Presidente da Infraero beneficia aeroporto em base eleitoral de deputado que emprega sua mulher
Por Roseann Kennedy e Eduardo Barretto / O ESTADÃO DE SP
O presidente da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), Rogério Barzellay, autorizou neste mês obras de R$ 30 milhões no Aeroporto Regional de Paranavaí (PR). A cidade no Noroeste do Paraná, com pouco mais de 95 mil habitantes, é terra natal e base eleitoral do deputado federal Tião Medeiros (PP-PR). O parlamentar emprega em seu gabinete, em Brasília, a mulher do presidente da estatal. Kênia Gondim tem um cargo de confiança com salário de R$ 16 mil no gabinete do parlamentar desde junho de 2023, quatro meses após Medeiros estrear na Câmara.
Foi a parceria de Barzellay e Medeiros que levou à decisão da Infraero sobre o investimento em Paranavaí. Os dois trataram diretamente das negociações para que a estatal assumisse o terminal, no ano passado. O próprio Tião Medeiros afirmou, em seu site, que articulou a medida. Na ocasião, Medeiros publicou uma foto ao lado de Barzellay na qual os dois seguram um projeto do aeroporto.
Procurada pela Coluna do Estadão, a Infraero disse que segue uma política de fomento a aeroportos regionais e que seguiu regras da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Paranavaí é uma cidade pujante”, afirmou a empresa pública. O deputado Tião Medeiros negou conflito de interesses por empregar a mulher do presidente da estatal. “Precisei me cercar de uma equipe capacitada e com trânsito no Congresso. Kênia é uma excelente profissional, tem um currículo vasto e conhece bem os trabalhos internos da Câmara”, disse o parlamentar.
Mas Tião não ficou apenas na argumentação curricular. O deputado elevou o tom contra o questionamento por empregar a mulher do presidente da Infraero, que agora beneficia o aeroporto em sua base eleitoral: “É tacanho e rasteiro fazer qualquer relação entre a sua contratação e as recentes conquistas envolvendo o Aeroporto de Paranavaí”. Segundo Medeiros, a Infraero adotou apenas critérios técnicos no caso. E completou: “Como parlamentar, foi meu papel apoiar e abrir caminhos para a concretização deste sonho do povo de Paranavaí e região”.
Com 713 metros quadrados, a nova estrutura do aeroporto terá capacidade de atender até 200 mil passageiros ao ano. As obras têm previsão de conclusão até o fim deste ano. O Aeroporto Regional Edu Chaves fica a 3,5 quilômetros do centro da cidade do noroeste paranaense. Procurada, a Infraero citou oito “deficiências” do Aeroporto Regional de Paranavaí, como falta de posto de abastecimento de aviões e falta de terminal de passageiros adequado.
Infraero pediu Pix de funcionários para pagar festa de mulher do presidente da estatal
Como mostrou a Coluna do Estadão no último dia 19, um e-mail da presidência da Infraero pediu que funcionários pagassem até R$ 50 pela festa de aniversário de Kênia. Barzellay afirmou que foi um “erro” o envio do e-mail, culpou as secretárias, mas tentou minimizar o caso: “Foi um evento de R$ 530 com dois bolinhos, meia dúzia de doces e dois refrigerantes”. Mesmo assim, acionou a Comissão de Ética da empresa.
Pé-de-Meia: cidades de Bahia, Pará e MG têm mais gente recebendo benefício do que aluno matriculado
Por André Shalders / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA – Uma das principais apostas do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Programa Pé-de-Meia tem mais beneficiários do que alunos matriculados na rede pública em pelo menos três cidades, localizadas na Bahia, no Pará e em Minas Gerais. O programa também chega a contemplar mais de 90% dos alunos de ensino médio em pelo menos 15 cidades de cinco Estados. Além disso, há casos de beneficiários que aparentam ter renda acima da permitida pela regra do programa que paga bolsa para alunos mais carentes.
Procurado, o MEC afirmou que a responsabilidade pelas informações prestadas é das Secretarias estaduais de Educação. A pasta disse ainda que trabalha com os Estados para corrigir eventuais problemas.
