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Pela 1ª vez neste século, 264 municípios do país terão prefeitas, sendo 33% negras

MOGI DAS CRUZES (SP) e SÃO PAULO

Em 264 municípios brasileiros, pela primeira vez neste século uma mulher foi eleita prefeita, 98% deles com menos de 100 mil habitantes, segundo levantamento da Folha com dados da eleição municipal deste ano. Dentre essas eleitas, 33% são negras, somando as autodeclaradas pardas (83) e pretas (5).

Neste ano, 652 mulheres foram eleitas para os Executivos municipais, o que representa 12% do total de prefeitos eleitos. Desse número, 32% são negras, sendo 199 pardas e 10 pretas.

Em relação a 2016, o quadro se manteve estável, apesar da reserva de 30% dos recursos públicos de campanha para mulheres a partir de 2018. Das 383 que tentavam reeleição, 32% conseguiram.

Para a cientista política Flávia Biroli, professora da UnB (Universidade de Brasília), o número de eleitas para o Executivo é muito ruim. De 5.568 cidades brasileiras, 60% nunca tiveram uma prefeita mulher, apesar de elas representarem 52% da população.

“Está muito aquém do que a gente poderia esperar em participação política. Também está abaixo em países latino-americanos”, diz Biroli, destacando que entre as capitais apenas Palmas elegeu uma prefeita: Cinthia Ribeiro (PSDB).

Entre as cidades que pela primeira vez em duas décadas terão prefeitas negras, a mais populosa é Bauru, município do interior paulista com 379 mil habitantes que elegeu a jornalista Suéllen Rosim (Patriota), 32.

 

Rosto conhecido pela população local, ela foi repórter e apresentadora da TV Tem, afiliada da Rede Globo, posto que deixou em 2018 para entrar na política.

“A motivação maior é a vivência que o jornalismo me trouxe e poder de alguma forma executar coisas que não poderia fazer enquanto apresentadora, por exemplo”, afirma Suéllen, que frequenta a igreja evangélica pentecostal Ministério Produtores de Esperança e se identifica como conservadora.

Numa campanha sem coligação e com apenas 14 segundos de propaganda eleitoral, ela conta que investiu nas redes sociais e nas ruas. Suéllen também diz ter contado com o apoio da legenda, que ela preside na cidade, além de coordenar as atividades de 25 municípios.

O trabalho junto à população também foi essencial para a eleição de Patrícia Mendes (Republicanos), 33, em Marituba, município de 134 mil habitantes na região metropolitana de Belém.

Empresária e católica da Renovação Carismática, ela conta que nunca tinha se envolvido na política, mas junto com o marido sempre foi atuante em bairros mais vulneráveis, onde fazia ações sociais em datas especiais, como Natal e Dia das Crianças.

Isso a fez ganhar a simpatia da população, que a incentivou a disputar um mandato.

“Comecei a receber convites da população, que ia na minha loja e perguntava por que não me colocava à disposição. Comecei a andar sem partido nenhum, só com a cara e a coragem. O meu trabalho começou a ter visibilidade em Belém e recebi convites de ‘N’ partidos”, conta. Ela afirma ter se filiado neste ano ao Republicanos.

Pela mesma legenda, Nadegi Queiroz, 65, foi reeleita prefeita de Camaragibe, município de 158 mil habitantes na região metropolitana do Recife. Em 2016, ela foi vice na chapa de Demóstenes Meira (PTB), que foi afastado em novembro de 2019 sob suspeita de corrupção.

“O maior desafio foi entrar depois de um afastado, pegar uma administração com desemprego, falta de recursos, ter Covid, que para mim é um dos piores problemas de saúde que existem na face da Terra e fazer política e ganhar uma eleição”, diz.

Médica ginecologista, Nadegi afirma que rompeu com Meira logo no primeiro ano de mandato, após ele ter lhe pedido para encerrar contratos e fechar unidades de saúde.

