TSE precisa prestar atenção a robôs de IA que convencem eleitor a mudar voto
Por Editorial / O GLOBO
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — Foto: Antonio Augusto/Secom/TSE
A discussão sobre o impacto da inteligência artificial (IA) nas eleições tem destacado — acertadamente — os riscos trazidos por propaganda com imagens, áudios e vídeos fraudulentos, conhecidos como deepfakes. Um aspecto menos discutido, mas cujos danos também podem ser enormes, é a interferência de robôs como ChatGPT, Gemini e demais chatbots. Dois estudos recentes publicados nas maiores revistas científicas do mundo — a britânica Nature e a americana Science — dão uma medida do desafio que eles representam para autoridades eleitorais. Dadas as inclinações políticas das grandes plataformas digitais, e a resistência delas a assumir responsabilidades como produtoras de conteúdo, é essencial que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) esteja atento aos riscos dos chatbots.
Ambos os estudos concluíram que as ferramentas de IA são eficazes para mudar a opinião do eleitor. No experimento “A persuasão de eleitores com o uso de diálogos entre humanos e IA”, publicado na Nature, os pesquisadores instruíram um chatbot a mudar a opinião de usuários sobre candidatos presidenciais. Escolhidos de forma aleatória, os participantes foram questionados sobre sua posição inicial, começaram a interagir com a máquina usando mensagens escritas e, ao fim, voltaram a ser questionados sobre sua intenção de voto. O experimento foi realizado na eleição americana de 2024, na canadense de abril e na polonesa de junho.
Nos Estados Unidos,o robô pró-Kamala Harris mudou em 3,9 pontos percentuais o voto dos simpatizantes de Donald Trump. Na mão contrária, em 1,5 ponto. No Canadá e na Polônia, a variação foi maior, de até dez pontos. Os chatbots foram programados para usar táticas de persuasão comuns, com boa educação e apresentação de evidências. Quando os pesquisadores proibiram o uso de dados apresentados como fatos, a eficácia caiu. Os pesquisadores conferiram a veracidade das informações e verificaram que, de modo geral, eram corretas. Mas os robôs programados para defender candidatos de direita fizeram mais afirmações imprecisas que os de esquerda.
O segundo estudo, “As alavancas da persuasão política com IA que conversa”, publicado na Science, mediu a mudança de opinião de cerca de 77 mil britânicos sobre 707 temas. Também examinou a veracidade de mais de 466 mil afirmações geradas por IA. Os pesquisadores descobriram que a estratégia mais eficiente para aumentar a persuasão é instruir os chatbots a usar a maior quantidade possível de informação na argumentação. Os modelos mais bem-sucedidos mudaram a opinião dos participantes em 25 pontos percentuais. Quanto mais persuasivo o modelo, menos precisas eram as informações fornecidas. A suspeita é que, pressionado, o chatbot não tem mais de onde tirar informações e começa a inventar.
A IA tem suscitado previsões apocalípticas ou otimismo ingênuo. Seus efeitos serão os que a sociedade decidir. Daí a necessidade de identificar problemas e enfrentar os riscos. No caso das autoridades eleitorais, os estudos mostram que há muito trabalho a fazer.
Ipsos-Ipec: 40% dos eleitores avaliam governo como ruim ou péssimo, e 30% como ótimo ou bom
Por Rafaela Gama / GLOBO
Dados da pesquisa Ipsos-Ipec, divulgados nesta terça-feira, mostram que 40% dos eleitores entrevistados classificam o governo Lula como ruim ou péssimo, enquanto 30% afirmam que a gestão federal é ótima ou boa. Outros 29% disseram que a administração é regular e 2% não souberam ou não quiseram responder. O índice dos que avaliam o governo positivamente se manteve igual ao contabilizado na última rodada da pesquisa, realizada em setembro. Já os que veem negativamente o governo oscilaram de 38% para 40%, enquanto os que o enxergam como regular decaíram de 31% para 29%. As alterações aconteceram dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
O levantamento também indica que a avaliação positiva do governo é melhor entre aqueles que declaram ter votado no petista em 2022 (62%) e em moradores da região Nordeste (41%), considerado reduto eleitoral do presidente, além de eleitores menos escolarizados (39%), de renda familiar de até um salário mínimo (40%) e católicos (35%). A visão negativa, por sua vez, prevaleceu entre os eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro (67%), moradores da região Sul (51%), de renda média (53%), evangélicos (47%) e brancos (46%).
A pesquisa também mostrou poucas oscilações tanto na aprovação da atuação do presidente, que variou de 44% para 42% desde setembro, quanto na desaprovação, que mudou de 51% para 52%. Os que não souberam ou não responderam variaram de 5% para 6%. A confiança dos eleitores no chefe do Executivo também oscilou de 41% para 40%, enquanto a desconfiança permaneceu em 56%. Foram ouvidos 2 mil eleitores, distribuídos por 131 municípios, entre os dias 4 e 8 de outubro. O índice de confiança foi de 95%.
