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Vimos ascensão da extrema direita e penalização de quem está no poder, diz cientista político

Naief Haddad / FOLHA DE SP

 

O fortalecimento de líderes da extrema direita e a penalização do político que ocupa o governo são marcas das eleições deste 1º turno, afirma Eduardo Grin, cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP). Na disputa nacional, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47% dos votos ante 45% de Lula (PT).

A esses fatores, Grin acrescenta a má avaliação do governo Lula e um cansaço crescente da população em relação ao PT.

No segundo turno, diz o analista, é difícil que Lula consiga reverter o placar desfavorável desta primeira rodada. Mas existem novos fatores a serem considerados, como os prováveis debates na TV e "a máquina do governo, que vai entrar fortemente em ação".

De acordo com Grin, um segundo turno que contrapõe o lulismo ao bolsonarismo pela terceira vez consecutiva demonstra a cristalização das posições políticas na sociedade. "É muito difícil que outras concepções políticas quebrem essas estruturas de massa."

Tivemos Flávio Bolsonaro à frente de Lula neste 1º turno. Além disso, foram 20 estados com situação já definida, com ampla vantagem dos conservadores, que também se fortaleceram no Senado. É uma nova guinada à direita?
Vimos dois fenômenos, que muitas vezes se combinam: a ascensão da extrema direita e a penalização do incumbente de plantão. E isso não se aplica só ao caso brasileiro. Tivemos recentemente vitórias da AfD [Alternativa para a Alemanha, partido de extrema direita], algo impensável um tempo atrás.

O fortalecimento de uma lógica antissistema fica nítido com o bom desempenho dos candidatos do PL ao Senado. Em pelo menos um momento na campanha, eles prometeram botar em pauta o impeachment de um ou mais ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Os eleitores penalizam o incumbente porque veem nele um representante das elites, porque pensam nele como responsável pela redução do poder de compra, porque tem corrupção no Brasil –não importa onde ela esteja. Não existe uma única razão para esse sentimento contra o sistema, é uma malaise com sinais difusos e escolhas nem sempre racionais.

Por outro lado, se o governo Lula tivesse uma avaliação melhor, teria condições de ser mais competitivo, mesmo com esse voto antissistema. Um outro aspecto é que o PT não se deu conta da intensidade do cansaço das pessoas com o partido.

Flávio Bolsonaro ganhou votos com a desidratação dos candidatos nanicos?
Acredito que sim, já se imaginava que poderia acontecer um movimento de voto útil neste 1º turno. E, mais uma vez, o governo federal errou porque deveria ter pensado em maneiras de lançar pontes para esses outros candidatos.

Qual é a chance de Lula reverter o resultado no 2º turno?
É como a Copa Libertadores da América. Primeiro, vem a fase de grupos. Quando começa o mata-mata, é outro campeonato. Mas eu diria que é difícil reverter porque Flávio Bolsonaro deve contar com a maior parte dos votos destinados aos nanicos no 1º turno. Tem chance, inclusive, de aumentar a diferença em relação a Lula.

Por outro lado, surgem novos fatores agora. Será difícil fugir dos debates; a máquina do governo vai entrar fortemente em ação; Davi Alcolumbre, já antevendo que será derrotado na reeleição para a presidência do Senado, vai querer passar o fim da escala 6 por 1; a banda governista do STF pode impor novas derrotas para Flávio. Ou seja, o governo segue competitivo, mas vai precisar, a curto prazo, mudar a estratégia de comunicação e criar uma sensação mínima de esperança para a maior parte dos eleitores.

Em 20 estados, teremos no segundo turno apenas o voto para presidente da República. Isso tende a favorecer qual dos candidatos?
Flávio Bolsonaro, que terá muitos palanques estaduais. Ele vai dizer: "morador do Rio Grande do Sul [onde venceu Zucco, do PL], é muito mais fácil fazer política pública com um governador que é amigo meu do que com alguém que faz oposição a esse governador". Mas, claro, cada caso tem as suas particularidades.

Pela terceira vez consecutiva, teremos um segundo turno com o bolsonarismo versus o lulismo. O que isso significa?
Que temos uma cristalização das posições políticas na sociedade. Neste momento, é muito difícil que outras concepções políticas, outras ideologias quebrem essas estruturas de massa muito consolidadas no país, ligadas a duas lideranças personalistas, Lula e Jair Bolsonaro, mesmo preso.

