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CEARÁ: De Girão a Michelle Bolsonaro: as peças do quebra-cabeça de Ciro Gomes no início do ano eleitoral

Escrito por Inácio Aguiari / DIARIONORDESTE
 

No início do ano eleitoral de 2026, Ciro Gomes se movimenta como o principal pilar da oposição no Ceará. Com a experiência de quem já governou o Estado e disputou a presidência da República quatro vezes, o ex-ministro, filiado ao PSDB, aposta no seu capital político, consolidado ao longo de quatro décadas, para liderar um bloco que desafia a hegemonia do PT no Estado.  

Entretanto, embora tenha trunfos importantes, o projeto dele e dos aliados encontra obstáculos que ainda encontram bloqueios e resistência para chegar organizado ao segundo semestre, quando ocorrem as principais definições do pleito. 

O capital político de Ciro: visibilidade e recall

Ciro Gomes e deputados estaduais aliados na Assembleia Legislativa do Ceará em janeiro de 2026
Legenda: Ciro Gomes tem recall, mas enfrenta impasses no início do ano eleitoral.
Foto: Marcos Moreira

Ciro traz para o jogo eleitoral uma marca importante. É o nome mais conhecido da oposição cearense. Mesmo sem mandato, segue como voz ativa no debate nacional e, agora, assume o papel de reconstrução do PSDB no Ceará, sigla à qual se filiou recentemente para viabilizar sua articulação política. 

Além disso, conta com o apoio de figuras como o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio e o deputado Capitão Wagner (União Brasil), nomes também presentes no noticiário político e nas urnas do Ceará na última década.

União Brasil em disputa e federação à deriva 

Mas a solidez do bloco oposicionista não é linear. Ao contrário. Um dos principais entraves está no controle do União Brasil no Ceará, partido que integra a federação com o Progressistas, a chamada União Progressista. O conglomerado tem integrantes assíduos na oposição, mas uma forte bancada governista, formando um cabo de guerra para a definição do apoio eleitoral no Ceará. 

Nesse jogo, alguém será enganado. E a decisão nacional sobre o Ceará, além de simbólica, terá um peso político considerável. O projeto que atrair a federação fatalmente terá o maior tempo de televisão e rádio para expor propostas na campanha. 

Ciro diz confiar no presidente nacional do União, Antônio de Rueda, mas sabe que, sem controle local, a federação pode ser absorvida pela base governamental. 

A instabilidade da federação é um dos pontos sensíveis da costura eleitoral.  

A turbulência com o PL e o veto bolsonarista 

Outro impasse veio do campo bolsonarista. Após gestos públicos de aproximação com lideranças como o deputado federal André Fernandes, o ex-ministro foi surpreendido por uma ocorrência dura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, na passagem pelo Ceará, desautorizou qualquer diálogo com Ciro e cravou apoio à pré-candidatura de Eduardo Girão (Novo).  

A declaração esfriou as conversas com o PL, liderada no Estado por André Fernandes, embora haja expectativa de retomada mais futura. 

Diálogo com Girão: união ou confronto? 

A disputa no campo conservador ganhou um novo capítulo com o avanço do nome de Eduardo Girão, que foi lançado pré-candidato ao governo. Mesmo adversário histórico, Ciro fez sinalizações de que está disposto a dialogar com o senador em nome da formação de uma unidade, mas não há sinais de que ela esteja próxima.  

O desafio, porém, vai além do convencimento político: há divergências ideológicas profundas entre os dois, tanto no estilo quanto no discurso, e o sucesso dessa aproximação dependerá de concessões de ambos os lados.  

Por agora, o gesto serve para manter aberta a narrativa de que Ciro está disposto ao diálogo e ao pragmatismo político. 

Desfecho em aberto 

Ciro Gomes tem capital político, experiência e visibilidade. Mas está diante de uma solução complexa, uma série de fatores, inclusive nacionais, que vão exigir habilidade e uma pitada de sorte nas convergências. 

De Girão a Michelle Bolsonaro: as peças do quebra-cabeça de Ciro Gomes no início do ano eleitoral

Escrito por Inácio Aguiari / DIARIONORDESTE

No início do ano eleitoral de 2026, Ciro Gomes se movimenta como o principal pilar da oposição no Ceará. Com a experiência de quem já governou o Estado e disputou a presidência da República quatro vezes, o ex-ministro, filiado ao PSDB, aposta no seu capital político, consolidado ao longo de quatro décadas, para liderar um bloco que desafia a hegemonia do PT no Estado.  

