O diagnóstico de aliados de Lula sobre a estratégia contra Flávio Bolsonaro no 2º turno
Ainda sob o impacto da apuração da votação de domingo, que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT), aliados próximos do presidente da República traçaram um diagnóstico sobre os problemas da campanha petista no primeiro turno e os ajustes que acreditam ser imprescindíveis na estratégia a ser adotada contra o filho de Jair Bolsonaro nas próximas três semanas.
O principal temor no entorno de Lula é que a vantagem de Flávio no primeiro turno provoque um efeito manada a favor do presidenciável do PL em partidos do Centrão, o que isolaria o presidente e dificultaria o processo de ampliar apoios na segunda rodada. Além disso, como colégios eleitorais relevantes tiveram eleições para governador resolvidas no primeiro turno, como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, o que costuma desmobilizar eleitores e aumentar o índice de abstenção no segundo.
No calor do momento, petistas avaliam que Flávio acabou na frente do presidente por uma onda de voto útil da direita e pela força da narrativa antissistema, no contexto da crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) e do caso do Banco Master. Por esses motivos, avaliam, é preciso corrigir desde já o que creem ser erros da campanha.
O que tem que mudar
Para esses interlocutores de Lula, o presidente precisa “deixar a arrogância de lado” e participar de todos os debates no segundo turno, já que o petista não aceitou nenhum convite na primeira rodada.
“Lula precisa se expor mais, se arriscar, e principalmente explicar ao eleitor por que ele merece permanecer no governo por mais quatro anos”, disse um deles à equipe da coluna sob reserva. “É uma campanha de virada, já que não estamos na dianteira da disputa”.
Uma ideia que vem ganhando força e foi expressa à equipe da coluna por duas pessoas que estão muito próximas de Lula é a de que é preciso mudar a estratégia digital do candidato à reeleição. Hoje o gerenciamento das redes é comandado pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidonio Palmeira, o fotógrafo do presidente, Ricardo Stuckert, a jornalista Nicole Briones e a primeira-dama, Janja.
A mudança na tônica das redes do PT e de Lula deverá ser um dos principais objetos de disputa no segundo turno.
Também há uma avaliação preponderante de que a campanha tratou mais sobre o passado do que do futuro ao propagandear os feitos do petista e menos propostas e projetos novos.
A fala de Lula a apoiadores na noite deste domingo (4) depois da definição de que haverá um segundo turno, no Hotel Renaissance, nos Jardins, em São Paulo, sinalizou que ele já assimilou algumas dessas mudanças. No discurso, o petista defendeu a importância de encarar a eleição como uma oportunidade do país definir seu “futuro” e elencou promessas para um eventual quarto mandato.
“Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos com um projeto tecnológico, de desenvolvimento de terras raras e minerais críticos, da nova descoberta de petróleo, e a gente vai ver o que é a nova indústria do Brasil. Agora até a canetinha de emagrecimento a gente vai fazer com que as pessoas que precisem vão ter de graça pelo SUS”, declarou Lula.
Aliados do petista também defendem uma “desconstrução pesada” da figura de Flávio Bolsonaro nas próximas semanas. Os dois não se enfrentaram diretamente em nenhum debate ou sabatina no primeiro turno.
No discurso em São Paulo, no qual admitiu que contava com uma vitória no primeiro turno, Lula também indicou que caminhará nessa direção:
“Do outro lado, temos apenas incerteza com uma biografia de um passado tenebroso. Não há biografia do pai [Jair Bolsonaro], do filho. É uma biografia tenebrosa com suspeitas gravíssimas, com relação com os milicianos, com o crime organizado, com os assassinatos do Rio de Janeiro. Tudo isso vai ficar claro e também com a participação na criação do Banco Master, que resultou na maior orgia envolvendo políticos e autoridades desse país”.
O tempo, no entanto, é exíguo: Lula tem apenas 20 dias para frente para superar a vantagem de 2 milhões de votos de Flávio, que deverá absorver boa parte do eleitorado de direita e centro-direita que votou em Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e até em Augusto Cury (Avante), e ampliar o eleitorado da campanha do PT.
