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O HORIZONTE DA EXTREMA-DIREITA APÓS O BAQUE DAS ELEIÇÕES MUNICIPAIS

Natália Portinari e Naira Trindade, de Brasília, e Gustavo Schmitt e Guilherme Caetano, de São Paulo

 

O sábado 14, um dia antes do primeiro turno das eleições municipais, foi quando o presidente Jair Bolsonaro caiu em si. Apesar de ter passado a última semana fazendo lives em prol dos candidatos que apoiaria no dia seguinte, já sabia que o desfecho que se desenhava não era promissor. Suas principais apostas, Celso Russomanno, em São Paulo, e Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, amargavam números desanimadores, segundo as últimas pesquisas. Sem muita modéstia, atrelou o mau resultado dos aliados a sua própria ausência da corrida eleitoral — já que suas lives se tornaram frequentes apenas às vésperas do pleito. Mas reconheceu estar preocupado mesmo com outra coisa: o desempenho de seu filho Carlos Bolsonaro, candidato à reeleição para vereador no Rio de Janeiro.

 

osse, acabou saindo menor do que entrou na campanha municipal. Em 2016, obteve 106 mil votos. Neste ano, não passou de 71 mil, uma queda de 33%. E, de quebra, o filho perdeu o posto de vereador mais votado da cidade para Tarcísio Motta, do PSOL.

Principais apostas de Bolsonaro nas duas maiores capitais do país, Celso Russomanno (à direita), em São Paulo, e Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, amargavam números desanimadores. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo
Principais apostas de Bolsonaro nas duas maiores capitais do país, Celso Russomanno (à direita), em São Paulo, e Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, amargavam números desanimadores. Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo

Esse foi o pior recado do pleito, mas não o único. Russomanno, que contou com o apoio expresso do presidente, largou na frente nas pesquisas. No começo da campanha, isso encheu de esperança o Palácio do Planalto, que anseia fincar raízes no reduto eleitoral de seu adversário, João Doria, governador de São Paulo. Na tarde nublada de 3 de outubro, na Zona Sul de São Paulo, após um evento de campanha de Russomanno, Fabio Wajngarten, secretário executivo da Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom), era só otimismo. A bordo de um jipe Mercedes preto, disse a ÉPOCA, sorridente: “Ele (Russomanno) já está eleito”. E prosseguiu em sua análise: “De um lado, a esquerda está acabada por causa da Lava Jato. De outro, tem o PSDB desgastado em São Paulo. Ninguém aguenta mais. Foi assim em 2018”, apostou o secretário. Russomanno amargou o quarto lugar, com apenas 560 mil votos (10,5% do total), enquanto o adversário do tucano Bruno Covas no segundo turno será Guilherme Boulos, do PSOL — cenário que configura dupla derrota para o presidente, que há dois anos venceu na capital paulista com 60% dos votos.

Em todo o país, dos 44 candidatos que ganharam o aval do presidente, apenas nove se elegeram. Entre esses poucos sortudos não estão parentes de sobrenomes considerados ilustres no bolsonarismo, como o irmão da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP). Ela tem 1 milhão de seguidores no Twitter e 2,2 milhões no Facebook. Ele atraiu apenas 12 mil votos, abaixo da linha de corte para conseguir uma vaga na Câmara Municipal de São Paulo. O pai de Zambelli, candidato a vice-prefeito em Mairiporã, no interior paulista, tampouco prosperou. Edson Salomão, líder do Movimento Conservador e aliado do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), o zero três, ficou de fora da Câmara de Vereadores de São Paulo. No Rio de Janeiro, Rogéria Bolsonaro, ex-mulher do presidente e mãe de seus três filhos mais velhos, não foi eleita, apesar do sobrenome e do empenho, principalmente de Carlos.

