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Oposição planeja estratégia eleitoral em 4 Estados do Nordeste e PT pode perder hegemonia

Por Levy Teles e Danielle Brant / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA – A oposição nos Estados governados pelo PT no Nordeste já definiu os principais “telhados de vidro” que devem ser explorados na tentativa de impedir o partido de manter seu domínio no Ceará, Rio Grande do Norte, Piauí e Bahia. 

 

O principal deles será a segurança pública, uma área em que o PT sempre patinou. Os quatro Estados superaram a taxa média de homicídios dolosos do Brasil em 2024, que ficou em 16,64 mortes por 100 mil habitantes, segundo o Mapa da Segurança Pública 2025, elaborado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. O Piauí registrou taxa de 17,3, enquanto a do Rio Grande do Norte foi de 18,46 e a da Bahia, de 28,32. O Ceará obteve a pior taxa do País, de 34,42 mortes por 100 mil habitantes.

 

Procurado, o governo da Bahia disse que “trata a redução da violência letal como compromisso permanente, com metas, monitoramento e prestação de contas” (veja a íntegra da resposta mais abaixo). Os demais Estados não responderam. Duas das capitais, Fortaleza e Salvador, aparecem entre os cinco municípios com maiores números de homicídios dolosos em 2024. Além disso, Bahia (40,6) e Ceará (37,5) ocupam, respectivamente, a segunda e terceira colocação entre os Estados com mais mortes violentas por 100 mil habitantes, segundo os dados do Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 2025.

 

Mesmo antes do início formal da campanha os dados negativos já são explorados por oposicionistas nas redes sociais. Principal adversário de Jerônimo Rodrigues (PT) ao governo da Bahia, o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil) ataca a política de segurança do petista. “Eu tenho rodado o interior da Bahia e ouvido relatos que tiram o sono. O medo chegou onde antes as portas ficavam abertas, as crianças brincavam na rua e as famílias viviam com tranquilidade. Isso não é exagero. É a vida real de muitas cidades baianas”, disse em vídeo postado nas redes sociais.

 

Na avaliação de aliados de ACM Neto, essa é a melhor oportunidade que o grupo tem contra o PT, que pode vencer a sexta eleição consecutiva para o governo do Estado. “Eles já estão há 20 anos no poder e todos os indicadores sociais pioraram”, disse o deputado federal Paulo Azi (União-BA). “É o campeão nacional de mortes violentas. Na Bahia morrem muito mais gente do que em São Paulo e no Rio de Janeiro, Estados muito maiores que a Bahia.” Pesquisa Genial/Quaest divulgada no final de abril mostra empate técnico entre os dois. Neto aparece numericamente à frente, com 41% dos votos ante 37% de Jerônimo. A margem de erro é de três pontos porcentuais.

No Ceará, o discurso é parecido. Principal adversário do governador Elmano de Freitas (PT), o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) se alinhou ao bolsonarismo no Estado para tentar derrotar o petista. Uma das principais fragilidades que ele explora em seus discursos também é a crise na segurança pública cearense.

 

“As facções tomaram conta do Estado. O Ceará subiu para um dos primeiros Estados do Brasil no cometimento de crimes”, disse o pré-candidato durante ato de campanha no Ceará neste final de semana. Pesquisa da Genial/Quaest também do final de abril mostra outro cenário de empate técnico, mas apenas quando o adversário é o ex-ministro da Educação Camilo Santana. Num eventual segundo turno, Camilo aparece com 44%, ante 39% de Ciro. Quando a simulação é com Elmano, o tucano tem 46%, ante 35% do petista.

Bahia e Ceará aparecem entre os Estados com piores indicadores de segurança pública. O tema também é explorado pela oposição ao governo Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte. “Estamos assistindo o pior governo do Rio Grande do Norte. A criminalidade, a marginalidade, o tráfico de drogas rola solto aqui no RN. Os cidadãos inseguros, as facções tocando o terror, incendiando ônibus, promovendo assaltos continuamente sem que o governo do Estado tenha uma ação eficiente e coloque a polícia nas ruas”, disse Álvaro Costa Dias (PL), candidato do bolsonarismo no Estado.