Na política há mais de 20 anos, ela já havia sido vice-prefeita, vereadora e secretária da saúde de São Lourenço da Mata, também na região metropolitana do Recife. Nessa trajetória, ela conta que, além da tripla jornada para criar os dois filhos, enfrentou por várias vezes o machismo.

“Quando chega no palanque, os homens ficam na frente e você fica lá atrás. Você tem dificuldade de passar o dia estudando para à noite fazer uma bela fala, porque os homens passam o dia conversando, e a mulher está dentro de casa, tomando conta do marido, do filho e só à noite vai para a política”, diz.

Mãe de três filhos em idade escolar, Patrícia também teve apoio da família e de empregadas mulheres para conseguir fazer campanha. O dia a dia, porém, foi marcado por ofensas, rotina vivida por todas elas.

“Recebi muitos ataques por ser mulher, porque os machistas acham que não temos capacidade. Diziam que não era para estar na política, mas em casa cuidando de filho, de marido. Recebia um ataque e era a pilha para dizer: você pode, você consegue”, conta Patrícia.

Suéllen afirma que recebeu ataques racistas a partir do sábado anterior à eleição. Uma das mensagens publicada em rede social dizia: “Bauru não merecia ter essa prefeita de cor com cara de favelada comandando nossa cidade. A senzala estará no poder nos próximos quatro anos”.

Biroli afirma que um ponto importante é o avanço em relação ao reconhecimento da violência contra as mulheres na política.

“Se temos casos extremos, como o da Marielle [Franco, vereadora no Rio de Janeiro assassinada em 2018], temos uma pluralidade de casos em que essa violência se apresenta de forma muito forte, com ameaças à vida dessas mulheres, mas também de assédio e violência simbólica."

A cientista política defende a criação de uma legislação específica para o tema e também um comprometimento dos partidos com a violência sofrida pelas candidatas, por adversários e integrantes da própria legenda.

A partir de 2021, Suéllen, Patrícia e Nadegi afirmam que políticas para enfrentar a violência contra mulheres e conscientizar a população sobre o machismo serão prioritárias em seus governos.

“Hoje sendo uma prefeita exemplo na denúncia, na coragem, a gente já ganha esse grande diferencial. O que a gente vai fazer é intensificar e não admitir dentro da nossa estrutura de prefeitura qualquer tipo de ação como a que eu vivi”, diz a prefeita eleita de Bauru.

Patrícia promete investir em parcerias com empresas para empregar mulheres.

“É todas por todas, independente de raça e credo. Vamos sim num futuro bem próximo viver num país, numa cidade onde as mulheres estejam inseridas no Legislativo, no Executivo e também no Judiciário."

Nadegi fala com orgulho que a maioria de seu quadro técnico é formado por mulheres, destacando negras à frente da Secretaria de Saúde e a comandante da Guarda Municipal. Ela também destaca a chegada da brigada Maria da Penha e um laboratório LGBT.

“Temos incentivado os diferentes, para que se tornem iguais."

CIDADES COM MULHERES PREFEITAS

>> 652 mulheres eleitas prefeitas

32% são negras (199 pardas e 10 pretas)

32% das 383 prefeitas foram reeleitas

>> 264 municípios terão prefeitas mulheres pela primeira vez

33% são negras (83 pardas e 5 pretas)

60% dos 5.568 municípios nunca tiveram uma prefeita mulher

MPCE ajuiza 56 ações com pedidos de cassação contra candidatos

Ministerio Publico do Ceara

 

Com o fim das eleições de 2020, o Ministério Público do Ceará (MPCE) começa a fazer o balanço das supostas irregularidades apontadas durante o período eleitoral no Estado. Em levantamento parcial, o órgão já contabiliza 56 Ações de Investigação Judicial Eleitoral (AIJEs) ajuizadas na Justiça Eleitoral contra candidaturas majoritárias municipais cearenses. Os nomes dos candidatos investigados não foram informados.

