'Tá querendo trair o Camilo e, lá atrás, traiu até o Lula', dispara Capitão Wagner sobre Cid Gomes
O candidato ao Senado Federal Capitão Wagner (União Brasil) alfinetou o adversário Cid Gomes (PSB) ao relembrar antigas posturas adotadas pelo postulante, classificando-o como "traidor". As declarações foram dadas nesta quinta-feira (1º), durante o Debate PontoPoder com candidatos ao cargo de senador.
Conforme Wagner, haveria uma série de nomes que foram, ou ainda serão, traídos pelo senador e candidato à reeleição. O assunto surgiu durante o segundo bloco, enquanto os políticos presentes abordaram o abandono do projeto do Aquário de Fortaleza durante o governo Cid Gomes, bem como sua ausência no debate.
Ao todo, três figuras foram enumeradas pelo candidato: Ciro Gomes (PSDB), irmão de Cid e postulante ao Governo do Estado pela chapa opositora nessa eleição; Camilo Santana, sucessor de Cid na época de governador e atual senador; e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República e candidato à reeleição.
Debate PontoPoder
Os candidatos para as duas vagas destinadas ao Ceará no Senado Federal participaram, nesta quinta-feira (1º), do Debate PontoPoder, com transmissão pelo Diário do Nordeste, Verdinha FM e TV Diário.
Foram convidados os postulantes que atenderam aos critérios de representatividade para participação no debate e também somam mais de 5% de intenção de voto na pesquisa estimulada mais recente do Instituto Quaest, contratada pela TV Verdes Mares e publicada em 23 de setembro.
Apenas Alcides Fernandes (PL) e Capitão Wagner (União Brasil) compareceram ao momento eleitoral. A assessoria de Cid Gomes informou que, “em razão de alterações na agenda desta reta final de campanha, o senador não poderá participar do debate promovido hoje pelo Sistema Verdes Mares”.
Já a coordenação da campanha de Luizianne Lins (Rede) informou que “ela não poderá participar do debate promovido pelo Sistema Verdes Mares, nesta quinta (1º), devido à alteração na agenda de campanha, que prevê compromissos no Cariri ao lado do governador Elmano”.
*Estagiária sob supervisão do jornalista Wagner Mendes.
Congresso se dá folga
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Nesta semana, o Congresso Nacional vai completar um mês de férias. Não são férias oficiais, pois não estão previstas nem na Constituição nem no regimento. Deputados e senadores simplesmente decidiram que, por causa das eleições, era hora de deixar Brasília para cuidar das próprias campanhas.
A paralisação foi planejada. Ainda em julho, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), acertaram que, depois do recesso parlamentar, haveria apenas duas semanas de “esforço concentrado” antes das eleições. A última terminou no início de setembro.
O País, evidentemente, não parou junto com o Congresso. Prazos continuam correndo, empresas seguem abertas e milhões de brasileiros cumprem suas jornadas de trabalho. Tampouco desapareceram os assuntos que caberia ao Legislativo enfrentar. O mandato parlamentar termina em janeiro de 2027, não quando começa a campanha eleitoral.
Este jornal advertiu, ainda em julho, para o absurdo de reduzir o segundo semestre legislativo a duas semanas de “esforço concentrado”. O resultado está aí. Primeiro, Câmara e Senado acumularam matérias e comprimiram votações importantes em poucos dias. Depois, simplesmente deixaram de votar. Legislar virou atividade a ser encaixada entre os compromissos eleitorais.
O dinheiro público, ao contrário dos parlamentares, não tirou férias. Deputados e senadores continuam recebendo subsídio de R$ 46.366,19 por mês. As cotas parlamentares e as verbas extras continuam sendo usadas, gabinetes permanecem abertos e toda a estrutura do Congresso segue custeada pelos brasileiros. Só em setembro, quando o plenário da Câmara já estava esvaziado, deputados haviam registrado R$ 2,9 milhões em despesas da cota parlamentar.
O esvaziamento é tamanho que chegou aos servidores. A Câmara autorizou que funcionários de alguns setores cumpram remotamente até 20 das 40 horas semanais enquanto não houver sessões de plenário. A própria Casa justificou a medida pela necessidade de economizar e racionalizar o uso de uma estrutura que ficou ociosa. Os servidores mantêm a jornada integral, mas já não precisam passar todo esse tempo numa Câmara sem deputados.
Parlamentares candidatos precisam fazer campanha e percorrer seus Estados, mas isso não lhes dá uma licença coletiva remunerada. Concorrer a outro mandato foi uma escolha de cada deputado e senador e não os dispensa da obrigação de cumprir o atual.