 

O deputado General Girão (PL-RN) vê desgaste natural “enorme” de Fátima Bezerra. “Os índices de educação são os piores possíveis do Brasil já há mais de três anos. Os índices da economia idem, o Estado está cheio de buracos nas estradas”, afirma.

 

Ele também cita o aumento do endividamento do Estado na gestão Bezerra. “O governo (do ex-presidente Jair) Bolsonaro pagou corretamente o fundo de participação dos Estados. Agora, nem com o pagamento de dívidas que ela (Fátima) tem, dívidas com a Previdência, que o governo federal resolveu ajudar ela pagando precatórios, nem com isso daí ela tá conseguindo acertar as dívidas, as contas do Estado. Por quê? Porque ela gasta mais do que arrecada”, afirma.

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O que explica as manobras da Marinha com o porta-aviões americano e do Exército brasileiro nos EUA O Rio Grande do Norte possui a situação mais delicada para o PT nos quatro Estados. O vice-governador rompeu com Fátima Bezerra, que agora trabalha para emplacar o ex-secretário da Fazenda Cadu Xavier, que aparece atrás nas pesquisas. Levantamento do Real Time Big Data de dezembro mostra o prefeito de Mossoró Allyson Bezerra (União) na frente, com 42% das intenções de voto, seguido pelo também oposicionista Álvaro Dias (17%). Cadu Xavier tem 11%.
 

“Segurança pública será o principal tema praticamente em todas as eleições estaduais. Agora isso pode ter um efeito ampliado nesses Estados porque não pega só as gestões estaduais do PT mas atinge o presidente Lula, porque o partido governa a nível nacional”, afirmou Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político da Fundação Getulio Vargas.

 

Dos quatro Estados, o Piauí tem a situação menos preocupante para o partido e mais difícil para a oposição. Além de ter os melhores indicadores entre esses quatro Estados, o atual governador, Rafael Fonteles (PT), lidera as pesquisas de intenção de votos com sobras e tem propostas do campo da da segurança pública como carro-chefe de campanha.

 

Um deles é um novo esquema de investigação que permitiu recuperar milhares de celulares roubados e abaixou os números de roubos e furtos na capital e no interior do Estado.  O grande case de sucesso piauiense incorporado pelo governo federal foi o programa Protege Celular, iniciado em janeiro de 2023, que rastreia e identifica celulares furtados e reduziu os dados relativos a esse tipo de crime no Estado. Inspirado por essa iniciativa, o governo federal lançou o programa Celular Seguro em dezembro de 2023.

 

Como resultado dos bons números divulgados das iniciativas piauienses, o então secretário de Segurança Pública do Estado, Chico Lucas, virou secretário nacional de Segurança Pública no Ministério da Justiça no começo deste ano. No Piauí, a oposição trabalhará com a principal mensagem de que há um Estado vendido na TV e nas redes sociais e há o Estado real. “O que a gente está fazendo é o seguinte. A gente vai assentar no problema que o governador vende uma imagem que não existe”, disse o deputado federal Júlio Arcoverde (PP-PI).

 

Oposicionistas mencionam como principais críticas a lentidão da construção do porto de Luís Correia e sobre as promessas de campanha sobre o hidrogênio verde. “O porto inaugurou mas sem nada, sem estrutura. O hidrogênio verde, que seria a maior sensação do Piauí, que daria um passo no mundo, e nunca aconteceu, nunca deu no papel”, afirmou.

 

A oposição está dividida entre dois principais nomes neste momento: pleiteiam o cargo no Piauí o ex-prefeito de Floriano Joel Rodrigues (PP) e o jornalista Toni Rodrigues (PL). A situação é muito favorável para o PT no Estado. Pesquisa AtlasIntel de março indica vitória no primeiro turno para Fonteles, que aparece com 57% das intenções de voto. A pesquisa não analisou um cenário com Joel Rodrigues. “Nosso candidato é imponderável. Pode dar certo. Se cair na graça popular, pode dar certo. Quem quer ele é o povo”, disse Arcoverde.

