Nervoso com pesquisas, Lula 3 descobre só agora problemas velhos, alguns que ele mesmo criou
Vinicius Torres Freire
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA) / FOLHA DE SP
Quando a pimenta das pesquisas entra no olho, governos saem por um instante do estado de embevecimento consigo mesmo. É aquele encantamento com a própria esperteza, a convicção de que seus planos são infalíveis e populares e até de que a realidade se dobra a mágicas e milagres. Lula 3 é até mais encantado consigo mesmo do que Lula 1 e 2.
Aconteceu de novo. O governo descobriu, entre outras coisas, que juros altos causam problemas —ah, vá. Começou então o barata-voa. Há reuniões frenéticas. Vazam para jornais ideias de providências inócuas, tolas ou malucas até se considerado o próprio interesse do governo. No pico recente da inflação de alimentos, faz um ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que caçaria quem encarecia o ovo (não achou) e baixou o imposto de importação da lata de sardinha. Hum.
Pesquisas de voto e de opinião provocaram o choque de realidade virtual no governo. Virtual, por assim dizer, pois se trata de reação à opinião recolhida pelas pesquisas, não a fatos que possam ter motivado maus humores do eleitorado.
Alguns desses motivos por vezes são propaganda podre, como a campanha da direita sobre o pix de janeiro de 2025 ou a que tenta jogar no colo do governo a bandalha inteira do Master. Outros são reais e sabidos: inflação alta, de alimentos em especial, é impopular. Taxas de juros altas causam problemas também no varejo, bidu, como encarecimento de bens, achatamento relativo da renda, inadimplência.
O pessoal do governo ainda parece achar que é possível conter inflações sem que taxas de juros subam. Quer que as pessoas façam mais empréstimos, mesmo nessa situação. Não faz lé com cré. No curto prazo, não há solução para juros altos a não ser tranco fiscal —e olhe lá. Há agora no governo quem pense em tabelar certas taxas de juros e, na prática, até preço de combustível. Vai dar besteira e não vai ajudar nem o governo.
As taxas de juros subiram também por causa do aumento de gasto público, que contribuiu para o aquecimento excessivo da atividade econômica e para o descrédito do governo e da moeda (juros mais altos no mercado e desvalorização do real). Subiu ainda por causa de momentos de alta mundial do dólar e do preço dos alimentos. A coisa piorou com mudanças e descrédito do arcabouço fiscal já em 2024. Por isso tudo, o custo do crédito bancário "livre" (não direcionado por governos) sobe desde outubro de 2024. O crédito pessoal (excluído o rotativo) encarece desde agosto de 2024. A Selic voltou a aumentar desde setembro de 2024.
O gasto com serviço da dívida (juros e amortização) foi "recorde" em dezembro de 2025, dado mais recente. Mas estava então quase no mesmo nível de setembro de 2025 —de resto, esse cálculo do Banco Central não é lá preciso bastante, no curto prazo, para interpretar certos problemas, como o mau humor popular. Sim, a inadimplência da pessoa física estava alta em janeiro de 2026, a maior com exceção de 2012 (há dados desde 2011). Mas subia de modo notável desde o fim de 2024.
Claro que daria problema. Gasto além da conta dá problema. Sem ação do BC e com mais inflação, Lula 3 seria triturado nas pesquisas. O problema, no fundo, é mais antigo. Lula não aprendeu a conversar com o novo eleitorado e tratou mal aquela minoria de "centro" que fez a balança pender para o lado dele na eleição de 2022. De resto, o lulismo-petismo continua a acreditar em maluquice macroeconômica. Daria problema.
Lula cobra em reunião pressa para reagir a Flávio Bolsonaro
O presidente Lula (PT) cobrou de aliados pressa na estruturação da pré-campanha presidencial durante reunião no Palácio da Alvorada, na segunda-feira (23). A instrução do petista vem no momento em que seu principal adversário, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ganha terreno nas pesquisas de intenção de voto.
Ainda segundo relatos, o presidente deu sinais de frustração com os resultados dos levantamentos eleitorais e com a dificuldade de conversão das ações do governo em votos. Ele reclama da falta de energia para reagir à ofensiva bolsonarista.
Nos dias seguintes ao encontro, a cúpula petista instruiu deputados do partido a acirrar o embate político com a oposição, focando especialmente no caso Banco Master. A orientação é para aumentar a repercussão das declarações de Lula sobre o tema e colar o escândalo de fraude financeira no bolsonarismo.
Lula tem recebido regularmente o núcleo de sua pré-campanha para debate de conjuntura e definição de estratégia política-eleitoral.
Na segunda-feira, quando o petista cobrou seus aliados em tom de preocupação, estavam presentes alguns dos principais nomes da coordenação, como o presidente do PT, Edinho Silva, que será o coordenador geral, o ex-presidente da Petrobras Sérgio Gabrielli, que coordenará a elaboração do programa de governo, e o ex-prefeito de Diadema (SP) José de Filippi Jr., que será o tesoureiro.
