O caso do batom: entre a empresa golpista de Bolsonaro e a gestão processual autoritária de Moraes
Por Carlos Andreazza / O ESTADÃO DE SP
Por que o caso do batom gera tanta repercussão? Por que tamanha indignação na sociedade, afinal não sendo Débora a única entre os agentes do 8 de janeiro a ter apontada contra si punição desproporcional aos atos praticados?
Porque é absurdo. Tão absurdo que vira símbolo do vício. Expressão de que algo corre à margem da Lei na administração dos pesos entre os nossos heróis togados salvadores da pátria.
Porque a condenação de Débora Rodrigues dos Santos, se confirmados os 14 anos, encarna o esculacho. Ode – pela corte constitucional do delegado Xandão – a este tempo em que as nuances não têm vez. A barbaridade do caso berrando por comparação àquilo que empreenderam, ora em evidência, os verdadeiros golpistas – Bolsonaro e seus associados.
Porque a tal dosimetria sobre esta mulher é – para citar o exercício de humildade judicial de Fux – “exacerbada”. Beira o justiçamento – e as pessoas entendem o troço assim e se colocam no lugar do outro.
Porque a pena projetada é injusta. Obviamente injusta. Uma injustiça – de percepção fácil – executada pela Justiça. Sentimento que tem o condão de impor revisão em série de sanções, daí por que tão na defensiva estiveram o acusador Moraes e seus assistentes.
Todo mundo sabe que Débora foi denunciada por múltiplos crimes. Não apenas por aqueles relacionados à depredação da estátua da Justiça. Essa é a questão. O julgamento à baciada, o STF indiferente à individualização das condutas. O Supremo indiferente ao cidadão – para lembrar de novo o humilde Fux. Insustentável sendo pregar que aquela mulher tenha tentado dar um golpe e abolir o estado democrático de direito.
Se você acredita na existência do movimento golpista, razão maior não haverá a que cobre a condução equilibrada dos processos mantidos sob os onipresentes e infinitos inquéritos xandônicos. Razão maior não havendo – porque já ficou tarde, porque esse gênio não voltará à lâmpada – a que fiscalize e denuncie a tocada justiceira dos bichos até aqui.
A delação de Cid não caberia – alô, anulador-geral Dias Toffoli! – na categoria “pau de arara do século XXI”? São vários os furos, não poucas as censuras. Né, ministra Carmen Lucia, a do “cala a boca já morreu”?
Uma coleção de arreganhos, que planta precedentes e franqueia brechas, em defesa da nossa liberdade. Que a rapaziada admite por conveniência. Porque contra o capeta. Porque nada se aprendeu com a Lava Jato e com a maneira como os ventos mudam sobretudo no Supremo – o que significa que, da mesma forma que reabilitados hoje vão os corruptos, amanhã poderão ser os golpistas.
Papo reto: a saúde do Brasil – a vitória sobre a depressão em que nos afundamos – depende da compreensão de que coexistem, inaceitáveis ambas, a empresa golpista de Jair Bolsonaro e a gestão processual autoritária de Alexandre de Moraes.

Andreazza foi colunista do jornal O Globo e âncora da Rádio CBN Rio, além de ter colaborado com a Rádio BandNews e com o Grupo Jovem Pan. Formado em jornalismo pela PUC-Rio, escreve às segundas e sextas.
Em ano de lucro recorde, planos de saúde retêm R$ 5,8 bi de hospitais privados e impactam expansão de leitos
Cláudia Collucci / FOLHA DE SP
Hospitais de ponta do país tiveram em 2024 o maior montante de pagamentos retidos por planos de saúde, que totalizou R$ 5,8 bilhões. No mesmo ano, o lucro das operadoras de saúde quintuplicou, atingindo R$ 10,2 bilhões, o melhor desempenho desde 2020, primeiro ano da pandemia de Covid.
Levantamento inédito da Anahp (Associação Nacional de Hospitais Privados), com 85 instituições, mostra que o valor retido representou 15,89% do total que elas deveriam ter recebido das operadoras de saúde, um aumento de quatro pontos percentuais em relação a 2023.
Essas suspensões de pagamentos, chamadas de glosas, ocorrem quando as operadoras fazem algum questionamento ou pedem mais detalhes sobre as cobranças. Ao final das discussões, porém, a maior parte desses valores é liberada.
De acordo com a Anahp, a prática recorrente das operadoras tem levado à redução de investimentos nos hospitais, com impacto em expansão de leitos, aquisição de novos equipamentos e abertura de unidades de UTI, por exemplo.
