Slogan do governo antecipa a campanha de Lula
Por João Paulo Silveira / O GLOBO
O governo federal lançou um novo slogan: “Do lado do povo brasileiro”. À primeira vista, soa inofensivo — até redundante. Afinal, todo governo, por definição, deveria estar ao lado do povo. A redundância, porém, não é descuido, mas estratégia. Ao proclamar estar “do lado do povo”, o governo coloca seus adversários, por contraste, no “outro lado” — contrários ao povo. O que se apresenta como lema administrativo desloca, na prática, a comunicação governamental do terreno informativo para o da adesão, típico das campanhas eleitorais.
Isso não é trivial. O slogan aparece como assinatura de toda a comunicação governamental, impondo-se a ministérios, autarquias, fundações e estatais. Também serve de mote criativo para campanhas institucionais, reforçando a mensagem. E não se limita à publicidade paga. Está presente em discursos, materiais oficiais e redes sociais. Em suma, permeia e condiciona tudo o que é comunicado — e faz isso com recursos públicos.
Adotar um código de campanha já no slogan revela um problema mais profundo: o uso da comunicação governamental como instrumento de disputa política. Não se trata de exclusividade do governo Lula, mas o que se vê agora é uma intensificação preocupante.
Democracias maduras já enfrentaram esse dilema e fixaram regras proibindo qualquer traço de disputa eleitoral nas comunicações oficiais. Foram além: vedaram o uso de recursos públicos em mensagens de autoelogio e autopromoção. O juízo de mérito deve caber à sociedade, nunca ao próprio governo.
No Brasil, a regra geral até existe, e com status constitucional: a publicidade oficial deve ter caráter educativo, informativo ou de orientação social — sem promoção pessoal. É possível discutir aperfeiçoamentos nas normas infraconstitucionais, mas não é aí que está o verdadeiro problema. Ele é estrutural — e político.
A Secom, órgão responsável pela comunicação do governo, além de estar sob o comando do responsável pela última campanha eleitoral de Lula, não dispõe de carreira pública nem de quadro técnico permanente. Todos os cargos são de livre nomeação e podem ser substituídos a qualquer momento. Esse arranjo permite que a comunicação seja moldada inteiramente pelo grupo político de ocasião, sem freios institucionais nem memória técnica.
A escala também importa. A Secom administra contratos que ultrapassam R$ 600 milhões por ano — em publicidade, comunicação institucional, produção de conteúdo, pesquisas e, em breve, serviços digitais. Somam-se a isso contratações pontuais, como eventos. É um volume expressivo, superior ao orçamento de investimento de vários ministérios, com real poder de influenciar a formação da opinião pública.
Além de sua força própria, a Secom é, por lei, o órgão central de comunicação do Executivo. Coordena e integra não apenas a publicidade, mas também os patrocínios; estabelece diretrizes para toda a máquina federal; define a “voz única” do governo; e exerce influência sobre a EBC, que controla rádios, TV e agência de notícias.
Não se questiona a importância da Secom, nem o volume de recursos que administra. A comunicação é parte vital de qualquer governo e tornou-se ainda mais estratégica na era digital. Não por acaso, o Reino Unido a reconhece como um dos quatro principais instrumentos de ação estatal, ao lado da legislação, da regulação e da tributação. Mas, justamente por essa relevância, a exigência de impessoalidade e de finalidade pública precisa ser ainda maior.
O novo slogan “Do lado do povo brasileiro” é a face visível de uma distorção mais profunda. A comunicação governamental deve existir exclusivamente para informar e orientar o cidadão, não para elogiar mandatos nem antecipar campanhas. A eleição deve nascer nos partidos e no debate público mediado pela imprensa. No governo, não pode começar — e, se começou, não deve prosseguir.
*João Paulo Silveira é auditor público
Em meio a racha, União Brasil filia Roberto Cláudio, em Brasília, com Rueda, Ciro e Capitão Wagner

O ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, oficializa a filiação ao União Brasil nesta quarta-feira (5), em Brasília. O movimento acontece em meio a impasses internos sobre a posição ideológica da legenda no Ceará: se oposição ou base do Governo Elmano.
No evento, marcado para as 14h, na sede do União Brasil, já estão presentes, além de Roberto Cláudio, o presidente do União Brasil no Ceará, Capitão Wagner; o presidente do União Brasil, Antônio Rueda; o presidente do PSDB Ceará, Ciro Gomes, e outros aliados do grupo oposicionista no Estado.