Em todos os casos, o órgão pede a cassação do registro dos postulantes, pela prática de ilícitos que vão desde compra de votos, conduta vedada a abuso de poder político ou econômico por provocação reincidente de aglomerações.

Das 56 AIJEs movidas pelo MPCE, 14 são pela reincidência dos postulantes em provocar atos de campanha que gerassem aglomerações em meio à pandemia da Covid-19. Ao todo, as medidas são movidas por promotores de 25 zonas eleitorais, que abrangem 41 municípios.

Número pode aumentar

Os dados fazem parte de um levantamento parcial feito pelo Centro de Apoio Operacional Eleitoral (Caopel) do MPCE. O número pode ser ainda maior, já que nem todos os 109 promotores eleitorais informaram a protocolização das iniciativas. Além disso, partidos políticos, coligações e candidatos também podem entrar com uma ação judicial eleitoral no Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE). Segundo o coordenador do Caopel, promotor Emmanuel Girão, as ações são frutos de ilícitos cometidos na campanha de 2020. "Essas ações são em virtude da prática de algum ato ilícito nesse pleito, como compra de voto, botar funcionário público para trabalhar na campanha, vantagens indevidas", explica.

Sobre as ações abertas contra candidatos por aglomerações, o coordenador do Caopel explica que as medidas foram ajuizadas sob o aval do procurador-geral de Justiça, Manuel Pinheiro, que publicou recomendação para que os promotores eleitorais pedissem a cassação dos candidatos que reincidissem em desrespeitar as regras sanitárias em eventos eleitorais. A determinação do chefe do MPCE foi publicada no dia 28 de outubro, depois de várias ocorrências de aglomerações em eventos no Estado.

Girão ressalta, ainda, que as Aijes ajuizadas em relação a esse tema ocorreram antes da publicação da resolução do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-CE) no dia 4 de novembro, que proibiu a realização de eventos de campanha que pudessem gerar aglomerações, como comícios, bandeiraços, carreatas e caminhadas. O órgão justificou a necessidade da medida, já que eventos de campanha não vinham "primando pela contenção da pandemia da Covid-19".

Abuso de poder

"As aglomerações a gente enquadrou em abuso de poder econômico e/ou abuso de poder político. São casos que eram reincidentes, que já estavam demais. [...] São anteriores à resolução do TRE-CE, porque depois caiu consideravelmente. Acho que antes do TRE-CE se posicionar, os advogados achavam que o MPCE não iria entrar com uma ação", frisou.

Girão acrescentou, ainda, que, apesar das ações pedirem a cassação do registro de candidatura, muitos dos postulantes alvos não foram eleitos, e por isso não devem sofrer a punição. No entanto, os que foram ainda estão passíveis de perderem o mandato.

Para a advogada eleitoral Isabel Mota, as ações que sejam motivadas apenas pela reincidência de aglomerações, por si só, não justificam o pedido de cassação.

"A aglomeração é uma vedação de natureza administrativa, não está na Legislação Eleitoral. Eu não vejo o fato de terem ocorrido aglomerações, sozinho, ser suficiente para cassar diploma ou mandato. Se tiver sido aplicado várias multas ou houver algum custo benefício para o candidato nas aglomerações, aí pode ser que tenha influenciado no resultado do pleito, porque cassação é quando influencia no resultado do pleito", explica.

A advogada acrescenta, ainda, que o MPCE terá que provar "muito bem" a relação da aglomeração com o abuso de poder político ou econômico.

"O MP vai ter que provar muito bem qual a conexão de abuso de poder político ou poder econômico sobre a questão de aglomeração, para ficar provado o desequilíbrio no pleito", afirma. Antes mesmo do início da campanha, o Diário do Nordeste já vinha noticiando a ocorrência de aglomerações em eventos eleitorais, que continuaram durante a campanha. A maioria dos registros foi feita em municípios do Interior, quando a fiscalização é mais frágil.

Avaliações

O advogado eleitoral Thiago Portela ressalta que se houver alguma decisão condenatória pela Justiça Eleitoral na Aije, o candidato eleito, e investigado, pode não assumir.