Entretanto, embora tenha trunfos importantes, o projeto dele e dos aliados encontra obstáculos que ainda encontram bloqueios e resistência para chegar organizado ao segundo semestre, quando ocorrem as principais definições do pleito. 

O capital político de Ciro: visibilidade e recall

Ciro Gomes e deputados estaduais aliados na Assembleia Legislativa do Ceará em janeiro de 2026
Legenda: Ciro Gomes tem recall, mas enfrenta impasses no início do ano eleitoral.
Foto: Marcos Moreira

Ciro traz para o jogo eleitoral uma marca importante. É o nome mais conhecido da oposição cearense. Mesmo sem mandato, segue como voz ativa no debate nacional e, agora, assume o papel de reconstrução do PSDB no Ceará, sigla à qual se filiou recentemente para viabilizar sua articulação política. 

Além disso, conta com o apoio de figuras como o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio e o deputado Capitão Wagner (União Brasil), nomes também presentes no noticiário político e nas urnas do Ceará na última década.

União Brasil em disputa e federação à deriva 

Mas a solidez do bloco oposicionista não é linear. Ao contrário. Um dos principais entraves está no controle do União Brasil no Ceará, partido que integra a federação com o Progressistas, a chamada União Progressista. O conglomerado tem integrantes assíduos na oposição, mas uma forte bancada governista, formando um cabo de guerra para a definição do apoio eleitoral no Ceará. 

Nesse jogo, alguém será enganado. E a decisão nacional sobre o Ceará, além de simbólica, terá um peso político considerável. O projeto que atrair a federação fatalmente terá o maior tempo de televisão e rádio para expor propostas na campanha. 

Ciro diz confiar no presidente nacional do União, Antônio de Rueda, mas sabe que, sem controle local, a federação pode ser absorvida pela base governamental. 

A instabilidade da federação é um dos pontos sensíveis da costura eleitoral.  

A turbulência com o PL e o veto bolsonarista 

Outro impasse veio do campo bolsonarista. Após gestos públicos de aproximação com lideranças como o deputado federal André Fernandes, o ex-ministro foi surpreendido por uma ocorrência dura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que, na passagem pelo Ceará, desautorizou qualquer diálogo com Ciro e cravou apoio à pré-candidatura de Eduardo Girão (Novo).  

A declaração esfriou as conversas com o PL, liderada no Estado por André Fernandes, embora haja expectativa de retomada mais futura. 

Diálogo com Girão: união ou confronto? 

A disputa no campo conservador ganhou um novo capítulo com o avanço do nome de Eduardo Girão, que foi lançado pré-candidato ao governo. Mesmo adversário histórico, Ciro fez sinalizações de que está disposto a dialogar com o senador em nome da formação de uma unidade, mas não há sinais de que ela esteja próxima.  

O desafio, porém, vai além do convencimento político: há divergências ideológicas profundas entre os dois, tanto no estilo quanto no discurso, e o sucesso dessa aproximação dependerá de concessões de ambos os lados.  

Por agora, o gesto serve para manter aberta a narrativa de que Ciro está disposto ao diálogo e ao pragmatismo político. 

Desfecho em aberto 

Ciro Gomes tem capital político, experiência e visibilidade. Mas está diante de uma solução complexa, uma série de fatores, inclusive nacionais, que vão exigir habilidade e uma pitada de sorte nas convergências. 

Ciro x PT: disputa no Ceará une oposição e leva ministro a deixar Brasília para ajudar aliado

Por Jeniffer Gularte e Ivan Martínez-Vargas— Brasília / O GLOBO

 

O ministro da Educação, Camilo Santana (PT), anunciou na segunda-feira que deve deixar a pasta para se dedicar à campanha à reeleição do governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o pleito de outubro. Camilo destacou que tem até março para tomar a decisão, mas argumentou que o cargo o deixa distante do estado que governou por dois mandatos e do qual foi eleito senador em 2022. A movimentação ocorre após o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) se lançar ao governo do Ceará e aparecer à frente nas pesquisas.

