Freud rides again
Por Merval Pereira / O GLOBO
Acredito que Moraes poderia ter esperado um pouco, mas ele também não mede as reações. Tomar esta decisão em cima da carta de Trump para Bolsonaro deixa muito evidente que ele está participando desta disputa com o presidente americano. E se sentindo perseguido, dobra a aposta. Nós aqui quebrando a cabeça, tentando entender o que provocou a ira trumpista contra o Brasil, buscando um pouco de bom-senso nas decisões estapafúrdias tomadas, e tudo pode se resumir a uma questão pessoal.
O BRICS certamente irrita Trump, volta e meia ele bate nessa tecla, especialmente na questão da moeda que substituiria o dólar no comércio internacional. Mas Trump sabe também que o BRICS não é uma ameaça iminente, se é que será ameaça algum dia. Há as big techs, que não querem se responsabilizar pelo que transmitem. Essas são influentes no círculo trumpista e têm poder de fogo. Se equivocam, porém, se consideram que o Brasil não tem força política para regulamenta-las.
O comércio internacional não pode ser, pois ainda estamos em déficit com os Estados Unidos. Há quem ainda acredite que Bush filho só invadiu o Iraque para vingar o pai, que anos antes havia entrado em guerra com aquele país para defender o Kuwait de uma invasão. Pois Freud está novamente em campo, desta vez influenciando Trump a defender seu avatar brasileiro, como se defendesse a si próprio.
A confusão entre Bolsonaro, Trump e o Brasil piorou e está longe de terminar . É uma mistura de decisões políticas com pessoais, difíceis de negociar. Muitos fatores estão envolvidos, mas nada de concreto além da tentativa de criar um ambiente que propicie uma rendição do governo brasileiro. Trump está cada vez mais apostando na liberação do ex-presidente Bolsonaro, e fez questão de demonstrar seu apreço ao mandar-lhe uma carta pessoal, enquanto não responde à carta institucional que o governo brasileiro enviou através do Itamaraty.
Está claro que as restrições do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes impostas a Bolsonaro vieram em resposta a esta tentativa de Trump de pressionar o STF, especialmente o próprio Moraes e demais ministros. Acredito que Moraes poderia ter esperado um pouco, mas ele também não mede as reações. Tomar esta decisão em cima da carta de Trump para Bolsonaro deixa muito evidente que ele está participando desta disputa com o presidente americano. E se sentindo perseguido, dobra a aposta.
A tornozeleira era previsível, porque há muito tempo Bolsonaro deveria estar sendo acompanhado. Todas as razões alegadas para as medidas restritivas ao ex-presidente brasileiro existem há muito tempo, e poderia até mesmo ser decretada uma prisão preventiva. Que pode sair a qualquer momento, dependendo do que acharem no tal pendrive descoberto no banheiro da casa dos Bolsonaro. Ou do desenrolar do episódio, pois os bolsonaristas garantem que outras medidas virão, além da proibição de 8 ministros do STF de viajar para os Estados Unidos. Ainda teremos Paris, lembrou sarcasticamente um deles (Barroso?), repetindo a famosa frase de Humphrey Bogart no filme Casablanca. Eduardo Bolsonaro e seus cupinchas estão em uma atuação internacional que prejudica o país. E não se pode deixar que Bolsonaro fuja de suas responsabilidades na tentativa de golpe, e se torne um exilado político vitimizado. Vejo o futuro imediato com muita preocupação.
O problema deixou de ser econômico; é muito mais pessoal, uma tentativa de interferência no sistema jurídico brasileiro que não tem o menor sentido. Seria importante começar a pensar em como dirigir nosso comércio para outros países, e fechar o acordo com a Europa. Freud pode explicar essa obsessão de Trump por Bolsonaro. Por falha da Justiça americana, Trump escapou da cadeia por ter sido eleito presidente da República. Vê em Bolsonaro sua cópia prestes a ser preso pelo mesmo crime: tentativa de golpe para impedir que o vencedor das eleições assumisse a presidência da República.