Nesse sentido, o PT vai ter que encarar um sério desafio de renovação. A extrema direita tem sido mais inteligente em abrir espaço para novas lideranças do que a esquerda. Essa ausência de renovação penalizou a esquerda. Veja, mais uma vez, a grande votação obtida por Nikolas Ferreira (PL-MG).

No ano passado e nos primeiros meses deste ano, muito se falava sobre a possibilidade de ascensão de uma terceira via na disputa presidencial, o que não aconteceu. Por quê?
Se temos dois grandes campos políticos, o petismo e o bolsonarismo, que dão conta de preencher quase todo o espectro da disputa, os eleitores fazem seus cálculos. "Qual é a minha primeira opção se não quero que Lula ganhe? Eu não vou votar em um candidato que vai perder", diz esse eleitor. O mesmo vale para Flávio Bolsonaro. "Posso não morrer de amores por Lula, mas tenho muito medo de um retorno do bolsonarismo ao poder". Esses medos cruzados mobilizam muito os eleitores para escolher a opção mais viável para derrotar o do outro lado.

O PT arranca em qualquer eleição presidencial com um piso em torno de 30%. E o bolsonarismo, com algo entre 25% e 30%. Os outros 15% ou 20%, que cada um obtém, grosseiramente falando, representam aqueles que votam para que o outro não vença. A impossibilidade de fortalecimento de uma terceira via se deve muito a esse voto útil, das pessoas que não querem que Lula ganhe e daquelas que não querem que Flávio Bolsonaro saia vencedor. Ou seja, acontece uma soma do voto por adesão e do voto por exclusão.

Além disso, existe a desagregação interna dos partidos grandes. Veja como exemplo o MDB. No Nordeste e em estados como Pará e Amazonas, o partido vota com Lula. Nas regiões Sul e Sudeste, está majoritariamente ao lado de Flávio.

Nos últimos dias de campanha, houve essa controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil. As questões religiosas estão cada vez mais inseridas no debate político brasileiro?
Sim. Há dois fenômenos: uma politização cada vez maior da religião e uma maior religiosidade na política. Qualquer que seja o candidato precisa fazer menção à sua profissão de fé porque o Brasil é um país muito religioso. Isso se intensificou quando passou a haver mais disputa em torno dos espaços religiosos, não existe uma hegemonia, como antes. E cada espaço religioso carrega uma visão de mundo.

A CNBB, por exemplo, está mais associada à ideia de justiça social e de um olhar para segmentos da sociedade que requerem apoio do Estado. É diferente de uma visão de mundo ligada ao empreendedorismo dos evangélicos, embora não possam ser vistos como um campo unificado. E isso tudo acaba sendo transmitido para as candidaturas.

Reportagem publicada pela Folha mostrou que essa tem sido a campanha com menor engajamento dos eleitores desde o retorno da democracia, na década de 1980. O que explica esse desinteresse?
Para começar, a disputa se restringe basicamente a duas opções. Uma delas, Lula, está na política brasileira há mais de 40 anos e não consegue inspirar em grande parte da população a confiança de que será capaz de inovar em um eventual quarto mandato. De outro lado, o filho de Jair Bolsonaro e a memória recente da tragédia que foi o governo dele na saúde, o desmantelamento de política pública, entre outros problemas.

Seja lá qual for o vencedor, prevalece uma baixa expectativa ou mesmo uma falta de expectativa.

Um outro aspecto são as denúncias de corrupção, que atingem os dois lados. O eleitor diz: "Eles só pensam nos seus próprios interesses; vou me mobilizar para defender o quê?". São esses os fatores principais. Mas há ainda outros aspectos. As redes sociais tendem a reduzir os espaços de mobilização porque as ações ficam mais individualizadas.

Como avalia as interferências do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na campanha?
Aprendemos que quando a democracia começou a ser consolidada como regime político, no final do século 19, o papel do Poder Judiciário era criar estabilidade e garantir as normas que organizam a vida em sociedade, inclusive nos processos eleitorais. Hoje, o que deveria ser um fator de estabilidade virou talvez o principal fator de instabilidade na corrida eleitoral, o que é muito ruim.

Quando as sociedades democráticas perdem confiança no seu principal árbitro, elas acabam mediando seus conflitos por meio de arranjos, o que terá um custo mais adiante para a democracia brasileira.

Pela primeira vez em 20 anos, não tivemos no primeiro turno debate com os líderes das pesquisas na disputa federal. O quanto isso é ruim para a democracia?
É muito ruim. O desapreço pelo debate alimenta o desalento em torno da democracia. Em um cenário em que vemos a ascensão da extrema direita, não é bom privar a sociedade de um debate. Não que debates na TV tenham audiência grande, mas são oportunidades em que a esfera pública se organiza para discutir ideias. Seja qual for a justificativa para a ausência no debate, não me parece aceitável.