 

— Poderei voltar (ao cargo de senador) para me dedicar, porque vocês sabem que o papel de ministro é no Brasil inteiro, muitas vezes fica ausente no nosso estado. Vou me dedicar muito para que não haja retrocesso no Brasil e no Ceará — disse em conversas com jornalistas no Ministério da Educação (MEC). Na segunda-feira, Camilo enfatizou seu apoio à candidatura de Elmano. O ministro, no entanto, também é considerado um nome que pode assumir a dianteira da chapa caso a candidatura de Ciro Gomes ameace a reeleição do atual governador.

 

— Temos até março para tomar a decisão. Quero dizer aqui claramente que meu candidato é Elmano Freitas. Vou trabalhar pra ele e o presidente Lula serem reeleitos — disse na segunda-feira Camilo. — Temos uma grande equipe do MEC. O ministério está rodando bem. Não tenho dúvida que minha saída ou não jamais vai afetar o encaminhamento das ações do MEC.

 

Desafios na largada

Uma pesquisa Ipsos-Ipec feita entre 13 e 16 de dezembro reforçou as dificuldades de Elmano no estado ao mostrar o tucano na liderança da corrida estadual, com 44% das intenções de voto. O governador apareceu em seguida, com 34%. Ainda segundo o instituto, em um eventual segundo turno, Ciro, que já governou o Ceará entre 1991 e 1994, venceria o petista por uma diferença de dez pontos percentuais (49% a 39%).

 

Para o PT e o entorno de Lula, é considerado imprescindível não perder o governo para o antigo aliado do presidente. O PT está à frente do Ceará desde 2015. Reduto eleitoral de Lula, o estado é terceiro maior colégio eleitoral do Nordeste.

 

Já Camilo é considerado um cabo eleitoral estratégico por sua atuação na eleição municipal de 2024. Durante o pleito, o ministro da Educação tirou duas semanas de férias para se dedicar à campanha de Evandro Leitão (PT) para a prefeitura de Fortaleza — único petista eleito para comandar uma capital na eleição passada.

 

Leitão começou a campanha atrás de Capitão Wagner (União) e André Fernandes (PL) nas pesquisas. No segundo turno, o aliado de Lula superou o candidato do PL, que tinha apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro.

 

Ciro deixou o PDT, que é da base de Elmano, e se filiou ao PSDB no ano passado. A aproximação do PDT com o PT, tanto na esfera estadual quanto na nacional, foi citada como motivo de insatisfação dentro da sigla. Ciro também demonstrou descontentamento com o processo de “fritura” enfrentado pelo presidente nacional da legenda, Carlos Lupi, provocado pela crise do INSS, que levou à queda do comando do Ministério da Previdência.

 

Ciro tem buscado articular uma chapa unificada com os principais nomes de oposição ao governador petista, inclusive do campo bolsonarista, para disputar as eleições. O ex-ministro fez acenos ao deputado federal André Fernandes, uma das lideranças bolsonaristas no estado. Este movimento, porém, esbarrou em críticas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que se opôs a uma aliança com Ciro.

 

Segundo Ciro, a composição para cargos majoritários de sua chapa terá ele próprio, o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União) e o ex-deputado Capitão Wagner, que já foi seu adversário no estado. Uma decisão final sobre as vagas que cada nome disputará ainda não foi tomada. Além disso, a segunda vaga para o Senado ainda está em aberto e é alvo de negociação.

Por que as pessoas compartilham fake news? Pesquisadora aponta desafios para as eleições de 2026

Escrito por Luana Barros / DIARIONORDESTE
 
 

A cada novo ano eleitoral, uma nova pergunta se impõe: como impedir que a desinformação influencie na votação? O combate às fake news, embora constante, nem sempre tem sido efetivo para impedir a rápida disseminação de informações falsas e descontextualizadas.

O avanço rápido das tecnologias torna a tarefa ainda mais difícil, ainda mais em um contexto em que saber que a informação é falsa não é suficiente para impedir que a pessoa a compartilhe. "Muitas pessoas sabem que podem ser falsos, mas repassam esse conteúdo porque confirmam uma narrativa moral maior", explica Cristiane Sinimbu. 

Bibliotecária da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e doutora em Comunicação pela mesma instituição, a pesquisadora investigou os motivos que levam os brasileiros a compartilhar as fake news – em muitos casos, sabendo que aquele dado não é verdadeiro ou, pelo menos, desconfiando da veracidade dele.

A pesquisa resultou na tese “O bem versus o mal: fake news como arma das batalhas morais em disputa nas guerras culturais”. Nela, uma das conclusões apontadas é de que as fake news passaram a funcionar "como um crachá de pertencimento". 