Trump resgata Lula no meio do precipício
Sem conserto. Uma pesquisa Quaest iluminou as consequências. Para 72%, Trump erra ao impor a sanção tarifária, 79% imaginam que o golpe afetará suas vidas pessoais, e 57% negam à Casa Branca o direito de opinar sobre o processo contra a camarilha golpista. À sombra do pendão auriverde, a desaprovação de Lula, que subira de 43% para 57% em menos de um ano, retrocedeu até 53%. Montado num ginete branco, o chefe do Maga resgata Lula no meio do precipício.
Pacificação ilusória, impossível. A tarifa-sanção descortina os limites da política da imitação. Como cantar as glórias de Trump quando é o Brasil inteiro que está na mira? Como conciliar as prioridades da direita extremista, “anti-Sistema”, com os imperativos eleitorais da direita institucional? O “bolsonarismo moderado” é uma quimera — eis o dilema insolúvel da direita.
O autoexílio do Zero Três implica uma cisão absoluta:
— Não estou buscando convencimento da população, estou buscando pressionar o Moraes.
Sua aventura subversiva não serve nem mesmo ao Zero Um, um senador que depende de votos, ou ao réu Bolsonaro, agora com tornozeleira, descrito pelo filho pródigo como “refém do Sistema”. O primeiro insistiu no indulto, mas deplorou a sanção. O segundo declarou-se inocente, ao menos desse crime:
— Não existe nenhum lobby meu.
Não é boa hora para desfraldar a bandeira das estrelas.
Sobretudo, porém, a nuvem tóxica impôs aos governadores da direita uma penosa transição discursiva. Zema corrigiu-se, finalmente qualificando a sanção como “injusta”. Tarcísio abandonou seu perene exercício de equilibrismo, agarrando-se à barra mais baixa: — Neste momento, estou olhando para São Paulo, para o seu setor industrial, para sua indústria aeronáutica, de máquinas e equipamentos, para nosso agronegócio, para nossos empreendedores e trabalhadores.
Anistia prévia, indulto? As aves daqui podiam gorjear como as de lá enquanto o estandarte do perdão aos chefes golpistas circunscrevia-se à esfera da política nacional. A intervenção de Trump ergue o desafio de uma escolha: America First ou Brasil First. De agora em diante, as aves com pretensões eleitorais terão de reaprender a gorjear.

Com excedente produtivo, China avança sobre o Brasil
EDITORIAL DA FOLHA DE SP / 2
Com o mundo ocupado em lidar com a truculência de Donald Trump na imposição de tarifas comerciais, é fácil perder de vista outra grande fonte de desequilíbrios e pressões concorrenciais: a China.
O mercado americano se fecha a importações, e desta vez de forma generalizada na comparação com a guerra comercial no primeiro mandato do americano, que focou no gigante asiático.
A reposta chinesa naquele momento foi utilizar outras geografias para manter seu acesso, mas agora os Estados Unidos estão determinados a não mais permitir essa estratégia, com cobranças ainda maiores sobre os países que atuarem como entrepostos de produtos chineses.
Pequim também tem responsabilidade pelo acirramento dos conflitos, já que desde a pandemia, com o esgotamento dos vetores de crescimento ligados a infraestrutura e construção, direcionou poupança e crédito oficial para a indústria, cujos saldos comerciais crescem sem parar e se aproximam de US$ 2 trilhões em bens manufaturados.
Assim, a China redireciona mais agressivamente seu excesso produtivo para outros. É o caso do Brasil, cujo volume de importações do país cresceu 35% entre janeiro e maio deste ano, na comparação com o mesmo período de 2024 —quase 3 vezes mais que a expansão das compras totais.
Em valor, o aumento das importações da China é menor (27%), dada a queda de preços que decorre do excesso de capacidade na maioria dos setores. No entanto, o país ocupou 26,3% das compras brasileiras (US$ 35,7 bilhões) no primeiro semestre.
Não há dúvida de que Pequim pratica um modelo mercantilista, com subsídios e crédito estatais, enquanto mantém uma insuficiência estrutural de demanda interna, algo que desestabiliza o jogo competitivo e penaliza indústrias de todas as regiões.
