tema no mundo e surgiu em 1922, como parte da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), também conhecida como Cúpula da Terra, Rio-92 e Eco-92.

 

A UNFCCC criou a COP como órgão responsável por tomar as decisões necessárias para implementar os compromissos assumidos pelos países no combate à mudança do clima. O acordo entrou em vigor em 21 de março de 1994. O primeiro encontro foi realizado no ano posterior, em Berlim, na Alemanha.

 

A convenção daquele ano reuniu 179 chefes de Estado dos países-membros da ONU. Nela, além da Convenção de Mudanças Climáticas, foram discutidos outros acordos: Agenda 21, Carta da Terra, Acordo de Paris e Protocolo de Quioto.

 

Quem pode participar da COP30?

Formação de lideranças indígenas para a COP30
Legenda: Formação de lideranças indígenas para a COP30Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Amazônia Brasil/PR

Seguindo os encontros anteriores, a COP30 contará com a presença de chefes de Estado, ministros, diplomatas, representantes da ONU, cientistas, líderes empresariais, ONGs, ativistas e outros membros da sociedade civil de mais de 190 países.

 

Além disso, o Governo do Pará, em parceria com o Governo Federal, lançou o programa Voluntariado COP30, que selecionou cerca de 3.946 voluntários para atuarem durante o evento.

 

Quais são as propostas da COP30?

Segundo o Governo Federal, os principais pontos que serão debatidos neste ano são:

  • Redução de emissões de gases de efeito estufa;
  • Financiamento climático;
  • Tecnologias e energias renováveis;
  • Mudanças climáticas;
  • Preservação ambiental;
  • Impactos sociais das mudanças climáticas.

Redução de emissões de gases de efeito estufa

Nuvens de fumaça. Imagem usada em matéria explicativa e informativa sobre a COP30
Legenda: Em 2024, o Observatório do Clima propõe redução de 92% nas emissões até 2035Foto: Ralf Vetterle/Pixabay

efeito estufa é um fenômeno natural e benéfico para o planeta, conforme artigo da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), órgão pública brasileiro vinculado ao Ministério da Educação.

Alguns gases presentes na atmosfera retêm parte da radiação térmica emitida pela superfície terrestre depois de ter sido aquecida pelo sol, mantendo a temperatura do planeta em um nível adequado para o desenvolvimento da vida.

No entanto, a ação do homem aumentou a presença desses gases na atmosfera, em especial dióxido de carbono e metano, fazendo com que eles retenham mais calor e aumentem a temperatura do planeta. Esse processo é conhecido como aquecimento global.

Até 2035as nações devem “agir rapidamente” ou a meta de 1,5 °C do Acordo de Paris desaparecerá dentro de alguns anos, segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

O relatório do PNUMA, apresentado em outubro do ano passado e compartilhado pela ONU, indica ainda que os países devem se comprometer coletivamente a reduzir 42% das emissões anuais de gases de efeito estufa até 2030 e 57% até 2035.

 

Esse tipo de comprometimento é feito durante rodadas de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). As NDCs fazem parte do Acordo de Paris e da realização de seus objetivos de longo prazo. Os documentos com intenções para reduzir as emissões de gases de efeito estufa determinam diretrizes para a transformação do modelo de desenvolvimento do país. As NDCs representam ainda os esforços de cada país para se adaptar aos impactos das mudanças climáticas.

Onde estão os buracos do orçamento e como resolvê-lo? | Dois Pontos

Marcus Pestana e Mauro Benevides Filho participam do vodcast desta semana / O ESTADAÕ DE SP

 

O Brasil gasta R$ 5,7 trilhões todos os anos para sustentar o Orçamento da União. Mas, para onde vai tanto dinheiro?

 

Com um orçamento direcionado para pagar a dívida pública, a Previdência Social, os programas sociais, os gastos obrigatórios em saúde e educação e as famosas emendas parlamentares, sobra pouco para investimentos nacionais em infraestrutura e custeio dos serviços públicos do dia a dia.

 

A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado projeta que a dívida bruta do Brasil ultrapassará 100% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2035. Dados do próprio governo federal apontam que, se nada for feito, vai faltar dinheiro para despesas básicas em 2027.

 

O Dois Pontos convidou dois especialistas envolvidos diretamente na discussão e na elaboração do Orçamento da União para falar sobre o assunto. Marcus Pestana é economista, foi professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal de Juiz de Fora (MG), ocupou vários cargos políticos e hoje é diretor-executivo da IFI do Senado. Mauro Benevides Filho, também economista, é Ph.D. em Economia, professor licenciado da Universidade Federal do Ceará, deputado federal pelo PDT e vice-líder do governo na Câmara.

