Votar PEC da Escala 6x1 é oportunismo
Por Editorial / O GLOBO
É evidente o oportunismo do governo ao levar hoje, a menos de duas semanas do segundo turno, para votação no Senado a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que acaba com a escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6x1), reduzindo a jornada de 44 para 40 horas semanais. A contaminação do tema por interesses eleitorais tem impedido um debate equilibrado sobre o impacto nefasto da proposta na economia.
Na propaganda idílica do governo, os benefícios têm sido superestimados. Não passa de fantasia imaginar que, com a mudança, o brasileiro terá mais tempo para descanso e lazer e que, num passe de mágica, a produtividade aumentará. Numa economia saudável, o normal é primeiro aumentar a produtividade por meio de inovações tecnológicas ou avanços regulatórios, para depois distribuir tal ganho com a redução de jornada. No Brasil, refém de atraso atávico e de um ambiente hostil aos negócios, o crescimento da produtividade tem sido pífio há décadas — e nenhuma PEC terá o condão de resolver questão tão complexa apenas na base de slogans demagógicos e boas intenções.
A aprovação da PEC inexoravelmente elevaria o custo das empresas, que teriam de pagar o mesmo salário por menos horas trabalhadas. Ora, não é difícil perceber que a conta não fecha. O cenário mais provável seriam o aumento da informalidade e ondas de demissões para adequar a mão de obra às novas escalas. É pura fantasia a ideia de que a mudança na legislação geraria mais contratações.
A economia sofreria efeitos dramáticos. Estudo dos economistas Fernando de Holanda Barbosa Filho, Paulo Peruchetti e Janaína Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), aponta como prováveis consequências queda do PIB, redução de renda per capita, fechamento de empresas e cortes de empregos formais. Segundo eles, a aprovação da PEC reduziria a produção de riquezas em 2,9%, com efeito idêntico na produtividade do trabalho.
Não bastassem os argumentos equivocados, a propaganda da PEC tem disseminado um preconceito injustificável contra os empresários. Ao longo da tramitação da proposta, a jornada 6x1 chegou a ser comparada à escravidão, enquanto empreendedores foram chamados de exploradores insensíveis. É uma injustiça, para dizer o mínimo, com quem gera emprego e faz a economia girar.
Em vez de votar a PEC de forma açodada, os senadores deveriam analisar a proposta alternativa do senador Rogério Marinho (PL-RN) sobre trabalho flexível. Ela permite ao empregado ajustar sua jornada de acordo com a necessidade, optando entre a CLT ou um regime baseado em horas trabalhadas que garanta direitos como férias e décimo terceiro. O texto prevê compensação de horários e redução da jornada mediante acordo. O combinado em contrato individual prevaleceria sobre a negociação coletiva.
Não se deve discutir uma proposta como a PEC às vésperas de um pleito em que os candidatos expressam divergências sobre o tema. Há alternativa sensata que deveria ser analisada com mais calma. E o debate está fora da realidade, escondendo os efeitos perniciosos da mudança. O Brasil precisa crescer, se desenvolver e gerar riquezas. O caminho para isso é aumentar a produtividade, e não diminuí-la.
Incêndios na Amazônia expõem falta de integração entre esferas do governo
Por Editorial / O GLOBO
Os incêndios que se alastram na Amazônia têm demonstrado o desencontro entre o governo federal e os estaduais. Enquanto as autoridades perdem tempo discutindo de quem é a responsabilidade pelo atraso no enfrentamento ao desastre ambiental, a floresta está em combustão, e pelo menos 36 municípios estão em situação de emergência.
O alerta para o desastre foi dado pela fumaça que passou a encobrir Manaus há pelo menos um mês. Os primeiros registros de fuligem no ar da capital do Amazonas são de 8 de setembro, mas só na última segunda-feira dois jatos cargueiros KC-390 da FAB, adaptados para combater incêndios, entraram em operação na região. Há um improdutivo choque de versões entre o governo do Amazonas e as autoridades federais, com atribuição mútua de responsabilidade pela omissão, como revelou reportagem do GLOBO.