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Turbulências agravam revolta de parte da população com o STF e deixam a Corte no centro do resultado eleitoral
A malfadada sessão de 15 de setembro e, nas últimas semanas, a guerra de decisões monocráticas por parte de integrantes do Supremo, além de sua disputa aberta com outro tribunal superior, o TSE, pela definição de lances cruciais da campanha, são vistos como fatores a agravar a revolta de uma parcela da população que, viu-se, era bem maior que aquela que os governistas estimavam.
Lula tentou se dissociar da crise do tribunal, sobretudo depois que ficou evidente que Moraes escondera o grau e a natureza de sua relação com Daniel Vorcaro.
Num dos últimos atos de campanha, a entrevista camarada que concedeu ao Flow Podcast, voltou a defender uma reforma do Judiciário e a repetir o lugar-comum segundo o qual ninguém pode se tornar ministro do STF para enriquecer. Ainda assim, achou-se no dever de enaltecer o papel que Moraes desempenhou em defesa da democracia.
Pois bem: o arrastão bolsonarista, uma realidade sob todos os ângulos pelos quais se analise o primeiro turno, mostra que a maioria da população não reconhece esse papel e não vê na tentativa de golpe consignada no decorrer do governo de Jair Bolsonaro e na posterior intentona de 8 de janeiro de 2023 razões para rechaçar um grupo político. Antes mesmo de os eleitos de agora colocarem em marcha propostas de anistia ou indulto que certamente virão, o eleitorado parece ter anistiado os golpistas na urna eletrônica — contra a qual, aliás, eles sempre investiram.
Não é simples para Lula rifar Moraes e adotar um cordão sanitário em relação ao STF. Mas ajudaria sua inglória missão de virar a eleição num mapa do Brasil quase todo tingido de azul que suas excelências compreendessem o tamanho da insatisfação do país com sua atuação e parassem de usar a caneta sem nenhum pudor para tentar mudar a direção do vento nas eleições.
O adiamento sine die da crise envolvendo Moraes e André Mendonça, as decisões (do STF, mas também do TSE) que inviabilizaram o único debate eleitoral que aconteceria no primeiro turno e a divisão mais nítida dos ministros em grupos políticos produziram no eleitor uma revolta manifestada num voto antissistema mais contundente que o de 2018, porque produziu um Congresso hostil ao Judiciário.
Se Lula quiser ter uma chance de se salvar da onda azul, precisa forçosamente separar seu destino ao dos ministros que são vistos como próximos de seu governo.
O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal — Foto: O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal
Lula só ganha de Flávio; contra o antipetismo, perde de lavada
O primeiro turno deu uma notícia ruim e uma boa para Lula. A ruim é que o antipetismo está vivo, organizado e chegou às urnas com muito mais força do que o governo gostaria. A boa é que, no segundo turno, Lula não precisa disputar contra o antipetismo. Precisa disputar contra Flávio Bolsonaro.
Parece a mesma coisa. Não é.
Se a pergunta da eleição continuar sendo “você quer mais quatro anos de PT?”, Lula corre enorme risco de perder. O antipetismo é maior do que Flávio. Reúne desde o bolsonarista convicto até aquele eleitor que não suporta Bolsonaro, mas olha para o governo e pensa: “Chega”.
O erro de Lula foi ter demorado demais para perceber isso. Passou boa parte da campanha falando para um país que já conhecia seus argumentos. Só no final foi procurar o Brasil que acorda cedo, pega ônibus, abre a lojinha, faz bico, paga boleto e tenta descobrir por que o dinheiro continua acabando antes do mês.
Esse eleitor não está fazendo uma tese sobre democracia enquanto espera o ônibus. Está tentando organizar a própria vida. É justamente aí que Lula pode transformar o segundo turno.
A disputa precisa deixar de ser um plebiscito sobre o PT e virar comparação entre Lula e Flávio. Não entre duas biografias. Entre duas maneiras de organizar a vida das pessoas.
A escala 6x1 oferece talvez o exemplo mais didático.
Flávio se posicionou contra o fim da jornada. Lula está do outro lado. Parece uma discussão trabalhista. Para milhões de brasileiros, é muito mais.