"Se a ação não foi apreciada até a diplomação ou posse, e o candidato estiver com o registro deferido, ele assume normalmente. Caso ele tenha sido cassado antes, pode não assumir", esclarece.

Isabel Mota acrescenta, ainda, que isso ocorre apenas se a decisão for dada em segundo grau e o candidato eleito não conseguir recursos para assumir. "Primeiro, é o juiz eleitoral que decide ou não pela cassação. Depois, a pessoa vai para o TRE-CE. Se o TRE-CE, confirmar (a decisão), aí a pessoa pode ter problema, porque se ela não tiver tomando posse ainda vai precisar de um recurso que garanta que assuma enquanto ainda recorre no TSE", explica.

Todavia, os dois advogados acrescentam que o pedido do Ministério Público não é necessariamente acatado pela Justiça. Pode ser determinado outro tipo de punição, obedecendo o princípio da proporcionalidade, segundo eles.

"A Justiça Eleitoral vai aplicar o princípio da proporcionalidade e analisar se aqueles danos e abusos que ocorreram são suficientes para afastar o candidato eleito pelo povo. E vai avaliar se essas situações serão punidas com multas ou se será cassação mesmo", finaliza Portela.

Prazos eleitorais

Os candidatos eleitos devem ser diplomados pela Justiça Eleitoral até o dia 18 de dezembro. A posse, tanto de vereadores quanto de prefeitos eleitos, ocorre no dia 1º de janeiro de 2021

Prestação de contas

Todos os candidatos, independentemente de terem sido eleitos ou não, têm até dia 15 de dezembro para enviarem a versão final da prestação de contas à Justiça Eleitoral. Os dados precisam estar em consonância com o que foi repassado pelos partidos e com o que foi recebido em forma de doação. DIARIONORDETE

Eleitor se moveu para a direita, e derrota de Bolsonaro é impressão, afirma Haddad à Folha

Carolina Linhares / FOLHA DE SP
SÃO PAULO

Para Fernando Haddad (PT), 57, o centro não foi o grande vitorioso em 2020. Ele vê um deslocamento do eleitorado para a direita e para a extrema direita e não crava uma derrota para o presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

“Bolsonaro administra tudo muito mal. Inclusive o próprio prestígio de que ainda goza”, diz em entrevista à Folha.

Haddad afirma trabalhar para que o ex-presidente Lula (PT) seja candidato à Presidência em 2022 e evita se colocar no jogo, embora tenha sido o plano B em 2018.

O ex-prefeito petista diz que houve frustração em seu partido com a eleição municipal, embora avalie que a sigla mantém seu tamanho —mesmo após perder prefeituras. Foram 652 cidades conquistadas em 2012, contra 256 em 2016 e 183 neste ano. Em 2020, a população governada pelo PT se manteve nos cerca de 6 milhões registrados em 2016.

A avaliação entre políticos de é a de que, na eleição de 2020, o bolsonarismo e o petismo perderam, enquanto o centro cresceu. Concorda? A minha avaliação é outra. Bolsonaro administrou mal seu próprio cacife político, e isso passa a impressão de que ele foi o grande derrotado. Mas, se considerarmos que o bolsonarismo é uma recidiva do período autoritário com requintes de obscurantismo, vamos verificar que os partidos que, de alguma forma, descendem da matriz autoritária foram os que mais cresceram. O PT ficou no tamanho de 2016, com uma leve vantagem. PSDB, MDB e PSB foram os partidos que mais perderam espaço.

Houve um deslocamento do eleitorado para a direita e para a extrema direita, mas menor do que eu esperava. O que coincide com um período em que o bolsonarismo não está tão mal avaliado, com aprovação na casa de um terço. E obviamente isso tem muito a ver com o regime fiscal do combate à pandemia, foi despejado muito dinheiro na economia —contrariando o próprio governo, que queria investir muito menos.