No ano passado, 41,7% dos hospitais dizem que realizaram investimentos menores do que o planejado, segundo a pesquisa. "É uma situação de bastante aperto porque coincide com os juros altos, então não dá para fazer empréstimos bancários", afirma Antônio Britto, diretor-executivo da Anahp.
Ele afirma que, historicamente, a taxa de contas hospitalares glosadas girava entre 3% e 5%. Em 2022, saltou para 9%, e em 2023, para 11,8%. No ano passado, atingiu quase 16%.
"A glosa tem que existir, é um direito do pagador olhar a conta. Mas as operadoras as transformaram numa forma de administrar os pagamentos que fazem aos hospitais. Eu te devo, digo que não vou pagar porque estou examinando a conta e acabo sendo o juiz do momento de pagar."
A estimativa é que os números sejam muito maiores se consideradas as mais de 175 instituições associadas à Anahp, que reúne nomes como Albert Einstein, Sírio-Libanês, Oswaldo Cruz, Copa D'Or, Hcor e Nove de Julho e tem quase 25% de participação em despesas assistenciais na saúde suplementar.
Entre as razões apontadas para as glosas, explica, estão questões sobre se o procedimento era ou não necessário. "Acontece que o procedimento já tinha sido autorizado antes. Quando o hospital faz uma coisa em alguém, mesmo que seja um exame de sangue, a operadora autorizou antes", diz Britto.
Segundo a pesquisa da Anahp, apenas 2% do total glosado em 2024 foi mantido. "O restante todo ficou provado, na discussão dos hospitais com as operadoras, que não era justificado."
Outra questão preocupante, diz Britto, é o aumento do tempo médio para o pagamento das contas hospitalares. "Antes, girava em torno de 60 e 70 dias. Em 2024, saltou para 120 dias."
Em muitos casos, para ter o valor liberado, as operadoras estão exigindo que os hospitais deem descontos. "Funciona assim: eu reconheço que te devo 800. Mas, para te pagar, preciso que você me dê um desconto, aí eu te pago 600", diz Britto.
Outra consequência importante, segundo ele, é que os hospitais estão atrasando o pagamento para os fornecedores, principalmente os de equipamentos médicos. "Acaba impactando a cadeia toda", diz.
De acordo com a Abraidi (Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde), em 2024 os fornecedores de equipamentos deixaram de receber R$ 3,8 bilhões, referentes à retenção de faturamento, glosas injustificadas e inadimplência.
Desse total, R$ 2,3 bilhões estão relacionados à retenção de faturamento, ou seja, não foi autorizado o pagamento de produtos que já tinham sido utilizados e aprovados previamente.
Em comunicado publicado no site da Abraidi, Sérgio Rocha, presidente do conselho de administração da associação, afirma que é animador ver a melhora do desempenho econômico-financeiro das operadoras de planos de saúde, mas a mesma realidade não se aplica aos fornecedores de dispositivos médicos.
Segundo ele, no dia a dia, as empresas do setor lidam com prazos extremamente dilatados de autorização para emissão de notas fiscais de vendas, constrangendo-as a enfrentar problemas de ordem fiscal e tributária.
"Quando conseguem a autorização, são submetidas a prazos extensos para recebimento ou até mesmo a pedidos de descontos indecorosos, que agridem as boas práticas de negociação, a relação comercial saudável e o fluxo de caixa das empresas."
Para ele, os números positivos dos planos ilustram um problema sistêmico causado por um desequilíbrio nas relações, onde os fornecedores são obrigados a aceitar as condições unilaterais impostas ou são excluídos do mercado. "Práticas deletérias que se avolumam a cada ano e que, em efeito cascata, prejudicam toda a cadeia de saúde."
Planos dizem que tempo médio de pagamento caiu
Em nota, a Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde) afirma que trata-se de uma relação individual entre as empresas e seus respectivos fornecedores (operadoras e prestadores de serviços hospitalares).
Segundo a entidade, dados públicos da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) mostram que o tempo médio de pagamento (dias) do total de procedimentos realizados caiu em comparação com o ano anterior. "O que demonstra um esforço constante das operadoras na avaliação de eventuais glosas administrativas do setor."
Vera Valente, diretora-executiva da Fenasaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar), diz que é preciso um olhar mais aprofundado para compreender o funcionamento dos planos de saúde.
"Cada operadora tem sua realidade, compondo um panorama multifacetado. Muitas vezes a forma simplista como os dados da saúde suplementar são apresentados por outros atores produz uma percepção limitada e distorcida do setor."