 

O episódio tem a apresentação da colunista do Estadão Roseann Kennedy e a participação de Daniel Weterman, repórter de economia do Estadão em Brasília.

Sobre o programa

O vodcast Dois Pontos, apresentado por Roseann Kennedy, vai ao ar às quartas-feiras, mergulhando em assuntos atuais e reunindo dois convidados em um debate.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A volta da Petrobras petista

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O roteiro foi cuidadosamente planejado para a Petrobras dar a Lula da Silva o palco de que precisava para um anúncio espalhafatoso de investimento durante uma esvaziada cúpula do Brics, no Rio de Janeiro. A notícia só não foi bombástica porque, por exigências legais, teve de ser comunicada ao mercado no dia anterior e detalhada pela presidente da companhia, Magda Chambriard. Mas os R$ 9 bilhões adicionais que a Petrobras vai destinar ao Complexo de Energias Boaventura, o antigo Comperj, representam 45% a mais no volume previsto de R$ 20 bilhões e abre a temporada dos “megaprojetos”, tão ao gosto do petista.

 

O palanque foi armado na refinaria Duque de Caxias (Reduc) e, no comício fora de época, Lula fez acenos à classe média e ao agronegócio, garantiu que a taxa de juros vai cair e confirmou, mais uma vez, que pretende se lançar à reeleição: “Se preparem, porque se tudo tiver como estou pensando, este país vai ter pela primeira vez um presidente eleito quatro vezes pelos braços do povo”. Soou quase como ameaça.

 

O Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ), é o item mais caro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e, quando ainda era Comperj, foi o maior símbolo da corrupção revelada pela Lava Jato em gestões petistas. O projeto, de 2006, previa um polo petroquímico e de refino cercado por fábricas, formando uma verdadeira cidade industrial do segmento de plásticos. Em sua versão mais ambiciosa, o projeto chegou a ser avaliado em mais de US$ 26 bilhões. Em 2017, o Tribunal de Contas da União já avaliava o prejuízo com as obras em US$ 12,5 bilhões (ao câmbio atual, cerca de R$ 67 bilhões).

 

A revolução que o complexo causaria na indústria petroquímica nacional ficou somente nos delírios lulopetistas. No ano passado, Lula da Silva “inaugurou” o polo, 16 anos depois das primeiras obras de terraplenagem, com apenas uma unidade de processamento de gás. Agora, a Petrobras dá sequência ao plano de integração do complexo de Itaboraí com a Reduc, e a presidente da companhia já se refere à obra como “megaprojeto” com promessa (mais uma vez) de dezenas de milhares de empregos. Mereceu do chefe um elogio bem ao estilo de Lula, que disse que a executiva, a despeito de parecer “bobinha”, tem “inteligência tratada de veneno”.

 

Entre promessas, bravatas e projetos faraônicos, o lulopetismo prepara para 2026 a campanha de um presidente que não consegue ganhar a confiança popular exatamente por insistir em repetir iniciativas que deixaram um rastro de prejuízos incalculáveis para o País, além de ficarem marcadas de forma indelével pela pecha da corrupção. Assombra a naturalidade com que Lula recorre de novo à Petrobras em suas apostas arriscadas.

 

Demorou muito até que a Petrobras recuperasse sua vitalidade depois da razia petista, e em grande medida isso se deveu à desistência de investimentos irracionais – que, ao que tudo indica, estão de volta.

A nova investida petista no BNDES

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O anúncio de que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) voltará ao mercado acionário, investindo diretamente no capital de empresas de variados portes e setores, é capaz de provocar desconfiança até no observador mais ingênuo. Mesmo com o cuidado de destacar que a retomada será dirigida a projetos de inovação e economia verde, o comunicado do banco remete inevitavelmente à época da política das “campeãs nacionais”, de gestões petistas passadas, quando dezenas de bilhões de reais foram aportados em companhias “eleitas” pelo BNDES.

 

A apreensão aumenta diante da declaração do presidente do banco, Aloizio Mercadante, de que, depois de dez anos sem investimentos em renda variável, “o governo do presidente Lula retoma a missão da BNDESPar de desenvolver o País com o fortalecimento do mercado de capitais”. Fala como se os empréstimos de mais de R$ 440 bilhões do Tesouro Nacional ao banco entre 2008 e 2014 – em parte usados em operações de compra de participações – tivessem produzido um mercado de capitais pujante, o que obviamente não é o caso.