Quais partidos de tradição autoritária cresceram? O PP, o próprio PSL, Republicanos, DEM. Estou falando em número de votos no primeiro turno.

É prematuro dizer que Bolsonaro pode não ser reeleito? É prematuro. Os próximos dois anos estão envoltos em indeterminações, porque o ano de 2020 foi atípico. Foram investidos quase meio trilhão de reais para sustentar a economia numa situação dramática.

Políticos de centro dizem que a população rejeitou radicalismos, mencionando PT e Bolsonaro. Como vê o PT na cadeira de radical? É uma técnica de comunicação, mais do que uma definição. Qualquer cientista político sabe que o PT é um partido de centro-esquerda, sempre foi tratado dessa maneira. Se o jogo político fosse limpo, continuaria sendo tratado assim. Faz parte da narrativa desses partidos de ter escolhido um extremista em 2018. É um pouco para limpar o currículo, dizer que estavam entre dois extremos, mas isso é uma fantasia, é pouco verossímil.

Por que Bolsonaro não emplacou quem ele indicou?Há um aumento da rejeição a Bolsonaro, mas isso não contradiz o fato de que houve um deslocamento do centro para a direita, sobretudo do eleitorado do MDB, PSDB e PSB. Bolsonaro administra tudo muito mal. Inclusive o próprio prestígio de que ainda goza. Ter um terço de aprovação sem nenhuma entrega é considerável. Até por inexperiência, ele está ocupando a Presidência da República, não está exercendo o cargo.

Por outro lado, o PT e a esquerda encolheram. Não acho. O PT teve um número um pouquinho maior de votos do que em 2016 —nos grandes centros, justamente onde o bolsonarismo teve aumento de rejeição. O PT decresceu nas pequenas cidades, onde o auxílio emergencial faz muita diferença. Tudo somado, o PT ficou do mesmo tamanho.

Em comparação com 2016, seu pior momento. O PT imaginava que fosse angariar um apoio maior do que teve em 2016 e isso não aconteceu. Mas quando se fala que não ganhamos em nenhuma capital… Nós ganhamos Rio Branco (AC) em 2016, que é menor que as quatro cidades onde ganhamos no segundo turno em 2020. O PT teve um desempenho melhor nas médias e grandes cidades e perdeu apoio nas pequenas, ficou do mesmo tamanho. O que frustrou as expectativas, já que o partido imaginou que fosse recuperar pelo menos uma parte do que perdeu em 2016 .

Não vê erros de condução na direção do partido? Pode ter havido em campanhas específicas, mas um erro geral, não.

Considerando Boulos em São Paulo, não faltou renovação no PT? Mas o PT lançou um candidato novo também [o ex-secretário municipal e ex-deputado Jilmar Tatto].

Um nome que está na política há mais tempo, não é a juventude que Boulos representa. Foi uma eleição que favoreceu muito o recall. O fato de Boulos ter sido candidato a presidente deu uma vantagem a ele muito grande. Ele tinha uma rede social já muito bem estruturada. Boulos conta com apoio do PSOL muito entusiasticamente, é um candidato que está sendo trabalhado pelo partido como um todo. Ao contrário do PT que não trabalha em torno de figuras específicas e sim mais no global. Teve muita migração de votos do PT para Boulos.

Como as chances eram de repetir em São Paulo o que aconteceu no Rio, muita gente resolveu apostar as fichas em alguém que fosse mais representativo desse pensamento progressista. Como Tatto era menos conhecido e Boulos largou na frente, acaba acontecendo isso. O que aconteceu com Boulos em 2018 foi exatamente isso, com sinal trocado. Ele teve 0,6% dos votos.

O PT errou ao lançar Tatto? Achava difícil o PT, que governou a cidade em três mandatos, não lançar um candidato. Sempre vai haver essa discussão. Recife, São Paulo e Rio vão ser discutidos futuramente sobre a condução da direção do partido.

Era melhor ter feito aliança com PSOL e PC do B? Para isso, teríamos que ter partido do tabuleiro nacional. Não poderia ter sido uma negociação cidade a cidade.