Ela pontua que é exatamente essa "instrumentalização da desinformação" que transforma a eleição de 2026 em um "desafio enorme para a democracia". A profissionalização da produção e disseminação das fake news, o envolvimento afetivo da população com essas mentiras e o avanço cada vez mais acelerado das tecnologias, torna o combate às fake news cada vez mais complexo. 

Ela separa o desafio no cenário eleitoral em três eixos: o volume de informações falsas, a segmentação desse conteúdo por público e a estética emocional e moral, "com forte apelo afetivo", das fake news. "A nossa democracia em 2026 depende menos de detectar mentiras depois e mais de agir na prevenção, empoderando os cidadãos e cidadãs e as comunidades para reconhecer o truque antes da mensagem dominar a conversa", ressalta.

Confira a entrevista completa:

As informações falsas ou descontextualizadas não são uma novidade na sociedade, principalmente quando falamos de eleições. O que podemos dizer que tem de particular no uso das fake news na atualidade?

As fake news de hoje se diferenciam um pouco das antigas pela velocidade, pela escala e pela função social que elas desempenham. Então, elas circulam em redes digitais que permitem segmentar públicos, testar narrativas e espalhar conteúdo antes de qualquer verificação. Então, isso cria uma espécie de fábrica, uma industrialização da mentira, algo impossível antes, nas mídias tradicionais.

Na minha pesquisa, ficou claro que essas fake news não são apenas ruídos. Elas vão funcionar como esses dispositivos argumentativos, audiovisuais, são peças que são desenhadas para provocar emoção, organizar crenças e operacionalizar uma disputa. Essa mentira chega com aparência de verdade, porque ela imita uma linguagem, uma estética jornalística. Às vezes, também são aqueles vídeos caseiros, áudios dramáticos e capturas de tela, os prints, que vão simular a credibilidade.

Diferentemente de outros momentos, essas fake news vão atuar em bolhas informacionais, onde circulam essas versões repetidas até virarem uma prova social. Como se a mentira repetida várias vezes virasse uma verdade que o grupo pode acreditar, que o grupo quer acreditar. 

O particular da atualidade é que essa desinformação virou munição moral. Não se espalha só para confundir, mas para indignar, unir e demarcar uma identidade. O que eu discuto na tese é que hoje essas fake news são armas culturais, afetivas e tecnológicas. Não se trata mais de mentir, só de mentir, mas de engajar, criar inimigos simbólicos e fortalecer pertencimentos.

Uma das primeiras estratégias, e das mais utilizadas, para combater as fake news foram as checagens de fato, ou seja, a tentativa de desmentir informações. Isso coloca as pessoas que compartilham as informações falsas como "enganadas" ou "ingênuas", mas é só isso que leva uma pessoa a compartilhar uma informação falsa?

Não, infelizmente não. O engano existe, claro, (...) as pessoas podem ser enganadas. Há quem compartilhe por distração, por confiança ingênua, por ingenuidade. Mas o que a minha pesquisa mostrou é que muitas pessoas compartilham fake news por razões afetivas, identitárias, não só por desconhecimento total.

Elas até conseguem reconhecer o que é fake news, (porque) tem sempre um conteúdo alarmante, em caixa alta, uma frase dizendo "compartilhe antes de que suma" ou "isso a Globo não mostra". Então, eles conseguem reconhecer esses aspectos, essas características do que é fake news.

A gente viu, por exemplo, que os adultos mais velhos confiam mais em quem enviou do que na fonte original. Isso facilita a circulação. A geração ali dos 31 aos 50 anos evita discutir e compartilhar, porque eles sentem uma certa fadiga na polarização e receio de conflito, mas ainda assim podem repassar conteúdos quando confirmam as crenças do seu grupo.

Então, há um mecanismo psicológico forte, que a gente discute na tese e chama de dissonância cognitiva. Quando a checagem confronta crenças profundas, parte das pessoas descarta essa correção e repassa mesmo assim, porque a verdade moral pesa mais do que a prova factual. Então, compartilhar fake news pode ser um engano, mas também engajamento, pressão social do grupo e afirmação identitária.

Você citou as diferenças entre pessoas de diferentes gerações e, na sua pesquisa de doutorado, você tenta entender como essas gerações percebem as fake news, mas também como elas utilizam, compartilham essas informações. O que pode ser dito sobre a diferença entre a recepção e o compartilhamento de informações falsas a depender da geração?