Roberto Cláudio anunciou a desfiliação do PDT em maio deste ano. Em junho, definiu que iria para o União Brasil, mas a oficialização só acontece agora.
"Estou muito animado, a gente começou o movimento ano passado, um grupo de políticos de oposição que tinha como propósito organizar as oposições do estado do Ceará e apresentar ao nosso povo um projeto alternativo ao que está aí. Me desfiliei já alguns meses atrás no PDT, até para dar mais liberdade ao próprio PDT e para me dar mais liberdade também no exercício do papel de oposição. Hoje formalizo que eu já anunciei, a minha filiação ao União Brasil", disse Roberto Cláudio ao chegar ao local do evento.
Ao discursar, Roberto Cláudio afirmou que o União Brasil enfrentou pressão antes de sua filiação e diálogo foi fundamental para garantir apoio nacional.
"Em todas as nossas conversas, como disse o presidente de Rueda, nunca houve dúvida, sempre houve clareza, transparência, firmeza, inclusive pra colocar na mesa os constrangimentos e problemas e dificuldades naturais do partido", disse Roberto Cláudio. Ele lembrou que as tratativas começaram antes mesmo da formalização da federação com o Progressistas.
Em sua fala, Capitão Wagner fez elogios a Roberto Cláudio, de quem já foi adversários em diferentes disputas políticas, e disse que ele chega ao partido "para ser candidato ao que quiser". "Tem nome, serviço prestado, (pode ser) candidato a governador, senador, prefeito. O partido vai lhe dar condição", pontuou.
Presidente nacional da legenda, Rueda disse que Roberto Cláudio é 'começo da mudança' para 'derrotar mazela governamental' no Ceará.
"A vinda do Roberto Cláudio hoje a essa federação é o começo da mudança do Ceará. Eu ouso dizer que, pela primeira vez, eu consigo enxergar um conjunto de forças políticas dentro do Ceará, construindo um novo caminho para o Ceará. Vejo o PL, o PSDB; vejo pessoas que, antes não se falavam, hoje dialogando num vértice comum: derrotar tudo aquilo que é uma mazela governamental, que representa um atraso da política", afirmou.
Ciro diz que critica Wagner por Cid
Recém-filiado ao PSDB, Ciro Gomes, ao discursar, fez elogios a Capitão Wagner e relembrou época em que foram adversários. Segundo Ciro, os ataques a Wagner eram feitos pelo que chamou de 'solidariedade cega' ao irmão Cid Gomes, ex-governador e atual senador."Inicia-se na política como adversário nosso. Eu, menos por ele e mais por solidariedade cega ao meu irmão, lembro, hoje com certo riso, o que já foi com muita amargura até recentemente, eu não queria nem saber quem era o Capitão Wagner, só queria saber de atacar o Capitão Wagner porque ele era adversário agressivo do meu irmão. Hoje percebo que aquela agressividade era um espírito público ainda não burilado, era uma vocação política não adestrada, representando, a seu modo, mas indubitavelmente de boa-fé, os interesses da corporação, que é a Polícia Militar, valorosíssima, que ele começou representando, mas extrapolou disso", disse Ciro.
Estão presentes no evento, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado; o presidente do PL, Valdemar Costa Neto; o empresário e suplente de senador Prisco Bezerra; o ex-deputado ACM Neto; os deputados estaduais do Ceará Antônio Henrique (PDT), Lucinildo Frota (PDT), Felipe Mota (União) e Queiroz Filho (PDT), e o ex-prefeito de Fortaleza José Sarto. Também estão presentes a vereadora de Fortaleza Priscila Costa (PL) e o deputado federal Matheus Noronha (PL).
Impasse no União Brasil
Nos últimos meses, algumas mudanças têm gerado desacordos no União Brasil no Ceará. Em agosto, foi oficializada a federação União Progressista. No Ceará, o Progressistas (PP) compõe a base aliada do governador Elmano de Freitas (PT).
A mudança tornou mais incisiva a aproximação de uma ala do União Brasil ao grupo de Elmano. Os deputados Moses Rodrigues e Fernanda Pessoa têm comparecido a eventos do governo e feito declarações de apoio ao governador. O próprio Antônio Rueda esteve em Fortaleza e teve encontro com o Moses e o chefe da Casa Civil do Estado, Chagas Vieira.
Roberto Cláudio, que rompeu com o governismo em 2022, na disputa pelo Governo do Estado, chega ao partido no momento em que há indefinições de como a presidência da legenda deve lidar com as diferentes posturas.