Para um equilíbrio global mais sustentável, a China precisa reorientar sua economia, incentivando o consumo doméstico e reduzindo a dependência de superávits comerciais. Isso envolveria reformas como aumento de salários e mais políticas sociais.
Para o Brasil, o avanço chinês traz oportunidades e desafios. O consumidor é beneficiado pela queda de preços e acesso a produtos. Por outro lado, acentua-se o risco de desindustrialização.
O Brasil deveria ser pragmático: diversificar parceiros, investir em inovação e fechar acordos que garantam transferência de tecnologia e investimentos na produção local em ambiente econômico favorável —pauta minada pelo desequilíbrio fiscal.
Congresso afronta o país no trato das emendas
EDITORIAL DA FOLHA DE SP
Em um país com limitações orçamentárias, os efeitos deletérios das emendas parlamentares para toda a sociedade só são superados pelos danos causados por sua proliferação. Desde 2015, quando a execução desses mecanismos paroquiais do Orçamento federal se tornou obrigatória, o pior da tradição da política tem emergido.
Há muito a se lamentar. A começar, pela decisão do Congresso Nacional de inserir na Constituição, em 2015, o direito para seus integrantes a parcela significativa das despesas orçamentárias de cada ano, em detrimento das prioridades de investimento e de custeio do Executivo em áreas como saúde, educação e infraestrutura.
Por si só, nada poderia ser mais disfuncional para o modelo de equilíbrio e de atribuições específicas dos três Poderes do que o Legislativo assumir funções típicas do Executivo, eximindo-se de responsabilização.
Por fim, é preciso ressaltar a aviltante expansão desse butim nos últimos dez anos. Como evidenciou reportagem da Folha, entre 2015 e 2024, as emendas parlamentares consumiram R$ 173 bilhões a mais do que se tivessem sido corrigidas somente pela variação da inflação.
O relatório preliminar da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) para o ano eleitoral de 2026 reserva às emendas a fatia de R$ 54,2 bilhões. Desse volume, 77% sairá do Congresso e chegará ao governo com a imposição de execução.
O quadro agrava-se diante dos dribles dos parlamentares a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Ao passar as emendas de relator, consideradas inconstitucionais em 2022, para as comissões da Câmara e do Senado, o Legislativo deu provas de deslealdade aos princípios republicanos.
Ainda mais grave são o flagrante uso eleitoral de grande parte das emendas, que alimentam o clientelismo e o paroquialismo como meios de perpetuar carreiras públicas, a omissão das políticas de interesse nacional e, inevitavelmente, a corrupção.
A isso soma-se a disfuncionalidade. Como evidenciou recente estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o aumento do volume de emendas na área da saúde resultará em problemas futuros para a oferta de serviços e dificultará o financiamento de políticas com potencial de reduzir desigualdades que grassam no sistema. Em suma, sua aplicação e resultados são de "qualidade duvidosa".
Haveria alguma chance de correção se o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), fizesse valer sua afirmação de que "as emendas não são intocáveis" e estão sujeitas a corte. Considerando o papel do instrumento na cooptação de apoio a Motta na Casa, porém, sua palavra já está sob suspeita.
As emendas podem até se converter em arma do Legislativo para exigir do Palácio Planalto o necessário corte de gastos. Mas somente o acinte do Congresso ao espírito da Constituição e aos contribuintes explica sua dimensão atual e seu uso distorcido.
Maioria defende nem Lula nem Bolsonaro em 2026, mas renovação só deve vir em 2030
Por Redação / O ESTADÃO DE SP
No Dois Pontos, especialistas analisam o desejo por novas lideranças e discutem quando o Brasil deve superar a polarização entre Lula e Bolsonaro.
Uma pesquisa recente da Genial/Quaest mostra que dois em cada três brasileiros defendem que o presidente Lula não dispute a reeleição em 2026. O levantamento também indica que a maioria espera que o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente inelegível, abandone o discurso de que será candidato para apoiar outro nome. Os dados revelam uma demanda por renovação política, ainda sem alternativas viáveis no cenário eleitoral atual.