Tem diferenças bem marcadas. Os mais velhos tendem a receber um menor volume de conteúdo diretamente em redes abertas, mas são os que mais compartilham desinformação, especialmente nessas redes fechadas, como WhatsApp e Telegram, que são redes de confiança. Nesses espaços, nesses aplicativos, a confiança é construída pela relação com quem enviou, não pela fonte – é no grupo da família, no grupo da igreja, no grupo de mães, enfim.

Isso facilita o repasse rápido, muitas vezes sem qualquer checagem. O compartilhamento assume um papel de circulação de comunidade, reforçado por esses laços afetivos e por essas crenças comuns. Como as pessoas estão em grupo, o que perpassa ali é compartilhado.

Já essa geração intermediária, ali de 31 a 50 anos, é intensamente exposta a conteúdos digitais e acompanha o debate político em múltiplas plataformas, mas demonstra esse comportamento de compartilhar menos, principalmente por um efeito, que eu já falei, de saturação, de fadiga, de certa frustração diante desse universo que eles percebem como polarizado.

Então, esse grupo consome muita informação, verifica mais do que os mais velhos, mas optam pelo silêncio, pela não circulação, porque eles querem evitar custos emocionais, conflitos diretos e possíveis constrangimentos públicos.

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Agora, os jovens, de 18 a 30 anos, estão imersos em plataformas como Instagram e TikTok, onde recebem grande volume de desinformação, em formato de vídeos curtos, estetizados especialmente para essa população, muitas vezes misturados até ali com entretenimento. Embora eles digam que compartilham menos sobre política publicamente, eles são altamente expostos a essas narrativas audiovisuais que reforçam valores, crenças, pertencimento. Isso leva a um processo de internalização das mensagens mesmo sem republicação direta.

A recepção é alta em todas as idades, mas o compartilhamento depende do repertório geracional e também do ambiente, da plataforma e do grau de conforto para essa população se expor publicamente.

Na tese, você também apontou uma diferença a depender do campo ideológico da pessoa. Qual é essa diferença?

Existe uma diferença bem profunda. A gente olhou para o espectro da direita nos grupos focais e eles demonstraram forte rejeição à grande mídia, a imprensa tradicional e maior confiança em fontes alternativas, especialmente em canais no YouTube e Telegram.

Isso cria um certo paradoxo: checagens que vêm da mídia tradicional geralmente, porque a mídia tradicional que está preocupada em fazer o desmentido, em checar os fatos, não chegam a essa população, a esses grupos de direita, porque eles tendem a descartar. A própria grande mídia é percebida como uma parte do problema da desinformação ou dos problemas sociais.

Já na esquerda, por outro lado, eles conseguem reconhecer os vieses de mídia, mas ainda assim confiam mais na imprensa tradicional e nas checagens institucionais. Então, eles tendem a checar em várias pontes, denunciar fake news, que eles chamam de 'uma covardia'. Alguns até dizem que é um crime compartilhar fake news, fazer uso político disso para destruir reputação, para mobilizar o pânico moral. Isso se percebe muito no espectro da esquerda.

O centro oscila entre esses dois pólos. Com uma desconfiança generalizada, eles costumam checar mais do que a direita, mas denunciam menos do que a esquerda. Eles meio que toleram menos do que a direita quando o conteúdo é moralmente radical, mas podem cair em armadilhas quando o boato se apresenta com um aspecto de neutralidade, de moderação.

A diferença ideológica não é sobre a capacidade de checar, mas sobre a disposição para confiar. As fake news prosperam onde se percebe que a identidade do grupo está ameaçada, onde se desconfia das instituições, onde há intensa polarização e cada campo político vai reagir de forma espelhada quando a mentira mira seus próprios adversários.

Uma das conclusões ao final da pesquisa é de que as fake news não são só um fenômeno informacional, mas são também estratégias de engajamento afetivo e de reforço identitário. O que isso significa?

Trocando em miúdos, essa conclusão significa que as fake news funcionam como um crachá de pertencimento. Seria como uma camiseta de time. Ao compartilhar uma notícia falsa, por exemplo, sobre o "kit gay" ou fraude eleitoral, essa pessoa não está apenas transmitindo um dado, uma "informação". Ela está afirmando: "olha, eu pertenço a esse grupo e defendo estes valores".