 

Para Vitor Sandes, cientista político da Universidade Federal do Piauí (UFPI), parte do sucesso de Fonteles se deve ao fato de ele avançar em temas que o PT deixa de lado. “Ele adota aspectos do lulismo no campo social, mas avança em temas mais caros à direita, como a segurança pública e desenvolvimento”, disse. “Os investimentos em segurança deram certo porque virou uma marca da campanha logo no início.”

 

Governo da Bahia rebate críticas

Por meio de nota, o governo da Bahia disse que não comenta estratégias eleitorais. A administração estadual informou, no entanto, que “trata a redução da violência letal como compromisso permanente, com metas, monitoramento e prestação de contas”. O governo informa ainda ter ampliado o efetivo policial, a estrutura, a tecnologia, a inteligência e a presença territorial. A administração estadual sustenta ainda que em 2025 a Bahia “registrou redução de 13,1% nas mortes violentas, o melhor resultado dos últimos 19 anos, e Salvador alcançou o menor número de mortes violentas dos últimos 25 anos”. O mesmo movimento de redução teria ocorrido no início deste ano.

 

André Fernandes anuncia apoio à pré-candidatura de Ciro Gomes ao Governo do Ceará

Escrito por Milenna Murta*/ DIARIONORDESTE
 
 

O presidente do PL Ceará e deputado federal, André Fernandes, anunciou que vai apoiar a pré-candidatura de Ciro Gomes (PSDB) ao Governo do Ceará. A declaração foi feita na manhã desta quinta-feira (14), em vídeo nas redes sociais. Ciro vai lançar a pré-candidatura no próximo sábado (16).

No último ano, a relação entre eles teve idas e vindas, diante do histórico de críticas de Ciro ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A situação se agravou após críticas da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao partido, por causa da aliança com Ciro, durante o lançamento da pré-candidatura ao Governo do senador Eduardo Girão (Novo). Desde então, a orientação nacional era de suspensão das tratativas.

"Discordamos em praticamente tudo que dava pra discordar e, provavelmente, discordaremos de mais algumas coisas quando essa eleição passar", disse em vídeo.

Na publicação, a confirmação de apoio veio dizer que irá "estar junto" no lançamento da pré-candidatura do tucano e justificou:

O deputado federal disse ainda que o objetivo desse apoio seria tirar o atual eixo governista do poder "de uma vez por todas".

Pré-candidatura de Ciro Gomes

O ex-ministro e ex-governador Ciro Gomes (PSDB) lançará a pré-candidatura ao Governo do Ceará neste sábado (16), no bairro Conjunto Ceará, às 9 horas. A decisão do tucano se deu ao ligar para o deputado federal Aécio Neves, presidente nacional do partido.

Em fevereiro deste ano, Ciro já tinha chegado a dar indícios sobre uma possível disputa ao cargo de governador, afirmando que "meu juízo diz pra eu não ser candidato, mas meu coração está balançado".

 

Foto mostra André Fernandes, Pastor Alcides e Ciro Gomes abraçados em evento partidário.

Legenda: André Fernandes com o pai, Alcides Fernandes, pré-candidato ao Senado, e Ciro Gomes.
Foto: Thiago Gadelha.

*Estagiária sob supervisão da jornalista Jéssica Welma.

O candidato laranja

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A confirmação da chapa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição expôs, sem qualquer disfarce, uma malandragem política que avilta os interesses federativos de São Paulo. A escolha do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) como primeiro suplente de André do Prado (PL), atual presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) e pré-candidato ao Senado, é uma manobra nada sutil com o objetivo de fazer da suplência um atalho para que Eduardo volte a assumir um mandato eletivo – a despeito de sua cassação por faltas e sua condição de réu perante o Supremo Tribunal Federal por coação e obstrução da Justiça, no contexto da cruzada lesa-pátria que o indigitado encampou desde os EUA.

 

Ora, não é preciso grande esforço intelectual para compreender a artimanha. André do Prado é um político obscuro, sem grande experiência em eleições majoritárias, tendo sido apenas prefeito de sua cidade natal, Guararema (SP). Por conta própria, o sr. Do Prado jamais demonstrou densidade eleitoral compatível com uma disputa da envergadura da eleição para o Senado por São Paulo. Sua súbita ascensão à condição de pré-candidato a um assento na Casa não decorre de seu capital político autônomo, mas de sua utilidade circunstancial: o presidente da Alesp não é mais do que uma espécie de candidato laranja a serviço do clã Bolsonaro, com entusiasmado apoio do presidente de seu partido, Valdemar Costa Neto.