O comandante-geral do Corpo de Bombeiros Militar do Amazonas, coronel Orleilso Muniz, afirma que o governo federal não atendeu a tempo ao pedido de aeronaves para combater o fogo, transportar brigadistas e equipamentos. O Centro Integrado Multiagência de Coordenação Operacional Federal, ligado ao Ibama, confirma ter recebido a solicitação em 23 de setembro e diz que começou a mobilizar equipes do Projeto Resposta em Ações Integradas para Atuação em Situações de Desastres, subordinado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública. Mas alega que, em 30 de setembro, o governo do Amazonas, devido às chuvas, comunicou que não precisava mais de apoio federal.
Ora, mesmo levando em conta que as burocracias, em qualquer nível da administração, costumam ser lentas e demoram a reagir, não dá para ignorar que, desde o primeiro semestre, se prevê um período de seca severa, agravado pela previsão de Super El Niño no Pacífico. Quando Manaus voltou atrás no pedido de apoio, e Brasília aceitou sem contestações, as águas superficiais do Pacífico, sob constante monitoramento, já haviam ultrapassado os 2°C de aquecimento, conforme monitoramento da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos. Será que faltavam informações em Manaus ou em Brasília para saber que aquelas chuvas seriam passageiras?
A demora na reação aos incêndios na Amazônia e o descaso com a situação propícia ao alastramento das queimadas são preocupantes. É evidente a falta de integração entre organismos ambientais estaduais e federais para o combate a uma temporada de incêndios que se anuncia devastadora. A seca amazônica estava na tela dos computadores de diversas repartições. Sem planejamento, recursos adequados e integração, será impossível enfrentar com alguma chance de êxito as consequências dela ou de outros eventos climáticos como o El Niño previsto para os próximos meses.
Medidas do governo são abuso de poder
Por Merval Pereira / O GLOBO
As medidas do Governo Lula de apoio aos MEIs, de recuperação de dívidas, entre outras recentemente tomadas e as manifestações de rua em São Paulo e no Rio têm a mesma direção — tentar ganhar a eleição — mas são distintos. As movimentações de rua, com os jovens aderindo à campanha ostensiva sem o comando do PT e dando uma energizada ao movimento que estava muito fraco e desorganizado, provavelmente achando que a eleição já estava ganha são uma bela notícia.
Mas as ações do presidente da República para se reeleger, liberando crédito, fazendo o “diabo” para ganhar eleição, como dizia Dilma Roussef, é outra questão. É uma ação usando as armas do governo para ganhar uma eleição e está errado. Deveria ser proibido o governo fazer novas medidas em cima da campanha eleitoral. É um abuso de poder.
São duas coisas distintas: a juventude aderindo e saindo às ruas é um bom sinal de vitalidade que não tinha sido dada até agora, embora haja o perigo das radicalizações — houve depredações nas estações do metrô e pichações — o que não ajuda Lula na busca dos votos da centro-direita que ele precisa. Mas as medidas governamentais para ganhar voto são absurdas.
Todos os governos aumentam gastos em ano de reeleição, mas Lula está fazendo o que ninguém nunca fez: assinar decretos em cima da campanha para promover benesses para grupos
Presidente Luiz Inácio Lula da Silva em cerimônia de anúncio de medidas para MEI — Foto: Foto: Cristiano Mariz
Esgota-se o modelo de estímulo ao consumo
Mais uma vez, a estratégia de impulsionar a atividade econômica por meio de gastos públicos encontra seu limite. Desta vez, o freio é o esgotamento da expansão do consumo das famílias, endividadas ao longo dos últimos anos por um modelo de política econômica que infla a demanda sem bases produtivas sustentáveis.
Entre 2021 e 2025, segundo o IBGE, o consumo privado avançou em média 3,3% ao ano, com pico de 5,1% em 2024. Em 2025, o ritmo já caiu para 1,3%, e a expectativa é de somente 1% neste ano e ainda menos no próximo.
A principal causa está no elevado endividamento das pessoas físicas. O volume de crédito a elas direcionado cresceu de forma acelerada, com alta de 10,5% em 12 meses até meados de 2026.
Dados do Banco Central mostram dívidas equivalentes a 49,9% da renda acumulada em 12 meses até julho, enquanto o comprometimento da renda com o pagamento de juros e amortizações chegou a 28,7%.
Segundo pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais de 80% das famílias carregam algum tipo de passivo, um patamar recorde.
