O ovo da serpente - CARLOS JOSÉ MARQUES
Há algo de tenebroso em um governo no qual viceja o ambiente para que um estafeta neonazista do bolsonarismo, o agora demitido do comando da pasta da Cultura Roberto Alvim, se sinta à vontade para proferir um discurso tão abjeto como ao que o País assistiu dias atrás, enaltecendo e copiando o gênio do mal da propaganda hitlerista, Joseph Goebbels. A permissividade e o flerte oficial com o totalitarismo estão em voga e alavancaram a escalada perigosa de abusos que se verifica hoje nessas paragens tropicais do Brasil, em franca convulsão de extremos.
É da mesma lavra, e possui os mesmos ingredientes teatrais, tanto as falas como os atos do ministro da Educação, dançarino na chuva e ignorante no vernáculo (demonstrado em inúmeras ocasiões), Abraham Weintraub. Por decisão dele, paira no ar, dentre outras aberrações, a ameaça de extermínio de quase três milhões de livros didáticos, sob a alegação de que carregariam conteúdo altamente dirigido. Weintraub, no seu show de peripécias inomináveis, acaba de protagonizar o maior desastre de exames do Enem em toda a década, com erros no gabarito e notas mal avaliadas contadas às milhares.
Isso tudo depois de se vangloriar de ter coordenado um concurso perfeito. Apenas na cabeça dele! Os retrocessos na Educação e na Cultura são a face mais macabra da ascensão de uma doutrina ideológica alienante e cerceadora de liberdades que plantou raízes por aqui desde a chegada do “Mito” ao poder. Paulo Guedes, o czar da economia, e o filho 03, Eduardo Bolsonaro, já aventaram o resgate de medidas de exceção tais quais as do AI-5, que no interregno da ditadura militar cassaram direitos, promoveram prisões arbitrárias, torturaram e mataram adversários do regime.
O embaixador Ernesto Araújo, com a chancela do próprio capitão-presidente, tachou o nazismo como um fenômeno de esquerda. E o secretário-geral da comunicação oficial, titular da Secom, Fábio Wajngarten, acaba de avisar que todas as pontes com a imprensa foram implodidas. Logo ele, o homem da comunicação, diz que o governo não quer mais se comunicar. Promove abertamente uma tentativa de asfixia financeira dos críticos, dirigindo verbas aos seus clientes privados (em claro conflito de interesses), enquanto censura a publicidade estatal naqueles veículos tidos por ele como “não convertidos”. E Bolsonaro concorda, concede e passa a mão na cabeça do subordinado que faz esquemas. Nas “lives” improvisadas de Messias, lançadas semanalmente nas redes digitais para a legião de seguidores, a pregação de mensagens subliminares fica ainda mais evidente. Na última delas ele falou em reescrever a trajetória do Brasil de 1500 até agora, contando “a história verdadeira”.
Leia-se: a sua verdade histórica. O dirigismo ideológico que induz à maquiagem de fatos e à tirania de valores sociais, repudiando a diversidade e impondo o preconceito, é típico dos governos autocratas. São alarmantes os sinais nesse sentido. Jair Bolsonaro deseja se apropriar politicamente do que entende ser uma luta santa contra o mal. Prega, a exemplo do ex-secretário Alvim — a quem demitiu apenas devido às pressões -, que o povo precisa ser salvo de uma cultura doente e que só são passíveis de financiamento público projetos artísticos que se prestem a difundir a ideia de nação concebida segundo seus valores.
Por esse modelo será “nacional”, como defendia Alvim (a quem o presidente elogiou publicamente momentos antes da queda), apenas aquilo que obedecer aos critérios estabelecidos pelo Estado. Alvim se foi, mas a pregação odiosa deixada por ele mantém-se à tona. Em muito ela lembra os ideais do “Führer”, de submissão coletiva a um fundamentalismo programático. O mandatário, que tece loas a ditadores sanguinários como Pinochet e Stroessner e classifica de herói o torturador Brilhante Ustra, parece à vontade para construir uma gestão marcada por essa mesma estética degenerada de controle social. Não se intimida com as críticas. Não encontra sequer tantas resistências assim.