Antes de dormir, no dia 15, Bolsonaro tentou minimizar a contagem de mortos e feridos. Escreveu em sua conta no Twitter que sua “ajuda a alguns poucos candidatos a prefeito resumiu-se a 4 lives num total de 3 horas”, que a esquerda saiu derrotada e que a “onda conservadora chegou em 2018 para ficar”. Dois dias depois, ao se reunir com alguns parlamentares empenhados na criação de seu (ainda inexistente) partido, o Aliança pelo Brasil, compartilhou uma análise mais realista sobre o pleito. Para o presidente, a direita foi prejudicada em razão da pulverização partidária: “Quem saiu ganhando foi o pessoal do (Luciano) Huck”, vaticinou. A preocupação exposta naquela conversa não demorou a migrar para dentro do grupo de WhatsApp do Aliança pelo Brasil, onde deputados, senadores, ministros e integrantes do governo Bolsonaro debatem a criação do novo partido.

Russomanno terminou em quarto lugar na capital paulista com 10% dos votos válidos. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (na foto), candidato à reeleição, conseguiu ir para o segundo turno, mas aparece muito atrás de Eduardo Paes na primeira pesquisa divulgada na terça-feira 17. Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Russomanno terminou em quarto lugar na capital paulista com 10% dos votos válidos. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella (na foto), candidato à reeleição, conseguiu ir para o segundo turno, mas aparece muito atrás de Eduardo Paes na primeira pesquisa divulgada na terça-feira 17. Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

O sentimento geral, segundo um membro do grupo relatou a ÉPOCA, foi de um “choque de realidade” diante do que a cúpula da legenda reconhece ser uma derrota da extrema-direita. Sem um partido que abarcasse toda a direita radical, seus candidatos haviam ficado dispersos por várias siglas nas eleições municipais. “A direita bolsonarista aprendeu uma lição nesta eleição, a de que existe um eleitor de direita não necessariamente bolsonarista”, disse Alexandre Borges, analista político e proveniente de antigos círculos de estudo de Olavo de Carvalho. “É uma descoberta dura para o bolsonarismo, que se achava dono desse campo político.”

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NOVO E PARTIDOS DE ESQUERDA FORAM OS QUE MAIS MENCIONARAM COMBATE À CORRUPÇÃO NAS ELEIÇÕES 2020

O levantamento de 15.728 projetos de governo de candidatos a prefeito nas eleições municipais deste ano, feito pela Transparência Brasil, mostra que a luta contra à corrupção no país ainda é vista de modo genérico.

O relatório foi realizado com base em palavras-chave, a fim de avaliar como os candidatos aderem aos ideais de controle social e transparência.

Com exceção do Novo, partidos de esquerda estão nos primeiros lugares no uso das palavras “corrupção”, “integridade” e “transparência”.

Apesar do termo “transparência” ser apontado em 67% das propostas de governo, poucas apresentam palavras-chave ligadas à integração com o setor público.

O relatório ainda apresenta que as candidaturas femininas foram as que mais defenderam controle social, combate à corrupção e transparência.

GUILHERME AMADO/ ÉPOCA

Veja resultados das últimas pesquisas nas capitais do país na véspera do 2º turno

Julia Lindner e Natália Portinari / O GLOBO

 

BRASÍLIA - Em 18 capitais, o prefeito será definido no segundo turno das eleições municipais neste domingo (29). Confira abaixo os resultados das últimas pesquisas do Ibope e Datafolha nas cidades.

 

Norte

Belém

Os candidatos são Edmilson Rodrigues (PSOL) e Delegado Eguchi (Patriota). Em pesquisa Ibope divulgada no último sábado (21), o primeiro tinha 52% das intenções de votos válidos e o segundo, 48%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais, o que significa que os candidatos estão empatados. O registro da pesquisa na Justiça Eleitoral é PA-08277/2020.

Boa Vista

Em pesquisa Ibope divulgada nesta quinta-feira (26), o candidato Arthur Henrique (MDB) tem 79% das intenções de votos válidos e Ottaci (Solidariedade) tem 21%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais para cima ou para baixo. O número de registro é RR-07926/2020.

Manaus

Em pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira (27), Amazonino Mendes (Podemos) tem 48% das intenções de votos válidos e David Almeida (Avante), 52%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais, então os candidatos estão tecnicamente empatados. O número de registro da pesquisa é AM-1680/2020.

Leia:Candidatos gastam R$36 milhões com impulsionamentos, e Facebook lidera lista de fornecedores nesta eleição

Porto Velho

O atual prefeito, Hildon Chaves (PSDB), tem 60% das intenções de votos válidos, segundo pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira (27). Ele disputa com Cristiane Lopes (PP), com 40%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais. O registro da pesquisa na Justiça eleitoral é RO-09943/2020.

