Lista dos deputados estaduais não reeleitos tem decano, pastor, 85% do PSDB e sobrinho de Eunício
Escrito por Marcos Moreira / DARIONORDESTE
A Assembleia Legislativa do Ceará (Alece) registrou 14 deputados estaduais que não conseguiram a reeleição no pleito eleitoral desse domingo (4). A lista de parlamentares derrotados inclui nomes tradicionais da política, como Fernando Hugo (Republicanos), político mais antigo da Casa.
Entre os partidos, o PSDB foi o que mais registrou derrotados: seis dos atuais sete parlamentares tucanos — cerca de 85% da bancada — não conseguiram a reeleição. Do grupo, apenas Emília Pessoa (PSDB) seguirá na Casa, sendo acompanhada pelos estreantes Felipe Vasques (PSDB) e Davi Benevides (PSDB).
Outro caso, o PSB registrou três deputados estaduais que não conseguiram mais um mandato: Salmito, Leonardo Pinheiro e Lucilvio Girão. Por outro lado, o partido seguirá como a maior bancada da Casa após conquistar 13 cadeiras no pleito eleitoral.
O MDB também está na lista: os deputados estaduais Danniel Oliveira — sobrinho de Eunício Oliveira, e Apóstolo Luiz Henrique, pastor evangélico; não retornam para a Assembleia no próximo ano. O primeiro conquistou 81.259 votos, enquanto o segundo obteve 8.918 votos.
Além disso, como mostrou o PontoPoder, outros 12 deputados estaduais resolveram não disputar a reeleição. Parte das decisões envolve a entrada de parlamentares na disputa por vagas na Câmara dos Deputados ou Senado Federal, além dos que não concorreram com o intuito de abrir espaço a aliados políticos.
Veja os deputados estaduais derrotados nesta eleição
- Danniel Oliveira (MDB) - 81.259 votos
- Salmito (PSB) - 53.388 votos
- Bruno Pedrosa (PT) - 51.229 votos
- Leonardo Pinheiro (PSB) - 48.151 votos
- Lucilvio Girão (PSB) - 46.969 votos
- Queiroz Filho (PSDB) - 35.768 votos
- Cláudio Pinho - 35.127 votos
- Júlio César Filho (PT) - 33.473 votos
- Felipe Mota (PSDB) - 32.767 votos
- Fernando Hugo (Republicanos) - 31.224 votos
- Sargento Reginauro (PSDB) - 27.656 votos
- Antônio Henrique (PSDB) - 25.242 votos
- Heitor Férrer (PSDB) - 22.016 votos
- Ap. Luiz Henrique (MDB) - 8.918 votos
Deputados estaduais que não disputaram a reeleição
- Agenor Neto (MDB) - Apoiou o deputado estadual eleito Ilo Neto (PT), filho dele;
- Alcides Fernandes (PL) - Foi candidato ao Senado Federal pela chapa de Ciro Gomes (PSDB), mas não conseguiu ser eleito;
- Alysson Aguiar (PCdoB) - Apoiou o deputado estadual eleito Gadyel (PT), irmão dele e deputado estadual eleito;
- Carmelo Bolsonaro (PL) - Foi eleito como deputado federal e apoiou a deputada estadual eleita Bella Carmelo (PL), esposa dele;
- Fernando Santana (PT) - Foi eleito como deputado federal;
- Juliana Lucena (PDT) - Decidiu não disputar a reeleição e assumiu a Secretaria das Mulheres no Governo Elmano;
- Larissa Gaspar (PT) - Foi candidata à deputada federal, mas não conseguiu ser eleita;
- Luana Régia (PSD) - Foi candidata à deputada federal, mas não conseguiu ser eleita;
- Lucinildo Frota (PL) - Foi candidato a deputado federal, mas não conseguiu ser eleito;
- Oriel Filho (PT) - Apoiou a deputada eleita Laís Nunes (PT), ex-prefeita de Icó e cunhada dele;
- Renato Roseno (Psol) - Foi candidato a deputado federal, mas não conseguiu ser eleito;
- Stuart Castro (Republicanos) - Decidiu não disputar a reeleição.