Em Riacho de Santana (BA), cidade de 35 mil habitantes localizada a cerca de 500 quilômetros de Salvador, a parcela do Pé-de-Meia de fevereiro foi paga a 1.231 pessoas, segundo dados divulgados pelo MEC. No entanto, segundo o que a direção do único colégio público que atende ao ensino médio na cidade disse ao Estadão, por telefone, há no momento 1.024 alunos matriculados. Procurada, a Secretaria de Educação do Estado da Bahia disse que seriam 1.677 alunos. Já o MEC fala em 1.860 no Colégio Estadual Sinésio Costa, que conta com 15 salas de aula.
O benefício foi pago no município baiano a 456 estudantes menores de 18 anos, inscritos no ensino regular; e 775 maiores, que cursam o ensino médio na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Ao todo, os pagamentos em Riacho de Santana somam R$ 1,75 milhão em fevereiro. Segundo o Estadão apurou, a maioria dos problemas e pagamentos indevidos do Pé-de-Meia ocorre na modalidade EJA.
O cenário se repete na cidade de Porto de Moz (PA), cidade de 41 mil habitantes às margens do Rio Xingu, no norte do Pará. São 1.687 beneficiários do Pé-de-Meia, que receberam R$ 2,75 milhões em fevereiro, de acordo com os dados do MEC. Segundo os diretores das duas escolas estaduais da cidade, há 1.382 alunos matriculados, ou seja, menos que o número de recebedores do Pé-de-Meia. Procurado, o MEC fala em 3.105 alunos de ensino médio na cidade, mais que o dobro do observado pelos diretores.
Pé-de-Meia:cidades na Bahia, Pará e Minas tem mais gente ganhando benefício do que aluno matriculado
Em Natalândia (MG), os dados do MEC para o mês de fevereiro registram 326 beneficiários do Pé-de-Meia. Mas, segundo a direção da escola estadual da cidade, são 317 alunos de ensino médio matriculados atualmente. Já o MEC fala em 600 estudantes na Escola Estadual Alvarenga Peixoto, que tem apenas sete salas de aula.
Há outras cidades nas quais o número de beneficiários do Pé-de-Meia em fevereiro passa de 90% dos alunos matriculados. Em Quixabá (PB), são 66 beneficiários do Pé-de-Meia em fevereiro, e 67 alunos matriculados – ou seja, só um a menos. Em Alcântara (MA), cidade que abriga o Centro Espacial de mesmo nome, são 833 beneficiários do Pé-de-Meia e 839 alunos do ensino médio: só seis a menos. Os dados atualizados de matrículas foram fornecidos pelas Secretarias de Educação desses Estados por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).
O MEC afirmou que a cobertura quase integral do Pé-de-Meia nesses casos se deve ao perfil socioeconômico dos municípios. O Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) de Quixabá era de 0,622 em 2010, na última vez que o índice foi calculado para o município. O valor é considerado “médio” e põe Quixaba em 30º lugar no ranking do Estado, composto por 223 municipalidades – a média do Estado foi de 0,587. Já Alcântara (MA) aparece no meio do ranking de IDH dos municípios maranhenses. Em 2010, o IDH da cidade era de 0,573 – a média do Estado era de 0,576. Alcântara tinha então o 106º melhor índice dos 217 municípios maranhenses.
Em alguns casos, as Secretarias de Educação estaduais enviam dados errados ao MEC. Na base de registros do Pé-de-Meia para fevereiro, a cidade de Elísio Medrado (BA) aparece com 742 beneficiários do Pé-de-Meia – mas, segundo a direção do colégio estadual da cidade, são só 355 estudantes matriculados, menos da metade. Questionado pela reportagem, o MEC disse inicialmente que a cidade teria 1.145 alunos de ensino médio.
O número é pouco factível: significaria que um em cada oito moradores do município estaria matriculado. Mais tarde, o ministério constatou um erro da Secretaria de Educação baiana, que juntou os alunos de Elísio Medrado com os de Cocos (BA). Na verdade, Elísio Medrado tem 390 alunos e 224 beneficiários do Pé-de-Meia, diz o MEC. “Os números de 2024 tinham estudantes de Elísio e Cocos registrados em Elísio Medrado. Em função disso, os dados da planilha disponível no portal serão atualizados com as informações retificadas pela rede na próxima janela de correção, prevista em lei”, disse a pasta.
Descumprimento do critério de renda
Nessas cidades, também há descumprimento do critério de renda para receber o benefício. O Estadão encontrou servidoras das prefeituras com rendimentos líquidos de mais de R$ 5 mil mensais listados como responsáveis por jovens que receberam o Pé-de-Meia. De acordo com as regras do programa, o benefício só pode ser pago a jovens de famílias com renda mensal de até meio salário mínimo (R$ 759) por pessoa.