Significa reconhecer que as fake news não se espalham apenas por falha de informação, mas porque elas produzem um pertencimento. Elas viraram uma linguagem de reconhecimento identitário. Quem compartilha está dizendo quem é e de que lado moral se coloca.

Na pesquisa, nós percebemos que muitas pessoas sabem que podem ser falsas, mas repassam esse conteúdo porque confirmam uma narrativa moral maior, digamos assim. Elas funcionam como espécies de bandeiras simbólicas: "eu compartilho porque isso representa o que eu acredito sobre o mundo". Isso a gente vê muito quando (é feito) um conteúdo falso sobre vacina e autismo, por exemplo.

A pessoa já tem aquela predisposição a acreditar que vacinas são um problema e quando vem um conteúdo falso que reforça isso, ela repassa, mostrando que ela acredita e o que isso representa para o seu contexto.

O engajamento afetivo é um motor. A mentira é mais compartilhada quando ela provoca ou uma indignação ou um medo ou uma injustiça percebida ou um orgulho comunitário. O reforço identitário vem quando esse repasse vira como uma espécie de comportamento daquele grupo, especialmente nas redes fechadas, como WhatsApp, em que a rede de confiança legitima o compartilhamento — eles estão entre os iguais, entre os deles. Então, elas não apenas informam errado, elas organizam esse afeto, produzem engajamento e demarcam essas identidades.

Levando em conta tudo isso que a gente conversou — essa forma como as fake news estão entranhadas no nosso cotidiano, a forma como a população, as diferentes gerações, as diferentes ideologias interagem com essas informações falsas e o avanço constante e muito acelerado das tecnologias –, o que é que a gente pode projetar para a eleição de 2026 na sua avaliação?

Eu vou buscar ser um pouco realista, mas também sem ser alarmista, se é que é possível. Eu creio que 2026 será uma eleição de corrida "armamentista" da desinformação. Esse cenário vai repetir alguns padrões, mas com tecnologias mais sofisticadas.

O que nós percebemos, na pesquisa e também do monitoramento do debate digital que tem acontecido recentemente, é que a desinformação – nesse grande guarda-chuva de fake news e 'produtos-boatos', enfim, de má informação – virou um ecossistema profissionalizado, movido por dados, por emoção e por segmentação.

Diferentemente de 2016, quando as mentiras eleitorais circulavam de forma mais lenta e centralizada, hoje às fake news se espalham em altíssima escala, com enorme velocidade. Um boato lançado ali no Telegram ou no WhatsApp pode alcançar centenas de milhares de pessoas em minutos. E, às vezes, esses conteúdos são impulsionados por redes coordenadas de compartilhamento. 

Em 2022 e em 2018, por exemplo, a gente viu que a narrativa da fraude nas urnas eleitorais mobilizou milhões de interações e se converteu numa pressão política pelo voto impresso, mesmo sem nenhuma prova concreta de fraude eleitoral. Outro exemplo foi o caso do ‘kit gay’, que já foi desmentido por diversas agências, mas continuou circulando como verdade simbólica para parte do público conservador, porque reforçava aquela sensação de ameaça aos valores familiares e religiosos.

Não é sobre informar errado, é sobre indignar e unir contra o inimigo moral.

Em 2026, a lógica tende a se intensificar em três eixos. Primeiro, o volume, a quantidade de conteúdos falsos deve crescer, porque a disputa eleitoral será ainda mais digitalizada e as campanhas aprenderam que mentiras emocionalmente potentes engajam mais do que propostas racionais. Outro ponto é a segmentação. As fake news vão ser cada vez mais moldadas a públicos específicos.

Em vez de um boato único para todos, a gente vai ter versões diferentes para cada nicho – jovens recebendo vídeos curtos e irônicos no TikTok, adultos impactados por memes e reels no Instagram e os 50+ atingidos por áudios alarmistas ou dossiês, aquela coisa do pânico moral, no WhatsApp e Telegram.

E outro aspecto vai ser essa estética mais emocional e moral, com forte apelo afetivo para vídeos manipulados, com música dramática, áudios com voz clonada, prints que imitam portais de notícia. Isso deve ser muito utilizado para reforçar essa narrativa, que eu até brinco na tese, do "bem versus o mal".