"A natureza democrática é essa, a gente tem que saber conviver com as diferenças de opinião dentro de cada partido", disse Roberto sobre o assunto, nesta quarta-feira.
'Não há abertura'
O presidente do União Brasil no Ceará, Capitão Wagner, voltou a reforçar nesta quarta que "não há abertura para se apoiar outra candidatura".
A declaração é dada após episódios recentes em que Moses declarou apoio a Elmano em evento governista, e Fernanda Pessoa fez publicação nas redes sociais com mesmo teor.
"O próprio Moses falou comigo, no dia seguinte à fala dele: 'Wagner, é lógico que, se o partido vai apoiar um candidato de oposição, eu não posso subir no palco do Elmano, não posso fazer propaganda, não posso ter material gráfico. Então, ele está ciente disso. O Moses não tem qualquer intenção em sair do partido e já deixou isso muito claro. Agora, se a Fernanda, e eu digo aqui, eu respeito, tenho um carinho muito grande pela Fernanda; se a Fernanda pensa diferente, eu acho que ela não pensa, ela sabe, ela conhece a legislação eleitoral, é deputada estadual duas vezes, é deputada federal, ela sabe que a legislação não permite que, tendo o partido um candidato, ela suba no palanque de outro. Então, o que falei foi isso, repito: o desejo da gente é que o partido esteja unido na campanha, como esteve na campanha passada, abraçando a minha candidatura ao Governo do Estado", explicou Wagner, ao chegar ao evento.
No PSDB, Ciro faz elogios a André Fernandes e Wagner e defende Roberto Cláudio ao Governo do Ceará
Em seu primeiro discurso como filiado ao PSDB, o ex-ministro Ciro Gomes fez elogios a ex-adversários políticos, criticou governos petistas, voltou a falar sobre ter sofrido traição política e disse que, se seguisse o próprio juízo, "não seria mais candidato a nada". "Mas o juízo é pouco aqui, quem manda é o coração", complementou, alimentando esperança em aliados de que possa ser candidato em 2026.
A oficialização na legenda tucana aconteceu nesta quarta-feira (22), em um hotel de Fortaleza, ao lado de lideranças como o ex-senador Tasso Jereissati (PSDB), o presidente do PL Ceará, André Fernandes, e o presidente do União Brasil Ceará, Capitão Wagner. No encontro, o político também defendeu o nome do ex-prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio (Sem partido), para ser candidato ao Governo do Ceará em 2026.
Em discurso, Ciro agradeceu a presença de partidos que, mesmo com "divergências", estão dispostos a concretizar a aliança da oposição. Nesse momento, cumprimentou André Fernandes e o chamou de "jovem talento".
"Eu quero dizer muito obrigado às lideranças todas, que sendo diferentes das nossas, com quem já tive embates quentes, calorosos. Alguns eu estava errado, o que me custa ter a humildade para mostrar isso? E outros eu aprendi pelo amadurecimento que eu estou testemunhando. Eu estou falando do companheiro que teve que sair para cumprir suas tarefas, o Capitão Wagner”
Capitão Wagner esteve no evento, mas precisou sair antes do discurso de Ciro, devido ao deslocamento para um compromisso em Brasília. Mesmo assim, foi mencionado pelo ex-adversário, com quem teve embates no início da carreira política, quando Ciro atuava no Governo Cid Gomes.
"Eu quero dizer muito obrigado às lideranças todas que, sendo diferente das nossas, com quem já tive embates quentes, calorosos, alguns eu estava errado, que me custa ter humildade para mostrar isso. Aprendi pelo amadurecimento que estou testemunhando. Eu estou falando do companheiro que teve que sair para cumprir suas tarefas, o Capitão Wagner. Capitão, você não está só", afirmou Ciro.

Já sobre Roberto Cláudio, Ciro disse que o ex-gestor é "o mais pronto e acabado quadro" para qualquer tarefa. "Está pronto para ser o grande governador que o Estado do Ceará pode ter", ressaltou.
Na sua fala, Ciro também fez críticas a políticas trabalhistas do Governo Lula, falou sobre o problema da segurança pública no Ceará e relembrou projetos políticos em que atuou, como a ferrovia Transnordestina.
Candidatura não está descartada
O ex-ministro voltou a falar sobre a "traição" que julga ter sofrido do grupo político governista em 2022, quando houve um rompimento, especialmente com seu irmão, o senador Cid Gomes. "Muito obrigado a todos os militantes que se mantiveram generosamente fiéis, quando a traição, a ingratidão foram corroendo as possibilidades de eu continuar ali", disse.