Nos dados divulgados pelo MEC, uma das pessoas listadas é Amélia de Souza Oliveira – ela aparece como responsável por um estudante de menos de 18 anos que recebeu R$ 1 mil do Pé-de-Meia em fevereiro. No entanto, Amélia é professora da rede municipal em Riacho de Santana desde 2019, com salário líquido de cerca de R$ 4,3 mil. Além disso, ela é dona de uma pequena farmácia no centro da cidade baiana, chamada Posto de Medicamentos Santa Clara. Ao Estadão, Amélia confirmou ser mãe de um jovem que recebe o Pé-de-Meia, mas disse que seu filho já é maior de idade, e cursa a etapa na modalidade EJA.
Na mesma cidade, também figura como responsável por um jovem menor de 18 anos a professora Nelma de Oliveira Silva Rocha – o aluno recebeu R$ 1 mil em fevereiro. O salário líquido de Nelma é de cerca de R$ 3,8 mil, e não há indicação de que ela tenha recebido o Bolsa Família ou outro programa social, como o Pé-de-Meia exige. O Estadão não conseguiu contato com Nelma.
Na cidade de Porto de Moz, há casos de professoras do ensino fundamental listadas como responsáveis por alunos de menos de 18 anos que receberam o Pé-de-Meia em fevereiro. Uma delas é Ana Claudia Oliveira de Abreu, professora com carga horária de 20 horas semanais e que recebeu R$ 5,3 mil em fevereiro. Outro caso similar é o de Ana Paula do Socorro Pontes Filho, que teve ganhos líquidos de R$ 5,9 mil. No total, são quatro professoras com ganhos líquidos acima de R$ 5 mil na lista do programa.
As professoras foram contratadas no começo deste ano e eram beneficiárias do Bolsa Família até recentemente – o que sugere que eram pessoas de baixa renda. Segundo o Estadão apurou, a exclusão de pessoas que têm um aumento de renda do Cadastro Único (CadÚnico) pode levar vários meses. Enquanto isso não ocorre, os beneficiários continuam recebendo, mesmo sem se enquadrar nos critérios do programa. A reportagem procurou a prefeitura de Porto de Moz para comentários sobre a situação das professoras, mas não houve resposta.
Onde estão os beneficiários do Pé-de-Meia
O Pé-de-Meia é um programa educacional criado pelo governo Lula com o objetivo de diminuir a evasão escolar no ensino médio e aumentar o percentual de pessoas que concluem essa etapa de ensino. Os participantes precisam estar matriculados na rede pública; terem renda familiar de até R$ 759 por pessoa; e irem a pelo menos 80% das aulas no mês.
Em fevereiro deste ano, o benefício foi pago a mais de 4 milhões de estudantes em todo o País. Como mostrou o Estadão, as regiões Norte e Nordeste são as mais impactadas pela medida, o que significa que o mapa do Pé-de-Meia coincide com o dos votos de Lula na eleição de 2022. Se guardar todo o dinheiro recebido ao longo do ensino médio, o estudante pode juntar até R$ 9,2 mil. O custo anual do programa é estimado em R$ 12,5 bilhões.
Para esta reportagem, o Estadão cruzou dados dos beneficiários do Pé-de-Meia em fevereiro deste ano, publicados pelo MEC, com informações do Censo Escolar de 2023. A partir do cruzamento das informações, foram identificadas 81 cidades no País todo onde o número de beneficiários era pelo menos 20% maior que o de alunos.
A reportagem passou, então, a contatar as escolas para tentar descobrir o número atual de estudantes. Os dados atualizados de matrículas nessas cidades também foram pedidos via Lei de Acesso à Informação (LAI) para as Secretarias estaduais de Educação.
Ao longo do ensino médio, o estudante recebe vários pagamentos do Pé-de-Meia. Há bolsas mensais de R$ 200, que podem ser sacadas a qualquer momento; e um incentivo de R$ 1 mil ao fim de cada ano letivo, que só pode ser sacado ao fim do terceiro ano. Há também pagamentos para quem participar do Enem. O estudante não precisa se inscrever para receber: basta estar matriculado e pertencer a uma família que faça parte do CadÚnico.