Rio Branco

Na última pesquisa Ibope, divulgada nesta quinta-feira (26), Tião Bocalom (PP) está com 65% das intenções de votos válidos. Socorro Neri (PSB), atual prefeita, tem 35%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais e o registro na Justiça eleitoral é AC-07824/2020.

 

Nordeste

Aracaju

O atual prefeito, Edvaldo Nogueira (PDT), é o favorito na disputa contra Delegada Danielle (Cidadania). Pesquisa Ibope divulgada na quinta-feira (26) mostra Edvaldo (PDT) com 62% das intenções de votos válidos, enquanto Danielle tem 38%. O registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é SE05996/2020. Edvaldo, que busca o quarto mandato na capital sergipana, foca sua campanha em feitos de sua gestão e diz ter transformado a cidade “num canteiro de obras”. Já Danielle tem como principal foco o combate à corrupção e a importância de a população eleger uma mulher para a prefeitura.

Saiba maisMP Eleitoral denuncia Crivella por difamação e propaganda falsa após panfletos contra Paes e PSOL

Fortaleza 

Pesquisa Ibope divulgada na última segunda-feira mostra José Sarto (PDT), presidente da Assembleia Legislativa do Ceará, na liderança, com 60% dos votos válidos, enquanto o deputado federal Capitão Wagner (PROS) tem 40%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número PB-09276/2020. Para o segundo turno, Sarto recebeu apoio de siglas como PT e do PV, partidos que ficaram na terceira e quinta colocação na primeira etapa da eleição. Ele também tem o apoio do governador do Estado, Camilo Santana (PT), dos irmãos Cid e Ciro Gomes (PDT), além do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ). Capitão Wagner, que foi o deputado federal mais votado do estado em 2018, conta com o apoio do senador Eduardo Girão (Pros-CE) e do presidente Jair Bolsonaro.

João Pessoa

Pesquisa Ibope divulgada na terça-feira (23) mostra o ex-governador e ex-prefeito Cícero Lucena (PP) como favorito para vencer a disputa em segundo turno contra Nilvan Ferreira (MDB). Lucena tem 55% dos votos válidos, enquanto Ferreira tem 45%. A margem de erro é de quatro pontos percentuais para mais ou para menos. O número de identificação da pesquisa é PB-09276/2020.

Maceió

Pesquisa Ibope divulgada na sexta-feira (27), dois dias antes da eleição, indica que o candidato JHC (PSB) tem 57% das intenções de votos válidos, 15 pontos percentuais à frente ded Alfredo Gaspar de Mendonça (MDB). O registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é AL 01363/2020. JHC é apoiado pelo senador Rodrigo Cunha (PSDB), nome que surpreendeu em 2018 ao ser o mais votado para o Senado. Gaspar de Mendonça tem o apoio do senador Renan Calheiros (MDB-AL), do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), e do atual prefeito da cidade, Rui Palmeira (sem partido).

Confira:PSOL quer saber se panfletos com fake news de Crivella foram pagos com fundo eleitoral

Recife

Em disputa acirrada, João Campos (PSB) e Marília Arraes (PT), que são primos, estão empatados tecnicamente a poucos dias da eleição. Pesquisa Ibope divulgada na quinta-feira (26) mostra que João tem 51% dos votos válidos, enquanto Marília tem 49%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. O levantamento está registrado no Tribunal Superior de Justiça (TSE) como PE-04600/2020.

São Luís

De acordo com pesquisa Ibope divulgada na noite desta sexta-feira (27), Eduardo Braide (Podemos) possui 54% das intenções de votos válidos, enquanto Duarte Júnior (Republicanos) tem 46%. O número de identificação da pesquisa junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é MA05555/2020. No segundo turno, Duarte recebeu o apoio do governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB). A base do governador rachou na eleição para a prefeitura de São Luís e parte dos seus aliados decidiram apoiar Eduardo Braide, como o deputado estadual Neto Evangelista (DEM), ex-secretário de Dino, que teve 16,2% dos votos no primeiro turno.