Vamos ter ataque à reputação e criação de fronteiras morais. Isso dialoga diretamente com o que eu observei nos grupos focais, porque a verdade factual perde terreno quando ela confronta essas crenças profundas. A mentira ganha poder quando se torna um ritual de pertencimento e uma munição afetiva do grupo.

Outro elemento importante que vai ter nas eleições para 2026 é a sofisticação tecnológica. Em 2018, a gente falava de correntes de texto. Em 2026, a gente vai estar falando de inteligência artificial com deep fake, com clonagem de voz, com muito mais qualidade e acesso barato.

A gente já viu um pouco desse risco em 2024, com vídeos falsos políticos circulando em eleições municipais, o conteúdo manipulado com cortes de podcasts, de lives. Em 2026, a gente vai ver vídeos e áudios falsos de candidatos e candidatas fazendo ataques a pautas morais, identitárias, com voz idêntica real, circulando ali nos grupos.

Até que se prove que é falso, o dano já foi feito. As pessoas já se enfureceram, já compartilharam, já discutiram, já formaram opinião e reforçaram as suas crenças de que o outro lado é super monstruoso.

E mesmo quando a checagem chegar, alguns grupos ainda vão dizer: "Essa checagem faz parte do complô", fechando mais a bolha. É um cenário de mais volume, mais precisão, mais segmentação, estética mais emocional e uso de tecnologia mais convincente.

E se saber que aquela informação é falsa, ou pelo menos desconfiar da veracidade dela, não é suficiente para impedir que as pessoas compartilhem aquela informação, o que pode ser feito para tentar combater a desinformação, principalmente nesse contexto eleitoral de 2026?

É a pergunta de milhões. Olha, isso tudo não significa que a população vai ser mais burra, pelo contrário. Muita gente sabe que existe mentira online, mas essa arquitetura das plataformas, o uso estratégico desse afeto, da instrumentalização da desinformação é que torna esse 2026 um desafio enorme para a democracia.

Se nós quisermos enfrentar esse problema, precisaremos combinar a educação midiática contínua com estratégias de prevenção ao boato antes que ele viralize, além de ações de responsabilização exemplar para as redes e atores que lucram com essa mentira.

Isso significa que a gente precisa preparar o público antes de a mentira se espalhar, criar alertas sobre como a manipulação costuma funcionar, em vez de apenas desmentir depois do estrago. Ao mesmo tempo, é urgente a gente reconstruir referências de confiança pública.

A gente precisa criar pontes entre essas bolhas informacionais para que a sociedade possa ao menos compartilhar ali um terreno mínimo de fatos comuns. Sem isso, essa disputa segue muito desigual. A mentira continua encontrando mais coração do que a verdade.

O enfrentamento vai passar por isso. Ensinar repertório de verificação desde cedo, antecipar boatos com campanhas de prevenção e combate às fake news, comunicar com linguagem mais humana, mais emocional, sem distorcer fatos, usar pessoas de confiança dentro dessas bolhas para criar pontes, responsabilizar essas redes coordenadas, esses atores que lucram com a mentira e cobrar transparência das plataformas.

Afinal, combater fake news em contextos eleitorais não é apenas uma tarefa técnica, de checar os dados, é um desafio cultural, afetivo, tecnológico que envolve educar as pessoas. Disputar narrativas com a humanidade e recompor esses laços de confiança social.

A nossa democracia em 2026 depende menos de detectar mentiras depois e mais de agir na prevenção, empoderando os cidadãos e cidadãs e as comunidades para reconhecer o truque antes da mensagem dominar a conversa. Se a gente quiser inverter essa norma social, fazendo com que compartilhar mentiras gere um custo moral e não um ganho de pertencimento, daremos um passo bem real aí na direção de um debate público mais justo e democrático.

Com avanço de Ciro Gomes, Camilo Santana ganha força para entrar na disputa pelo governo do Ceará

O nome do ministro da Educação, Camilo Santana (PT-CE), tem ganhado força para a disputa ao governo do Ceará em meio à rearticulação da oposição liderada por Ciro Gomes. O retorno do ex-presidenciável ao PSDB e a movimentação no campo da direita aprofundaram rompimentos entre aliados históricos e colocam em dúvida a reeleição do atual governador, Elmano de Freitas (PT-CE).

 

Ao Estadão, integrantes da oposição e do campo governista indicam que Elmano de Freitas ainda não conseguiu construir uma marca própria à frente do Executivo. Segundo esses interlocutores, o governador também apresenta fragilidades no debate sobre segurança pública.