 

O próprio governador paulista tratou de eliminar qualquer dúvida sobre o arranjo ao admitir que André do Prado “acertou” sua pré-candidatura ao Senado com Eduardo nos EUA. Este, por sua vez, teria “aberto mão” de disputar a vaga, ainda segundo Tarcísio. Ou seja, a formação da chapa não é resultante de uma escolha partidária orgânica, tampouco de uma construção política baseada em mérito, histórico de realizações em prol de São Paulo ou representatividade eleitoral. É uma reles concessão de espaço para contornar impedimentos jurídicos e políticos evidentes que recaem sobre Eduardo Bolsonaro, o grande beneficiário do eventual sucesso desse estratagema.

 

Por ter sido cassado por faltas, ser réu em ação penal e residir no exterior para escapar do alcance da Justiça brasileira, Eduardo Bolsonaro não tem condições morais e objetivas para sequer pleitear uma vaga para disputar o Senado por São Paulo, seja como titular, seja como suplente. É espantoso que um desqualificado como ele esteja no centro de uma articulação política que envolve nada menos do que as duas maiores autoridades políticas do Estado, o governador e o presidente da Alesp.

Na hipótese de que André do Prado venha a ser eleito para o Senado com o aval do clã Bolsonaro, não é desarrazoado supor que ele seja docemente constrangido a aceitar um cargo no Executivo estadual, caso Tarcísio seja reeleito, ou federal, caso Flávio Bolsonaro (PL) vença a eleição para a Presidência da República. Assim, estaria aberto o caminho para a posse de Eduardo Bolsonaro – que por ora não está inelegível – como senador.

 

A suplência, nesse contexto, deixaria de ser um mecanismo de contingência republicana para se converter em instrumento de fraude à moralidade pública e à vontade do eleitorado paulista, que terá votado em um candidato que pode não exercer o mandato para o qual foi eleito. São Paulo não merece ser vítima desse expediente barato. Ademais, a banalização da suplência como meio de manipulação do exercício do mandato degradará ainda mais a já fragilizada representação paulista na Câmara Alta.

Chamar as coisas pelo nome é um imperativo para este jornal desde sempre. Tal como se desenha, a pré-candidatura de André do Prado não passa de uma tentativa de burla eleitoral cuja função primordial é viabilizar a ascensão de outro indivíduo, contornando obstáculos que, em qualquer democracia funcional, deveriam ser intransponíveis.

 

É lamentável que o governador de São Paulo tenha endossado esse arranjo, sabe-se lá por que razões. Caso prevaleça, a manobra não apenas comprometerá a qualidade da representação paulista no Senado, como estabelecerá um precedente perigoso.

Eunício cobra lealdade para 2026 e reafirma candidatura: 'Se quiser ser candidato a senador, serei'

Escrito por Milenna Murta* / DIARIONORDESTE
 

O pré-candidato ao Senado Federal, deputado federal Eunício Oliveira (MDB), disse que espera lealdade de quem for anunciado como seu parceiro ou parceira para a chapa eleitoral de 2026. O presidente estadual do MDB também declarou o desejo de que o cenário de 2018, onde afirma ter sido "traído" e atuado como um "candidato solteiro", não se repita.

A declaração foi feita nesta quinta-feira (7), durante entrevista à live do PontoPoder.

Eunício relembrou a situação vivida nas eleições ao Senado em 2018, quando não conseguiu se reeleger para um novo mandato na Casa. "Tiraram a eleição [de 2018] e tiraram a presidência do Congresso Nacional das mãos, novamente, de um cearense", declarou.

Para 2026, o deputado afirmou que pretende seguir adiante com a candidatura ao novo pleito e tentar conquistar uma das duas cadeiras em disputa:

Como as eleições de 2026 irão renovar dois terços do senadores, o grupo político deverá ter mais um candidato participando dessa corrida eleitoral. Apesar de não dar indícios de quem poderá ser anunciado para a segunda vaga, Eunício reforçou o desejo por uma parceria composta de lealdade, em contraste com 2018.