Mesmo com elogios a Roberto Cláudio e sinalização de apoio à candidatura ao Governo, Ciro não descartou ser candidato.
"Se o juízo mandasse em mim, eu não seria mais candidato a nada, depois da amargura que sofri pelas traições, pela ingratidão que eu nunca esperava. Tirei um terceiro lugar feio em Sobral, doeu pra caramba, mas o juízo é pouco aqui, quem manda aqui é o coração, então vou dizer aquilo que vocês talvez esperem ver: vamos trabalhar, vamos organizar, vamos prepara um projeto de futuro, eu vou cumprir a minha obrigação", destacou ao fim do discurso.
ANÚNCIOS DURANTE A FILIAÇÃO
O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB) anunciou, durante o evento, que o ex-ministro Ciro Gomes, ao se filiar ao PSDB, vai assumir a presidência do partido a nível estadual.
Já a presidência do PSDB Fortaleza ficará a cargo do ex-prefeito José Sarto, que também entrou nas fileiras tucanas no mesmo evento.
O atual presidente da legenda, Ozires Pontes, já havia anunciado que não teria o mandato de dirigente renovado. A composição da sigla homologada em outubro de 2023 será encerrada no próximo dia 31.
Lula lidera todos os cenários de primeiro turno para as eleições de 2026, segundo Paraná Pesquisas
Por Raisa Toledo / O ESTADÃO DE SP
Levantamento do instituto Paraná Pesquisas divulgado nesta segunda-feira, 27, mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à frente em todas as simulações de primeiro turno das eleições de 2026.
A pesquisa propôs cenários em que Lula enfrenta a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Também compõem a sondagem o governador do Paraná Ratinho Júnior (PSD); o governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo); o governador de Goiás Ronaldo Caiado (União Brasil) e Ciro Gomes, recém-filiado ao PSDB.
A pesquisa é a primeira realizada depois do presidente afirmar que vai concorrer à reeleição em 2026. O anúncio foi feito na última quinta-feira, 23, em visita a Indonésia.
Cenário 1
- Lula (PT): 37,3%
- Michelle Bolsonaro (PL): 28%
- Ratinho Júnior (PSD): 8,5%
- Ciro Gomes (PSDB): 8,2%
- Ronaldo Caiado (União): 4,2%
- Romeu Zema (Novo): 2%
- Não sabe/não opinou: 5,5%
- Nenhum/branco/nulo: 6,2%
Cenário 2
- Lula (PT): 37,4%
- Tarcísio de Freitas (Republicanos): 22,3%
- Ciro Gomes (PSDB): 9%
- Ratinho Júnior (PSD): 8,1%
- Romeu Zema (Novo): 5,7%
- Ronaldo Caiado (União): 4,1%
- Não sabe/não opinou: 5,8%
- Nenhum/branco/nulo: 7,6%
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Cenário 3
- Lula (PT): 37,6%
- Flávio Bolsonaro (PL): 19,2%
- Ratinho Júnior (PSD): 9,6%
- Ciro Gomes (PSDB): 8,9%
- Romeu Zema (Novo): 6,2%
- Ronaldo Caiado (União): 4,8%
- Não sabe/não opinou: 5,9%
- Nenhum/branco/nulo: 7,7%
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O instituto Paraná Pesquisas também simulou um cenário com o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em que Lula registrou 37% e Bolsonaro 31%. No entanto, o ex-presidente está inelegível em razão de condenações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
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Nas simulações de segundo turno Lula aparece com 44,7% contra 41,6% de Michelle e com 44,9% ante 40,9% de Tarcísio. Já contra Flávio, a diferença é maior: 46,7% contra 37% do senador.
- O Paraná Pesquisas ouviu 2.020 eleitores em 162 municípios de 26 Estados e do Distrito Federal. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais para mais ou para menos e o índice de confiança é de 95%.
Ciro Gomes retorna ao PSDB, desafia PT e chacoalha xadrez eleitoral do Ceará
Ciro Gomes tinha 32 anos quando disputou pela última vez um cargo majoritário no Ceará, estado onde tem suas raízes políticas. Elegeu-se governador em 1990 pelo PSDB, cargo que depois o catapultaria para sua primeira vitrine nacional: o Ministério da Fazenda do então presidente Itamar Franco.