Confira a lista de deputados estaduais eleitos em 2026
- Tancredo Dos Santos (PL) - 151.396 votos;
- Gabriel Biologia (Psol) - 141.749 votos;
- Bella Carmelo (PL) - 130.802 votos;
- Abreu Júnior (PL) - 127.034 votos;
- Romeu Aldigueri (PSB) - 112.303 votos;
- Liziany Medeiros (PT) - 102.659 votos;
- Davi De Raimundão (MDB) - 95.814 votos;
- Lais Nunes (PT) - 92.485 votos;
- Osmar Baquit (PSB) - 90.218 votos;
- Sérgio Aguiar (PSB) - 88.148 votos;
- Jade Romero (PT) - 85.490 votos;
- Zezinho Albuquerque (PP) - 82.693 votos;
- Moses Filho (União) - 82.423 votos;
- Catanho (PT) - 80.441 votos;
- Guilherme Landim (PSB) - 80.192 votos;
- Jô Farias (PT) - 79.829 votos;
- De Assis Diniz (PT) - 76.854 votos;
- Domingos Filho (PSD) - 74.914 votos;
- Jeov
Cúpula do PT responsabiliza Sidônio por erros na campanha de Lula e quer guinada na comunicação
Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP
À procura de culpados pela passagem do senador Flávio Bolsonaro (PT) para o segundo turno da eleição ao Palácio do Planalto na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a cúpula do PT vai dar uma guinada na comunicação da campanha. Um dia depois de assistir à onda bolsonarista invadir o País, Lula participou de duas reuniões: uma mais reservada, apenas com o seleto grupo de coordenadores de sua campanha, e outra com aliados do PT e de outros partidos. Sem meias palavras, a ordem de Lula para a equipe foi direta: “mudar tudo” para conseguir se aproximar dos jovens, das mulheres e do espectro ideológico de centro. O núcleo de coordenação da campanha será ampliado, com a participação de partidos aliados, como o PSB do vice-presidente Geraldo Alckmin, e terá maior presença de integrantes do Nordeste, como o líder do PT no Senado, Camilo Santana.
No inventário de erros do primeiro turno, dirigentes do PT responsabilizam o ministro da Comunicação Social, Sidônio Palmeira, por boa parte dos problemas. Sidônio é sócio do publicitário Raul Rabello, que assina a propaganda eleitoral de Lula.
Ao menos por enquanto, não se discute a substituição de Rabello, mas, sim, uma parceria com o marqueteiro Otávio Antunes, dono de um estilo mais agressivo de comunicação. O publicitário foi responsável pelos programas eleitorais de Fernando Haddad (PT) ao governo de São Paulo.
Haddad perdeu a eleição ao Palácio dos Bandeirantes, no primeiro turno, para o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), mas essa fatura não foi debitada na conta de Antunes. O publicitário foi o criador da campanha sobre a “taxação BBB” – bilionários, bancos e bets –, lançada em meados do ano passado, em defesa da cobrança de impostos dos mais ricos. com a isenção dos mais pobres.
O processo de “caça às bruxas do PT” atribui a Sidônio a responsabilidade por convencer Lula a extinguir todas as apostas online no País, as chamadas bets, às vésperas do primeiro turno.
Coordenador da campanha de Lula, o presidente do PT, Edinho Silva, e o Ministério da Fazenda foram contra a medida radical, sob o argumento de que uma iniciativa assim, tomada de forma atabalhoada, não apenas provocaria impacto sobre a arrecadação federal como empurraria grande parte do eleitorado para o colo de Flávio.
A ideia inicial previa apenas a proibição dos cassinos online, como o jogo do Tigrinho. Mas Sidônio bateu o pé, mesmo comprando briga com Edinho e com a Fazenda. Procurado, o ministro não se manifestou sobre a insatisfação manifestada pelos petistas.
Além disso, o diagnóstico do PT é o de que o trabalho de redes sociais da campanha de Lula, no primeiro turno, foi pífio, possibilitando o avanço de Flávio nessa seara, até mesmo no exterior. Edinho chegou a acusar, sem provas, tentativas de interferência dos Estados Unidos e de outros países na disputa presidencial.
Como mostrou o Estadão, o trabalho de redes da campanha ficou fragmentado. A primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tem muita influência e dá palpite em tudo o que é relacionado à imagem do presidente, prática que é criticada, nos bastidores, por muitos dirigentes do PT. Os perfis de Lula nas redes sociais são administrados pelo fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert, e pela jornalista Nicole Briones, que trabalha no PT e cuida das plataformas digitais. Os dois já se desentenderam com Janja.