"A única coisa que eu quero é que meu parceiro ou minha parceira de chapa nesse grupo político que a gente pertence seja uma pessoa que possa ser igualzinha ao que eu serei: leal. [...] A única coisa que eu quero é que o escolhido ou escolhida me trate como eu vou tratá-lo, com lealdade e com correção", concluiu.

Eu não tenho absolutamente nenhuma preocupação com a disputa de uma vaga na candidatura majoritária. Eu tenho um partido político, se eu quiser ser candidato a senador, eu serei. Eu não preciso ter candidato ao governo, não preciso ter outro candidato na chapa, eu posso ser candidato. Se eu quiser, se essa for a vontade do meu partido, [se] for a minha vontade, eu vou disputar o voto do eleitor.
Eunício Oliveira
Deputado Federal e Presidente do MDB Ceará
 
EUNICIO OLIVEIRA

Inteligência artificial provoca terremoto em campanhas eleitorais de 2026

Patrícia Campos Mello / FOLHA DE SP

 

 

O uso de inteligência artificial já provoca um terremoto nas campanhas eleitorais deste ano.

Com ferramentas de IA, equipes mandam mensagens cada vez mais segmentadas, marqueteiros substituem pesquisas qualitativas por "eleitores sintéticos" para testar a eficácia, vídeos e publicações na internet que levavam um dia e meio para ficarem prontos são finalizados em poucas horas.

Ao mesmo tempo, as campanhas pisam em ovos por causa da resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que restringe a utilização de IA. Está claro para elas que deepfakes eleitorais (vídeos e áudios não autorizados que emulam candidatos ou outras figuras públicas) estão proibidos. Mas existem dúvidas sobre a legalidade de certos recursos.

A Folha conversou com integrantes das equipes de Lula (PT), Flávio Bolsonaro (PL) e Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidatos à Presidência, de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), pré-candidatos ao Governo de São Paulo, e de deputados federais e estaduais. Alguns pediram para não se identificar, afirmando serem informações estratégicas.

 Uma das campanhas majoritárias conta com uma equipe de 54 pessoas dedicadas a fazer impulsionamento com nanosegmentação. A campanha consegue customizar uma mensagem do candidato para, por exemplo, atingir mulheres da zona oeste de São Paulo sem plano de saúde e que têm probabilidade de passar a apoiar o político.
 
Softwares que usam IA monitoram a chamada "sentimentalização" —como as contas de redes sociais reagem a cada conteúdo. Milhões de perfis de redes sociais são "tagueados" para que sejam mapeados os temas que mais reverberam e como ressoam conteúdos do candidato e dos concorrentes.
 

Todas as campanhas ressaltam, porém, que é importante ter humanos no relacionamento direto com eleitores, porque as pessoas não gostam de interagir com robôs.

Uma campanha quis avaliar qual foi a repercussão do embate entre Romeu Zema, pré-candidato do Novo à Presidência, com o STF (Supremo Tribunal Federal). Em cinco segundos, conseguiu mapear nas redes sociais potenciais detratores e apoiadores, as teses-chave e ter sugestões de resposta.

Todas as principais pré-candidaturas têm IAs treinadas com discursos, reportagens, entrevistas e materiais do candidato e rivais.

"A IA vai ‘aprendendo’ o tom do discurso do candidato, suas expressões, como ele se posiciona em relação a temas", diz Nara Alves, sócia-diretora da Ela Marketing Político, que trabalha para candidatos de vários partidos.

Isso é usado para os briefings (a descrição do que se espera de cada peça de propaganda política) e para os roteiros, determinando o que seria adequado para falar em determinada cidade. Eles também conseguem ter versões do candidato mais irônico, sério ou agressivo –e depois testam o que funciona melhor usando software de "social listening", que mede reações nas redes sociais.

"A IA vem revolucionando cada processo das campanhas, da criação de conteúdo à segmentação de mensagens e mobilização de apoiadores", diz Bruno Bernardes, sócio da PLTK, agência do marqueteiro Pablo Nobel, responsável pela campanha de Tarcísio.