Segundo a professora do Insper Laura Müller Machado, é preciso melhorar o Cadastro Único, que serve de base para o pagamento dos benefícios sociais do governo federal. “O pesquisador e ganhador do Prêmio Nobel (de Economia, o indiano) Abhijit Banerjee diz que o maior problema social hoje é ter boas estratégias para ter bons cadastros únicos. Não só no Brasil, mas no mundo todo”, afirmou. “O pobre é subnotificado, e a gente não vai conseguir falar com ele sem ter um cadastro de qualidade. Existem hoje estratégias para melhorar esses cadastros. Dificilmente ele será perfeito, mas pode ser melhor”, disse.
Além de diminuir a evasão escolar, o MEC também espera, com o Pé-de-Meia, levar as Secretarias de Educação estaduais a modernizarem – e padronizarem – a forma como fazem o registro de frequência nas escolas. Há ainda relatos de diminuição das faltas dos próprios professores, que passam a ser cobrados por alunos interessados em obter a frequência mínima de 80% necessária para continuar recebendo os pagamentos.
Para Gabriel Corrêa, diretor de políticas públicas da ONG Todos Pela Educação, o Pé-de-Meia aponta na direção certa ao atacar a evasão no ensino médio – experiências locais no Brasil e em outros países mostram que esse tipo de pagamento costuma surtir efeito. No entanto, segundo ele, o MEC falha em implementar outras ações que também são necessárias para melhorar o ensino médio e reduzir a evasão, e que deveriam acompanhar o Pé-de-Meia. Ele cita aprimorar o espaço físico das escolas e ampliar a oferta de vagas em tempo integral como exemplos.
Segundo Corrêa, o Pé-de-Meia é atualmente o programa mais caro do Orçamento do MEC. “O programa ficou muito amplo, e muito caro. A evasão hoje é de 4% a 5% ao ano no ensino médio. Hoje, pagamos o Pé-de-Meia para mais de um terço dos estudantes. Será que está sendo efetivo? Será que está realmente chegando ao jovem que precisa?”, questionou.
“Agora, o governo federal vai ter de colocar o Pé-de-Meia no orçamento do MEC, e vai ocupar uma parcela importante desse orçamento. Sendo que existem vários outros desafios, na educação básica, que precisam ser superados para reduzir a evasão e aumentar a aprendizagem no ensino médio”, acrescentou.
MEC diz apoiar redes estaduais e monitorar programa
Em nota enviada ao Estadão, o Ministério da Educação informou que, de acordo com a lei que criou o Pé-de-Meia, a responsabilidade pelas informações dos estudantes aptos a receber os pagamentos é dos Estados. Mesmo assim, a pasta disse apoiar as redes estaduais e também monitorar possíveis erros no programa.
”Apesar de a responsabilidade pela transmissão dos dados ser dos Estados, do Distrito Federal e dos municípios, o Ministério da Educação (MEC) oferece apoio técnico a todas as redes por meio de documentos, formações e canais de ouvidoria. Além disso, o MEC monitora e sinaliza às redes possíveis inconsistências encontradas nos dados enviados, permitindo que realizem correções e ajustes conforme previsto nos normativos do programa”, disse a pasta.
“Quanto ao apontamento relacionado ao alto percentual de estudantes beneficiados pelo programa em uma rede de ensino, como a proporção de 97% mencionada por você, esse fato pode ocorrer considerando o contexto socioeconômico dos municípios”, acrescentou o MEC.
“Por fim, este Ministério reitera seu compromisso com as melhores práticas de transparência ativa, em cumprimento ao artigo 16 da Lei nº 14.818/2024 (lei que criou o programa), e reforça seu compromisso com a visibilidade das ações do Pé-de-Meia”, concluiu a pasta.
A questão é se esse formato, ou algoritmo, é neutro, ou se a escolha de políticas públicas orientada pelo engajamento e pelas curtidas pode enviesar a substância. Contado de outra forma, mais analógica: antigamente os tecnocratas formulavam planos econômi
Por Gustavo H.B. Franco / O ESTADÃO DE SP
O populismo não é fenômeno novo, mas sempre foi difícil de definir. Em um livro de 2018 sobre o assunto, Barry Eichengreen teve uma ótima sacada: a definição de populismo lembra a célebre fala do juiz (da Suprema Corte americana) Potter Stewart, em um julgamento sobre a censura de um filme de Louis Malle em 1964. A pergunta era sobre a definição de “obscenidade”, e a resposta foi simples e se tornou um clássico: “Reconheço quando eu vejo”.
