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Onde Huck se encaixa - Eliane Cantanhêde

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

16 de fevereiro de 2020 | 03h00

Ano eleitoral, nervos à flor da pele e o instinto de preservação da espécie política em alerta. Afinal, para onde vão os ventos da polarização brasileira? E é assim que começam as pesquisas formais e informais, as conversas que extrapolam partidos e os cálculos sobre os investimentos, não só para o outubro como também, ou principalmente, para 2022. O senador Ciro Nogueira, do PP do Piauí, começou a sentir “um declínio muito grande do PT e quis sentir para onde esses votos estavam migrando”. Encomendou pesquisas, ou melhor, levantamentos sem controle de amostra, em cidades representativas, e surpreendeu-se com o resultado. Agora, anima outros partidos, como o PDT, e outros estados, como Tocantins, a fazerem o mesmo: detectar a movimentação dos votos.

No Piauí, foram escolhidas duas cidades onde o PT deu um banho em 2018, refletindo o poder vermelho no Estado e em todo o Nordeste. E esses levantamentos do senador, feitos em dezembro para consumo próprio, sem registro oficial, mostram a entrada em cena de um novo personagem: Luciano Huck, o apresentador de TV que nem partido tem, mas já mostra a cara, monta equipe e prepara plano de governo. 

Luciano Huck
O apresentador e empresário Luciano Huck  Foto: Gabriela Biló/Estadão

Em Picos, o petista Fernando Haddad teve 74,74% (30.013 votos) no segundo turno e Jair Bolsonaro, 25,26% (10.143). No levantamento agora, Haddad caiu para 38,4, Huck ficou em segundo, com 24,8%, e Bolsonaro recuou para 20,1%. Em Floriano, Haddad teve 74,87% no segundo turno, com 24.011, contra Bolsonaro, 25,13%, com 8.059. Hoje, pelo levantamento, Haddad despenca para 37,9%, Huck dispara para 27,9% e Bolsonaro reduz o seu teto para 17,7%. Obviamente, trata-se de duas pequenas cidades de um único Estado, mas são assim que as coisas começam: daqui e dali, dando indícios, sugerindo rumos. Com o próprio Jair Bolsonaro, poucos prestaram atenção e acreditaram quando ele começou a pipocar. Deu no que deu.

Portanto, é importante detectar tendências, partindo dos votos reais de 2018 e vendo a evolução do humor dos eleitores. Em resumo, a força do PT e de Haddad vem de baixo para cima, concentrada nos menos escolarizados e de menor renda, enquanto Bolsonaro cresceu e venceu no sentido oposto. Seus votos aumentaram na proporção da renda e da escolaridade do eleitor. Cruzando-se essa constatação com levantamentos que o próprio Luciano Huck mantém sistematicamente, há uma base de análise interessante para 2022. Nelas, o potencial de Huck está justamente nas classes C, D e E, onde se concentram seus telespectadores. Conclusão: Huck compete diretamente com o PT, qualquer que seja o candidato petista. Assim, suas chances presidenciáveis, que ainda são uma incógnita (como a própria candidatura), dependem de sua capacidade de tirar votos do PT, para então ser levado a sério entre os eleitores de Bolsonaro. De baixo para cima.

Um processo de reeleição favorece quem, como Bolsonaro, tem o cargo, a caneta e o excesso de exibição à mão, e não se sabe se Huck terá estômago e coragem para entrar em campanha, mas ele está aí, reúne a boa vontade de um ex-presidente, ex-governadores, economistas de peso e líderes partidários consideráveis.

Logo, convém que não se repita com Huck o que ocorreu com Bolsonaro: enquanto as elites torciam o nariz e nós, jornalistas, considerávamos a pretensão absurda, o capitão foi crescendo, se impondo como realidade eleitoral. A internet e a massificação de uma inverdade – de que só ele bateria o PT - fizeram o resto. São três anos, há muito chão pela frente, mas não vamos fechar os olhos para as possibilidades que se colocam, inclusive considerando que o PT, mesmo ferido e dependente patológico de Lula, tem força, recall e discurso. O tabuleiro está em aberto, mas é preciso prestar atenção nas peças e como elas se mexem.