Nesse ponto, porém, é preciso diferenciar os dois campos políticos. Podemos criticar o Lula por várias razões, mas ele não vai colocar a democracia em risco. Quanto ao Flávio Bolsonaro, o risco existe.

Algum outro tema desta campanha te chamou a atenção?
A política internacional ganhou mais espaço nas discussões. Na eleição de 2022, tínhamos vários governos de esquerda na América do Sul, um presidente do Partido Democrata nos EUA e um presidente de extrema direita no Brasil. Hoje, temos uma maioria de governos de direita e extrema direita na América do Sul, um republicano na Casa Branca e um presidente de esquerda no Brasil. O cenário se inverteu.

Para os EUA, uma vitória de Flávio Bolsonaro significaria controlar a joia da coroa na América Latina, que é o Brasil.

Raio-X - Eduardo Grin, 63
Nascido em São Leopoldo (RS), em 1963, é cientista político e professor do departamento de gestão pública da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo. É um dos autores de "Capacidades Estatais Municipais" (2021) e do recém-lançado "Handbook of Federalism in Ibero-America - A Comparative Analysis"

 

 

Empresários dizem que desgastes de Lula e do STF deram vantagem a Flávio

Joana CunhaeAlexa Salomão / FOLHA DE SP

 

Empresários e executivos de diferentes setores ouvidos pela Folha afirmam que a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno da eleição não pode ser explicada apenas por problemas na economia, como o alto endividamento da população.

Entre os fatores apontados estão o desgaste da gestão lulista e a atuação do Judiciário durante a campanha. Na avaliação de parte dos entrevistados, acabaram pesando contra Lula decisões e intervenções de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

 

A chegada de Flávio ao segundo turno à frente do presidente dá ao filho de Jair Bolsonaro uma vantagem que o pai não conseguiu obter em 2022. Com 99,59% das urnas apuradas, Flávio tinha 47,12% dos votos válidos, contra 45,06% de Lula.

 

O CEO da consultoria Zag Work, Rogelio Golfarb, que foi presidente da Anfavea e vice-presidente da Ford na América do Sul, afirma que o desempenho de Flávio Bolsonaro sinaliza uma transformação política mais ampla.

"O sentimento de mudança e de uma abordagem mais liberal e à direita parece estar mais espalhado e mais sólido do que tínhamos visto antes. E isso pode ser visto também no resultado do Legislativo e dos governos estaduais em geral", afirma o executivo.

 

José Olympio Pereira, que chefiou os bancos Credit Suisse e Safra e apoiou publicamente o candidato Renan Santos (Missão) no primeiro turno, afirma ter visto no resultado deste domingo uma mensagem de cansaço com o PT.

"A sociedade brasileira deu um recado claríssimo de que não aguenta mais o Lula e que quer uma mudança", afirma.

O resultado coloca o bolsonarismo em situação mais favorável do que a registrada há quatro anos. Em 2022, Jair Bolsonaro terminou o primeiro turno com 43,2% dos votos válidos contra 48,2% de Lula.

O empresário Alexandre Ostrowiecki, presidente do conselho do Grupo Multi, qualificou o resultado como surpreendente e muito favorável a Flávio Bolsonaro.

Na avaliação de Ostrowiecki, Flávio soube ocupar espaço com uma estratégia oposta à do pai. "Evitou as frases polêmicas, as brigas com as instituições e a agenda de confronto que custaram votos a Jair Bolsonaro em 2022, e concentrou a campanha num único eixo, o antipetismo. Com isso recebeu, às vésperas do primeiro turno, a migração do eleitor de centro-direita que estava com Caiado, Zema e outros, repetindo o movimento de voto útil de 2022", afirma.

O empresário avalia que "foi uma estratégia inteligente de jogar parado e apostar no erro do adversário".

 

"Dois fatores de fundo também pesaram. Os recentes escândalos envolvendo o STF, somados à percepção pública de que a maioria da corte foi indicada por governos do PT, reforçaram a sensação de que o sistema precisa de uma troca. E há o desgaste natural de um partido que governou o Brasil em 18 dos últimos 24 anos", diz ele.