Entre auxiliares do presidente, a avaliação é a de que o campo adversário avançou na montagem dessa estrutura da pré-campanha. No dia seguinte à reunião no Alvorada, Edinho Silva transmitiu a recomendação do presidente a deputados petistas.
Durante almoço com a executiva bancada do PT na Câmara, o presidente do PT informou que o PL já havia constituído um robusto corpo jurídico e uma assessoria de comunicação. Enfatizando a importância da próxima eleição, defendeu também a necessidade de adesão a jantares de arrecadação, como um programado para abril.
Ele lembrou ainda que, diferentemente do PT, o PL não repassa recursos do fundo partidário para seus diretórios, o que permite maior reserva de recursos para a campanha.
No encontro, instruiu que os deputados reproduzissem mais o discurso de Lula e buscassem maior alinhamento à comunicação do governo. Foi mencionado como exemplo a associação do caso Master à gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central, ainda no governo de Jair Bolsonaro (PL).
Em discurso na semana passada, o presidente da República se referiu ao caso Master como "ovo da serpente" deixado pela gestão Bolsonaro. A cúpula do governo julga não ter nada a ver com o escândalo, mas avalia que a fraude tem causado desgaste à imagem da atual gestão.
Outra recomendação é para vinculação do aumento de combustíveis à guerra iniciada pelos EUA. A estratégia é lembrar que o presidente americano, Donald Trump, é apoiado pelos bolsonaristas, enquanto Lula prega a paz.
Além disso, a ideia é questionar por que governadores apoiados por Bolsonaro não aderiram à proposta do governo federal para que abram mão da receita do ICMS sobre combustíveis, permitindo a redução do preço ao consumidor.
Ainda segundo relatos dos participantes, os deputados sugeriram que o governo também faça sua parte, adotando medidas de estímulo à economia popular e liberação de recursos para programas de interesse social.
Ao comentar a falta de estruturação da pré-campanha petista descrita por Edinho, deputados chegaram a lembrar que hoje detêm a máquina governista e seria alarmante supor que o adversário estaria mais bem organizado.
Flávio Bolsonaro foi escolhido por seu pai, preso por tentativa de golpe, para representar o campo bolsonarista na eleição presidencial. Desde o anúncio, no fim do ano passado, Flávio ganhou terreno e agora aparece empatado com Lula nas pesquisas de intenção de voto.
Uma aceleração da pré-campanha, por parte de Lula, é um movimento limitado no momento. A campanha oficial só começa oficialmente em agosto. Até lá os postulantes são proibidos, por exemplo, de pedir voto.
Ato de João Campos mostra estratégia da esquerda: exaltar Lula, mas ampliar alianças
A estratégia é, do ponto de vista discursivo, manter o perfil de esquerda, mas abrir caminhos para dialogar com correntes mais conservadoras, mesmo que estes grupos já tenham mantido ou mantenham diálogo com o bolsonarismo.
João Campos anunciou como vice em sua chapa Carlos Costa, economista e irmão do ministro de Portos do governo Lula, Silvio Costa Filho. Ambos são filiados ao Republicanos, um partido de viés conservador, mas que integra o governo federal.
Aqui no Ceará, Elmano tenta uma cartada semelhante. Mesmo sendo filiado ao PT e mantendo um arco de aliança de inclinação de centro-esqueda, o governador deu o start, nesta semana, em uma estratégia agresssiva para atrair a federação União Progressita, formada por União Brasil e Progressistas. Os partidos de esquerda estão percebendo que, no Nordeste, embora haja uma hegemonia de Lula e da esquerda, o apoio do presidente, embora ainda determinante, não é suficiente para aglutinar forças e assegurar uma aliança forte.
Evento forte em Recife
O lançamento da pré-candidatura de Campos, no Recife, teve os elementos de campanha eleitoral, com um detalhe: a tentativa explícita de nacionalizar a disputa. Ao se apresentar como aliado direto de Lula, ele busca ocupar um espaço que, hoje, ainda não está formalmente definido, pois a governadora Raquel Lyra (PSD), adversária de Campos, tenta manter Lula longe da disputa em sua terra natal. E é justamente aí que reside o primeiro ponto sensível da equação.
Lula entre a lealdade e a cautela
Apesar da sintonia exibida no discurso, o PT pernambucano ainda observa o cenário. O ruído em torno da presença de Marília Arraes (PDT) na chapa evidencia que há pontos a serem resolvidos. Para Lula, a decisão não é trivial. Apoiar João Campos significa consolidar uma aliança estratégica com o PSB em um estado-chave, mas se distanciar da governadora pode não ser a melhor estratégia em um estado em que o presidente precisa fazer diferença de votos pensando no cenário nacional.
Nordeste é laboratório de estratégia
A pré-candidatura de João Campos não apenas inaugura uma disputa estadual, mas antecipa um teste importante para 2026. As necessidades de Lula fazem o Nordeste voltar a ocupar o centro do tabuleiro político nacional e Pernambuco é um território a ser observado.