Presidente Lula participa da 14ª Conferência Nacional de Assistência Social no Centro de Convenções Ulysses Guimarães, em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Direita pode disputar nas urnas sua vaga no 2º turno
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A principal incógnita da política nacional hoje é quem ocupará o posto de maior líder da direita com a neutralização de Jair Bolsonaro (PL), inelegível e condenado por tentativa de golpe de Estado. O que parece mais provável —e reforçado por mais uma pesquisa do Datafolha— é que a direita terá um lugar no segundo turno da disputa presidencial de 2026.
A outra vaga, salvo reviravolta improvável, será de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o incumbente que preserva um capital eleitoral invejável, mas não suficiente, nas hipóteses mais fortes, para encerrar o pleito na primeira rodada.
Lula não o fez mesmo quando desfrutava de índices de popularidade mais favoráveis que os atuais. Neste dezembro, segundo o Datafolha, 32% dos brasileiros aptos a votar consideram seu governo ótimo ou bom, ante 37% que o julgam péssimo ou ruim. Ao longo de todo este ano, a avaliação negativa superou a positiva.
A esta altura de seu primeiro mandato, o cacique petista, mesmo com a imagem abalada pelo escândalo do mensalão, obtinha equilíbrio entre aprovação (28%) e reprovação (29%) em dezembro de 2005. Em 2009, chegava a acachapantes 72% de ótimo e bom, mas sua candidata, Dilma Rousseff, precisou de dois turnos para vencer no ano seguinte.
Pesa contra Lula, neste momento, a rejeição de uma ampla parcela do eleitorado —44% dizem que não votariam nele em nenhuma hipótese. No campo oposicionista, apenas Jair Bolsonaro, que está fora do páreo, amarga taxa similar (45%).
Pela direita, o mais recente movimento foi o lançamento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente, como pré-candidato ao Planalto. O anúncio é encarado com boa dose de ceticismo porque Flávio se mostra um oponente mais frágil: é rejeitado por já expressivos 38%, cifra que tende a rumar aos patamares atribuídos ao pai.
De todo modo, trata-se de mais um motivo de dúvida quanto aos rumos desse espectro ideológico, sobretudo no diz respeito à candidatura presidencial do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), o preferido da centro-direita. Além dele, são postulantes os governadores Ratinho Júnior (PSD-PR), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO).
As simulações do Datafolha, com diferentes combinações de nomes, sugerem um segundo turno —no qual o eventual desafiante de Lula, especialmente se não for um filho de Bolsonaro, terá chances de atrair votos avessos ao petista. Tal cenário eleva a possibilidade de a herança bolsonarista ser disputada nas urnas por dois ou mais competidores.
É considerável ainda a probabilidade de que setores moderados do eleitorado, embora numericamente menos expressivos, venham a decidir a disputa por pequena margem, como em 2022. Ao mesmo tempo, esquerda e direita têm dificuldade em abandonar discursos radicalizados que mobilizam suas bases fiéis.
Em passagem pelo Ceará, Lula frustrou aliados ao evitar sinalizações eleitorais
Em sua última passagem pelo Ceará, na última quarta-feira (3), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a imagem do Ceará como destino de grandes investimentos, exaltou feitos do governo, mas evitou dar sinalizações claras sobre as disputas eleitorais de 2026 no Estado, frustrando as lideranças locais, que só pensam na sucessão.
Durante o discurso em Horizonte, Lula, que já esteve no Ceará 10 vezes em seu terceiro mandato, destacou o volume de aportes recentes, mencionando a instalação do data center da ByteDance, no Complexo do Pecém, estimado em R$ 200 bilhões, e a produção de veículos elétricos pela General Motors no Polo Automotivo, como trunfos do Estado.
Para o Palácio do Planalto, a combinação entre indústria, tecnologia e energias renováveis projeta o Ceará como polo estratégico nacional.
Liderando um arco de aliança robusto no Estado, o PT e o governador Elmano de Freitas têm desafios importantes, antes mesmo do embate nas urnas.
O principal gargalo é acomodar os aliados na chapa majoritária, em companhia a Elmano, candidato à reeleição ao governo do Estado. Há, pelo menos, sete nomes em busca de uma vaga na disputa pelo Senado.
PT, PSB, PSD, MDB, Republicanos e até União Brasil, que mesmo formalmente na oposição negocia com o governo por meio de algumas lideranças, estão na lista de partidos em busca de espaço na chapa.