Em ano eleitoral, Bruno Covas cria via rápida para emendas de vereadores

SÃO PAULO

De olho na campanha eleitoral de 2020 e costurando o apoio de partidos para construir uma aliança forte para se manter no cargo, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), decidiu acelerar e dar mais fluência à utilização de emendas parlamentares na realização de eventos e obras da gestão municipal.

As emendas são pedidos que os vereadores fazem para colocar no Orçamento municipal gastos específicos, como instalar grama em uma praça, construir a cobertura em uma quadra, reformar um hospital ou organizar um festival, entre outros. 

As emendas costumam ser destinadas a obras nos redutos eleitorais dos vereadores ou relacionadas a temas com os quais são identificados.

Com vereadores e o próprio Covas tentando a reeleição, a verba municipal que permite que cada vereador destine R$ 4 milhões para atividades e obras que quiser é estratégica. 

De um lado, os parlamentares conseguem agradar suas bases eleitorais com medidas de visibilidade. De outro, Covas vai ganhando ainda mais aliados na sua tentativa de continuar comandando a maior cidade do país. 

Os tucanos envolvidos na campanha de Covas estimam já ter garantido o apoio de nove partidos na coligação, e estão em busca de mais.

Por meio de decreto publicado no Diário Oficial do município no começo do mês, Covas determinou que cada secretaria da prefeitura terá 15 dias para fazer a análise das emendas recebidas —os estudos de emendas são distribuídos pelas secretarias de acordo com o tema.

Antes do decreto, cada secretaria tinha até 30 dias para fazer essa análise. Segundo membros da gestão Covas, esse prazo já vinha sendo respeitado na maior parte dos casos.

Depois da análise, as emendas vão para a fase de execução, na qual muitas vezes também têm sido retidas.

Os vereadores reclamam com frequência ao prefeito sobre a não-execução das obras previstas em suas emendas. A prefeitura tem argumentado que sofre com dificuldades burocráticas, execuções travadas por órgãos de controle (como o Tribunal de Contas do Município) e problemas mais pontuais, como a inimizade de subprefeitos com vereadores, por exemplo. 

Leia mais:Em ano eleitoral, Bruno Covas cria via rápida para emendas de vereadores

Com 14 partidos, frente de oposição a Bolsonaro instala conselho e organiza ato contra Weintraub

Pedro Venceslau e Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 15h37

Criado com o objetivo de ser uma frente suprapartidária de oposição ao governo Jair Bolsonaro (sem partido), o movimento Direitos Já, Fórum da Democracia instalou nesta segunda-feira, 11, um conselho político com representantes de 14 partidos. O coletivo, que é coordenado pelo sociólogo Fernando Guimarães, vai elaborar manifestos e promover atos de protesto contra ações do governo que, segundo eles, atentem contra “a democracia e os direitos fundamentais”.

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Representantes de 14 partidos de oposição instalam conselho político anti-Bolsonaro Foto: Fernando Guimarães/Direitos Já

O primeiro evento do ano organizado pela frente está marcado para 30 de março, em São Luís, no Maranhão, véspera do aniversário do golpe militar de 1964. O ato terá como tema educação e o principal alvo será o ministro Abraham Weintraub, titular da pasta. O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), faz a oposição a Bolsonaro e é apontado entre líderes da esquerda como presidenciável em 2022 ou vice em uma chapa liderada pelo PT.“O ato é em defesa da educação. É inaceitável que a condução da área fique nas mãos de um ministro da ideologia”, disse Guimarães.

Integrante do conselho, o professor Nabil Bonduki, pré-candidato do PT a Prefeitura de São Paulo, disse que a ideia do grupo é fazer uma “articulação” com vistas a 2022. “O fórum é uma articulação para formar uma frente democrática para evitar o risco da continuação de um governo autoritário”, afirmou.