Segundo turno exige comedimento do Judiciário
Por Editorial / O GLOBO
Definido o resultado do primeiro turno, com o senador Flávio Bolsonaro (PL) chegando à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por diferença de quase 2 pontos percentuais, a disputa ao Palácio do Planalto entra agora numa fase decisiva. Os dois candidatos confrontarão suas ideias por meio de propaganda eleitoral, entrevistas e debates, para dar aos eleitores oportunidade de escolher entre os dois projetos. É fundamental que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) demonstrem sensatez e comedimento em suas decisões relacionadas ao pleito, de modo a não interferir na vontade do eleitor. Devem agir sobretudo nos casos absolutamente necessários, para impedir ou corrigir injustiças.
Infelizmente, não foi o que aconteceu no primeiro turno, quando os tribunais tomaram decisões que prejudicaram o bom andamento da campanha e deram margem a interpretações de favorecimento. Foi, por isso, acertada a determinação do ministro Edson Fachin, presidente do STF, de reforçar regras para evitar que pedidos fossem destinados a relatores específicos, com apresentação de petições em processos já em andamento na Corte. A resolução estabelece uma triagem para as manifestações. Elas só poderão ser vinculadas à ação depois de análise da Secretaria Judiciária e de validação da presidência do Supremo. A medida na verdade reforça regras que já existiam, mas não vinham sendo respeitadas.
O presidente do TSE, ministro Nunes Marques, havia pedido a Fachin a criação de um filtro na distribuição de petições com pedidos urgentes relacionados às eleições, incluindo as apresentadas em processos em andamento. A solicitação ocorreu depois dos desdobramentos do caso Nossa Senhora Aparecida, em que o ministro Flávio Dino, do STF, derrubou uma decisão do ministro André Mendonça, do TSE. A decisão de Dino foi depois suspensa por outra decisão do ministro Luiz Fux, também do STF, até que o caso retornou para uma decisão definitiva do plenário do TSE.
A intervenção do Supremo em atribuições da Corte eleitoral já havia ocorrido no despacho do ministro Gilmar Mendes que manteve o reajuste de 15% do Bolsa Família concedido pelo governo a menos de um mês da eleição. Gilmar desarquivou um processo para tomar a decisão, antes que o caso fosse apreciado pela Justiça Eleitoral, como seria o trâmite regular.
A intenção de Fachin é evitar a sobreposição de competências, de modo que as demandas sigam o curso regular pelos caminhos do Judiciário. Se respeitadas, as normas poderão coibir o vaivém de decisões e a confusão de liminares que tumultuaram a campanha no primeiro turno. No segundo turno, é esperado que surjam conflitos e que sejam levados aos tribunais. Cada Corte deve exercer suas atribuições com serenidade e o necessário cuidado para não intervir na competência alheia. Seria uma lástima se episódios de intervenção com potencial para desequilibrar a disputa se repetissem. É preciso haver mais debate de propostas e menos ingerência do Judiciário na campanha.
Fachada do Supremo Tribunal Federal — Foto: Cristiano Mariz / Agência O Globo
Orgulho e preconceito
Por Merval Pereira / O GLOBO
Sempre se soube que o Brasil é um país conservador, mesmo que seja governado pela quinta vez por um presidente de esquerda (três vezes Lula e duas vezes Dilma). A supremacia surpreendente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial, no domingo, não quer dizer, porém, que a maioria dos cidadãos seja de extrema direita. Assim como as vitórias de Lula não comprovam que a maioria daqueles momentos era de esquerda, agora também a extrema direita não define a maioria dos que votaram em Flávio.
Lula só foi eleito presidente, nas três vezes anteriores, porque voltou-se para o centro. Do “Lulinha, Paz e Amor” ao apelo a um governo de união nacional para proteger a democracia, adaptou sua agenda pública ao centro, dando lugar até à direita em certos momentos. A insinuação agora de que pode nomear o vice Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato vai nessa direção.
Talvez seja tarde demais, pois um dos seus erros fundamentais foi vender um governo de união nacional e entregar um governo petista como os demais que montou, com exceção do primeiro, que, sob a égide do ex-ministro Antonio Palocci, foi inteligente para manter-se ao centro, continuando a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Assim como o economista Joaquim Levy foi engolido pela máquina do PT quando nomeado ministro da Fazenda da então presidente Dilma Rousseff, também Alckmin terá o mesmo destino se Lula conseguir dar a volta por cima e vencer a eleição no segundo turno.