Não é a primeira vez que o Congresso inventa um recesso que não existe. Há os esvaziamentos em feriados e festas juninas. Há o velho “recesso branco”. Em ano eleitoral, a prática ganha outra dimensão: os interesses de quem pretende continuar no poder passam à frente do trabalho para o qual essas pessoas já foram eleitas.
O mínimo que se espera é que deputados e senadores que pretendem permanecer no poder exerçam até o fim o mandato que os brasileiros já lhes deram.
A farra dos precatórios pode ser muito maior
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O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, atendeu ao pedido do ministro Gilmar Mendes e encaminhou uma proposta para fiscalizar todos os precatórios expedidos por tribunais regionais federais contra a União nos últimos anos. Precatórios são ordens de pagamento emitidas pelo Judiciário para cobrar de um ente público uma dívida decorrente de condenação judicial definitiva. A decisão do STF visa a desmontar o castelo de cartas que o empresário Daniel Vorcaro montou para sustentar o Banco Master à custa da União, mas a Corte desconfia – com razão – de que esse mesmo artifício possa ter sido utilizado por outros agentes do mercado.
Foi por meio de “pré-precatórios”, títulos emitidos por instâncias judiciais inferiores antes que os processos que deram origem a eles recebessem uma sentença definitiva, que o banqueiro Daniel Vorcaro inflou artificialmente os ativos do Banco Master e fez com que o patrimônio da instituição financeira se multiplicasse em poucos anos.
Vorcaro tinha preferência por papéis vinculados ao setor sucroalcooleiro, que reivindicava indenização por perdas impostas por planos econômicos das décadas de 1980 e 1990. Como esses precatórios levavam décadas para se materializar, muitas dessas usinas vendiam esses direitos creditórios, com desconto, para terceiros no mercado secundário.
A teia de relações que o banqueiro construiu no Judiciário foi fundamental para apressar os pagamentos. Para isso, magistrados chegaram ao ponto de ignorar uma tese de repercussão geral, aprovada pelo STF em 2020, segundo a qual só caberia indenização às usinas que comprovassem prejuízos por meio de prova pericial.
Ainda que os processos não tivessem transitado em julgado, Vorcaro contabilizava os papéis em balanço pelo valor de face e criava lastro para captar dinheiro de outras formas, como por meio de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) que pagavam 140% do CDI, muito acima da média do mercado. Nas palavras do ministro Gilmar Mendes, o esquema revelou um modelo de negócios “parasitário” que drenou recursos do Orçamento e as economias de milhares de investidores.
A questão é que Vorcaro não parece ter sido o único a se beneficiar desse modelo. O ministro Gilmar Mendes quer aproveitar o julgamento de um recurso sob sua relatoria no Supremo para definir um entendimento sobre precatórios relacionados à área da saúde. Nesse caso, instituições filantrópicas e Santas Casas de Misericórdia querem ser remuneradas pela Tabela Única Nacional de Equivalência de Procedimentos (Tunep), referência para planos de saúde, e não pela tabela do Sistema Único de Saúde (SUS).
Não se tem notícia de que Vorcaro tenha adquirido esses papéis. No entanto, assim como os precatórios do setor sucroalcooleiro, a maioria dos processos da área de saúde não está mais nas mãos dos hospitais, mas de fundos de investimento e escritórios de advocacia que os adquiriram no mercado secundário. Segundo o Ministério da Saúde, isso pode consumir R$ 24,5 bilhões anuais do orçamento da União na área de Saúde.
Não é de hoje que o Executivo reclama do peso cada vez maior dos precatórios nas contas públicas. Tornou-se célebre a frase do então ministro da Economia, Paulo Guedes, que, ao elaborar a peça orçamentária de 2022, classificou essas despesas como um “meteoro” e optou pelo calote, que, obviamente, não resolveu o problema e ainda gerou outro.
Se a venda dos precatórios no mercado secundário já era uma realidade naquela época, a imposição de um teto para o pagamento dessas dívidas fez com que esse negócio ganhasse outra dimensão. Alargar um horizonte de pagamentos que já era excessivamente longo fez a venda desses papéis disparar e gerou deságios agressivos, entre 10% e 20% do valor de face.
É no mínimo curioso, no entanto, que a regularização do fluxo de pagamentos e a quitação dos precatórios atrasados pelo governo Lula não tenha reduzido o ritmo de emissões e o estoque desses títulos. Segundo a Instituição Fiscal Independente (IFI), a expedição de precatórios pelo Judiciário aumentou 36% entre 2022 e 2026 e mais de 300% desde 2010.