O roteiro se repete nas gestões petistas. Assim como no primeiro mandato de Dilma Rousseff, o terceiro governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) expandiu o gasto público de forma temerária, em particular com benefícios sociais. Conseguiu assim sustentar o consumo por algum tempo, mas sem alicerce correspondente em aumento da produtividade.
Os custos dessa política não deveriam surpreender mais: pressões inflacionárias, necessidade de juros mais altos e deterioração das contas públicas.
Na gestão atual, as despesas federais cresceram em média cerca de 5% ao ano acima da inflação, muito além do ritmo da economia. O resultado inevitável é o aperto da política monetária sobre famílias e empresas.
A deterioração das expectativas é clara. A pesquisa Focus, do BC, projeta expansão do PIB de 1,85% neste ano e apenas 1,4% em 2027, com viés de baixa para variação inferior a 1%.
O Fundo Monetário Internacional (FMI) acaba de reduzir suas estimativas, para 2,2% e 1,9%, respectivamente. É menos pessimista, mas costuma chegar atrasado em relação a analistas locais. O desemprego deve subir, de 6,2% para 6,8% em 2027.
Lula continua enfileirando benesses, como nesta terça-feira (13), com o projeto de perdão de dívidas para microempreendedores individuais (MEIs). O momento do ajuste, adiado neste ano eleitoral, virá no próximo governo, qualquer que seja o resultado do pleito presidencial.
Ainda que não se antecipe uma recessão profunda nos moldes de 2015-16, quando o PIB caiu cerca de 7%, uma desaceleração expressiva já está em curso —e se agravará de modo duradouro se não houver correção de rota. Sem reequilíbrio orçamentário, os juros permanecerão nas alturas e estrangularão a economia.
Após Flávio liderar 1º turno, PL recebe R$ 2,3 mi de empresários, contra R$ 85 mil do PT
Pedro S. Teixeira / FOLHA DE SP
Empresários dos setores de finanças, combustíveis e mineração doaram R$ 2,3 milhões ao Partido Liberal, após o presidenciável Flávio Bolsonaro terminar o primeiro turno com 2 milhões de votos mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição.
Grandes doadores têm preferido a doação às agremiações políticas em vez do candidato, como mostrou reportagem da Folha. Dessa maneira, o dinheiro não aparece diretamente na prestação de contas de quem disputa a eleição e é identificado em um sistema separado.
Desde o último dia 4, quando se realizou a primeira etapa da votação, o Partido dos Trabalhadores, de Lula, declarou R$ 85 mil, em doações de representantes do setor sucroalcooleiro. A cifra representa 3,7% do valor recebido pelo PL.
Os setores de infraestrutura, mineração, finanças e combustíveis, que dependem de contratos do governo ou estão sob supervisão de agências reguladoras, se destacam nas contribuições neste segundo turno.
Entre os doadores de Flávio após a primeira rodada das eleições estão Ralph Gustavo Rosemberg Whitaker Carneiro e Bruno Baptistella, ambos da gestora de investimentos Perfin, com R$ 500 mil cada, o dono da rede paranaense de postos de combustíveis Potencial, Arnoldo Hammerschmidt (R$ 600 mil), e os diretores do Banco Mercantil Luiz Henrique Andrade de Araujo e Pedro Henrique de Oliveira (R$ 100 mil cada).
Em nota, o Banco Mercantil diz que a contribuição foi realizada por seus sócios em caráter estritamente pessoal. "A doação não envolveu recursos da companhia e não representa posicionamento ou apoio institucional a qualquer candidato, partido político ou campanha eleitoral."
A Perfin e o Grupo Potencial afirmaram que não comentariam os movimentos de seus acionistas.
Os donos de mineradoras Valeria Fernandez Borges Dias, da Flapa Mineração, e Renato Moraes Salvador Silva, da Tramix, também doaram R$ 200 mil cada. A reportagem não conseguiu localizar porta-vozes das empresas.
Parte dos doadores disse sob reserva que fizeram doações também para o PT que ainda não foram declaradas.
O Partido dos Trabalhadores, do presidente Lula, recebeu doações dos representantes da agroindústria José Sergio Ferrari Junior, João Luiz Quagliato Neto, Roque Quagliato, Mario Tittoto e Carlos Ubiratan Garms.