Em suas expressões recentes, nos Estados Unidos e no Brasil, mas sem exclusividade, o populismo envolve mais ou menos os mesmos elementos: líderes carismáticos espaçosos e midiáticos, contato direto e intensivo com o povo (via redes sociais e sem intermediários), desprezo pelas elites, especialmente os tecnocratas (e também pelas ciências que eles alegam representar), nacionalismo meio caricato e as políticas públicas que se confundem com campanhas de marketing orientadas pelo aplauso.
Nada disso deveria fazer muita diferença, ressalvados os estilos pessoais. A democracia é o império da popularidade, não? Qual o problema de o presidente governar como quem dirige um programa de auditório, cercado de áulicos sorridentes e plateias amestradas?
A questão é se esse formato, ou algoritmo, é neutro, ou se a escolha de políticas públicas orientada pelo engajamento e pelas curtidas pode enviesar a substância. Contado de outra forma, mais analógica: antigamente os tecnocratas formulavam planos econômicos, e a liderança política, quando gostava, chamava um profissional de comunicação para orientar a divulgação.
Não era incomum a queixa – do marqueteiro e do chefe – contra as medidas impopulares, como costumam ser os remédios para os problemas econômicos.
Agora a lógica se inverteu: são os marqueteiros que fazem as políticas, que já nascem atendendo aos desejos da liderança. Os técnicos trabalham por encomenda, ou são chamados apenas a posteriori, para ajudar na explicação e consertar qualquer coisa que não desceu bem.
Nesse desenho, não há mais medidas impopulares; não tem como dar errado. Lembra muito a invenção do congelamento de preços como ferramenta de combate à inflação nos anos 1990: o que pode ser mais direto e intuitivo do que proibir os reajustes de preços? A inflação se torna ilegal, certo?
Se acontecer, basta chamar a Polícia. Ou declarar que o supermercado está fechado.
Não tem como a inflação existir, certo?
Uma parecida, outro dia, foi do vice-presidente: que tal trabalhar com um índice de inflação que só leva em conta os preços que não sobem?
A lição de casa de Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A visita ao Japão do presidente Lula da Silva, à frente de uma ampla comitiva com lideranças políticas e empresariais, celebrou 130 anos de relação bilateral com o Brasil. Um encontro com caráter de visita de Estado não é algo trivial no Japão e comporta, entre outras honrarias, uma recepção da família imperial. Para dar uma ideia, o último presidente brasileiro prestigiado numa cerimônia desse tipo foi Fernando Henrique Cardoso em 1996, e o último líder em todo o mundo foi o presidente dos EUA, Donald Trump, em 2019. Mas, além das coreografias diplomáticas, a viagem coroou anos de tratativas entre as Chancelarias, produzindo efetivamente avanços concretos num momento de incertezas globais.
O Japão, a segunda maior economia da Ásia e a quarta maior do mundo, é o 11.º maior destino das exportações brasileiras, em especial de carnes aviárias, minérios e cereais, e a 10.ª maior origem das importações brasileiras, em especial de maquinário industrial, veículos e peças automotivas, totalizando um fluxo comercial de US$ 11 bilhões, com ligeiro superávit para o Brasil.
Os dois países assinaram 10 acordos bilaterais e 80 instrumentos de cooperação em áreas estratégicas como energias renováveis, proteção ambiental e pesquisa e desenvolvimento. Lula e o premiê Shigeru Ishiba concordaram em realizar reuniões de cúpula a cada dois anos e estabeleceram a meta de elevar o comércio bilateral para US$ 17 bilhões. Uma das conquistas imediatas foi a venda de 15 jatos da Embraer para a All Nippon Airways, um negócio de aproximadamente R$ 10 bilhões.
A pauta mais importante do ponto de vista brasileiro, a abertura do mercado japonês para a importação de carnes vermelhas e biodiesel, não chegou, como já se previa, a ter um desfecho, mas avançou significativamente. Após décadas de negociações, Ishiba deu o primeiro e mais importante passo, anunciando o envio de equipes de técnicos japoneses ao Brasil para avaliações sanitárias. Houve também sinalizações em relação a um acordo comercial com o Mercosul, ainda que essa seja uma pauta mais incipiente e incerta.