Agora, aos 67, Ciro volta a assinar a ficha do PSDB, tenta retomar o protagonismo político em seu estado e chacoalha o xadrez eleitoral do Ceará. O retorno ao ninho tucano será oficializado nesta quarta-feira (22) em um ato político em Fortaleza.
Separam estes dois Ciros um intervalo de 35 anos. Neste período, ele passou por quatro partidos –PPS, PSB, Pros e PDT– e disputou quatro eleições presidenciais, sendo derrotado em 1998, 2002, 2018 e 2022. Mesmo sem sucesso nas urnas, se consolidou com um líder político com presença nacional.
Após ser derrotado em 2022, quando teve seu pior desempenho nas quatro eleições presidenciais e saiu das urnas com 3% dos votos, Ciro anunciou que não disputaria mais eleições. Mas tudo caminha para que ele não cumpra a promessa que fez a si e aos eleitores.
A tendência, apontam aliados, é que ele seja o adversário do governador Elmano de Freitas (PT) na eleição do próximo ano para tentar interromper um ciclo de governos petistas iniciado em 2015 com a eleição de Camilo Santana, hoje ministro da Educação do governo Lula (PT).
Desta forma, faz um movimento buscando reconstruir o seu capital político a partir da sua base eleitoral. Para se reposicionar no jogo político, tenta amarrar uma unidade entre os partidos da oposição, incluindo até mesmo o PL de Jair Bolsonaro.
O movimento vinha sendo maturado desde o ano passado, quando seus principais aliados apoiaram o deputado federal bolsonarista André Fernandes (PL) no segundo turno em Fortaleza. A aproximação foi intensificada em maio deste ano, com o ex-ministro se reunindo com deputados de oposição ao governador.
Na ocasião, Ciro sinalizou pela primeira vez que toparia uma possível candidatura ao governo e declarou apoio a uma provável candidatura ao Senado do deputado estadual e pastor Alcides Fernandes (PL), pai de André Fernandes.
"Existe um sentimento majoritário na oposição de que é preciso unir forças, apresentando um palanque único e forte contra o governador", afirma o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio, aliado próximo a Ciro que vai se filiar ao União Brasil.
Ao mesmo tempo em que passou a confraternizar com adversários do passado, Ciro ampliou as divergências políticas com antigos aliados como Camilo Santana e até mesmo com o próprio irmão, o senador Cid Gomes (PSB), com quem está rompido desde 2022.
Cid, que governou o Ceará entre 2007 e 2014, tem afirmado que uma possível candidatura de Ciro criará uma situação "absolutamente constrangedora". O senador é aliado de Elmano de Freitas e deve apoiar a reeleição do governador.
Questionado sobre a filiação de Ciro ao PSDB, Cid afirmou em entrevista à imprensa que cada qual segue o caminho que quer: "Ninguém deve comentar a vida dos outros. A gente deve se esforçar para fazer o melhor pelo povo. Você nunca vai me ver falando mal de adversário, muito menos de meu irmão".
Entre aliados de Ciro, uma possível candidatura ao governo é vista como um movimento capaz de mexer com o tabuleiro eleitoral do estado.
Nomes como o ex-deputado Capitão Wagner (União Brasil) e o deputado André Fernandes (PL) sinalizaram que não se opõem a uma aliança. O principal ponto de resistência é o senador Eduardo Girão (Novo), que se lançou pré-candidato a governador e lembra que Ciro não possui uma trajetória na direita.
Aliados do governador minimizam o impacto da entrada o ex-ministro na disputa estadual: "Gostaria muito de ver Ciro Gomes candidato da oposição no Ceará, com toda sua arrogância e incoerência", afirmou Chagas Vieira, chefe da Casa Civil do governo, ao jornal O Povo.
Elmano trabalha para ampliar o seu arco de alianças e tenta trazer para o seu palanque a federação formada por PP, que já é seu aliado no estado, e União Brasil, que está dividido.
Outro partido que se reaproximou do governador é o PDT, do qual Ciro pediu desfiliação na semana passada. A legenda faz parte da base de Lula e retomou pontes com o PT no Ceará.
No PSDB, a filiação de Ciro Gomes é encarada como um movimento de caráter local, com foco na disputa do governo do Ceará. Há uma preocupação de evitar especulações de que Ciro pode ser candidato a presidente pela quinta vez.
A articulação para a volta de Ciro ao partido foi conduzida pelo ex-governador Tasso Jereissati, que foi seu padrinho político no início de carreira.