Não há dúvida de que Vorcaro enxergou nesse mercado e no conluio com o Judiciário uma oportunidade. O que o STF quer saber é se ele não foi o único espertalhão da história.
Decisões do TSE e do STF protegem Lula, matam debate na Globo e sugerem ‘fechar TSE’; veja análises
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As decisões dos ministros Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acabaram protegendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, indicam um recado de que se pode “fechar o TSE” e acabaram por matar o debate que seria realizado na Globo na noite desta quinta-feira, 1. A avaliação é dos colunistas do Estadão. A emissora cancelou o encontro apontando haver interferência judicial nas regras, que já haviam sido acordadas com as campanhas. Entidades de imprensa dizem que decisões judiciais sobre debate são agressão à liberdade de imprensa.
Gilmar Mendes determinou que a emissora era obrigada a chamar Renan Santos (Missão), mesmo com o partido não tendo representação parlamentar suficiente segundo as regras eleitorais. Já Estela Aranha proibiu a exibição do púlpito vazio e as perguntas dos demais candidatos ao ausente. Flávio Bolsonaro cancelou sua participação após as decisões.
Raquel Landim: Lula escolheu o púlpito vazio e foi protegido pelo Judiciário
Para a colunista, o TSE deixou de ser árbitro e tornou-se ator da disputa eleitoral. Segundo Raquel Landim, Lula escolheu deixar o púlpito vazio no debate da Globo e sabia que poderia ser questionado pelos demais oponentes, sem direito de resposta, pelo simples fato de que não estaria lá.
“Foi dado ao presidente em busca da reeleição a oportunidade de, em horário nobre, expor suas propostas à população e compará-las com os concorrentes. Ele decidiu não comparecer por cálculo político. Empatado nas pesquisas de intenção de voto, não quis se expor e se tornar alvo dos concorrentes”, diz a colunista.
Roseann Kennedy: Manobras no STF deixam recado: fechem o TSE; o que importa é ter ministro favorito
Para Roseann Kennedy, manobras jurídicas a três dias do primeiro turno acendem mais um alerta institucional e enfraquecem a Corte eleitoral. Segundo a colunista, a Corte — que deveria ser a protagonista nesse período de eleições — está com seu poder esvaziado.
“Além disso, se depender de alguns magistrados que no Supremo são de grupo rival a Nunes Marques e a André Mendonça, respectivamente presidente e vice do TSE, as decisões desses dois serão relegadas à insignificância, para que prevaleçam outras determinações do gosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva”, avalia.
Para a colunista, Flávio Dino e Gilmar Mendes, mesmo não integrando o TSE, usam de interferência ostensiva, o que abre margem para consolidar a estratégia de acionar “meu ministro favorito”.
Eliane Cantanhêde: TSE e STF salvam Lula e matam principal debate e fica zero a zero para Lula e Flávio
Eliane Cantanhêde comenta que o principal debate da campanha foi boicotado pelos dois candidatos favoritos, e não apenas por eles. A colunista lembra que os absurdos têm se acumulado em 2016, “numa disputa frenética sobre qual o pior deles e quem é a autoridade mais audaciosa ao produzi-los”.
“O presidente Lula já tinha confirmado que não iria e, na última hora, seu oponente Flávio Bolsonaro também decidiu cair fora, diante de duas decisões bastante questionáveis, uma da ministra Estela Aranha, do TSE, outra do ministro Gilmar Mendes, do STF, supostamente, para dar “equilíbrio” de condições. Zero a zero para Lula e Flávio. E as regras democráticas, onde ficam?“, questiona Cantanhêde.
Para ela, “o TSE e o STF, através de Gilmar, favoreceram claramente Lula com as duas canetadas de última hora, supostamente para dar equilíbrio às condições entre ele e Flávio, porque, como estava previsto e organizado, o debate permitiria que todos os presentes mirassem em Lula, o incumbente e único candidato de esquerda.
Ricardo Corrêa: Debate da Globo: Vale tudo para os ministros do TSE e do STF, menos as regras eleitorais
Para o colunista, decisões de Estela Aranha e Gilmar Mendes ampliam o cenário de inovação completa no direito eleitoral brasileiro nas eleições de 2026. Segundo ele, as liminares interferem nas regras estabelecidas pela emissora em conjunto com todas as campanhas e atropelam uma decisão unânime do próprio STF, além de toda jurisprudência do TSE sobre os debates.
“O efeito mais evidente e prático dessa medida é o esvaziamento do interesse de emissoras de fazerem debates ao longo dos próximos processos eleitorais, considerando que não haverá qualquer regra definida com as campanhas, que sejam condizentes com a legislação, e que não possam ser derrubadas a bel prazer de um juiz daqui ou dali. A própria decisão da Globo de cancelar o encontro desta quinta-feira é um recado claro nesse sentido”, diz ele, completando que o “efeito mais dramático” é o de criar um “direito paralelo” no Brasil, que poderá ser explorado por juízes eleitorais pelo País.