O estreitamento dos laços diplomáticos e a construção de pontes comerciais interessam a ambos os países num momento de tensões geopolíticas e incertezas econômicas acentuadas pelo governo errático de Donald Trump nos EUA. Ao Japão, por exemplo, interessa competir com a China na América Latina. Sem mencionar diretamente Trump, Lula criticou as ameaças ao multilateralismo e ao livre comércio. “Não queremos mais muros. Não queremos mais guerra fria”, disse Lula ao lado de Ishiba.
Mais do que ironia, há uma certa justiça poética quando o líder do partido de esquerda que conquistou cinco dos últimos seis mandatos presidenciais no Brasil, um dos países mais fechados do mundo, recrimina o protecionismo de um presidente de direita dos EUA. Lula fingindo ser paladino do livre comércio é um sinal desses tempos caóticos.
A necessidade é a mãe da invenção, e o Brasil realmente necessita de novos fluxos comerciais, como os que se desenharam no Japão. A questão é até que ponto as palavras de Lula exprimem uma real convicção ou são mero contraponto oportunista a Trump.
Uma sinalização concreta do anseio de integração do presidente, por exemplo, seria a adesão do Brasil à OCDE, o fórum das democracias liberais, mas essa pauta foi jogada em alguma geladeira do Planalto. Se Lula está incomodado com as barreiras protecionistas que se erguem no exterior, não faltam muros ao livre comércio para serem derrubados aqui – regimes alfandegários complicados, restrições a importações, exigências de conteúdo local, custos sobre exportações –, isso sem falar de um Estado balofo e endividado, que impõe impostos altos, juros pesados e um ambiente de negócios inóspito, que afasta investimentos, prejudica a produtividade e impede que os produtos brasileiros sejam mais competitivos aqui e no exterior.
É muito positivo ver Lula combatendo o protecionismo em países desenvolvidos. Mas seria muito mais positivo para o desenvolvimento do Brasil se ele fizesse seriamente a lição de casa aqui.
O STF também será julgado
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Passada a etapa de aceitação da denúncia contra Jair Bolsonaro e os outros sete acusados de tentativa de golpe de Estado, o Supremo Tribunal Federal (STF) cumprirá, nos próximos meses, a difícil tarefa de julgar a conduta criminosa dos réus, apontada pela Procuradoria-Geral da República. Não será um julgamento simples, não só pelas óbvias implicações políticas e sociais como também pela natureza dos crimes, entre os quais se incluem tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e organização criminosa, e pela importância dos réus – um ex-presidente ainda com intenções eleitorais e militares da mais alta patente. A soma de sensibilidades, para dizer o mínimo, abrange também o próprio STF – afinal o julgamento se dá num momento de crescente desconfiança sobre a legitimidade da instituição e o devido distanciamento de seus ministros em matéria política. São riscos que requerem, mais do que nunca, prudência e serenidade.
Eis por que o julgamento exigirá o reconhecimento de que os ritos processuais são tão importantes quanto a gravidade dos delitos. Está-se diante de um momento em que o STF deve dar um exemplo de transparência e isenção, escapando da tentação do justiçamento, da sanha punitivista, da espetacularização, do açodamento e outros excessos que se prestam mais a simbolismos e à política do que à Justiça. Esse cuidado é imprescindível. O Brasil aprendeu, ou ao menos deveria ter aprendido, o poder nefasto da desmoralização de agentes da Justiça, quando estes atuam a qualquer custo em nome de salvacionismos, como se fossem dotados de excepcionalidade moral e pairassem, feito deuses olímpicos, acima do bem e do mal.
Como se sabe, a Operação Lava Jato ajudou a desbaratar atos e grupos corruptos que se lambuzavam no poder, mas os incontáveis erros processuais protagonizados pelos próceres do lavajatismo permitiram que criminosos confessos passassem a posar de pobres vítimas, resultando em providencial benefício à impunidade. Os crimes julgados agora têm outra natureza, mas exibem igual perigo: é preciso que o STF seja não apenas isento, mas pareça isento. Quem não é democrata de ocasião espera punição exemplar daqueles que, como sustentou a denúncia, tentaram derrubar a democracia e chegaram a pensar no emprego da violência para atingir seus fins autoritários. Ao mesmo tempo, não se deseja que eventual má condução do processo assegure aos golpistas, no futuro, contestações e impunidade. Contra isso não há outro antídoto senão o rigor técnico e a imparcialidade do STF.