Há anos nossas pesquisas mostram uma transformação na relação da classe C com o trabalho. Especialmente entre os jovens, salário continua fundamental, mas deixou de ser a única moeda. A briga é também por agenda. Por autonomia. Por tempo.
Quem trabalha seis dias para descansar um não precisa de economista para explicar o valor de uma folga. Sábado é aniversário do filho. Domingo é igreja, futebol, almoço com a mãe, namoro. Às vezes, é simplesmente dormir.
O tempo é a única moeda que não pode ser parcelada.
Isso não significa que Lula deva transformar a eleição num plebiscito sobre a 6x1. Flávio tem vantagens importantes, especialmente quando a conversa chega à segurança pública. Ignorar isso seria repetir um dos erros que trouxeram a esquerda até aqui.
Mas Lula precisa obrigar Flávio a sair do confortável território do antipetismo e explicar suas escolhas diante da vida concreta.
O primeiro turno mostrou que não basta dizer que Bolsonaro é pior. Nem dizer que o governo melhorou indicadores que o eleitor ainda não sentiu melhorar dentro de casa.
Agora é comparação.
Se o segundo turno for sobre o passado do PT, Lula perde terreno. Se for sobre o sobrenome Bolsonaro, talvez também não baste. A chance de Lula aparece quando a eleição deixa de perguntar quem o brasileiro rejeita e começa a perguntar como ele quer viver.
Porque antipetismo é sentimento.
Escala 6x1 é segunda-feira de manhã, e o presidente do Senado é o maior cabo eleitoral do segundo turno.
Corrida da apuração: Flávio Bolsonaro chegou a ter dobro da vantagem aberta pelo pai contra Lula em 2022; veja evolução
Por Bernardo Mello — Rio de Janeiro / O GLOBO
O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, em discurso após resultado do primeiro turno — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo
Com 99,9% das urnas apuradas neste domingo, dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) chegou a ter, em alguns momentos, o dobro da vantagem que o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), conseguiu no início da apuração de 2022 contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A diferença entre Flávio e Lula caiu ao longo da apuração, a exemplo do que ocorreu na disputa há quatro anos.
Em 2026, o resultado do primeiro turno mostra uma diferença de 1,87% entre o candidato do PL e o atual presidente, do PT. Flávio terminou com 47,03%, contra 45,16% para Lula.
Quando a corrida da apuração ainda marcava cerca de 10% das urnas apuradas, Flávio chegou a abrir dez pontos de vantagem para Lula. O mesmo patamar apareceu quando a apuração já caminhava para 20% das urnas contabilizadas neste ano (veja na tabela abaixo). Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro também largou em vantagem, mas teve no máximo cinco pontos de vantagem para Lula nesse mesmo estágio da apuração.
A comparação foi feita pelo GLOBO a partir dos resultados divulgados pelo TSE nas atualizações da contagem de votos neste ano, frente aos números no mesmo estágio da apuração em 2022, que são disponibilizados no repositório de dados eleitorais da Corte.
Essa comparação mostra que Lula permaneceu, durante a maior parte da apuração, cerca de seis pontos percentuais aquém do próprio desempenho no primeiro turno de 2022. Contra Jair Bolsonaro há quatro anos, Lula virou a apuração quando havia cerca de 70% das urnas contabilizadas.
Neste ano, quando a contagem já tinha quase 65% das urnas, Flávio ainda mantinha sete pontos de vantagem. A atualização seguinte do TSE neste domingo já apareceu com um salto para 85% das urnas apuradas -- a base de dados com a evolução mais detalhada é divulgada posteriormente. Nesse patamar de 85% dos votos contados, Flávio apareceu com 4,5% acima de Lula neste primeiro turno. Há quatro anos, no mesmo estágio, Lula já estava 1,9% à frente de Jair Bolsonaro.
No segundo turno, o atual presidente precisará fazer um movimento inverso ao que ocorreu na campanha de 2022. À época, ele cresceu cerca de dois pontos no percentual de votos válidos entre primeiro e segundo turno, enquanto o adversário bolsonarista subiu quase seis pontos. O resultado final em 2022, de 50,9% para Lula contra 49,1% para Bolsonaro, foi o mais apertado de uma eleição presidencial desde a redemocratização.