Qual o papel de Boulos agora? Eu gosto muito dele. Um bom quadro, uma boa novidade para a esquerda.

Pode ser candidato à Presidência? Compor chapa com o PT? A minha posição sobre 2022 está muito ligada ao fato de eu estar lutando muito para que Lula recupere seus direitos políticos, sobretudo depois da desmoralização de Sergio Moro. Espero que o Judiciário faça justiça e nós possamos seguir com Lula candidato.

Esse HC [habeas corpus] tem dois anos que foi pedido e é uma demanda jurídica que tem precedência sobre as outras. Acumulam-se evidências e provas de parcialidade do [então] juiz. Eu não sei mais o que precisa acontecer para que o sistema de justiça reconheça que houve clara violação de direitos fundamentais.

Boulos disse à Folha que vai trabalhar pela união da esquerda. Acho muito difícil o PSOL e o PC do B abrirem mão de candidatos próprios em função da cláusula de barreira. A união mais relevante é a de segundo turno, é garantir que quem quer que vá para o segundo turno derrote Bolsonaro. Para não acontecer o que aconteceu em 2018, quando setores democráticos resolveram apoiar a extrema direita para prejudicar o PT.

A centro-direita apoiaria a esquerda contra Bolsonaro no segundo turno?Temos [Luciano] Huck, Ciro [Gomes] e [João] Doria. Tem que perguntar para eles se votariam no Bolsonaro. Acho engraçado que o jornalismo não pergunte isso para aqueles que votaram no Bolsonaro em 2018. Se eles nos acusariam de extremista para justificar o voto no verdadeiro extremista ou não. Conheço tucanos que não repetiriam o voto no Bolsonaro e tucanos que repetiriam. Isso é relevante para mostrar quem é de fato extremista.

E se o PT tiver que apoiar qualquer um desses três contra Bolsonaro?  Para não fazer exercício de futurologia, o PT declarou voto no Eduardo Paes [no Rio], que é do DEM. Em tese, a gente sabe distinguir um fascista de um não fascista. Aparentemente, quem não sabe é a direita.

O PT só trabalha com a hipótese de Lula candidato? Essa discussão ainda não está instalada, a não ser nessa semana que dois petistas se declararam candidatos, Jaques Wagner e Rui Costa. Mas não tem movimentação para calendário de prévias, o que seria razoável.

O sr. é candidato ao Planalto? Vamos ter um primeiro semestre decisivo, porque acredito que o Supremo vai pautar o julgamento. Se, como eu espero, o Supremo reconhecer que Sergio Moro não julgou de forma imparcial o presidente Lula, acho que as coisas se resolvem de uma maneira. Caso contrário, a direção nacional vai estabelecer alguma forma de consulta.

Se Lula puder ser candidato, vai ser ele, sem discussão?  Ele teria que ser ouvido. No PT, por unanimidade ele seria ungido representante até por toda a violência que ele sofreu.

O PT precisa se libertar de Lula? PT e Lula são eventos indissociáveis e mutuamente dependentes.

O PT ter tido um resultado aquém do esperado com Lula solto indica enfraquecimento dele? É muito difícil transferir voto para a ponta. Eleger um sucessor é uma coisa, eleger governador e prefeito depende de mil condicionantes locais.

O PT se perdeu na sua burocracia ou está no rumo certo? O PT tem 40 anos. Já é um milagre a existência do PT no Brasil. O PT não estava no roteiro histórico desse país e, de certa maneira, o antipetismo se impõe por isso. E ele vai errar e acertar e pra isso que se faz balanço interno. O Brasil sem o PT tem o passado pela frente.

Insistir em Lula não é um erro, não se mover pra frente? O erro é aceitar uma arbitrariedade como essa. É trocar um eventual, duvidoso e imoral ganho de curto prazo imaginando que nós não seremos julgados pela história quando tudo ficar devidamente esclarecido.

