Busque abaixo o que você precisa!

Flávio Bolsonaro desserve o Brasil

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais alinhado ao presidente Donald Trump.

Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast, empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e “constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.

 

Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.

 

Não foram necessários mais do que cinco minutos para que Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos empregos de milhões de brasileiros.

 

O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25 a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente. A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.

 

Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que os fatos vêm corroendo dia após dia.

 

Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse em ajudar o Brasil.

 

E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.

Fim do cessar-fogo cria incerteza para economia global

EDITORIAL DE O GLOBO

 

O fim do cessar-fogo entre Irã e Estados Unidos amplia a incerteza no planeta. Depois de três semanas de indefinição desde a assinatura do frustrante “memorando de entendimento” entre os dois países, o Oriente Médio se tornou mais uma vez palco de hostilidades abertas. Em resposta a ataques iranianos a petroleiros no Estreito de Ormuz, forças americanas atingiram mais de 80 alvos no Irã, incluindo sistemas de defesa, radares e barcos. Depois dos bombardeios, bases americanas no Bahrein e no Kuwait foram atingidas.

 

Desde o início, parecia evidente que as premissas para o entendimento eram frágeis. O memorando extraído a fórceps de negociações tensas e inconclusivas era vago a respeito do principal — o futuro nuclear do Irã. Nem mesmo todas as concessões feitas pelos americanos foram capazes de apaziguar o regime dos aiatolás. E, de lá para cá, os vaivéns e rompantes ciclotímicos de Donald Trump só contribuíram ainda mais para aumentar as dúvidas.

 

O preço do barril do petróleo registrou ontem a maior alta diária desde março. A cada dia que Ormuz permanecer fechado, a conta a pagar só aumentará para todo o mundo. A desaceleração da economia global é dada como certa. Entre 2024 e 2025, o crescimento anual foi de 3,5%. Neste ano, não deverá passar de 3%, segundo a atualização do Panorama Econômico Mundial anunciada ontem pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). “A possibilidade de um novo conflito no Oriente Médio é iminente e pode prolongar a volatilidade dos preços das commodities, ameaçar ainda mais as cadeias de suprimentos, elevar os preços e pressionar as condições financeiras. A fragmentação do comércio global pode se acelerar, prejudicando potencialmente a produção e aumentando os preços”, afirma o relatório. No caso do Brasil, a previsão foi ajustada levemente para cima (ficou em 2,4%, perto da média latino-americana).

 

Desde que as primeiras bombas caíram sobre Teerã em fevereiro, os preços da gasolina nos postos de combustíveis subiram 30% nos países emergentes da Ásia e 15% na América Latina. Com um mercado menos integrado globalmente, o gás natural liquefeito subiu cerca de 50% na Ásia e 25% na Europa. Alavancada pelos preços de combustíveis, a inflação global disparou. A taxa anualizada subiu quase 4 pontos percentuais entre fevereiro e abril. Os efeitos negativos na expansão econômica só não são maiores porque muitos países são hoje menos dependentes da importação de petróleo, e alguns se beneficiam da expansão da inteligência artificial (IA).

 

O maior incentivo para Trump encontrar uma saída para o conflito é doméstico. Durante a campanha, o então candidato republicano prometeu acabar com as “guerras sem fim”. Quando a guerra começou, sua desaprovação já era superior a 55%. De lá pra cá, a avaliação positiva caiu ainda mais. Nos primeiros 535 dias do atual mandato, Trump conseguiu obter um índice de reprovação superior ao do antecessor Joe Biden no mesmo período. Com as eleições de meio de mandato em novembro cada vez mais próximas, o preço dos combustíveis é um dos melhores cabos eleitorais da oposição democrata.

 

Ataques no Golfo voltam a atingir naviosAtaques no Golfo voltam a atingir navios — Foto: Foto: Reprodução/Redes sociais

 

 

Operação integrada aponta caminho promissor no combate a facções

Por Editorial / O GLOBO

 

Foi auspiciosa a união de forças de segurança na operação deflagrada ontem em 16 das 27 unidades da Federação para combater o crime organizado. O objetivo foi prender 93 investigados por tráfico de drogas e armas, lavagem de dinheiro e ligação com facções criminosas. As ações foram conduzidas pelas Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficco), vinculadas à Polícia Federal (PF) e envolvendo também forças estaduais e municipais. É evidente que o trabalho conjunto, sob coordenação federal, é a melhor forma de enfrentar as quadrilhas.