Sem acenos eleitorais
Apesar dos elogios ao Estado, Lula evitou referências ao cenário estadual de 2026. O presidente concentrou o recado político na necessidade de “votar em quem defenda justiça tributária”, vinculando o debate à agenda econômica nacional.
“Quando chegar o ano que vem que vocês vão votar, pense nisso. Veja que deputado ou governador você vai eleger”, disse, em resumo, o presidente.
Embate pode ir parar no Palácio do Planalto
As negociações da chapa governista no Ceará podem ir parar em Brasília, na mesa de Lula. Naturalmente, a condução do processo é local, mas a presença de nomes com proximidade ao presidente, como o caso de José Guimarães, líder do presidente na Câmara dos Deputados, pode levar as definições ao Palácio.
Isso, no entanto, é assunto para o ano que vem.
Quem substituirá Tarcísio?
Por Merval Pereira / O GLOBO
Flavio Bolsonaro ao lado de Tarcísio de Freitas — Foto: Reprodução
A partir da decisão do ex-presidente Bolsonaro de indicar seu filho Flávio para candidato à presidência da República, abre-se um caminho para aqueles que conseguirem substituir o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas na preferência da classe média e do mercado financeiro, que já mostrou sua preocupação com a fragilidade de Flávio e a vantagem que o presidente Lula ganha com uma escolha tão desastrada para disputar com ele.
Só o fato de que a família Bolsonaro pretende fechar entre os seus as decisões da campanha eleitoral retira da candidatura a possibilidade de ampliar sua penetração em outros setores da sociedade. Os candidatos alternativos à polarização entre lulistas e bolsonaristas terão um espaço ampliado à direita e ao centro, pois a preferência por Tarcísio de Freitas indica que o que esse nicho eleitoral buscava era um candidato competitivo que tivesse o apoio de Bolsonaro, mas que fosse distante o suficiente dele para ter autonomia de voo quando governasse.
Um candidato de direita que não fosse extremista, que tivesse uma visão administrativa moderna, que não fosse populista a ponto de esquecer a necessidade de um equilíbrio financeiro, mas com a proximidade popular que a chancela de Bolsonaro garantiria. Lula foi o preferido depois do governo temerário de Bolsonaro, mas por margem apertada. Agora procuravam um candidato distante de Lula, mas também do golpismo de Bolsonaro.
A subserviência de Tarcísio a Bolsonaro já incomodava parte desse eleitorado, que via na busca de apoio excessivo comprometimento do governador de São Paulo com temas caros ao ex-presidente como escolas cívico militares. Mas Tarcísio só ganhou o destaque na corrida presidencial por ter tido uma administração exitosa do maior estado brasileiro. Assim como Bolsonaro, o senador Flávio não tem experiência de gestão de coisa nenhuma, e, diferente do pai, não tem votação própria, depende do apoio dele para se eleger qualquer coisa.
Seria facilmente um dos dois senadores eleitos em qualquer Estado brasileiro, assim como sua madrasta Michele, que tem mais brilho pessoal que ele. Os irmãos, nem se fale. Vivem como os herdeiros de milionários que não encontraram o que fazer da vida e só gastam o patrimônio familiar, sem acrescentar nada deles ao legado da família. A prisão de Bolsonaro e a derrota anunciada de Flavio devem colocar um fim à saga extraordinária da família Bolsonaro na história política brasileira, ainda mais se um candidato de direita conseguir ir para o segundo turno.
A experiência desastrosa de Bolsonaro na presidência conseguiu ofuscar o temor de que, com Lula, iríamos acabar como a Venezuela. No mínimo, com a tentativa golpista da extrema direita, mais real do que qualquer conspiração esquerdista que Lula teima em revigorar com seus acenos a ditadores e autocratas, os que não são militantes nem da direita nem da esquerda podem ficar tentados a alternativas mais conservadoras à centro-direita, já que a esquerda não ofertará ao eleitorado um candidato alternativo a Lula.
Esse grupo terá diversos candidatos, como os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, o do Paraná, Ratinho Junior, o do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e outros. Não é à toa que os políticos do Centrão ficaram reticentes diante do anúncio de que Flávio Bolsonaro foi o escolhido. Não são de extrema-direita, mas têm o cheiro da vitória e sabem para que lado o vento sopra. Não é na direção de Flávio, poderia ser na de Michele. Terão que ter muito tato para aderir a uma candidatura que não estava nos planos, e Flávio não parece daqueles políticos que arrebatam as multidões, tornando irreversível a escolha do pai.
O Centrão aderiu a Bolsonaro depois de ter recebido o Orçamento da República, e dificilmente aderirão a Flavio em troca do que já controlam. Se têm condições de enfrentar Lula na presidência, terão mais facilidade para encarar o filho, cujo pai já capitulou a eles. A fraqueza eleitoral de Flavio sugere que ainda teremos novos capítulos nessa saga brasileira.