A Fenasaúde afirma que os dados da ANS mostram que, de 2018 a 2023, o valor pago pelas operadoras aos hospitais privados, considerando apenas internações, cresceu 58%, atingindo R$ 107,8 bilhões.
Segundo a entidade, no primeiro semestre de 2024, dado mais recente disponível, o tempo médio decorrido entre a apresentação da cobrança pelos prestadores de serviços e o pagamento pelas operadoras de planos de saúde foi de 32,8 dias, o menor da série anual da ANS.
"Os números oficiais sobre glosas aferidos pela agência mostram que elas representaram um percentual de 7,4% dos valores dos serviços prestados", diz em nota.
De acordo com a Fenasaúde, "as glosas refletem, na maioria dos casos, cuidados que as operadoras precisam ter na gestão dos recursos do sistema, sempre em prol do controle de custos e, logo, de seus beneficiários."
"Jamais são praticadas de forma discricionária, ocorrendo apenas quando são identificadas inconformidades nos processos de cobrança, como códigos errados, dados incompletos, documentação insuficiente, preços incompatíveis com os praticados no mercado e cobranças de itens já incluídos em taxas e diárias", diz a nota.

Sob inspiração da truculência
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, confirmou o que já se suspeitava: seu apreço pela política da truculência tem no regime de exceção instaurado por Nayib Bukele, em El Salvador, um modelo a ser seguido. Durante recente evento em Brasília, com a presença de autoridades e especialistas na área, Derrite afirmou que o Brasil deveria aprender com o pequeno país da América Central para reduzir os índices de homicídios – e aproveitou para criticar um programa federal destinado a combater violações de direitos humanos no sistema prisional brasileiro.
O exemplo salvadorenho é exatamente isto: a combinação entre redução drástica de homicídios com perturbadoras evidências de violações de direitos humanos. É uma estratégia sedutora para políticos que apostam na aniquilação de criminosos para superar a sensação de medo na população e transformar cadáveres em votos. A estratégia mais eficiente, que poupa vidas e respeita o Estado Democrático de Direito, não gera tanta visibilidade e muitas vezes é confundida com leniência com os criminosos. Assim pensa Derrite, que foi afastado da Rota, a elite da Polícia Militar de São Paulo, por desvio de conduta (“porque matei muito ladrão”, segundo suas próprias palavras).
A inspiração salvadorenha do secretário paulista tornou-se conhecida tanto pela eficácia na repressão quanto por ser uma política que despreza direitos fundamentais. Quando Bukele chegou ao poder, em 2019, El Salvador era conhecido como um dos países mais violentos do mundo. A população agonizava com o medo, a violência e as mortes decorrentes das disputas entre as “maras”, como são chamadas as gangues formadas por filhos de imigrantes que regressaram ao país após a guerra civil, que durou entre 1979 e 1990 e matou, segundo dados oficiais, mais de 100 mil pessoas.
Em 2022, o presidente salvadorenho impôs um estado de emergência que lhe deu plenos poderes para mandar prender e matar criminosos. Com passe livre para reagir com violência e efetuar prisões sem mandados, o governo criou megaprisões e lotou as existentes – a mais conhecida, o Centro de Confinamento do Terrorismo, tem capacidade para até 40 mil presos e não permite acesso nem de jornalistas nem, pasmem, de advogados. Hoje El Salvador tem mais de 100 mil presos, ou 1,7% da população, marca capaz de assustar até mesmo quem acha que no Brasil há encarceramento em massa (por aqui, a proporção de presos é de 0,3% da população).
Com criminosos varridos do mapa, os homicídios desabaram, a ponto de, em 2023, El Salvador ter sido listado entre os países mais seguros da América Latina. Mas missões internacionais e organizações de direitos humanos têm repetidamente denunciado os efeitos do modelo de Bukele. Reconhecem que seu governo conseguiu controlar as gangues de forma impressionante, mas a um alto custo para a sociedade: com deterioração de direitos, prisões de inocentes, detenções arbitrárias sem ordem judicial, ameaças à democracia e mortes sob a custódia do Estado.
Trata-se de um modelo de perigosa eficácia, que usa a brutalidade e o medo como armas poderosas para render votos e fama. Bukele se reelegeu em 2024, mesmo com a Constituição de seu país proibindo a reeleição; Derrite passeia por eventos como pré-candidato, exibindo-se como secretário linha-dura, mantido no cargo pela inexplicável condescendência do governador Tarcísio de Freitas. O presidente salvadorenho e o secretário paulista são produto da crise da segurança pública, desafiada pelo crime organizado. A alternativa à truculência é custosa e demorada. Já o modelo Bukele é barato e ainda dá votos. É de olho nisso que até prefeitos, que não têm entre suas atribuições cuidar de policiamento, estão investindo na imagem de paladinos da segurança.