O Direitos Já também se apresenta como um “laboratório” que pretende consolidar uma frente ampla anti-Bolsonaro para a próxima eleição presidencial. A reunião desta segunda teve um caráter “ecumênico” e reuniu antigos adversários políticos.

Estavam presentes, entre outros, o deputado federal Vinícius Poit (Novo-SP), o senador Armando Monteiro (PTB-PE), o deputado federal Raul Henry (MDB-PE), a vereadora Soninha Francine (Cidadania-SP), o presidente nacional do PV, José Luiz Penna (SP) e o ex-presidenciável da sigla Eduardo Jorge (SP), o porta-voz nacional da Rede, Pedro Ivo (DF), o ex-senador José Aníbal (PSDB), o vereador Eduardo Suplicy (PT) e o ex-governador do Espírito Santo Paulo Hartung (sem partido).

Também estavam presentes representantes do PSD, Podemos, Solidariedade, PDT e PSB.

Na reunião de lançamento do movimento, em maio do ano passado, Guimarães reuniu cerca de 40 convidados, incluindo o ex-ministro Aloizio Mercadante (PT), o ex-prefeito Fernando Haddad (PT) e o ex-ministro da Justiça José Gregori (PSDB). A ex-prefeita e ex-ministro Marta Suplicy (sem partido) aderiu mais tarde ao grupo para, segundo ela, ajudar a formar uma frente ampla de centro-esquerda.

No sábado, 8, a direção nacional do PT aprovou uma resolução política que privilegia a formação de frentes com partidos de esquerda, mas permite “alianças táticas”, pontuais, com outros setores do espectro político que tenham “contradições reais” com o governo Bolsonaro. Em setembro do ano passado o partido, por ordem do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, boicotou o ato do Direitos Já no Tuca. O motivo foi a não inclusão na pauta da defesa da liberdade do ex-presidente.

Na resolução aprovada sábado o partido diz que qualquer frente que não conteste a política econômica do ministro Paulo Guedes “fará muito pouco pela democracia no Brasil e nada por sua população”.

Irmão de Eduardo Campos diz ser ameaçado de morte e pede proteção a Sérgio Moro

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2020 | 12h45
Atualizado 11 de fevereiro de 2020 | 14h48

BRASÍLIA - Tio do deputado João Campos (PSB-PE),  o presidente da Fundação Joaquim Nabuco, entidade ligada ao Ministério da Educação, Antônio Campos, alega ser alvo de ameaças de morte e, por isso, vai pedir proteção ao ministro da Justiça, Sérgio Moro. Ele não quis dizer quem é o autor das ameaças.

Antônio Campos
Antônio Campos, tio de João, diz que sobrinho foi ‘nutrido na mamadeira’ da Odebrecht.  Foto: MARLON COSTA/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS(2018)

"Estarei protocolando, na data de hoje, requerimento perante o Ministro da Justiça comunicando os fatos de forma circunstanciada e pedindo as garantias de vida e as prerrogativas de testemunha juramentada não ser intimidada" disse, em nota. 

Único irmão do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, Tonca, como é conhecido, afirmou que as ameaças são antigas, mas que voltaram a ocorrer após conceder entrevista ao Estado na qual trata dos desentedimentos com o sobrinho deputado e após ser ouvido como testemunha em um investigação do Ministério Público Federal pernambucano. A apuração, segundo Tonca, está relacionada à gestão do PSB no Estado.

Antônio e João Campos protagonizaram briga recente

Antônio Campos esteve no centro de uma briga política fratricida em Pernambuco que envolve, além de sobrinho João Campos, a mãe, a ministra do Tribunal de Contas da União (TCU) Ana Arraes.

Em audiência com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, em dezembro, João Campos disse que o tio, Antônio, era "sujeito pior" que o ministro. Ana Arraes criticou o neto pelo ataque e Tonca disparou críticas ao filho e à viúva de Eduardo, Renata Campos.