Teresina

O candidato Dr. Pessoa (MDB) lidera com folga a corrida pela prefeitura de Teresina (PI), com 65% das intenções de votos válidos, segundo pesquisa Ibope divulgada na última segunda-feira. A pontuação representa quase o dobro das intenções de voto que possui o seu adversário, o candidato Kleber Montezuma (PSDB), que tem 35%. O número de identificação da pesquisa é PI 00826/2020. Dr. Pessoa tem o apoio do vice-presidente da República, Hamilton Mourão. Já o tucano Kleber Montezuma (PSDB), em segundo lugar nas pesquisas, tem o endosso do neobolsonarista Ciro Nogueira, presidente do PP.

Centro-Oeste

Cuiabá

O atual prefeito, Emanuel Pinheiro (MDB), tem 50% das intenções de votos válidos, assim como Abílio Júnior (Podemos), segundo pesquisa Ibope divulgada nesta sexta-feira (27). O registro da pesquisa é MT-09681/2020 e a margem de erro é de quatro pontos percentuais.

 

Sudeste

Rio de Janeiro

Em pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (26), o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) tem 70% das intenções de votos válidos, excluindo nulos e brancos. Seu adversário, o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), tem 30%. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos e o registro da pesquisa na Justiça eleitoral é RJ-03404/2020.

São Paulo

O atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), vai disputar o 2º turno com Guilherme Boulos (PSOL). Em pesquisa Datafolha divulgada na última quinta-feira (26), o primeiro tem 54% das intenções de votos válidos e o segundo, 46%. A margem de erro é de três pontos percentuais e o registro na Justiça Eleitoral, SP-09865/2020.

Vitória

Em pesquisa Ibope divulgada na última segunda-feira, Delegado Pazolini (Republicanos tem 53% das intenções de votos válidos e João Coser (PT), 47%. Como a margem de erro é de quatro pontos percentuais, os candidatos estão tecnicamente empatados. O registro da pesquisa na Justiça eleitoral é ES-05907/2020.

Sul

Porto Alegre

O candidato Sebastião Melo (MDB) lidera a disputa à prefeitura de Porto Alegre com 54% dos votos válidos, segundo pesquisa Ibope divulgada na terça-feira. Sua adversária, Manuela D'ávila, tem 46%. A pesquisa está identificada na Justiça Eleitoral como RS-03118/2020.

A volta ao normal - Antonio Lavareda

Nesse domingo, confirmadas as pesquisas publicadas até 25/11, conclui-se a leitura da vitória da direita tradicional. Essas “eleições mantenedoras”, com taxa de recondução de 63%, um terço maior que a anterior, não excluíram novidades. Aumentou a diversidade social nas Câmaras, espelhando melhor o tecido social. A direita levou o maior quinhão de prefeituras, enquanto o centro e a esquerda encolheram no país.

Embora essa última, às vezes substituindo o PT por aliados menores, tenha demonstrado capacidade de recuperação em grandes cidades, incluída a maior delas, São Paulo. Encerrado o ciclo, é inevitável que nossa última coluna aponte o que emergiu como sinalização sobre a disputa daqui a dois anos. Antes, presumia-se que nela assistiríamos a consolidação do “realinhamento crítico” que fez desabar o duopólio PSDB-PT (1994-2014).

A vitória do Presidente, bem avaliado pela sociedade, de novo à frente de um pequeno partido, triunfando após campanha arrasadora do bolsonarismo nas redes sociais. Porém, a rearrumação na base do sistema — os municípios — e sobretudo a revalorização da política com a derrota dos outsiders alteraram o curso. Hoje, é grande a possibilidade de que 2022 seja uma “eleição contra-desviante”.

O rio voltando ao leito habitual. Mesmo com novos atores. O que não inviabiliza a reeleição de Bolsonaro, caso a economia venha a lhe ajudar. Mas não como o personagem original. Ele precisará concorrer com o traje que antes rejeitou. Procurando apoios e uma coligação que lhe traga bastante tempo de TV para mostrar o que fez e explicar o que não fez. Num pleito “normal”. Qualquer que seja o resultado, 2018 terá ficado para trás como um ponto fora da curva.