Como lembrou a organização Human Rights Watch, os salvadorenhos não deveriam se ver forçados a escolher entre segurança e outros direitos fundamentais. Nem salvadorenhos, nem brasileiros, nem quaisquer cidadãos do mundo, convém acrescentar. Só quem tenta difundir a inevitabilidade de tal escolha são cabeças como Bukele e Derrite, que confundem endurecimento contra o crime com truculência, transformam agentes do Estado em vingadores, combatem barbárie com mais barbárie e ignoram que democracia não combina com a lei da selva.
Atropelamentos demonstram risco da leniência com violações no trânsito
Por Editorial / O GLOBO
Dois episódios trágicos ocorridos nesta semana expõem os danos causados pela leniência de autoridades com infrações de trânsito e pelo desrespeito às normas mais básicas de convivência. No Rio, uma adolescente morreu depois de atropelada por um carro oficial do governo do estado numa pista exclusiva do BRT Transcarioca, no bairro de Campinho, Zona Norte da cidade. Numa praia de Itanhaém, Litoral Sul de São Paulo, uma turista que andava de bicicleta morreu depois de atropelada por uma charrete (a polícia investiga se o veículo participava de um “racha”).
O carro envolvido no acidente estava a serviço da secretaria estadual de Cultura e não poderia trafegar pela pista do BRT, exclusiva dos ônibus. Imagens obtidas pelo GLOBO mostram que, como o trânsito estava congestionado, o motorista pegou a faixa do BRT, infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro. Apenas ambulâncias, veículos de socorro a incêndio e salvamento, viaturas da polícia e de fiscalização de trânsito podem usar faixas exclusivas, mesmo assim em situações de urgência. O motorista foi exonerado e responderá por homicídio culposo, mas a tragédia está consumada.
O atropelamento não é fato isolado. Levantamento da empresa MOBI-Rio, que administra o BRT, mostra que somente neste ano aconteceram 58 acidentes nos 157,5 quilômetros de pistas exclusivas. No ano passado, foram 226. Colisões e atropelamentos são provocados sobretudo por carros que invadem as pistas, fazem conversões proibidas ou avançam sinais.
No caso de Itanhaém, o dono da charrete negou que disputasse corrida. Alegou que realizava um passeio familiar na faixa de areia e que prestou socorro à vítima. Testemunhas, porém, disseram que a charrete estava em alta velocidade, com outra. Investigações preliminares da polícia sugerem que ela participava de um “racha”.
Corridas entre charretes são comuns no local, muitas documentadas em vídeos na internet. Moradores disseram que o atropelamento não foi o primeiro acidente. A secretária executiva do Conselho de Defesa do Meio Ambiente do município de Peruíbe, Mari Polachini, afirmou que eventos desse tipo acontecem quinzenalmente e chegam a reunir em torno de 300 pessoas.
Em ambos os atropelamentos, as mortes poderiam ter sido evitadas se as normas tivessem sido cumpridas. Num país onde infelizmente impera a cultura do “ilegal, e daí?”, fugir do engarrafamento pela faixa do BRT, pegar a contramão, trafegar pelo acostamento, avançar sinal, participar de rachas, entre outras aberrações, são práticas que põem em risco motoristas, passageiros e pedestres. É certo que prefeituras instalam equipamentos eletrônicos de fiscalização e muitas vezes multam os infratores.
Mas pelo visto não é suficiente. Além de fiscalizar, é preciso realizar campanhas educativas informando sobre as normas de trânsito e até criando vergonha nos imprudentes. Acima de tudo, é preciso puni-los com rigor. Há uma crença equivocada de que uma pequena violação não faz mal. Não só faz mal, como mata.
O Brasil está mais seco
Dois anos consecutivos de diminuição da superfície de água no Brasil deveriam disparar todos os alarmes governamentais. É consternador o dado apurado pelo MapBiomas com imagens de satélites: o recuo medido em 2024 foi de 2,2% sobre 2023 e de 3,2% na comparação com a média histórica.
O país contava no ano passado 17,9 milhões de hectares de espelho d’água, de acordo com o consórcio de instituições de pesquisa, empresas e ONGs ambientais. A série histórica de mapas anuais produzidos pelo grupo começa em 1985 e reúne ainda dados como áreas de desmatamento, agricultura e aglomerados urbanos.