Em 2022, o PT pode abrir mão de ser cabeça de chapa? O PT nunca impôs nada, isso é fantasia. Ninguém pergunta ao PSDB se ele tem vocação hegemônica. Eles ficaram em que lugar em 2018? O PT e o PSDB estruturaram a política pós redemocratização. Eu acho impossível o PSDB não ter candidato à Presidência. O PT já abriu mão de vários estados em função de alianças nacionais. Acho muito difícil PT e PSDB não terem candidatos.

Moro agora trabalha numa consultoria que atende a Odebrecht, ele ainda tem condição de ser candidato? No Brasil, nada se enterra. Não conseguimos enterrar nada, a escravisão, a monarquia, o Estado Novo. Esse país tem enorme dificuldade de se resolver. Então você vai vivendo com zumbis.

Ele pode ser candidato? Não tenho a menor ideia. Pode. O que eu sempre entendi é que ele era ambicioso.

E Luciano Huck? Projeto pessoal as pessoas podem ter. Uma celebridade sempre tem uma afinidade com uma parte da opinião pública.

O sr. foi colocado na campanha, quando Covas, por exemplo, falava do rombo do caixa na prefeitura. Como se viu na campanha? Lamentei. Covas não precisava ter mentido, ele foi desmentido três ou quatro vezes por agências de checagem. Achei meio vergonhoso para justificar um grande fracasso dessa gestão, que é reduzir em 50% o nível de investimento com muito dinheiro em caixa. Se não fosse a minha gestão, São Paulo estaria na mesma situação do Rio.

Não vou pedir pra ninguém reconhecer isso agora. É bom que esteja no jornal, porque alguém vai ler essa entrevista daqui 20 anos e vai dizer: é verdade. Não peço para reconhecer porque a verdade virou uma brincadeira, não tem aderência.

Fernando Haddad, 57

  • É bacharel em direito, mestre em economia e doutor em filosofia pela USP
  • Foi ministro da Educação de 2005 a 2012, nos governos Lula (PT) e Dilma (PT)
  • Foi prefeito de São Paulo de 2013 a 2016
  • Em 2018, foi candidato a presidente pelo PT e ficou em segundo lugar, com 45% dos votos

Oito capitais elegeram prefeitos que fazem oposição ao governador do estado

Bernardo Mello O GLOBO

 

Alexandre Kalil tenta a reeleição em Belo Horizonte Foto: Divulgação

 

 

 do prefeito eleito na respectiva capital. Em alguns desses estados, o chefe do Executivo da capital já fez acenos a grupos de oposição ao governador durante a campanha.

Em Maceió, o líder do PP na Câmara, Arthur Lira, deu apoio velado ao também deputado federal João Henrique Caldas (PSB), conhecido como JHC, no segundo turno contra Alfredo Gaspar de Mendonça (MDB). A vitória de JHC foi um baque para o grupo político do senador Renan Calheiros (MDB-AL) e do governador Renan Filho (MDB), que enxergavam Maceió como estratégica para os planos do grupo em 2022. Lira, que deve concorrer à presidência da Câmara, também articula uma candidatura de oposição à família Calheiros ao governo do estado, numa costura que pode envolver ainda o senador Fernando Collor de Mello (PROS-AL), que fez elogios recentes ao líder do PP.

Na capital do Maranhão, São Luís, o prefeito eleito Eduardo Braide (Podemos) chegou a ser líder do governo de Flávio Dino (PCdoB), mas rompeu com o governador no fim do ano passado e foi à oposição. Um dos articuladores da candidatura de Braide foi o senador Roberto da Rocha (PSDB-MA), aliado do presidente Jair Bolsonaro, e que cogita lançar seu próprio nome ao governo do estado em 2022.