Talvez a razão mais profunda para o desgaste do governo do PT seja exatamente esta, a pretensão de seus dirigentes de ser os donos da verdade, os que sabem guiar o povo para sua redenção. O cansaço com Lula vem desse sentimento de subalternidade com que os não petistas são tratados por seus governos. Ou são manipulados pelas benesses sociais que o governo distribui, ou são relegados a segundo plano.
Há um sentimento de desprezo pelos não convertidos, que transmite uma sensação de não pertencimento a essa parte da sociedade. Lula tem sido incapaz de governar para todos, de ampliar sua base de apoio, trata com superioridade condescendente os que não o seguem. Nem ele nem o PT tentam entender os que os criticam, considerando-os inimigos, nem sequer adversários. A arrogância esteve presente até as últimas semanas da campanha, enquanto Lula considerava uma afronta à sua história a previsão de que poderia perder para Flávio.
O desprezo pelos que consideram inferiores contrasta com o fervor com que trata os excluídos. Se tivesse a mesma empatia com os que discordam de suas políticas, talvez pudesse encontrar o diálogo que o alçaria à altura dos estadistas. Não falo dos que o consideram comunista ou dos extremistas que conseguiram manipular a direita e os centristas. Exemplar dessa arrogância petista é a frase de Lula:
— Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa. Claro que Flávio não é um gênio, longe disso, mas também Lula não é imbatível. O que falta a ele e aos seus é tentar entender por que votaram no outro, e não nele. Lembro-me de quando Lula tinha mais de 80% de aprovação, e seus acólitos provocavam: — Em que planeta vivem os críticos?
Viviam neste planeta que foi se formando à medida que o governo Lula os foi desprezando e se esqueceu de ampliar sua base política para fechar-se numa redoma com os seus.
A união nacional que mobilizou os eleitores independentes na eleição de 2022 foi um estelionato eleitoral. Os que representavam a centro-direita em seu ministério foram relegados a segundo plano, assim como no governo Dilma Rousseff, a ponto de o vice-presidente Michel Temer ter se queixado por escrito de que era tratado como “um vice decorativo”. O mesmo acontecera com Levy, e aconteceu agora com as ministras Marina Silva e Simone Tebet.
Lula durante a votação neste domingo — Foto: NELSON ALMEIDA/AFP
Bolsonarismo terá poder inédito no Congresso
Para o mercado financeiro, o novo presidente da República já está definido: será Flávio Bolsonaro. Nesta segunda (5), os juros futuros recuaram cerca de 1 ponto percentual, impulsionando a alta de 7,7% do Ibovespa e a queda de 4,5% do dólar. O PL de Flávio, além disso, obteve marcas históricas no âmbito do Congresso Nacional.
No Senado, o PL construiu uma bancada recorde de 28 cadeiras para a legislatura que começa em 2027, quase o dobro das 15 que detém atualmente. A sigla superou, assim, as 27 que o PMDB ostentou em 1999, antigo maior patamar desde a redemocratização.
Também foi recorde a bancada do PL na Câmara, com 121 deputados eleitos, pouco mais de 20% acima dos 98 atuais. O partido deixou para trás todos os concorrentes desde 1990, perdendo apenas para as 260 vagas conquistadas pelo PMDB em 1986.
As façanhas do PL se estenderam no plano individual. Em uma lista puxada por Nikolas Ferreira (Minas Gerais) e Lucas Pavanato (São Paulo), ambos com mais de 3 milhões de eleitores, a agremiação atingiu votações recordes de candidatos a deputado federal em nada menos que oito estados.
Com o êxito nas urnas, o PL de Flávio Bolsonaro precisará de poucos aliados para dominar a Câmara e o Senado.
Siglas já próximas do bolsonarismo, como União Brasil, PP, Republicanos, Podemos e Novo, somam entre si 22 senadores e 166 deputados. Ou seja, um bloco liderado pela agremiação de Flávio Bolsonaro poderia partir de um mínimo já majoritário em ambas as Casas: 50 das 81 vagas no Senado e 287 das 513 na Câmara.
Do lado oposto do espectro ideológico, uma possível aliança de esquerda teria dificuldades de ultrapassar 30 senadores, puxados pelas 9 cadeiras do PT, e 115 deputados, 70 dos quais petistas.
Não parece coincidência que 35 dos 54 eleitos para o Senado sejam defensores do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal —ao todo, a Casa terá 49 nomes favoráveis à medida, apenas 5 abaixo do mínimo necessário para aprová-la.