Garms, que doou para o PL e para o PT, é presidente do conselho deliberativo da Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia). A entidade afirmou que a doação dele não representa o grupo.
Também fazem parte da Única executivos da Raízen, grupo comandado por Rubens Ometto, que doou R$ 800 mil para o PL no primeiro turno.
RELEMBRE DOAÇÕES NO PRIMEIRO TURNO
A maior doação para o partido de Flávio foi a de Frederico Gerdau Johannpeter —R$ 2,5 milhões em 4 de setembro, sem contar outros R$ 750 mil de seus familiares.
Como mostrou o Painel S.A., a maior doação direta para a campanha do presidenciável do PL, de R$ 1 milhão, veio de Angela Cristina Cattozatto Fortunato. Ela é esposa de Francisco Fortunato, presidente e acionista do Grupo OCQ.
O empresário Luiz da Rocha Salles Filho, que foi sócio da construtora OAS, também doou R$ 1 milhão. OAS e OCQ disseram que as contribuições tiveram motivações pessoais.
A maior doação de pessoa física para o PT foi de R$ 500 mil, feita em 21 de agosto pelo fundador da Locamerica e hoje acionista da Localiza Sergio Augusto Guerra de Resende. O empresário também destinou R$ 300 mil para a campanha do PL ao governo do estado de Minas, encabeçada por Flávio Roscoe.
O fundador da Localiza, Jose Salim Mattar Junior, também doou R$ 250 mil ao PL. Procurado por WhatsApp ao meio-dia desta terça (13), Mattar não respondeu. No primeiro turno, o PT ainda recebeu R$ 344 mil do controlador do Grupo Amil, Jose Seripieri Filho, além de R$ 100 mil de cada um dos irmãos João Moreira Salles e Walther Moreira Salles Junior, acionistas do Itaú e cineastas.
Datafolha no 2° turno: Flávio Bolsonaro tem 52% e Lula 48% em votos válidos
Escrito por Ingrid Campos / DIARIONORDESTE
Na primeira pesquisa Datafolha sobre a disputa presidencial em segundo turno, Flávio Bolsonaro (PL) apareceu à frente de Lula (PT) numericamente, mas empate técnico. O bolsonarista obteve 52% das intenções de voto, enquanto o petista ficou com 48%. Os dados são de votos válidos, quando brancos e nulos são descartados. O levantamento foi divulgada nesta quinta-feira (8), quatros dias após a eleição em primeiro turno.
No último domingo (4), Flávio Bolsonaro saiu na frente, com 47,03% dos votos, contra 45,16% de Lula. A data do segundo turno das eleições está prevista para o dia 25 de outubro.
Em votos totais, Flávio aparece com 49% das intenções de voto e Lula tem 45%. O Datafolha mostrou que 5% dos eleitores pretendem votar em branco ou nulo e 1% estão indecisos sobre o voto em segundo turno.
Foram realizadas 2.520 entrevistas neste levantamento, encomendado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo. Os entrevistadores foram às uras na terça-feira (6) e na quarta (7). O registro do trabalho na Justiça Eleitoral tem o código BR-02949/2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais e o nível de confiança é 95%.
Segundo turno
A decisão da eleição presidencial em 2º turno ocorre no próximo dia 25 de outubro. Os eleitores escolherão entre Flavio Bolsonaro e Lula, pois nenhum candidato alcançou mais de 50% dos votos válidos no 1º turno.
Para vencer a eleição, os concorrentes precisarão obter mais da metade dos votos, excluindo brancos e nulos, para vencer.
Qual o horário do segundo turno?
A votação do segundo turno vai das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. O TSE usa o horário oficial como referência para abertura e fechamento das seções eleitorais em todo o país.
Calendário das eleições 2026 no 2º turno
- 9 a 23 de outubro: Veiculação da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV;
- 10 de outubro: Candidatos participantes do 2º turno não podem ser presos, exceto em flagrante;
- 19 de outubro: Eleitores não podem ser presos, exceto em flagrante, por crime inafiançável ou quebra de salvo-conduto;
- 24 a 26 de outubro: Nova restrição de porte e transporte de armas de fogo para CACs em território nacional;
- 25 de outubro: 2º turno das Eleições 2026.