Outras duas capitais do Nordeste, Salvador e Natal, terão prefeitos de grupos políticos que fazem oposição aos atuais governadores, ambos do PT: Rui Costa, na Bahia, e Fátima Bezerra no Rio Grande do Norte. Na capital baiana, o eleito foi Bruno Reis (DEM), sucessor do atual prefeito, ACM Neto, que deve ser candidato ao governo. Na eleição potiguar, o reeleito Alvaro Dias (PSDB) é aliado ao PDT local, que deve lançar o ex-governador Carlos Eduardo Alves como candidato contra a reeleição de Fátima.

Disputa em Minas

No Pará, em que pese o apoio do PT ao governador Helder Barbalho (MDB) nas duas últimas eleições, a frente de partidos de esquerda vitoriosa em Belém com Edmilson Rodrigues (PSOL) deve projetar um candidato próprio em 2022. Além de Minas, onde o prefeito eleito na capital, Alexandre Kalil (PSD), tende a deixar o mandato para concorrer ao governo contra Romeu Zema (Novo) daqui a dois anos, uma oposição direta entre prefeito e governador se desenha em Boa Vista, capital de Roraima. A atual prefeita Teresa Surita (MDB) elegeu o vice, Arthur Henrique, como sucessor, e cacifou o próprio nome para enfrentar Antonio Denarium (sem partido) na disputa estadual em 2022. Teresa tem o apoio do ex-marido, o ex-senador e ex-ministro Romero Jucá.

Leia mais:PSDB segue como partido com maior número de governados, mas perde 16 milhões em quatro anos

Em Vitória, a eleição do delegado Lorenzo Pazolini (Republicanos) retirou um palanque do governador Renato Casagrande (PSB) na campanha à reeleição. Pazolini, que é deputado estadual de primeiro mandato, chamou para a equipe de transição nomes que trabalharam com o ex-governador Paulo Hartung, atualmente sem partido. Hartung, ex-aliado de Casagrande, abdicou em 2018 de concorrer à reeleição — dizendo estar desencantado com a falta de renovação em cargos eletivos — e vem atuando como consultor político do apresentador Luciano Huck.

Paraná Pesquisa: Hoje, Bolsonaro ganharia nos 1º e 2º turnos

Equipe BR Político

Pesquisa do Instituto Paraná Pesquisa divulgada nesta sexta, 4, mostrou que o presidente Jair Bolsonaro venceria todos os candidatos testados no 1º e 2º turnos das eleições em 2022. O adversário mais competitivo seria o ex-presidente Lula, num placar a favor do chefe do Planalto de 32,9% contra 17,8% para o petista no primeiro turno. Em segundo, viria Ciro Gomes (PDT), com 12,1% contra 35,8% para Bolsonaro. Em terceiro lugar, Sérgio Moro obteria 11,8% das intenções de voto, contra 33,3% do presidente.

No segundo turno, o cenário menos folgado seria com Moro, que teria 34,7% contra 44,9% de Bolsonaro. Depois viria o embate com Lula, que obteria 33,4% contra 47% do presidente. Em terceiro, Ciro teria 31% e Bolsonaro, 48,5%.

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O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Igo Estrela/Estadão

O levantamento também traz o índice de aprovação do presidente de 50,2% contra 45,3% que o desaprovam. Já na avaliação da gestão Bolsonaro deu empate: 37,3% a consideram ruim e péssima, e 37,2%, boa e ótima. Regular, 24,2%.

João Doria (PSDB-SP) aparece lá em baixo, com 3,7%, 3,8% e 4,8% nos três cenários. Guilherme Boulos se sai melhor que o tucano: 5,7% e 4,9%, em dois cenários.

Em quarto, atrás de Lula, Moro e Ciro, vem Fernando Haddad: 8,8% e 11,5%, em dois cenários. Em seguida, vem Luciano Huck: 7,8% e 9,5%.

A pesquisa foi feita por meio de entrevistas pessoais telefônicas, com eleitores com 16 anos ou mais, em 26 Estados e Distrito Federal e em 192 municípios brasileiros durante os dias 28 de novembro a 01 de dezembro de 2020, com margem de erro de 2 pontos porcentuais, para mais ou para menos.

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