Triunfo incontestável do bolsonarismo no Senado
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O Brasil escolheu neste domingo um Congresso mais à direita, com destaque para as expressivas vitórias de candidatos ao Senado impulsionados pela força de Jair Bolsonaro. Triunfou o discurso de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal (STF), e certamente o Senado será a casamata bolsonarista na guerra para enquadrar os ministros daquela Corte. Não se pode dizer que esse resultado seja gratuito, considerando os muitos abusos cometidos pelo STF nos últimos tempos.
Espera-se, porém, que essa força à direita seja usada também para aproveitar a oportunidade histórica de colocar em prática mudanças estruturais que o País adia há tempo demais. Se a nova maioria se apresenta ao eleitor como conservadora ou liberal, que o seja também diante dos privilégios, do desperdício e das estruturas de Estado que há décadas precisam mudar.
A reforma administrativa é um bom começo para os que chegam ou que retornam à Casa. A atual legislatura passou anos discutindo mudanças no serviço público e chegou à eleição sem aprová-las. O projeto mais recente, que previa medidas contra privilégios, acabou sucumbindo à resistência das corporações e ao cálculo eleitoral. Supersalários continuam a furar o teto constitucional, enquanto uma estrutura de carreiras desigual e pouco racional dificulta a boa gestão do Estado. Uma reforma que não enfrente privilégios e não dê ao Estado instrumentos para cobrar desempenho de quem o serve será apenas mais uma reforma administrativa inútil.
A Previdência exigirá coragem ainda maior. A reforma de 2019 produziu avanços importantes, mas o envelhecimento acelerado da população tornou evidente que ela não encerrou o problema. As despesas previdenciárias seguirão uma trajetória insustentável nas próximas décadas. O tema foi convenientemente evitado durante a campanha eleitoral. Passada a eleição, desaparece a desculpa. Agora, caberá à nova legislatura fazer uma reforma que não esteja caduca poucos anos depois de aprovada.
O novo Congresso terá ainda de ser particularmente criterioso ao tratar da necessária reforma do Judiciário. A politização que contaminou o assunto nos últimos meses não pode ditar mudanças figadais. Parlamentares precisarão se despir das campanhas eleitorais e buscar consensos. Mandatos para ministros, limites às decisões monocráticas e a revisão das competências excessivamente amplas dos tribunais superiores são discussões que precisam avançar.
Há, por fim, uma reforma que exigirá dos congressistas disposição para mexer nas regras que os beneficiam. Não deve ser vã a esperança de que os eleitos tenham o brio de cortar na própria carne.
Ora, a eleição deste domingo pode resultar na mais baixa renovação da Câmara desde a redemocratização, uma consequência direta de um conjunto de distorções da atual estrutura política partidária do País que precisa ser revista com urgência. Uma classe política tão eficiente em criar mecanismos para se conservar no poder deve ser capaz de reformá-los.
O Fundo Eleitoral precisa encolher drasticamente, assim como o poder que os parlamentares tomaram para si sobre o Orçamento por meio das emendas. A cláusula de barreira deve ser apertada. E é difícil encontrar justificativa para preservar a anacrônica suplência de senador, que permite a alguém exercer um mandato de oito anos sem receber um único voto. Também cabe ao novo Congresso rever as regras internas que esvaziaram o debate parlamentar.
A nova legislatura deveria ter ainda a decência de voltar a fazer valer os instrumentos de controle do decoro parlamentar, principalmente quando os seus se mostram corruptos ou flertam com práticas não republicanas. Conselhos de Ética não existem para servir de enfeite nos corredores do Congresso, enquanto denúncias contra deputados e senadores mofam sem consequência, como foi feito nos últimos quatro anos.
O Congresso que encerra seu mandato mostrou que reformas consideradas impossíveis podem sair do papel. Depois de décadas de tentativas frustradas, aprovou a reforma tributária do consumo.
O exemplo está dado. A nova legislatura terá força política e quatro anos pela frente. Que ninguém alegue, ao fim deles, que faltaram tempo, votos ou poder para fazer o que precisava ser feito.