Em quilômetros quadrados, medida talvez mais familiar, o conjunto de corpos d’água em território nacional corresponde a 179 mil. Trata-se de uma área de apenas 2,1% do Brasil, mas com tamanho quase equivalente ao estado do Paraná ou a três quartos do estado de São Paulo.
Não é por outra razão que este país tropical figura como potência em recursos hídricos, a garantir, por exemplo, uma matriz energética com alto grau de fontes renováveis (49%, de acordo com dados de 2023). De toda a eletricidade produzida aqui, nada menos do que 59% provêm de energia hidráulica.
Abundância não significa, todavia, sustentabilidade para todo o sempre. Em especial sob as condições preocupantes da mudança climática em curso, prevê-se diminuição da precipitação média em todo o território. A devastação de florestas, reguladoras naturais de vazões hídricas, também contribui para delinear o espectro de escassez.
A maior parte da superfície de água (61%) se encontra na amazônia, seguida pelo bioma mata atlântica (13%). Não por coincidência, duas florestas chuvosas. Outra área úmida célebre é o pantanal, que no entanto concentra apenas 2% da área hídrica total.
O pantanal atualmente se encontra na pior condição, mostrando-se 60% mais seco do que na média histórica do MapBiomas. Rios, baías e corixos da planície inundável dependem das chuvas e nascentes do planalto adjacente, no cerrado.
Este, por sua vez, sofre com desmatamento pela expansão do agronegócio. Além disso, é o bioma nacional com a lâmina d’água mais alterada por ação humana.
Auspicioso é que o cerrado, assim como caatinga e mata atlântica, apresentou em 2024 uma cobertura hídrica maior do que a média histórica. Isso não parece bastante, contudo, para contrabalançar a tendência preocupante: desde 1985, os corpos d’água naturais sofreram recuo de 15%.
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‘É preciso aprender que taxar grandes fortunas e IR são coisas muito diferentes’
A taxação de grandes fortunas (IGF) e o Imposto de Renda (IR) são duas coisas totalmente diferentes, explica a colunista do Estadão Maria Carolina Gontijo, a Duquesa de Tax. O IR incide sobre o rendimento das pessoas, e é nesse contexto que o governo propõe a isenção para ganhos de até R$ 5 mil. Já para aqueles que recebem acima de R$ 50 mil, haverá a aplicação de um imposto mínimo sobre dividendos ou outros rendimentos, com um teto de até 10%.
“R$ 50 mil é muito dinheiro? Sim. Mas R$ 50 mil significa grandes fortunas? Não. Nesse caso, estamos falando da cobrança do Imposto de Renda (e não grandes fortunas). É essa diferença que as pessoas precisam aprender”, explica ela, no react Fala, Duquesa.
Segundo ela, isentar quem ganha até R$ 5 mil e aplicar um tributo mínimo para rendas acima de R$ 50 mil é uma medida de justiça tributária. “A tributação de Imposto de Renda é elevada em muitos países, mas nem todos têm impostos sobre grandes fortunas”, destaca.
Segundo ela, a ideia de criar um tributo sobre grandes fortunas é péssima. “O próprio ministro (da Fazenda, Fernando Haddad) concorda que tem muitos problemas. Alguns países têm a cobrança sobre grandes fortunas, mas nem sempre essa cobrança consegue trazer exatamente o dinheiro que a gente tá pensando.” No final, diz ela, o governo acaba investindo muito, tendo de fazer mais fiscalizações e não arrecada o dinheiro que se espera.
Além disso, em geral, os super-ricos têm dificuldade de encarar o Fisco. “Ninguém gosta de pagar imposto e isso é uma coisa inerente ao ser humano. A questão é que os super-ricos conseguem pagar super profissionais para poder não pagar determinado imposto de forma lícita. É por isso que um imposto sobre grandes fortunas não funciona.”
Programa
Todas as quintas-feiras, às 9h30, a Duquesa de Tax faz reacts (comentários sobre outros vídeos ou entrevistas) do noticiário econômico no Estadão. Além disso, tem o programa semanal Não vou passar raiva sozinha. Os vídeos inéditos vão ao ar sempre às segundas-feiras, às 9h30, para assinantes do Estadão. Cortes do programa são distribuídos ao longo da semana nas redes sociais e na Rádio Eldorado. A atração também tem uma versão em podcast.
Por Redação / O ESTADÃO DE SP