Os deepfakes, que estão proibidos por resolução de TSE desde 2024, são criticados por todos os marqueteiros.

Segundo Bernardes, a última eleição presidencial argentina mostrou o perigo. Vídeos falsos usando deepfake com a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher contestando Javier Milei e com o candidato peronista Sergio Massa cheirando cocaína viralizaram a duas semanas do segundo turno em 2023.

As contas produzindo e disseminando esses conteúdos não são diretamente ligadas aos candidatos.

Para o advogado eleitoral Hélio Silveira, esse deve ser um dos principais problemas da eleição.

Silveira, que trabalhou na campanha da deputada Tabata Amaral (PSB) à Prefeitura de São Paulo em 2024 e na de Fernando Haddad (PT) ao governo em 2022, espera um uso massivo de contas falsas para distribuir mensagens atacando candidatos, muitas delas com IA.

Apesar de os deepfakes serem a faceta mais visível do uso eleitoral de IA, é nos bastidores que a tecnologia vem fazendo transformações radicais. Para além da segmentação, a criação do conteúdo ganhou muita agilidade.

Um vídeo de Ronaldo Caiado abre com uma imagem de IA de uma bandeira do Brasil tomando tiros e começa a sangrar como se fosse carne humana.

"O Brasil assiste indignado, assustado e impotente à morte de milhares de filhos seus, vítimas da criminalidade", diz o pré-candidato no vídeo.

Segundo o marqueteiro de Caiado, Paulo Vasconcelos, sem IA, levaria quatro dias para fazer a peça. Com IA, demorou algumas horas.

Os locutores dos vídeos foram 100% substituídos por IA, assim como a geração de imagens de apoio.

Conteúdo manipulado

Durante a campanha, segundo a resolução do TSE, será preciso informar que o conteúdo foi manipulado. Além disso, no período entre as 72 horas que antecedem e as 24 horas que sucedem o término do pleito serão proibidos conteúdos alterados por IA que usem imagem ou voz de candidato ou pessoa pública, mesmo que rotulados.

Algumas campanhas estão recorrendo a chatbots para poupar gastos com pesquisas qualitativas, em que grupos de leitores opinam de forma mais aprofundada sobre temas.

O "eleitor sintético" da SVA Solutions–Galaxies cria, usando dados de grupos reais de eleitores, perfis que reúnem características de determinados segmentos. Por exemplo, "viúvas do PSDB", pessoas de centro-direita que costumavam votar nos tucanos e rejeitam Bolsonaro ou esquerdistas frustrados com o PT.

Esses perfis servem para testar mensagens ou mesmo gerenciar crises. "Quando temos pouca verba para fazer uma pesquisa ampla e entender como lidar com determinada questão do candidato, é uma opção", diz Andrés Benedykt, marqueteiro do candidato a deputado federal José Dirceu (PT).

Uma pesquisa qualitativa bem feita com mil entrevistados pode sair R$ 150 mil. O eleitor sintético custa R$ 65 mil por mês e pode ser acionado a qualquer momento.

Algumas ferramentas ainda suscitam dúvida nos departamentos jurídicos. A customização de mensagens usando IA, com a adaptação de vídeo ou áudio de candidatos para chamar eleitores pelo nome ou mencionar suas cidades de origem, ainda é zona cinzenta.

Alguns advogados dizem acreditar que, desde que haja aviso de uso de IA, seja autorizado pelo candidato e não se trate de propaganda negativa, não há problema.

Outros acham que se trata de deepfake. Só seria possível usar IA para melhorar qualidade do áudio e vídeo. A resolução do TSE veda o uso "para prejudicar ou para favorecer candidatura" de conteúdo sintético em formato de áudio ou vídeo para criar, substituir ou alterar imagem ou voz de uma pessoa.

De qualquer maneira, muitos marqueteiros advertem que certos usos de IA podem sair pela culatra. "Acho arriscado fazer customização com áudio, qualquer estranhamento pode acabar gerando rejeição no eleitor", diz o marqueteiro Felipe Pimentel.

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