Hoje, é grande a possibilidade de que 2022 seja uma “eleição contra-desviante”

Leia mais:A volta ao normal - Antonio Lavareda

A reeleição dos prefeitos - O Estado de S.Paulo

O País tem 5.570 municípios e, neste ano, 3.510 prefeitos tentaram a reeleição. Segundo dados da Justiça Eleitoral compilados pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), dos prefeitos que tentaram a reeleição, 2.237 foram reeleitos no primeiro turno. Assim, a taxa de sucesso de reeleição foi de 63,73%.

Com exceção das eleições de 2016, quando menos da metade dos prefeitos que concorreram a um segundo mandato obteve êxito (49,48%), o porcentual de sucesso de quem tentou a reeleição vem se mostrando incrivelmente estável ao longo dos anos. Em 2012, essa taxa foi de 62,53%; em 2008, 62,51%; em 2004, 60,77%; e em 2000, 61,92%. 

Esses números ajudam a desmitificar a ideia, muitas vezes repetida, de que o instituto da reeleição produziria uma incorrigível situação de desequilíbrio na disputa eleitoral e, portanto, deveria ser extinto. As taxas de sucesso de reeleição nos últimos seis pleitos municipais mostram que a reeleição está longe de ser um fenômeno automático. Muitos prefeitos tentam se reeleger e não conseguem. Neste ano, por exemplo, 1.255 prefeitos tentaram mais quatro anos de mandato e foram derrotados no primeiro turno. Dezoito ainda concorrem no segundo turno a mais um mandato.

O fato de que a taxa média de sucesso de reeleição seja acima de 50% também não revela, por si só, desequilíbrio estrutural da disputa. É natural que candidatos que buscam a reeleição sejam mais conhecidos e tenham uma prévia relação de confiança ao menos com parte da população. O importante é que a rejeição do prefeito que tenta a reeleição não é uma hipótese remota. Na média dos últimos seis pleitos, a taxa de insucesso esteve em torno de 40%. Ou seja, o eleitor dispõe de fato de liberdade para não conceder um segundo mandato.

Ante esses porcentuais, é interessante notar também que eventual exclusão do instituto da reeleição tiraria do eleitor uma opção que ele tem exercido na maioria das vezes. Vale lembrar que apenas em 2016 a taxa de sucesso de reeleição de prefeitos foi inferior a 50%. Os números indicam, assim, que o cidadão aprecia a possibilidade de conceder ao governante mais quatro anos no cargo.

Nada disso, obviamente, significa ignorar o mau uso que alguns políticos fizeram ou fazem da possibilidade de reeleição, desvirtuando o exercício do poder, que fica excessivamente condicionado pela questão eleitoral desde o início do primeiro mandato. É o que se vê, por exemplo, com o presidente Jair Bolsonaro. Antes de completar dois anos de governo, sua atuação já está inteiramente voltada para a reeleição. Trata-se do mesmo vício que manchou os mandatos inaugurais de Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Mas o problema não decorre do instituto da reeleição, e sim do seu mau uso. Não é por acaso que a possibilidade de reeleição está presente na legislação eleitoral de muitos países. De forma recorrente, constatam-se efeitos muito positivos causados pelo instituto da reeleição, que permite, por exemplo, maior continuidade na implantação de propostas políticas, maior liberdade de escolha para o eleitor e maior responsabilidade para os políticos.

A Emenda Constitucional (EC) 16/1997, que permitiu a reeleição do presidente da República, governadores e prefeitos, para um único mandato subsequente, não foi, portanto, um passo irrefletido ou um movimento meramente circunstancial. Ao reconhecer que dificilmente um programa de governo pode ser implementado em um único período de quatro anos, ela concedeu maior liberdade ao eleitor. E, como mostram os porcentuais de reeleição dos prefeitos, essa possibilidade vem sendo exercida pelo eleitorado com razoável constância.

A legislação eleitoral tem muitos defeitos, que devem ser corrigidos por meio de uma ampla reforma política. Mas não podem ser ignorados os pontos positivos da lei vigente, como também não se deve achar, por princípio, que o eleitorado é ingênuo ou ignorante. Ele sabe discernir quando a reeleição é a opção mais responsável, a trazer mais esperança.

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