Antes mesmo de a mãe tomar partido no conflito, Antônio Campos havia soltado uma nota por meio da qual acusava o sobrinho de ter sido “nutrido na mamadeira da empresa Odebrecht”. Antônio disse, ainda, que Pernambuco precisava conhecer o “lado obscuro” do sobrinho e de Renata Campos. João é considerado um representante da “nova política”, ao lado dos deputados Tabata Amaral (PDT-SP) e Felipe Rigoni (PSB-ES).

Ao Estado, Antônio admitiu que a confusão não é boa para a família, mas continuou com as críticas e provocou o sobrinho. “Ele quis se mostrar para a sua nova namorada, a deputada Tabata Amaral”, disse o tio. “Foi um ataque gratuito porque estava fora do contexto. Fui o homem que mais defendeu o pai dele, inclusive no complexo caso dos precatórios, em que Eduardo teve denúncia rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal. E, hoje, eu o vejo abraçado e defendendo vários que chamavam o pai dele de ladrão. Não consigo entender.”

O PSB de João Campos atua no espectro da esquerda. Antônio, por sua vez, é crítico dos petistas e de alianças com o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Para lembrar: a disputa por Recife

A disputa pela prefeitura do Recife na eleição municipal deste ano também deve colocar em lados opostos os dois principais herdeiros políticos do ex-governador Miguel Arraes, que morreu em 2005, como mostrou reportagem do Estado publicada em dezembro. O deputado federal João Campos (PSB), de 26 anos, foi escolhido pelo partido disputar a capital pernambucana. Sua principal adversária, no entanto, é a também deputada Marília Arraes (PT), 35 anos, que é neta de Arraes e prima de segundo grau de João. Essa disputa familiar só não deve ocorrer se o PT mantiver aliança com o próprio PSB no Estado e ‘rifar’ a candidatura de Marília para apoiar João. 

Livre há três meses, Lula cria atritos com aliados e aprisiona a esquerda

“Se Lula for para a cadeia, o país vai pegar fogo.” “Quando Lula for solto, vai incendiar as massas.” Ditas e repetidas por aí, as frases apocalípticas acima não se materializaram. A mobilização em torno da prisão do ex-presidente decepcionou quem aguardava uma revolução. Sua libertação tampouco provocou o barulho esperado. Depois de amargar 580 dias na carceragem, na volta às ruas, o petista desancou o atual governo, repisou o mantra de que é vítima de um complô das elites e jurou mais uma vez vingança a Sergio Moro, o responsável por sua condenação. Fora os aplausos da claque dos convertidos, os discursos caíram no vazio. No trabalho de articulação política, Lula agora mais desagrega do que une. Antigos aliados reclamam da insistência em priorizar interesses pessoais e os do PT como condição para formar uma frente de oposição a Jair Bolsonaro. Até mesmo dentro da sigla começaram a surgir vozes dissonantes, o que era impensável alguns anos atrás. Resultado: o Lula livre aprisiona hoje a esquerda em uma encruzilhada de difícil solução.

QUARENTA ANOS DEPOIS… – Grupo fundador do PT: promessas de um novo padrão ético no poder público ficaram para trás Carlos Namba/Dedoc

Explica-se o dilema: de fato, o ex-­presidente ainda é o nome mais forte da oposição, conforme mostram as pesquisas. A questão é que ele está impedido de concorrer nas eleições em razão da Lei da Ficha Limpa, após ser condenado duas vezes em segunda instância no caso do tríplex do Guarujá e no do sítio de Atibaia. Para voltar ao jogo, o petista depende de uma improvável pirueta jurídica do Supremo Tribunal Federal (STF). Além disso, mesmo que concorra, Lula sofre um profundo desgaste de sua imagem. Um nome diferente poderia se beneficiar de sua força sem ser abalado por seus defeitos. Mas nem Lula nem o PT estão preparados para um movimento nessa direção.

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