Talvez porque a maioria entenda como meras estultices as suas declarações. Não são. Sistemas fascistas normalmente vêm precedidos da incredulidade geral e acabam por arrebanhar àqueles frustrados por promessas não cumpridas e por problemas cotidianos. O cineasta Ingmar Bergman, em seu clássico “O Ovo da Serpente”, já relatava com precisão o cenário de violência urbana, desemprego e desencanto – como ocorre atualmente por aqui – que propiciou o surgimento do nazismo na Alemanha hitlerista.
Os falsos heróis e salvadores da pátria estão sempre à espreita e, invariavelmente, acabam por tentar implantar regimes que descambam para a crueldade, o racismo e a perseguição de direitos, em nome de uma faxina moral totalitária.
Abre-se a porta para uma reforma ministerial
Se não recuar da ideia de forçar a saída de Sérgio Moro do governo, ou mesmo que recue, o presidente Jair Bolsonaro poderá aproveitar a ocasião para livrar-se de outros ministros que não correspondem às suas expectativas ou que lhe criam embaraços.
Um deles poderá ser o do Meio Ambiente. Ricardo Salles sugeriu a Bolsonaro que elevasse o status de sua pasta vinculando-a diretamente ao seu gabinete ou ao do chefe da Casa Civil. Bolsonaro preferiu dar uma solução que desagradou a Salles.
Criou o Conselho da Amazônia que cuidará de tudo que tenha a ver com os povos indígenas, inclusive a preservação da natureza. E pôs na presidência o general Hamilton Mourão, seu vice. Foi uma forma disfarçada de intervir na área do ministro.
Como um bom militar, e como se queixava de estar sendo apenas um vice-presidente decorativo, Mourão ocupará todo o espaço que possa. E contará para isso com o apoio dos seus ex-colegas de farda. Em breve, se tornará uma referência mundial no assunto.
A entrada no governo da atriz Regina Duarte, “a namoradinha do Brasil”, dará também ao governo ares de renovação. Por que não trocar outras peças defeituosas? No radar de Bolsonaro, os ministros do Desenvolvimento Regional e da Educação.
Bolsonaro tem horror a fazer o que a imprensa antecipa. Inúmeras vezes adiou a divulgação medidas só pelo prazer de acusar a imprensa de publicar fakenews. Mas é fato que se discute no seu entorno as vantagens de uma reforma ministerial.VEJA
Os “ruídos” entre Bolsonaro e Moro - MURILO DE ARAGÃO
A manifestação do presidente Jair Bolsonaro admitindo a recriação do Ministério da Segurança Pública – o que posteriormente foi descartada pelo próprio Bolsonaro — em uma reunião com secretários estaduais da área, acabou provocando um novo ruído na relação com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.
Mesmo que a pauta tenha sido levada pelo secretário estaduais, o presidente, inicialmente, deixou o tema ser debatido publicamente.
Como consequência, foi construída a narrativa que a medida representaria um esvaziamento de poder de Moro, que vem conquistando resultados positivos no comando de sua pasta, principalmente na redução dos índices de homicídios.
Coincidência ou não, o debate em torno do desmembramento da área de segurança pública do Ministério da Justiça ocorre dias após a participação de Sergio Moro no programa “Roda Viva”.
Além dos índices positivos de audiência registrados pelo programa, Moro descartou assinar um documento se comprometendo a não ser candidato ao Palácio do Planalto em 2022.
Mesmo que Sergio Moro tenha demonstrado, até agora, fidelidade ao presidente Jair Bolsonaro, o ministro é visto como um potencial presidenciável.
A discussão sobre a recriação do Ministério da Segurança Pública representou também um movimento da ala ideológica para “controlar” o crescimento de Sergio Moro dentro do governo, pois os chamados “olavistas” veriam com preocupação a sombra que Moro faz ao presidente.
O recuo de Bolsonaro, afirmando que a chance do Ministério da Segurança Pública ser recriado é “zero”, afasta momentaneamente os rumores sobre uma eventual saída de Moro do governo. Mas não elimina o mal-estar.
Porém, o episódio acabou causando um desgaste interno e de imagem na opinião pública para o governo desnecessário.