 

Embora a segurança pública seja primordialmente tarefa dos estados, sozinhos eles não têm conseguido combater organizações criminosas que atuam em todo o país e no exterior. A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) e a fluminense Comando Vermelho (CV) estão presentes em diferentes estados, onde disputam o controle da venda de drogas com grupos locais. Passou a ser comum o intercâmbio de bandidos de uma mesma facção entre unidades da Federação, dificultando ainda mais o trabalho da polícia.

 

Não se trata apenas de problema interno. Em junho, o governo dos Estados Unidos classificou PCC e CV como organizações terroristas, abrindo caminho a sanções a instituições brasileiras e seus integrantes. Neste mês, autoridades americanas aplicaram punições a dois brasileiros e a três empresas do país, sob acusação de vínculo com o PCC e de lavagem de dinheiro em território americano. Em seguida, a PF deflagrou uma operação contra os acusados. O problema não pode, portanto, ser tratado de forma estanque.

 

Não há dúvida de que o crime organizado assumiu proporções alarmantes. Ele não está apenas nas guerras entre quadrilhas pelo controle dos pontos de droga. Está também no que geralmente não se vê: sucessivas operações têm revelado um quadro assustador de infiltração do crime na política e no mercado formal.

 

A Carbono Oculto mostrou que ele contaminava toda a cadeia de combustíveis e alcançava fintechs e instituições financeiras em áreas nobres de São Paulo. Nesta semana, uma nova fase da Operação Unha e Carne expôs no Rio as ramificações de uma quadrilha suspeita de lavar dinheiro com combustíveis. A operação foi deflagrada a partir de relatório apontando movimentação de mais de R$ 7,6 bilhões em seis anos por uma rede de postos. Entre os alvos, estavam Márcio Canella (União), ex-prefeito de Belford Roxo e pré-candidato ao Senado, e o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil do Rio.

 

Não há como enfrentar situação tão grave e complexa sem a união dos governos federal, estaduais e municipais. Ainda que não tenha produzido resultados estrondosos, a operação de ontem aponta um caminho promissor por meio das Ficco. O governo federal sempre relutou em cumprir seu papel na segurança, e os estados temem perder protagonismo. Não há espaço para disputas estéreis. Ou todos se unem para combater a chaga do crime organizado, ou perderão todos.

 

A sede da Polícia Federal (PF) em BrasíliaA sede da Polícia Federal (PF) em Brasília — Foto: Brenno Carvalho/Agência O Globo

 

 

Fala enigmática de Valdemar sobre STF provoca boatos na direita sobre soltura de Bolsonaro

Por Johanns Eller / COLUNAS DA MALU GASPAR / O GLOBO

 

Uma declaração do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, sobre os pedidos de revisão criminal protocolados pela defesa de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal (STF) na última quarta-feira (8) provocou uma onda de boatos nas redes bolsonaristas sobre uma iminente soltura e até a reversão da inelegibilidade do ex-presidente, atualmente em regime domiciliar.

 

Horas após Bolsonaro ser alvo de uma operação da Polícia Federal (PF) em casa durante uma busca por armas de fogo, Valdemar sentenciou de forma enigmática que “muita coisa pode acontecer no Brasil nestes 20 dias” aos participantes de um almoço organizado por frentes parlamentares do Congresso em Brasília, além de dizer que se empenha por uma reaproximação entre Michelle e Flávio Bolsonaro.

 

Foi o suficiente para que bolsonaristas alardeassem a possibilidade do ex-presidente deixar a prisão domiciliar e até disputar a eleição presidencial no lugar de Flávio, tanto nas redes quanto nos bastidores.

 

Um interlocutor da família abordou a equipe da coluna e chegou a projetar um cenário com Bolsonaro subindo no palanque do filho 01 e retomando a articulação política para a montagem das chapas nos estados, embora não haja qualquer indicação de que isso ocorrerá. No X e no Instagram, dezenas de perfis passaram a replicar a tese de uma provável “reviravolta” no caso do ex-presidente até o fim do mês.

 

De acordo com o Valor Econômico, Valdemar citou a estratégia da defesa de Bolsonaro para tentar anular a condenação dele na ação penal da trama golpista durante o evento na capital federal e destacou que o pedido é relatado por Kassio Nunes Marques e tem André Mendonça como revisor – os dois ministros foram indicados para o Supremo pelo ex-presidente.