 

A crise no Supremo atravessou a campanha e, na reta final, decisões das duas cortes provocaram controvérsia ao interferirem na disputa eleitoral. A mais recente ocorreu no debate presidencial da TV Globo, cancelado a três dias da votação. A ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de mostrar o púlpito vazio de Lula, que havia decidido não comparecer ao encontro. Horas depois, Gilmar Mendes, do STF, determinou que a Globo incluísse Renan Santos (Missão), contrariando os critérios estabelecidos pela emissora para o debate.

Flávio, que até então participaria do encontro, desistiu após as decisões. A Globo acabou cancelando o programa.

O sócio-fundador e CEO do BR Partners, Ricardo Lacerda, tem percepção similar. "Estamos vendo uma reação forte aos abusos do STF —foi o grande eleitor de hoje", afirma.

 

Outro embate entre as cortes ocorreu no caso da notícia falsa segundo a qual Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil caso fosse eleito. André Mendonça, ministro do STF que também integra o TSE, havia determinado a retirada de publicações consideradas "notoriamente inverídicas". Flávio Dino, do Supremo, anulou posteriormente parte da decisão e liberou publicações sobre o tema, abrindo uma disputa sobre os limites de atuação das duas cortes.

Lacerda ainda vê um cansaço no eleitorado. "Também parece haver uma exaustão do modelo de governo do PT, com gastos fiscais excessivos e juros muito altos."

O economista Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do Banco Central e sócio da Jubarte Capital, faz uma leitura mais ampla do resultado.

Pelo aspecto econômico, afirma que as urnas refletiram a preocupação dos brasileiros com a própria situação financeira, em particular o elevado nível de endividamento das famílias.

O país chegou às urnas com indicadores positivos no mercado de trabalho. A taxa de desemprego ficou em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor patamar para esse período desde o início da série histórica, em 2012. Ao mesmo tempo, 82% das famílias tinham dívidas a vencer em agosto, maior percentual da série iniciada em 2010.

Para além da economia, Figueiredo enxerga razões políticas. Ele afirma que Flávio é visto mais ao centro do que o pai e que seu programa foi mais bem recebido. Na sua avaliação, a gestão Lula também não correspondeu às expectativas em outras áreas consideradas sensíveis pelos eleitores.

"A percepção é que o governo teve péssimo desempenho em duas das principais preocupações da população: segurança e corrupção", afirma.

 

Figueiredo também está no grupo que destaca o fator Judiciário: "Existe um sentimento de indignação com o que ficou percebido como manobras pró-Lula pelo Supremo e alguns ministros do TSE."

Outro capítulo com a Corte envolveu revelações sobre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. Flávio explorou o episódio na propaganda eleitoral e buscou associar o desgaste da corte ao governo Lula, enquanto o presidente procurou se distanciar do STF e de Moraes.

O impacto foi captado pelo Datafolha. Em pesquisa realizada em meados de setembro, 47% dos eleitores disseram que a crise no STF teria influência na escolha do voto para presidente. Quando questionados sobre quem seria prejudicado pelo episódio, 38% citaram Lula e 31%, Flávio.

Outro executivo, presidente de uma grande multinacional, que pediu para não ter seu nome divulgado, também afirma que Flávio Bolsonaro cresceu devido ao desgaste de Lula e do PT. Na sua avaliação, o petista teve dificuldade de identificar esse movimento por ter se isolado durante o terceiro mandato.

O diagnóstico de aliados de Lula sobre a estratégia contra Flávio Bolsonaro no 2º turno

Malu Gaspar/ O GLOBO

Ainda sob o impacto da apuração da votação de domingo, que terminou com Flávio Bolsonaro (PL) à frente de Lula (PT), aliados próximos do presidente da República traçaram um diagnóstico sobre os problemas da campanha petista no primeiro turno e os ajustes que acreditam ser imprescindíveis na estratégia a ser adotada contra o filho de Jair Bolsonaro nas próximas três semanas.

 

O principal temor no entorno de Lula é que a vantagem de Flávio no primeiro turno provoque um efeito manada a favor do presidenciável do PL em partidos do Centrão, o que isolaria o presidente e dificultaria o processo de ampliar apoios na segunda rodada. Além disso, como colégios eleitorais relevantes tiveram eleições para governador resolvidas no primeiro turno, como São Paulo, Minas Gerais e Bahia, o que costuma desmobilizar eleitores e aumentar o índice de abstenção no segundo.

 

No calor do momento, petistas avaliam que Flávio acabou na frente do presidente por uma onda de voto útil da direita e pela força da narrativa antissistema, no contexto da crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF) e do caso do Banco Master. Por esses motivos, avaliam, é preciso corrigir desde já o que creem ser erros da campanha.