Há quem veja a especulação como um “recado” do presidente e da ala para Moro. Independente das motivações, o episódio pode ter afastado um pouco mais a chamada base social lavajatista do bolsonarismo. VEJA
João sem-braço - VEJA
O presidente deu o dito pelo não dito, mas todo mundo entendeu que queria dar um tranco no ministro Sergio Moro quando aventou a possibilidade de tirar dele as atribuições atinentes à segurança pública, criando para isso uma nova pasta e deixando o ex-juiz só com a da Justiça.
Se foi uma reação ao bom desempenho de Moro na entrevista ao programa Roda Viva, Bolsonaro revela-se, entre outras características, um ciumento. Voltou atrás dizendo que é “zero”, por enquanto (note-se) a chance de dividir o ministério comandado por Moro.
Ora, poderia ter dito isso dois dias antes, quando recebeu secretários estaduais de Segurança Pública (nem todos, pois, dos 20 presentes, nove votaram contra), reunidos em Brasília. No lugar de dar o assunto por encerrado, alimentou o debate falando que a proposta estava em “estudo”.
Balão de ensaio, como se viu. O presidente pode ser tosco, mas não é burro. Sabe que se quiser ver Moro pelas costas terá de assumir o ônus da demissão. De onde vai testando o limite da paciência do ministro que tem se mostrado ilimitada.
Na fritura de Moro, Bolsonaro se une a amigo dos filhos e secretário do PT... - JOSIAS DE SOUZA
Jair Bolsonaro esforçou-se para terceirizar a secretários de Segurança dos Estados a articulação que devolveu Sergio Moro à frigideira. Fracassou. As digitais do Planalto estão impressas na manobra que ressuscitou a ideia de desmembrar a pasta da Justiça, retirando de Moro a área da Segurança Pública. Atento à movimentação, o ex-juiz da Lava Jato nunca esteve tão próximo da porta de saída do governo.
O epicentro da ação anti-Moro foi um gabinete do Planalto. Com a anuência do chefe, o ministro palaciano Jorge Oliveira (Secretário-Geral da Presidência) negociou o encontro dos secretários estaduais com Bolsonaro, sem a presença de Moro. Providenciou para que o teatro fosse ensaiado previamente numa conversa do presidente com o secretário de Segurança do Distrito Federal, Anderson Gustavo Torres.
Delegado federal de carreira, Anderson Torres é amigo de Flávio e Eduardo Bolsonaro, os filhos Zero Um e Zero Três do presidente da República. Utilizou como barriga de aluguel da proposta de cisão da pasta de Moro o Consesp, Colégio Nacional de Secretários de Segurança Pública. Sob o patrocínio do governador de Brasília, Ibaneis Rocha (MDB), o grupo reuniu-se na Capital, na quarta-feira.
O desejo de Bolsonaro de desgastar Moro é tão intenso que ele deu de ombros para o fato de que o Consesp é presidido por Maurício Teles Barbosa, um personagem vinculado ao petismo. Trata-se de outro delegado federal. Comanda a Secretaria de Segurança do governo petista da Bahia.
Nomeado pelo ex-governador Jaques Wagner, amigo de Lula, Maurício Barbosa foi mantido no posto pelo atual governador baiano, o também petista Rui Costa. Na gestão de Dilma Rousseff, esteve na bica de ser nomeado secretário Nacional de Segurança da pasta da Justiça, comandada à época por José Eduardo Cardozo.
Até bem pouco Bolsonaro tratava aliados de Lula na base do pontapé. Em julho do ano passado, foi flagrado despejando nos ouvidos do ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) um cochicho que escancarou sua visão sobre o pedaço do mapa do Nordeste que é governado por petistas e aliados do PT.
"Desses governadores de Paraíba, o pior é o do Maranhão", balbuciou Bolsonaro, num lapso captado pelas câmeras da empresa oficial de comunicação, durante café da manhã oferecido a correspondentes estrangeiros. Referia-se ao governador maranhense Flávio Dino (PCdoB).
Comum no Rio de Janeiro, onde todo nordestino é um "paraíba", a metonímia pingou dos lábios de Bolsonaro acompanhada de um complemento: "Tem que ter nada pra esse cara". Foi contra esse pano de fundo que o capitão deu cartaz ao secretário petista. Não bastasse o vínculo com os arquirrivais, Maurício Barbosa defende proposta que provoca arrepios no inquilino do Planalto: a legalização da maconha.