 

Camilo Santana deve deixar o comando do MEC após a apresentação de um balanço das ações da pasta referentes a 2025, até março. Ministros que pretendem disputar a eleição deste ano precisam se desincompatibilizar do cargo até abril, conforme determina a legislação eleitoral.

 

Ele afirmou a jornalistas nesta segunda-feira, 19, que, se sair da pasta, será para atuar nas campanhas de Elmano e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Procurados pelo Estadão, Ciro Gomes e Elmano de Feitas não se manifestaram até a publicação deste texto. O espaço segue aberto.

 

A interpretação é reforçada pelo levantamento do instituto Paraná Pesquisas, divulgado em dezembro, que indica Camilo Santana na liderança das intenções de voto, com 45%, seguido por Ciro Gomes, com 36,8%. Entre aliados do governo, o desempenho corrobora a avaliação de que o ministro é, atualmente, o nome mais competitivo do campo governista diante da reorganização da direita no Estado.

 

Em um cenário de confronto direto entre Elmano de Freitas e Ciro Gomes, o ex-presidenciável assume a liderança da disputa com 46% das intenções de voto, contra 33,2% do petista.

Para Paula Vieira, cientista política e pesquisadora do laboratório Lepem da Universidade Federal do Ceará (UFC), o atual cenário é consequência direta do que aconteceu em 2022, quando Ciro Gomes rompeu com o PT no segundo turno da eleição estadual. A especialista pontua que esse episódio acelerou fissuras que, atualmente, se manifestam de forma mais explícita no tabuleiro eleitoral.

“A fragmentação da base aliada e o deslocamento de Ciro para a oposição criaram um novo eixo de forças no Estado. O que vemos, hoje, é a cristalização de um campo oposicionista que busca explorar as lacunas deixadas pela gestão petista, especialmente em áreas críticas como a segurança pública”, afirmou Paula.

Racha político e novo desenho eleitoral no Ceará

Embora Ciro Gomes ainda não tenha confirmado publicamente qual cargo vai disputar em 2026, o presidente nacional do PSDB, Marconi Perillo, avalia que o ex-governador foi levado ao partido para estar na cabeça de chapa do Estado.

Esse entendimento reúne lideranças como o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), responsável por atrair Ciro ao partido, o deputado federal Capitão Wagner (União Brasil-CE) e o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil-CE). Eles passaram a defender a construção de uma candidatura única para unificar o campo oposicionista.

Sob condição de anonimato, um assessor próximo à família Ferreira Gomes afirma considerar factível uma mudança no plano governista. Esse cenário será possível se Freitas abrir mão da tentativa de reeleição para viabilizar a candidatura de Camilo Santana ao Palácio da Abolição, caso a pressão eleitoral se consolide.

Na avaliação de Paula Vieira, a força do ex-governador vai além do PT. “No Ceará, Camilo construiu um capital político próprio, que muitos já chamam de ‘camilismo’. Esse movimento é sustentado por alianças regionais e por uma imagem pública positiva”, reconheceu. A pesquisadora aponta que o ministro conseguiu se descolar do petismo mais ideológico, o que ampliou a capacidade de diálogo com setores de centro e, até mesmo, da centro-direita.

Camilo Santana tem descartado uma possível candidatura. Mas em entrevista ao jornal O Globo, reconheceu que isso pode mudar. “Não sou candidato. O Elmano tem sido um grande governador. Ele tem direito à reeleição e está bem avaliado. Mas claro que política é dinâmica. O projeto que está em curso no Ceará tem avançado, com muita dificuldade em áreas como a segurança pública, que é um problema no Brasil inteiro. Mas tem avançado na educação, saúde e geração de emprego”, afirmou o ministro.

Para Capitão Wagner, a influência de Camilo Santana sobre o atual Executivo estadual é, ao mesmo tempo, a sustentação e o desgaste da gestão Elmano de Freitas. Wagner argumenta que o atual governador não conseguiu consolidar autonomia política.

“Hoje, quem manda de fato é o Camilo Santana; o Elmano é o ‘governador de direito’. O ministro é quem escolhe desde o secretário até o presidente da Assembleia Legislativa. O candidato é quem dita as regras no Estado, e eu acredito que essa falta de autonomia é um dos principais fatores de desgaste do atual governo”, disse Wagner.

Foto do autor Fabio S. Borges
Por Fabio S. Borges

 

 

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