Parte da elite política e analistas avaliam que só a partir das eleições de 2030, quando Lula e Bolsonaro provavelmente estarão fora da disputa, o País começará a vislumbrar novas lideranças nacionais. Isso, no entanto, não significa que ambos deixarão de influenciar o processo eleitoral.
Tanto o lulismo quanto o bolsonarismo devem continuar a repercutir mesmo após a saída de cena de seus principais líderes. Fenômeno semelhante ao observado após a morte de Getúlio Vargas, quando a política brasileira permaneceu dividida entre getulistas e antigetulistas.
Para discutir o tema, o Dois Pontos desta semana recebe Sergio Fausto, diretor-geral da Fundação Fernando Henrique Cardoso, e Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
O episódio tem apresentação da colunista do Estadão, Roseann Kennedy, e participação do repórter de Política Zeca Ferreira.
Sobre o programa
O vodcast Dois Pontos, apresentado por Roseann Kennedy, vai ao ar às quartas-feiras, mergulhando em assuntos atuais e reunindo dois convidados em um debate.
Petrobras cada vez mais petista
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A intenção da Petrobras de voltar à distribuição de combustíveis a partir do zero, investindo na criação de uma nova subsidiária, para fazer os preços dos postos de revenda espelharem com exatidão as oscilações promovidas em suas refinarias, é um aglomerado de erros. Vai contra o conceito de abertura de mercado que norteou a quebra do monopólio do petróleo, em 1997, e contra noções comerciais elementares de investimento e retorno, além de querer transformar a empresa em administradora de preços que desde o início dos anos 2000 deixaram de ser fixados pelo governo.
O retorno da companhia ao segmento de distribuição de gasolina e diesel – do qual se retirou depois da venda da BR Distribuidora, atual Vibra, concluída em 2021 – vem sendo cogitado desde o começo da atual gestão de Lula da Silva, em 2023. De início, a alternativa tida como a mais provável era a de reaver o controle da Vibra, tarefa complicada numa empresa que passou a ter o controle pulverizado, na qual os maiores acionistas não chegam a ter 10% de participação acionária.
O aumento da participação acionária da Previ (dos funcionários do Banco do Brasil) na Vibra em 2024 alimentou rumores de que seria o fundo de pensão o veículo de pressão do governo para que a Petrobras retomasse as rédeas na distribuidora. A Previ conseguiu o direito de indicar dois conselheiros de administração na empresa, mas passou a ser investigada pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que apura se o investimento contribuiu para o déficit bilionário do ano passado no principal plano de benefícios da entidade.
Lula da Silva nunca escondeu o descontentamento sobre a privatização da BR e o desejo de que a Petrobras retome a distribuidora e as refinarias que vendeu e retorne à petroquímica. Assume um discurso de retrocesso monopolista que, mesmo parecendo inviável, colabora para o aumento da percepção de risco da companhia. Tudo isso é parte do vale-tudo do lulopetismo para reaver a influência estatal em algumas das maiores empresas brasileiras, o que inclui empresas privatizadas, como Eletrobras e Vale.
De acordo com reportagem do Estadão, o Conselho de Administração da Petrobras deve avaliar a inclusão da volta ao setor de distribuição no Plano de Negócios 2026-2030, em elaboração. A ideia – de jerico – é investir num projeto totalmente novo (greenfield), inclusive porque a marca BR Distribuidora permanece arrendada até 2029. Parece uma fórmula que já nasce fadada ao prejuízo e qualquer comparação com o déficit do investimento da Previ pode não ser apenas uma coincidência. Decisões de negócios movidas pela busca de poder político nada têm de estratégicas, ao menos não do ponto de vista comercial.
Lula da Silva, ao lado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, reclamou com veemência por não ter identificado nos postos de combustíveis a redução de 5,6% no preço da gasolina que a companhia promoveu em suas refinarias em junho. A queixa não parece dissociada da medida agora em avaliação e o motivo implícito é o controle de preços. Um desastre.