De antiga pauta bolsonarista de ataque às instituições, o tema ganhou relevo com sucessivos abusos da corte e, mais recentemente, com a proteção corporativista a ministros envolvidos no escândalo do Banco Master.
Sob desgaste, integrantes do STF têm buscado iniciativas meritórias nos últimos dias. O presidente Edson Fachin baixou norma para coibir manobras pelas quais advogados selecionam os magistrados que examinam seus pedidos, burlando o sistema de sorteio. Já Gilmar Mendes cobrou dos tribunais medidas, já tardias, contra irregularidades no julgamento de precatórios.
A pressão sobre o Supremo será obviamente maior com Flávio no Planalto. Tudo indica que ele indultará o pai —decisão moralmente infame diante da tentativa de golpe, ainda que juridicamente amparada por se tratar de prerrogativa constitucional do presidente da República.
Flávio Bolsonaro consolida apoios na direita e no centrão enquanto Lula sobe tom contra STF e mira quem não votou
O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), recebeu diversos sinais de apoio da direita e do centrão um dia após líderar a votação no primeiro turno, realizado no domingo (4), e pretende reforçar a mobilização da própria base por meio de nomes eleitos do partido.
Seu concorrente, o presidente Lula (PT), fez reunião com aliados nesta segunda-feira (5) para tentar reorganizar sua campanha e traçou como objetivo no segundo turno atrair eleitores que não votaram —a abstenção foi recorde, de mais de 33 milhões— e ampliar a rejeição do adversário.
Pressionado pelo resultado desfavorável, o petista também elevou o tom de críticas ao STF (Supremo Tribunal Federal), dizendo carregar a "promiscuidade" da corte na sua campanha.
Flávio já recebeu respaldo de Romeu Zema (Novo) e deve ter a adesão de Ronaldo Caiado (PSD) em encontro marcado para esta terça-feira (6) em Goiânia, apesar de seu partido se declarar neutro. O ex-presidente Michel Temer (MDB) divulgou vídeo para apoiá-lo, e expoentes do centrão aproveitaram a onda de direita nas urnas para reforçar a aproximação.
Em Brasília, o filho de Jair Bolsonaro recebeu o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), considerado um dos cabos eleitorais mais importantes e com quem deverá viajar pelo Brasil.
"Vamos ajudar a organizar os eventos e estruturar o estado para receber o Flávio no maior colégio eleitoral do Brasil", disse Tarcísio em entrevista à CNN Brasil.
A federação partidária formada por União Brasil e PP terá uma reunião nesta terça-feira (6), em Brasília, com as bancadas de deputados e senadores eleitos. Os dois partidos sinalizaram apoio a Flávio nacionalmente, mas tolerando a associação de parte de seus diretórios estaduais a Lula.
Presidente nacional do PP, o senador Ciro Nogueira (PI), que não conseguiu se reeleger, defendeu "apoio total e irrestrito" ao candidato do PL. "Votei no Flávio, tenho uma lealdade enorme ao presidente Bolsonaro", afirmou em entrevista à TV Cidade Verde.
A expectativa é que outros partidos do centrão sigam o mesmo caminho. A campanha busca o apoio do Republicanos e espera consolidar o embarque do partido, presidido pelo deputado federal Marcos Pereira (SP), nesta semana.
A campanha de Flávio teve reuniões com as equipes de comunicação e jurídica. Participaram o coordenador-geral, senador Rogério Marinho (PL-RN), o marqueteiro Duda Lima, e os conselheiros econômicos Daniella Marques e Adolfo Sachsida.
Marinho afirmou que, nesta primeira semana, pretende consolidar apoios de partidos e candidatos que não apoiaram Flávio no primeiro turno. Os governadores eleitos pelo PL devem viajar a Brasília para encontros com o presidenciável. Marinho também quer que a bancada eleita para o Congresso siga em campanha.
"Hoje passamos o dia conversando com esses parlamentares e mostrando a importância de que a campanha tem que continuar nas próximas três semanas", disse.
Além de Tarcísio, nomes de peso, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vice Alfredo Gaspar (PL-RN), devem viajar o Brasil de forma independente e separada do senador, multiplicando os estados a serem visitados.
Flávio terminou o primeiro turno com 47% dos votos válidos, contra 45% de Lula. Nunca na história do Brasil um candidato que chegou na frente no primeiro turno foi derrotado no segundo.