 

O que tem que mudar

 

Para esses interlocutores de Lula, o presidente precisa “deixar a arrogância de lado” e participar de todos os debates no segundo turno, já que o petista não aceitou nenhum convite na primeira rodada.

 

“Lula precisa se expor mais, se arriscar, e principalmente explicar ao eleitor por que ele merece permanecer no governo por mais quatro anos”, disse um deles à equipe da coluna sob reserva. “É uma campanha de virada, já que não estamos na dianteira da disputa”.

 

Uma ideia que vem ganhando força e foi expressa à equipe da coluna por duas pessoas que estão muito próximas de Lula é a de que é preciso mudar a estratégia digital do candidato à reeleição. Hoje o gerenciamento das redes é comandado pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Sidonio Palmeira, o fotógrafo do presidente, Ricardo Stuckert, a jornalista Nicole Briones e a primeira-dama, Janja.

 

A mudança na tônica das redes do PT e de Lula deverá ser um dos principais objetos de disputa no segundo turno.

 

Também há uma avaliação preponderante de que a campanha tratou mais sobre o passado do que do futuro ao propagandear os feitos do petista e menos propostas e projetos novos.

 

A fala de Lula a apoiadores na noite deste domingo (4) depois da definição de que haverá um segundo turno, no Hotel Renaissance, nos Jardins, em São Paulo, sinalizou que ele já assimilou algumas dessas mudanças. No discurso, o petista defendeu a importância de encarar a eleição como uma oportunidade do país definir seu “futuro” e elencou promessas para um eventual quarto mandato.

 

“Vamos convencer o povo brasileiro da importância de continuarmos com um projeto tecnológico, de desenvolvimento de terras raras e minerais críticos, da nova descoberta de petróleo, e a gente vai ver o que é a nova indústria do Brasil. Agora até a canetinha de emagrecimento a gente vai fazer com que as pessoas que precisem vão ter de graça pelo SUS”, declarou Lula.

 

Aliados do petista também defendem uma “desconstrução pesada” da figura de Flávio Bolsonaro nas próximas semanas. Os dois não se enfrentaram diretamente em nenhum debate ou sabatina no primeiro turno.

 

No discurso em São Paulo, no qual admitiu que contava com uma vitória no primeiro turno, Lula também indicou que caminhará nessa direção:

“Do outro lado, temos apenas incerteza com uma biografia de um passado tenebroso. Não há biografia do pai [Jair Bolsonaro], do filho. É uma biografia tenebrosa com suspeitas gravíssimas, com relação com os milicianos, com o crime organizado, com os assassinatos do Rio de Janeiro. Tudo isso vai ficar claro e também com a participação na criação do Banco Master, que resultou na maior orgia envolvendo políticos e autoridades desse país”.

 

O tempo, no entanto, é exíguo: Lula tem apenas 20 dias para frente para superar a vantagem de 2 milhões de votos de Flávio, que deverá absorver boa parte do eleitorado de direita e centro-direita que votou em Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e até em Augusto Cury (Avante), e ampliar o eleitorado da campanha do PT.

 

 

Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Tarcísio reeleito

Pela lógica política convencional, um governador do estado mais populoso e economicamente poderoso do país é candidato em potencial à Presidência da República —ainda mais um reeleito em primeiro turno sem sobressaltos, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos) neste domingo (4).

A situação do carioca que recebeu mais de 60% dos votos válidos em São Paulo, contudo, é peculiar. Ele teve a chance de disputar o Palácio do Planalto já neste ano, cortejado do centro à direita para se lançar como alternativa a Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Recusou a missão para não desafiar o padrinho político, Jair Bolsonaro (PL), que lançou o filho Flávio.

Em seu primeiro mandato, Tarcísio tentou se equilibrar entre mostras de moderação e de fidelidade ao bolsonarismo. Não se prestou a pregações golpistas, a questionamento das urnas eletrônicas nem a ataques a instituições ou à imprensa. Abraçou, porém, a causa infame da anistia ao ex-presidente condenado por tentar subverter a democracia.

Em seus piores momentos na administração, fez avançar bandeiras reacionárias como as escolas cívico-militares —baseadas na ilusão de que a disciplina fardada adotada em estabelecimentos que selecionam seus alunos poderá melhorar o aprendizado em larga escala na rede de ensino.

Foi criticado pela truculência da polícia estadual e pela relutância em apoiar a política de câmeras corporais. Soube ceder: passou a apoiar as câmeras e mudou a cúpula da Secretaria de Segurança Pública, o que teve efeito ao menos simbólico.