Saída de Ratinho Jr. é o fim da terceira via
Após deixar caso Master, Toffoli vai atuar no TSE durante eleições
COLUNA DA MALU GASPAR COM Por Rafael Moraes Moura— Brasília / O GLOBO
Depois de deixar a relatoria do caso Master em meio à revelação das conexões pessoais de sua família com o executivo Daniel Vorcaro, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli vai atuar no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) durante as próximas eleições presidenciais – quando mais uma vez vai estar sob os holofotes num pleito em que o escândalo do banco deve ocupar o centro do debate político. Durante o período de campanha eleitoral, que começa em 16 agosto, os ministros do TSE costumam decidir sobre pedidos de coligações e candidatos para retirar do ar peças publicitárias de adversários ou cobrar direito de resposta, o que pode obrigar Toffoli a enfrentar novamente as investigações do Master, mas sob o ponto de vista da propaganda política.
Toffoli vai assumir a vaga de ministro titular do TSE com a saída da atual presidente, Cármen Lúcia, conforme o esquema de rodízio de vagas da Corte Eleitoral, formada por três representantes do STF, dois do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outros dois juristas escolhidos pelo presidente da República. Tal troca pode ser um motivo de alívio para os políticos encrencados. Na avaliação de especialistas em direito eleitoral ouvidos reservadamente pelo blog, Toffoli tem um perfil mais “político” e “menos intervencionista” do que Cármen, sendo muito comedido em relação às competências do Legislativo e do Executivo, o que indicaria uma menor predisposição em cassar mandatos ou invadir o que seriam atribuições de outros poderes.
A saída de Cármen e a chegada de Toffoli também deve impactar a correlação de forças do tribunal, que será presidido durante as eleições por Kassio Nunes Marques, com André Mendonça, o atual relator do caso Master, na vice-presidência. Kassio e Mendonça foram os únicos ministros do STF indicados pelo então presidente Jair Bolsonaro ao cargo. O atual corregedor-geral da Justiça Eleitoral, ministro Antonio Carlos Ferreira, é ligado aos dois. Por outro lado, os ministros da classe de juristas, Estela Aranha e Floriano de Azevedo Marques são mais próximos da órbita petista e dos ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes, respectivamente.
“Toffoli não tem um perfil padrão. Não se pode dizer que é durão nem liberal”, disse um ex-ministro do TSE ouvido em caráter reservado. “Da composição do Supremo, será o único a já ter no currículo o exercício da Presidência do TSE, numa eleição complexa como a de 2014.” Na avaliação de um interlocutor de Toffoli, o contexto político atual é muito diferente do de 2014. “O Toffoli que foi no passado não me parece se aplicar hoje. Podemos esperar qualquer coisa, ou seja: é imprevisível”, afirmou.
Toffoli deixou a relatoria do caso Master após o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, entregar ao presidente do STF, Edson Fachin, um documento de 200 páginas listando indícios de conexões entre Vorcaro e Toffoli que poderiam levar à sua suspeição – como por exemplo o pagamento de R$ 35 milhões do banco de Vorcaro por uma fatia do resort Tayaya, do qual o ministro admitiu ser sócio. O relatório levou Toffoli a renunciar à relatoria do caso Master, após uma reunião secreta em que os outros ministros o pressionaram a sair.
Calendário
Cármen vai deixar a presidência em junho deste ano, quando termina o período de dois anos de sua gestão – tempo máximo de duração para cada administração, conforme previsto no regimento interno do TSE. Mas em tese a ministra pode permanecer na Corte Eleitoral até o fim de agosto, quando termina o seu segundo biênio. Isso porque cada ministro do Supremo que atua no TSE pode ficar até quatro anos no tribunal. “Esse assunto é o que mais se debate nos corredores. A aposta é a de que Cármen não ficará até agosto, até porque no mês de julho não tem sessão de julgamento”, disse um integrante do TSE ouvido em caráter reservado.
Toffoli já presidiu o TSE
Indicado ao cargo pelo presidente Lula em seu segundo mandato, Toffoli já presidiu o TSE entre maio de 2014 e maio de 2016, período que incluiu as turbulentas eleições presidenciais de 2014, vencidas por Dilma Rousseff por uma diferença de apenas 3,5 milhões de votos sobre Aécio Neves (PSDB). Na época,o TSE negou um pedido do PSDB de formar uma comissão para fazer auditoria sobre aquele pleito, mas autorizou que os tucanos tivessem os dados solicitados, como acesso a programas utilizados nas urnas eletrônicas e os boletins de urnas emitidos após as eleições.
“A pretensão do partido político, tratada com certo estardalhaço, não constitui em solicitação que não tenha sido previamente garantida por esse tribunal com grande antecedência em relação à data das eleições. Muito embora o partido não tenha se manifestado em momento exato, esta Corte não se omite em fornecer os dados”, afirmou Toffoli na ocasião. A ofensiva do PSDB de lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral acabou servindo de munição para Jair Bolsonaro tentar colocar em xeque a credibilidade das urnas eletrônicas.