Fabiano Lana: Globo deveria chamar Dino no lugar de Lula para o debate e Mendonça na vaga de Flávio
Para o colunista, decisões do TSE e do STF bagunçaram o cenário do encontro e Gilmar Mendes deveria ser chamado para o ser o mediador, com Flávio Dino na posição de Lula e André Mendonça na vaga de Flávio Bolsonaro.
“Ficou tão desabrida a ação da ala do Supremo Tribunal Federal (STF) - publicamente a favor de Luiz Inácio Lula da Silva - nas eleições presidenciais deste ano, que o melhor nome para substituir o petista no debate cancelado na Rede Globo seria o ministro Flávio Dino. Da caneta de Dino e de seus aliados do Judiciário têm partido as principais medidas que podem beneficiar o atual presidente nessa reta final do pleito. Com tanta imoderação judicial, Lula acabou por se tornar um coadjuvante de sua própria campanha”, diz ele.
Segundo Lana, “Dino tem saído uma espécie de Alexandre de Moraes com esteroides se o assunto for interferência eleitoral”.
“Consta que até mesmo a juíza Estela Aranha, que proibiu a exibição do púlpito vazio de Lula no debate em breve na Rede Globo – uma tradição das emissoras para os ausentes – é sua aliada no Judiciário, comenta ele.
Fracasso do Move Motos expõe limites das políticas eleitoreiras
Por Editorial / O GLOBO
Não é de surpreender o fracasso do programa do governo federal que facilita o crédito a entregadores e mototaxistas de aplicativos para compra de veículos novos. O Move Motos, uma das muitas medidas adotadas para tentar aumentar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem frustrado as expectativas. Desde o início, em meados de julho, 17,7 mil entregadores contrataram empréstimos, num valor de R$ 384 milhões, como mostrou reportagem do GLOBO. Técnicos esperavam entre 700 mil e 1,2 milhão de beneficiados.
As limitações do programa já haviam ficado claras pela baixa adesão das instituições financeiras. Além dos estatais Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, só aderiram os bancos Yamaha e Honda, ligados a fabricantes de motos, por interesse na iniciativa.
O programa é destinado a ciclistas e motociclistas cadastrados em aplicativos há pelo menos seis meses com no mínimo cem corridas, ou ciclistas, motofretistas ou mototaxistas profissionais com contratos formais há pelo menos seis meses. As condições são atraentes: juros de até 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres. O parcelamento pode ser feito em até 48 meses. Houve reserva de R$ 1,25 bilhão do Fundo Garantidor de Operações para cobrir possíveis calotes.
Apesar das condições favoráveis, os interessados encontram dificuldades que não foram vislumbradas pelo governo. Um entregador que trabalha no setor há mais de três anos tentou comprar uma moto pelo programa, mas não foi aprovado. Ele acredita que tenha sido barrado porque seu nome está negativado por dívidas não pagas. “Tentei aderir pelo gov.br, deram prazo para o requerimento e, quando fiz, não foi aceito. Parecia fácil pela propaganda”, disse. Casos como esse são uma realidade que o governo parece ignorar.
O Move Motos integra um programa maior, o Move Brasil, que também enfrenta dificuldades. No início de agosto, pouco mais de um mês depois de lançado, o financiamento de automóveis para taxistas e motoristas de aplicativos não havia deslanchado. Dos R$ 30 bilhões reservados, a demanda atingira R$ 2,2 bilhões, ou 7,3% do total. Entre os principais empecilhos são apontados a inadimplência, o endividamento alto e a dificuldade para comprovar renda. Situações previsíveis.
Não há nada de errado em facilitar condições para que taxistas, mototaxistas, motoristas de aplicativos ou entregadores renovem seus veículos de trabalho. O problema é esses programas terem surgido não da demanda legítima das categorias, mas de objetivos puramente eleitoreiros. Políticas públicas devem ser formatadas de acordo com seus efeitos na economia e na sociedade, com base em estudos academicamente robustos — e não nos índices de popularidade, para agradar a este ou àquele público arredio.
Chega a ser irônico que o governo lance programas, e os potenciais beneficiários não possam participar porque têm dívidas que não conseguem pagar devido ao descontrole fiscal do próprio governo — maior causa dos juros altos que perpetuam o endividamento.