 

Em 2015, a BNDESPar – subsidiária do banco que administra as participações acionárias da instituição – tinha posição em 125 empresas dos mais diversos setores, como telecomunicações, alimentos, varejo, energia, mineração, siderurgia, logística, tecnologia da informação, enfim, uma infinidade de áreas. A partir de 2016, no governo Michel Temer, o banco passou a adotar outra política, buscando sair de empresas consideradas maduras, que já não precisavam do apoio da instituição.

 

Hoje, a carteira da BNDESPar reúne participações em 13 companhias listadas em bolsa de valores a um valor total de R$ 78,7 bilhões (março/2025). Detém, ainda, R$ 5,6 bilhões em outras 67 companhias fechadas ou com baixa liquidez. De algumas é sócia há 50 anos, como a Metanor, petroquímica da qual a Petrobras se retirou no ano passado; outras já tiveram falência decretada, como a Mesbla, que passou a atuar como marketplace. Há, ainda, participações consideradas “estratégicas”, como Eletrobras e Petrobras, mesmo que não haja uma noção clara de tal estratégia.

 

Durante o período em que o BNDES atuou agressivamente no mercado acionário ficaram notórios casos como o da indústria de alimentos JBS, que recebeu do banco R$ 8,1 bilhões em compra de ações. A participação da BNDESPar na empresa chegou a 22,17%, reduzida depois para 20,81% e mais recentemente – cerca de um mês antes do anúncio do restabelecimento da política acionária – para 18,18%. Apesar dos questionamentos que cercaram as operações, o Tribunal de Contas da União (TCU) concluiu que não houve irregularidades. O BNDES, por sua vez, alegou ter obtido retorno significativo com a participação.

 

E é aí que reside a questão de fundo sobre o papel que cabe ao banco de fomento federal: como instrumento de desenvolvimento, é papel do BNDES incentivar projetos de infraestrutura que contribuam para reduzir custos de produção, logística e transporte no País, o conhecido custo Brasil, que dificulta a competitividade das empresas nacionais. Também é razoável que se dedique a corrigir falhas de mercado que emperrem financiamentos a determinadas iniciativas. No entanto, é difícil encontrar justificativa para fazer do Estado acionista de empresas privadas, a não ser pela visão estatólatra do lulopetismo.

 

Até o fim do ano, a BNDESPar pretende investir R$ 10 bilhões em ações de empresas, diretamente ou por meio de fundos de participações. É muito dinheiro em curto prazo. E mesmo o banco ressaltando que utilizará recursos de vendas de outras participações e dividendos, não há como desvincular a ação do erário público. Afinal, o único acionista do banco é o Tesouro, o caixa que concentra os recursos pagos pelos contribuintes brasileiros.

 

Fomentar inovação é função do banco, e para isso existem fundos específicos, como o Criatec. A chamada economia verde está também no foco econômico mundial, e o apoio do BNDES a iniciativas do tipo é justificável. Mas o ingresso na composição acionária de empresas é um caminho no mínimo questionável.

Tempestade perfeita entre Trump e Lula vinha se formando e situação fugiu do controle

Por Lourival Sant'Anna / O ESTADÃO DE SP

 

Uma tempestade perfeita vinha se formando nas relações entre os governos Trump e Lula, com os motivos se avolumando para o presidente americano dirigir sua metralhadora giratória contra o Brasil. Fiz essa análise na segunda-feira e a reação predominante foi um discurso de suposto “patriotismo”, contra o que seria uma visão de “vira-lata”.

 

Isso explica por que Lula vê vantagem nessa briga, que envolve três populistas, ou seja, líderes para os quais é mais importante exaltar seu papel de insubstituíveis salvadores da pátria do que agir segundo a lógica da economia: Trump, Lula e Jair Bolsonaro, cujo filho Eduardo se autoexilou nos Estados Unidos para tracionar essas tensões entre Brasil e Estados Unidos.

 

Trump usa na carta a Lula a expressão “caça às bruxas” para se referir ao processo do STF contra Bolsonaro. É a mesma expressão com que ele qualificou a abertura do impeachment pela Câmara e seus problemas com a Justiça americana. Tanto Trump quanto Bolsonaro tentaram reverter suas derrotas eleitorais mobilizando suas bases para enfrentar as instituições de seus respectivos países.