 

Valdemar, ainda segundo o jornal, chegou a sugerir que o presidente da Corte, Edson Fachin, aprimorou o sistema de sorteio para a distribuição de relatórios desde que Dias Toffoli deixou o comando do caso do Banco Master e chamou o dirigente do Supremo de “honesto”, embora “de esquerda”.

Na saída do evento, que também contou com a presença de empresários, o chefe do PL foi questionado por jornalistas sobre o que quis dizer ao indicar “mudanças” nos próximos 20 dias – prazo que abarca tanto a convenção que deve confirmar Flávio como candidato ao Palácio do Planalto quanto a reta final do recesso do Judiciário, que termina em 3 de agosto – e se isso implicava em alguma mudança de cenário para Jair Bolsonaro.

 

“Depende do Supremo, isso depende muito do Supremo”, tentou tergiversar. “O que eu disse de importante que nesses 20 dias pode acontecer é ter uma reaproximação – vou trabalhar muito nisso – da Michelle Bolsonaro [com Flávio a tempo da convenção]”, continuou, repetindo o que já havia dito durante o almoço.

Após repórteres insistirem a respeito do que Valdemar quis insinuar sobre a situação jurídica de Bolsonaro, o presidente do PL comparou uma eventual revisão criminal pelo STF com a anulação das condenações de Lula na Operação Lava-Jato por determinação de Fachin, posteriormente confirmada pelo plenário do Supremo.

 

“Quando o Lula estava preso por 580 dias, você imaginava que ele fosse ser candidato à Presidência da República? Tudo pode acontecer. E quem deu esse direito para o Lula? O ministro Fachin, que é um homem de bem e um homem de respeito”, declarou Valdemar.

Na ocasião, Fachin determinou a incompetência da 13ª Vara Federal de Curitiba para julgar o então ex-presidente. Posteriormente, o STF também considerou o ex-juiz Sergio Moro suspeito nos processos em que condenou o petista. A reabilitação política de Lula ocorreu em março de 2021, quase 20 meses antes da eleição presidencial de 2022.

 

Sob reserva, o entorno de Valdemar ponderou a fala do presidente do PL. Um aliado viu a declaração como um recurso retórico do dirigente.

 No último dia 16, a Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou pela rejeição dos pedidos de revisão criminal apresentados pela defesa de Jair Bolsonaro no Supremo. A PGR sustentou que não houve irregularidades na condução do processo e que a delação do tenente-coronel Mauro Cid, que baseou boa parte da denúncia apresentada contra o ex-presidente e outros condenados da trama golpista, é válida.

 

Os advogados de Bolsonaro, por sua vez, pediram em maio deste ano a absolvição integral do ex-presidente e a anulação da colaboração premiada de Cid. Em paralelo, caso o pleito não seja atendido, solicitaram que sejam afastadas as condenações por organização criminosa armada, golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

 

Há vários obstáculos jurídicos que tornam remota qualquer possibilidade de reviravolta no cumprimento da pena de Bolsonaro. Além da dificuldade da revisão criminal prosperar no STF, nem mesmo a anistia encampada pelo bolsonarismo no Congresso tornaria o ex-presidente livre de Alexandre de Moraes. Mas, ainda que a decisão seja revista e a lei entre em vigor, Bolsonaro só deixaria o regime fechado em meados de 2028, como mostrou O GLOBO. imediato. Após ser aprovado, o chamado PL da Dosimetria teve seus efeitos suspensos por ordem do ministro Alexandre de Moraes. Mas, ainda que a decisão seja revista e a lei entre em vigor, Bolsonaro só deixaria o regime fechado em meados de 2028, como mostrou O GLOBO.

 

“O fundamento dessa ação é a reparação do erro judiciário, para que a jurisdição penal volte a atuar segundo os postulados da Justiça”, afirma o advogado Marcelo Bessa.

 

Por fim, o ex-presidente foi condenado duas vezes no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a oito anos de inelegibilidade, o que o impede de concorrer a qualquer cargo eletivo até 2030. Mesmo com a Corte Eleitoral sob o comando de dois ministros indicados por ele – Nunes Marques como presidente e Mendonça como vice –, somente um cenário extraordinário criaria condições para uma reviravolta em um prazo tão exíguo.

 

Com Flávio enroscado no caso Master e sua nebulosa relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, além de sua guerra figadal com a madrasta Michelle Bolsonaro e do avanço das investigações contra aliados próximos do presidenciável no Rio de Janeiro, o quadro é exatamente o oposto.