Sua gestão é bem avaliada pelos paulistas. Segundo o Datafolha, 47% a consideram boa ou ótima, ante 21% que a reprovam como ruim ou péssima. O governador do Republicanos soube preservar uma espécie de estabilidade conservadora no estado que remonta à longa hegemonia anterior do PSDB, iniciada em 1995.

Berço do PT, São Paulo nunca elegeu um governador da legenda, rejeitada sobretudo no interior —e não foi diferente com Fernando Haddad, ex-prefeito da capital que disputou novamente o Bandeirantes para dar um palanque a Lula. Em 2022, chegou ao menos ao segundo turno contra Tarcísio. Ambos são especulados como presidenciáveis em 2030.

O futuro do vitorioso na eleição estadual parece hoje mais sujeito a variáveis, a começar pelo desempenho de Flávio na eleição presidencial. Mais do que não ter firmado uma marca de governo, Tarcísio ainda não tem uma clara identidade política. Seu segundo mandato tende a ser esclarecedor nesse sentido.

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Turbulências agravam revolta de parte da população com o STF e deixam a Corte no centro do resultado eleitoral

Vera Magalhães/ Os principais fatos da política, do Judiciário e da economia.O GLOBO
O papel do Supremo Tribunal Federal é central para a compreensão do resultado do primeiro turno da eleição de 2026, e não só na eleição de um grande número de senadores da direita bolsonarista que tiveram o impeachment de ministros da Corte como plataforma. Também a proximidade do governo Lula com o STF, mais especificamente com uma ala de ministros organizada em torno de Alexandre de Moraes, cobrou do presidente um preço mais alto do que ele e seu entorno calculavam, o que faz com que seja necessário, agora, no entendimento desses aliados, recalcular a rota de dissociação da crise de imagem da Corte para ter chance de virar o jogo contra Flávio Bolsonaro.
 

A malfadada sessão de 15 de setembro e, nas últimas semanas, a guerra de decisões monocráticas por parte de integrantes do Supremo, além de sua disputa aberta com outro tribunal superior, o TSE, pela definição de lances cruciais da campanha, são vistos como fatores a agravar a revolta de uma parcela da população que, viu-se, era bem maior que aquela que os governistas estimavam.

 

Lula tentou se dissociar da crise do tribunal, sobretudo depois que ficou evidente que Moraes escondera o grau e a natureza de sua relação com Daniel Vorcaro.

 

Num dos últimos atos de campanha, a entrevista camarada que concedeu ao Flow Podcast, voltou a defender uma reforma do Judiciário e a repetir o lugar-comum segundo o qual ninguém pode se tornar ministro do STF para enriquecer. Ainda assim, achou-se no dever de enaltecer o papel que Moraes desempenhou em defesa da democracia.

 

Pois bem: o arrastão bolsonarista, uma realidade sob todos os ângulos pelos quais se analise o primeiro turno, mostra que a maioria da população não reconhece esse papel e não vê na tentativa de golpe consignada no decorrer do governo de Jair Bolsonaro e na posterior intentona de 8 de janeiro de 2023 razões para rechaçar um grupo político. Antes mesmo de os eleitos de agora colocarem em marcha propostas de anistia ou indulto que certamente virão, o eleitorado parece ter anistiado os golpistas na urna eletrônica — contra a qual, aliás, eles sempre investiram.

 

Não é simples para Lula rifar Moraes e adotar um cordão sanitário em relação ao STF. Mas ajudaria sua inglória missão de virar a eleição num mapa do Brasil quase todo tingido de azul que suas excelências compreendessem o tamanho da insatisfação do país com sua atuação e parassem de usar a caneta sem nenhum pudor para tentar mudar a direção do vento nas eleições.

 

O adiamento sine die da crise envolvendo Moraes e André Mendonça, as decisões (do STF, mas também do TSE) que inviabilizaram o único debate eleitoral que aconteceria no primeiro turno e a divisão mais nítida dos ministros em grupos políticos produziram no eleitor uma revolta manifestada num voto antissistema mais contundente que o de 2018, porque produziu um Congresso hostil ao Judiciário.

Se Lula quiser ter uma chance de se salvar da onda azul, precisa forçosamente separar seu destino ao dos ministros que são vistos como próximos de seu governo.

 

O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal FederalO ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal — Foto: O ministro Gilmar Mendes, durante julgamento no plenário do Supremo Tribunal Federal

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