 

Na carta, o presidente americano apresenta a si mesmo e a Bolsonaro como defensores da democracia, e a Justiça e o governo brasileiros como se estivessem solapando as instituições democráticas. A realidade é, em grande medida, o inverso, embora se possa, também, argumentar que o STF comete excessos, e o lulo-petismo se engaja na captura do Estado.

 

Ao anunciar a alíquota de 50% sobre os produtos brasileiros, Trump retrata o Brasil como um país que usufrui de práticas comerciais desleais e assimétricas com os Estados Unidos – um tema recorrente do presidente americano em relação ao resto do mundo.

 

O Brasil é um dos países mais protecionistas do mundo, com média de tarifas de 11%, além de uma série de barreiras não-tarifárias e uma burocracia infernal para quem tenta exportar para o País. Ainda assim, os Estados Unidos gozam de superávit no comércio com o Brasil. Trump apresenta como solução para o conflito empresas brasileiras se instalarem nos EUA, quando a competitividade dos produtos brasileiros se deve ao clima tropical do Brasil – algo que não pode ser transferido.

 

O STF tem adotado medidas contra as redes sociais que não obedecem suas ordens de retirada de conteúdos considerados ataques à democracia, desinformação e discurso de ódio. Isso fere os interesses de Trump de múltiplas formas.

 

As big techs, donas das plataformas digitais, são fonte substancial de receitas para os EUA. Seus CEOs se alinharam politicamente com Trump depois de sua eleição em novembro. O governo brasileiro editou medida provisória em outubro que aplicou imposto mínimo de 15% sobre essas empresas, em linha com o que defende a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). A iniciativa foi aprovada na reunião do G20, no mês seguinte, no Rio.

 

Trump é ele próprio dono de uma rede social, Truth Social, para a qual a Rumble, que tem sofrido punições do STF, fornece conexão de internet. O presidente americano responde às acusações de ataques à democracia colocando-se como defensor da livre expressão nas redes sociais. Por todos esses motivos o STF e o governo brasileiro, que defende a regulação das redes sociais, são alvos naturais de Trump.

 

A cúpula do Brics no Rio de Janeiro exacerbou as tensões. Em 31 de janeiro, 11 dias depois de assumir, Trump ameaçou impor tarifas de 100% a integrantes do bloco que levassem adiante a ideia de substituir o dólar como moeda de reserva global. O tema voltou na cúpula de domingo e segunda, ao lado de condenações a Israel, ao bombardeio americano ao Irã, às sanções unilaterais adotadas pelos EUA e à guerra tarifária lançada por Trump.

 

Essas críticas ao governo Trump, embora seu nome não fosse citado, estiveram presentes tanto nos discursos de Lula quanto no comunicado final do encontro. O Brics é liderado pela China, que disputa a hegemonia global com os Estados Unidos.

 

Trump segue a Doutrina Monroe do século 19, “a América para os americanos”, e a reinterpreta como licença para os Estados Unidos se projetarem como líderes do Hemisfério Ocidental, desengajando-se da Ásia Pacífico, que deveria ser liderada pela China, e da Europa, a ser disputada entre Rússia, Alemanha, França e Reino Unido.

 

O presidente argentino, Javier Milei, outro populista, também tem tracionado essas tensões, identificando uma oportunidade de elevar seu perfil como interlocutor preferencial de Trump no Cone Sul. Enquanto impunha 50% de tarifa contra o Brasil, o governo americano avançava nessa quarta-feira em um acordo de livre comércio com a Argentina. Os 100 produtos argentinos mais exportados para os EUA, que representam 80%, podem ter tarifa zero, assim como os produtos americanos na Argentina.

 

Gerardo Werthein, ministro argentino das Relações Exteriores e Comércio Internacional, esteve reunido hoje com o secretário de Comércio americano, Howard Lutnick, em Washington.

 

Trump estava com outras prioridades. Mas era natural que, diante de tudo isso, um dia ele voltasse sua atenção para o governo Lula, que representa, por causa da importância do Brasil, o principal fator de questionamento de seu poder nas Américas. Esse dia chegou. O certo teria sido evitar se chegar a essa situação. Agora, a situação foge ao controle. O Brasil adota alíquotas recíprocas contra os produtos americanos e o próximo passo é Trump dobrar a tarifa contra o Brasil.

Foto do autor

Opinião por Lourival Sant'Anna

É colunista do 'Estadão' e analista de assuntos internacionais

Compartilhar Conteúdo

444