 

Governo Lula vê ministros sob risco de lei eleitoral e aperta cobrança para evitar ações de Flávio no TSE

Brasília

O governo Lula (PT) endureceu as regras a serem seguidas por integrantes da gestão e por servidores para o período do defeso eleitoral, que restringe manifestações e publicidade governamental durante a campanha, e analisa uma lista de publicações em redes sociais de ministros vistas com potencial de infringir a legislação.

O levantamento foi preparado por técnicos do governo e será analisado pelo ministro da AGU (Advocacia-Geral da União), Jorge Messias, responsável pela orientação dos agentes públicos nesse período restritivo.

Na relação, há publicações de ministros como Alexandre Padilha (Saúde), Alexandre Silveira (Minas e Energia) e Wolney Queiroz (Previdência), que foram consideradas eventuais infrações à lei eleitoral e que podem ser tiradas do ar. Os conteúdos envolvem divulgações de ações do SUS (Sistema Único de Saúde) e de eventos, ações específicas das pastas e fotos com Lula.

Na conta do ministro Silveira, por exemplo, foi publicado um "checklist da semana" com ações feitas pela pasta. Uma delas dizia "trabalho em parceria com o presidente Lula". Na de Wolney, há duas postagens fixadas com a imagem de Lula. Ambas foram consideradas arriscadas por advogados do governo.

Segundo ministros e auxiliares, há um clima de temor para que manifestações pessoais não configurem possíveis furos às restrições neste ano. Como mostrou a Folha, o governo desta vez endureceu medidas como a derrubada dos conteúdos de sites institucionais e estatais, como a EBC, estendendo a censura que costuma ser feita no período para notícias e outras produções mesmo sem teor político.

O receio dentro do governo, segundo disse um ministro à reportagem, é o de que qualquer deslize possa provocar uma impugnação da candidatura no TSE (Tribunal Superior Eleitoral). A preocupação se estende até às contas pessoais e publicações de stories no Instagram, mesmo que a legislação só limite perfis institucionais.

A avaliação de alguns integrantes é a de que Flávio Bolsonaro (PL), que desponta como principal rival de Lula nas urnas neste ano, pode recorrer à corte, hoje comandada por nomes mais simpáticos ao senador: Kassio Nunes Marques e André Mendonça. Os dois ministros foram indicados por seu pai, Jair Bolsonaro.

O aumento da fiscalização dos perfis foi um sintoma percebido por parte de membros do governo, auxiliares e até servidores neste ano.

Em orientações oficiais do sistema de comunicação do governo enviadas aos órgãos, há instruções de como divulgar ações de serviço público sem soar eleitoreiro. O manual recomenda, por exemplo, dizer "saiba como acessar benefício X", em vez de "gestão x entrega mais um avanço histórico".

Em paralelo, o PT (Partido dos Trabalhadores) também reforçou orientações mais restritivas aos afiliados que possuem cargos na Esplanada, que incluiriam a proibição do uso do celular funcional para fins de campanha. Uma cartilha com as regras foi repassada aos apoiadores em evento com diretórios da sigla, em Brasília, na última segunda-feira (6).

Voltado a apoiadores do partido, o encontro também convidou especificamente servidores em cargos comissionados, para quem as restrições são mais rígidas.

Segundo os relatos, a divulgação de estatísticas oficiais e comparações com dados de anos anteriores pode ser vista pelo governo como uma violação à legislação, o que tem criado um clima de apreensão entre as equipes que precisam fazer divulgações ou conceder entrevistas.

O governo também desencorajou a participação de ministros em eventos partidários mesmo depois do expediente, em locais para onde as viagens foram pagas com dinheiro federal.

Auxiliares da Esplanada se queixam de falta de clareza nas orientações sobre o período, como a dificuldade em definir o que seriam conteúdos de serviço público e propagandas das pastas. Há, ainda, dúvidas se a preocupação tem partido da AGU ou da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência).

Em reunião no último mês, Lula disse a seus ministros que priorizassem entregas até o dia 3 de julho, limite estabelecido pelas restrições eleitorais. Uma declaração do petista a favor das ex-ministras a pré-candidatas ao Senado Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede) já foi considerada propaganda eleitoral antecipada pela Procuradoria Regional Eleitoral em São Paulo.

O presidente da República e demais agentes públicos estão sujeitos a essas regras mesmo se o chefe do Executivo não fosse candidato à reeleição, como no caso de Lula. As normas visam evitar um uso da máquina pública para campanhas, seja em favor da própria gestão quanto para outros candidatos.