Entregadores em atividade em São Paulo — Foto: Edilson Dantas /Agência O Globo/29/10/2025
Púlpito de Lula, entrada de Renan Santos e 'insegurança jurídica': entenda por que o debate da Globo foi cancelado
Por O Globo — Rio de Janeiro / O GLOBO
Cenário do debate da Globo que foi cancelado — Foto: Globo/ Manoella Mello
Uma sequência de decisões monocráticas de ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Supremo Tribunal Federal (STF) que interferiram nas regras do debate presidencial levaram a TV Globo a cancelar o encontro, marcado para quinta-feira à noite. Horas antes, a ministra do TSE Estela Aranha concedeu liminar, a pedido do PT, proibindo a emissora de exibir o púlpito vazio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que comunicou na véspera sua decisão de faltar ao debate. Pouco depois, o ministro do STF Gilmar Mendes determinou a inclusão de Renan Santos (Missão) no encontro, a despeito de o candidato não cumprir os requisitos estabelecidos pela legislação eleitoral para ser convidado. Também horas antes do programa, Flávio Bolsonaro (PL) anunciou que seria mais um ausente
Em comunicado, a TV Globo explicou que as duas notificações judiciais recebidas na quinta-feira “interferem nas regras previamente acordadas” com os candidatos.
“A Globo tem longa tradição na organização de debates eleitorais. Nosso propósito é promover a discussão de ideias para o Brasil e oferecer aos eleitores a possibilidade de comparar projetos. Nosso dever é o de promover a democracia, mas as sucessivas decisões judiciais tomadas momentos antes da realização do debate causam insegurança jurídica e representam uma interferência indevida na liberdade que os veículos de imprensa têm de organizar os debates eleitorais. Por essa razão, a Globo decidiu cancelar o debate desta noite”, diz o comunicado.
Tradição rompida
Realizado em todos os pleitos desde 2002, o debate presidencial da TV Globo costuma ser o último encontro dos candidatos antes do primeiro turno. Em 2006, também candidato à reeleição, Lula optou por não comparecer. Em 2018, citando recomendações médicas após ter sofrido uma facada durante ato de campanha, Jair Bolsonaro se ausentou. Na quinta-feira, antes de a emissora comunicar o cancelamento do debate, o presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) comunicou sua desistência de participar, alegando não concordar com a decisão do TSE que impedia exibir os assentos vazios de candidatos ausentes.
A decisão foi proferida, em caráter liminar, pela ministra Estela Aranha. Ela suspendeu a eficácia de um dos itens da ata com as regras do debate, documento que havia sido assinado por todos os partidos, inclusive o PT, autor do pedido para vetar a aplicação.
O item em questão previa a exibição da cadeira vazia de quem faltasse, e também a possibilidade de que outros candidatos expusessem ao público, em um dos blocos, qual pergunta teriam feito ao candidato ausente caso ele estivesse no estúdio.
Em seu pedido ao TSE, o PT argumentou que a exibição do púlpito vazio poderia ferir o princípio da isonomia, da proteção aos direitos políticos e da honra do candidato ausente. Para o advogado Gustavo Sampaio, professor de Direito Constitucional da UFF, embora qualquer magistrado possa “suspender regra que ofenda a autoridade da lei ou da Constituição”, a decisão da ministra extrapola esse preceito ao proibir a emissora de exibir o púlpito vazio.
— Expor de forma vexatória a imagem de quem quer que seja ofende um direito inalienável, mas entendo que esse não é o caso da regra de exibir a cadeira ou o púlpito vazio. A Justiça Eleitoral tem regras para admissão dos candidatos em debates. Uma vez que tudo é formalizado nessa direção, são feitos os convites aos candidatos, a estrutura do estúdio é planejada, e em cima da hora o candidato diz que não vai, deixar a sua cadeira vazia não ofende direito nenhum — avaliou Sampaio.
Além de Lula e Flávio Bolsonaro, a TV Globo havia chamado Augusto Cury (Avante) e Ronaldo Caiado (PSD). Já a ida de Romeu Zema (Novo) havia sido determinada, na terça, por decisão do presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques. Ele determinou que as emissoras deveriam convidar candidatos do Novo para debates, alterando o entendimento que o próprio TSE vinha adotando na contagem de parlamentares no Congresso para fins de convite. A legislação assegura a participação de candidatos de partidos que tenham no mínimo cinco deputados federais, e a medição vinha sendo feita a partir da bancada eleita no pleito anterior.
Nunes Marques, porém, determinou que a contagem deveria considerar mudanças na bancada: o Novo elegeu três deputados, mas filiou outros dois antes do fim de julho, e com isso atingiu o patamar exigido por lei, na visão do presidente do TSE.