Triunfo incontestável do bolsonarismo no Senado
Triunfo incontestável do bolsonarismo no Senado/ O ESTADÃO DE SP
O Brasil escolheu neste domingo um Congresso mais à direita, com destaque para as expressivas vitórias de candidatos ao Senado impulsionados pela força de Jair Bolsonaro. Triunfou o discurso de enfrentamento ao Supremo Tribunal Federal (STF), e certamente o Senado será a casamata bolsonarista na guerra para enquadrar os ministros daquela Corte. Não se pode dizer que esse resultado seja gratuito, considerando os muitos abusos cometidos pelo STF nos últimos tempos.
Espera-se, porém, que essa força à direita seja usada também para aproveitar a oportunidade histórica de colocar em prática mudanças estruturais que o País adia há tempo demais. Se a nova maioria se apresenta ao eleitor como conservadora ou liberal, que o seja também diante dos privilégios, do desperdício e das estruturas de Estado que há décadas precisam mudar.
A reforma administrativa é um bom começo para os que chegam ou que retornam à Casa. A atual legislatura passou anos discutindo mudanças no serviço público e chegou à eleição sem aprová-las. O projeto mais recente, que previa medidas contra privilégios, acabou sucumbindo à resistência das corporações e ao cálculo eleitoral. Supersalários continuam a furar o teto constitucional, enquanto uma estrutura de carreiras desigual e pouco racional dificulta a boa gestão do Estado. Uma reforma que não enfrente privilégios e não dê ao Estado instrumentos para cobrar desempenho de quem o serve será apenas mais uma reforma administrativa inútil.
A Previdência exigirá coragem ainda maior. A reforma de 2019 produziu avanços importantes, mas o envelhecimento acelerado da população tornou evidente que ela não encerrou o problema. As despesas previdenciárias seguirão uma trajetória insustentável nas próximas décadas. O tema foi convenientemente evitado durante a campanha eleitoral. Passada a eleição, desaparece a desculpa. Agora, caberá à nova legislatura fazer uma reforma que não esteja caduca poucos anos depois de aprovada.
O novo Congresso terá ainda de ser particularmente criterioso ao tratar da necessária reforma do Judiciário. A politização que contaminou o assunto nos últimos meses não pode ditar mudanças figadais. Parlamentares precisarão se despir das campanhas eleitorais e buscar consensos. Mandatos para ministros, limites às decisões monocráticas e a revisão das competências excessivamente amplas dos tribunais superiores são discussões que precisam avançar.
Há, por fim, uma reforma que exigirá dos congressistas disposição para mexer nas regras que os beneficiam. Não deve ser vã a esperança de que os eleitos tenham o brio de cortar na própria carne.
Ora, a eleição deste domingo pode resultar na mais baixa renovação da Câmara desde a redemocratização, uma consequência direta de um conjunto de distorções da atual estrutura política partidária do País que precisa ser revista com urgência. Uma classe política tão eficiente em criar mecanismos para se conservar no poder deve ser capaz de reformá-los.
O Fundo Eleitoral precisa encolher drasticamente, assim como o poder que os parlamentares tomaram para si sobre o Orçamento por meio das emendas. A cláusula de barreira deve ser apertada. E é difícil encontrar justificativa para preservar a anacrônica suplência de senador, que permite a alguém exercer um mandato de oito anos sem receber um único voto. Também cabe ao novo Congresso rever as regras internas que esvaziaram o debate parlamentar.
A nova legislatura deveria ter ainda a decência de voltar a fazer valer os instrumentos de controle do decoro parlamentar, principalmente quando os seus se mostram corruptos ou flertam com práticas não republicanas. Conselhos de Ética não existem para servir de enfeite nos corredores do Congresso, enquanto denúncias contra deputados e senadores mofam sem consequência, como foi feito nos últimos quatro anos.
O Congresso que encerra seu mandato mostrou que reformas consideradas impossíveis podem sair do papel. Depois de décadas de tentativas frustradas, aprovou a reforma tributária do consumo.
O exemplo está dado. A nova legislatura terá força política e quatro anos pela frente. Que ninguém alegue, ao fim deles, que faltaram tempo, votos ou poder para fazer o que precisava ser feito.