Agentes públicos que descumprirem as normas estão sujeitos a uma série de penalidades, que variam de acordo com a natureza e a gravidade da infração. Entre elas estão o pagamento de multas, a cassação de registro eleitoral e até prisão de seis meses a um ano.

Advogados eleitorais ouvidos pela reportagem dizem que o rigor com as regras tem aumentado desde as últimas duas eleições.

"Nos últimos anos houve, e não foi nem tanto a partir da Justiça Eleitoral, foi muito mais a partir das advocacias de Estado, seja da AGU, seja das Procuradorias gerais dos estados, uma postura cada vez mais cautelosa com relação a isso", diz Fernando Neisser, professor de direito eleitoral da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Especialistas afirmam, porém, que a lei não proíbe que ministros e o próprio presidente usem seus perfis pessoais para postar conteúdo de campanha eleitoral, desde que não envolvam os perfis institucionais do governo e seus ministérios.

"Perfis pessoais de agentes públicos não são perfis do poder público. Eles podem postar como eles sempre fizeram", diz Marilda Silveira, professora de direito eleitoral do IDP.

Segundo Caroline Lacerda, advogada e doutora em direito eleitoral, alguns partidos decidem ampliar as restrições para não correr riscos, já que as sanções recaem sobre o beneficiário e podem chegar à cassação de registro ou diploma.

"E quem traça a fronteira entre o ministro-cidadão e o ministro-autoridade é a Justiça Eleitoral, caso a caso, provocada pelos adversários. O governo prefere errar pelo excesso", afirma.

 

Esquerda dá mau sinal ao não aceitar derrota na Colômbia

Na definição minimalista de Adam Przeworski, a democracia é o sistema no qual os políticos que perdem eleições entregam o poder pacificamente aos vencedores.

Outros teóricos podem apontar outros elementos relevantes para caracterizar um país como democrático, como a vigência do Estado de Direito e o respeito aos direitos humanos e às liberdades cívicas, mas poucos duvidarão de que o primordial é assegurar que a alternância no poder se dê tranquilamente e sem violência.

Sob esse critério, vai mal a democracia no subcontinente sul-americano. O caso mais grave hoje é o da Colômbia. O atual presidente, o esquerdista Gustavo Petro, e o presidente eleito, o direitista Abelardo de la Espriella, trocam acusações graves, e o processo de transição de governo se encontra suspenso.

De la Espriella afirma que Petro prepara um golpe para manter-se no poder. A acusação veio depois de o presidente ter dito que não reconhecia a legitimidade do futuro governo e que o rival não vencera as eleições.

O direitista superou por margem mínima o candidato situacionista, Iván Cepeda. A diferença foi de pouco mais de 250 mil votos num universo de mais de 26 milhões. Cepeda chegou a reconhecer a derrota, mas falou em recorrer à desobediência civil.

Apesar da retórica perigosamente inflamada, não há sinais objetivos nem de irregularidades no pleito, que foi chancelado por observadores internacionais, nem de que o atual governo prepare medidas para não entregar o poder. Pelo contrário, Petro antecipou a data em que deixará o cargo, provavelmente para não ter de passar a faixa ao sucessor.

Outro caso de revés recente da esquerda ocorreu no Peru, onde Keiko Fujimori venceu Roberto Sánchez também por margem mínima. Depois de um excruciante processo de contagem, Sánchez reconheceu nesta semana a vitória da adversária, mas de forma inquietantemente ambígua.

Disse que aceitava a proclamação do resultado oficial, mas que não abria mão do direito de denunciar irregularidades —sabe-se lá o que isso significa.

Na Bolívia, o direitista Rodrigo Paz foi eleito no final do ano passado num pleito sem contestações. O concorrente no segundo turno era do mesmo campo ideológico, mas Paz não teve direito a um período de trégua.

Poucos meses após a posse, tiveram início protestos violentos, em alguma medida orquestrados pelo ex-presidente Evo Morales, que pediam sua renúncia. As manifestações continuam, embora o antigo aliado do chavismo tenha anunciado uma suspensão dos bloqueios rodoviários.

Trata-se de sinais alarmantes em um panorama de polarização e eleições acirradas. Ainda que tais episódios não tenham chegado a uma tentativa de golpe como a de Jair Bolsonaro (PL) no Brasil, a recusa ao veredito das urnas e o esforço para desacreditar o sistema eleitoral afrontam a essência da democracia.

O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Compartilhar Conteúdo

444