O mesmo fenômeno sobre expectativa de poder faz com que aliados de Lula relatem, em conversas reservadas, temor com a possibilidade de líderes regionais, como prefeitos de partidos de centro, que apoiaram o petista no primeiro turno migrem para o lado adversário.
O presidente da República disse nesta segunda ser preciso mirar as abstenções. "Tem uma coisa que nós temos que trabalhar: são 30 milhões de pessoas que não foram votar. O que aconteceu com essas pessoas? Eles perderam o sentido de responsabilidade? Eles não foram convencidos? Eles não gostam dos candidatos? Porque se fosse assim, teria surgido uma terceira via, e não surgiu terceira via", questionou Lula.
O petista recebeu dezenas de aliados, entre candidatos eleitos e derrotados, em um hotel próximo à Esplanada dos Ministérios, também em Brasília. Participaram lulistas como os governadores reeleitos Jerênimo Rodrigues (PT-BA) e Rafael Fonteles (PT-PI); os senadores eleitos Rui Costa (PT-BA) e Jaques Wagner (PT-BA); e os candidatos derrotados Fernando Haddad (PT-SP), Simone Tebet (PSB-SP) e Marina Silva (Rede-SP).
A reunião foi planejada para identificar problemas na campanha de primeiro turno e descobrir como corrigi-los.
Uma das principais ideias é aumentar a rejeição do eleitorado a Flávio Bolsonaro. O plano já foi tentado no primeiro turno, mas não evitou que o adversário tivesse mais votos que o petista. O grupo político de Lula tenta encontrar um novo jeito de atingir esse objetivo.
Em pronunciamento durante a reunião, o petista indicou que deve intensificar as críticas ao STF até o segundo turno. A corte está com a imagem desgastada por causa do escândalo do Banco Master.
"Estamos carregando nas costas uma coisa muito grave que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois dessas denúncias", disse Lula. O petista também indicou que haverá um recrudescimento dos ataques ao adversário.
Os responsáveis pelo marketing político, o publicitário Raul Rabelo e o ministro Sidônio Palmeira (Secom), estão entre os maiores alvos de cobrança dos aliados do presidente. A avaliação é que eles demoraram para imprimir na campanha o tom de embate político que a eleição exigia.
A equipe de campanha de Lula esteve rachada ao longo de toda a disputa. Na comunicação, por exemplo, havia até quatro núcleos diferentes com atuação própria. Houve falta de material, como santinhos e bandeiras, no início da propaganda eleitoral.
Em conversas reservadas, lulistas têm criticado presidente do PT e coordenador de campanha, Edinho Silva, e cobrado mais pulso para que a equipe trabalhe toda no mesmo sentido.
Outra cobrança de aliados do presidente é que ele dê espaço para candidatos e articuladores bem-sucedidos nos estados –o nome mais citado é o do ex-ministro da Educação Camilo Santana– opinarem sobre o tom da campanha e as decisões políticas.
No caso da política, o principal erro apontado por petistas foi do próprio Lula. Trata-se da insistência, durante meses, em tentar lançar o ex-senador e agora ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Rodrigo Pacheco como governador de Minas Gerais. Deu errado, e o presidente precisou improvisar a candidatura de Patrus Ananias (PT), que seria derrotado no primeiro turno, para ter um palanque no estado.
Petistas ouvidos pela reportagem temem que o resultado do primeiro turno desanime apoiadores de Lula nos estados, o que reduziria o volume de campanha.
A primeira-dama, Janja Lula da Silva, também é alvo de críticas. Ela teve destaque ao longo de toda campanha. Na reta final, passou a se referir a Nikolas Ferreira, o mais votado do país, como "piá de bosta".
Parte dos aliados do presidente diz acreditar que a proibição das apostas online prejudicou a votação do petista. Houve forte reação de clubes de futebol, influenciadores digitais e empresas de mídia contra a medida. A decisão de vetar as bets, como são conhecidas as operadoras desses jogos, foi do próprio Lula.
O risco de derrota tem feito mesmo decisões que normalmente não são questionadas se tornarem alvo de críticas internas. Aliados de Lula reclamaram à Folha, por exemplo, da grandiosidade do evento em São Paulo onde o presidente acompanhou a apuração dos votos.
Caio Spechoto , Catia Seabra , Mariana Brasil e Carolina Linhares / FOLHA DE SP