Na fase de ensaio, Anderson Torres, o amigo do Zero Um e do Zero Três, combinou com o ministro Jorge Oliveira e com o próprio Bolsonaro, que os secretários de Defesa formalizariam um pedido de recriação da pasta da Segurança Pública, nos moldes em que funcionava sob Michel Temer.
Dos 27 secretários estaduais de segurança, 20 estavam em Brasília na quarta-feira. Muitos estão irritados com o fato de Sergio Moro se autoatribuir méritos pela queda de cerca de 22% no número de homicídios em todo país. Avaliam que o feito é dos Estados, não de Brasília.
A despeito do mal-estar, a cisão da pasta de Moro não estava entre as prioridades da reunião do Consesp. Os secretários reivindicavam verbas federais, bloqueio de celulares nos presídios e isenção de IPI na aquisição de equipamentos para as polícias. O que não impediu que o documento urdido no Planalto fosse providenciado.
Redigido em papel timbrado do Colégio Nacional de Secretários de Segurança Pública, o texto ocupa duas folhas. Trata apenas da recriação da pasta da Segurança Pública. Nem sinal das outras reivindicações. Traz a assinatura do presidente da entidade, Maurício Barbosa, o secretário da Bahia. Estampa também as rubricas de outros 12 secretários. Ou seja: de duas dezenas de presentes, apenas 13 firmaram o documento.
Datado de quarta-feira (22/01), o texto foi formalmente protocolado no Planalto. Em condições normais, deveria ter sido entregue na Casa Civil. Mas quem assina o protocolo de recebimento é o ministro Jorge Oliveira. Curiosamente, ele imprimiu sobre sua assinatura um carimbo que usava na função que ocupava antes de ser nomeado ministro: subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil.
Quem lê o documento fica com a impressão de que Sergio Moro trata a segurança com descaso: "O colégio manifesta o entendimento de que a criação de uma pasta dedicada exclusivamente à Segurança Pública revela-se medida de grande acerto, pois dará ao tema a importância que merece, colocando-o ao lado de outros temas igualmente importantes, como a saúde e educação."
O texto enaltece realizações da gestão de Michel Temer, quando Justiça e segurança eram pastas separadas: "Experiências recentes mostraram que quando a segurança pública recebeu a atenção devida nas mais elevadas instâncias políticas, resultados estruturantes foram alcançados, a exemplo da criação de uma política e um plano nacional de segurança pública, ou mesmo com a criação de Sistema Único de Segurança Pública, com suas formas de financiamento".
Nesta quinta-feira (23/01), antes de embarcar para uma viagem à Índia. Bolsonaro repetiu o que dissera na reunião da véspera, transmitida pelas redes sociais: cogita a sério recriar a pasta da Segurança. Fez dois acréscimos: 1) Confirmando-se a mudança, Moro ficará com o Ministério da Justiça, sem a Polícia Federal. 2) Sabe que o ministro será "contra" o desmembramento.
— Atualização feita às 10h03 desta sexta-feira (24/01): Na India, Bolsonaro voltou a falar sobre a situação de Sergio Moro. Depois de submeter seu ministro mais popular a uma humilhação pública, o capitão declarou que a chance de desmembrar a pasta de Moro "é zero". Mas tratou de esclarecer que pode mudar de ideia a qualquer momento. "Não sei o amanhã, porque na política tudo muda." Ou seja, o fogo continua aceso.
Entrada de Moro no Instagram acendeu sinal de alerta no Planalto
BRASÍLIA — O presidente Jair Bolsonaro sentiu elevar a temperatura das redes sociais, ao longo desta quinta-feira, com cobranças sobre a possibilidade de esvaziamento do Ministério da Justiça e Segurança Pública, comandado pelo ministro Sergio Moro. Porém, foi a decisão do subordinado de entrar no Instagram que acendeu o sinal de alerta.
Análise: Por que Bolsonaro morde e assopra Sergio Moro
Diante dos questionamentos cada vez mais intensos de apoiadores, sobretudo os entusiastas da Lava-Jato, e dos sinais de descontentamento emitidos pelo ministro, que chegou a ameaçar deixar a pasta em conversas com assessores de confiança, Bolsonaro decidiu recuar de forma pública: declarou logo cedo nesta sexta-feira, no início de uma viagem à Índia, que não recriará “no momento” a pasta da Segurança.