São atributos infelizmente em falta na Corte. Não é de hoje que alguns ministros do STF se veem como atores políticos, levando a Corte a se mover, dependendo do caso, conforme o tempo da política – e não da Justiça. Daí decorrem, em nome de supostas boas causas, os vícios de politização, o excesso de protagonismo e o espírito de vingador, ensejando um clima de vale-tudo institucional. A política e a Justiça têm métricas e padrões de conduta distintos entre si. Quando se amalgamam numa Corte, o resultado é tão óbvio quanto danoso: a degradação da instituição e de sua legitimidade. E o que é uma Corte sem legitimidade social, senão uma abstração, com poderes vazios de sentido?
Que fique bem claro, contudo: reconhecer essa disfuncionalidade do STF não significa acolher a hipótese marota, produzida por extremistas e aceita hoje por pessoas de boa-fé, segundo a qual o Brasil estaria vivendo sob uma “ditadura do Judiciário”. Não está. Os desvios da Corte significam não uma ditadura, mas o abastardamento da democracia. A imprensa profissional trabalha sem censura, o Congresso adquiriu poderes até excessivos sobre o Executivo e o debate é livre – a ponto, inclusive, de assegurar a liberdade deste jornal de ser inclemente nas críticas a alguns ministros do STF.
Uma democracia bastarda não é sinônimo de ditadura, assim como a punição evidentemente exagerada a uma cidadã condenada por participar de uma tentativa de golpe de Estado não a transforma em inocente. Tampouco o voluntarismo político do STF dá verniz de legitimidade ao golpismo de Bolsonaro e à súcia de militares que o cercava. Que o julgamento dos próximos meses ajude o País a dar o nome devido às coisas.
Como ação de José Dirceu no mensalão pode ajudar réus do 8 de Janeiro no STF
Por Eduardo Barretto / O ESTADÃO DE SP
A Defensoria Pública da União (DPU) anexou a um processo do 8 de Janeiro no Supremo Tribunal Federal (STF) um relatório da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) sobre a reclamação do ex-ministro José Dirceu contra o STF no mensalão. Na ocasião, o petista queixou-se de ter sido julgado no Supremo sem foro privilegiado e de não poder recorrer a uma instância superior, críticas feitas por advogados nos julgamentos dos atos golpistas. Procurada pela Coluna do Estadão, a Corte não respondeu.
O documento foi protocolado pela DPU no mesmo processo em que o órgão afirmou que o ministro Alexandre de Moraes tem violado o direito de defesa e privilegiado a acusação em uma ação do 8 de Janeiro, como mostrou a Coluna do Estadão.
Nesse caso, a Defensoria sustentou que o relator não autorizou intimar uma testemunha que provaria que a ré chegou a Brasília após o ataque à sede dos três Poderes. Diovana Vieira foi presa em 9 de janeiro de 2023, dia seguinte aos ataques, no acampamento golpista em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília.
O relatório da CIDH, enviado pela DPU ao STF neste mês, foi produzido no fim de 2023. Nesse documento, o órgão internacional aceita os requisitos iniciais da reclamação de Dirceu e decide começar a analisar o mérito do caso. O ex-ministro acionou a comissão em 2014, quando teve a condenação por corrupção ativa confirmada pelo Supremo, em seu último julgamento do processo do mensalão.
Dirceu era defendido na época pelo criminalista José Luis de Oliveira Lima, atual advogado do general Walter Braga Netto no STF. Na última semana, Braga Netto se tornou réu no tribunal por suposta tentativa de golpe de Estado, ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro e outros seis aliados. Em entrevista à Coluna do Estadão, Oliveira Lima disse considerar a possibilidade de recorrer novamente a organismos internacionais para alegar cerceamento de defesa no STF. Por enquanto, já levou essa denúncia à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
A defesa do ex-ministro condenado no mensalão apontou violações da Convenção Americana de Direitos Humanos, a exemplo de um artigo que diz que toda pessoa processada tem o “direito de recorrer da sentença para juiz ou tribunal superior”. Como o julgamento foi no STF, isso não acontece, uma vez que o Supremo é a última instância do Judiciário brasileiro, o que a defesa do petista chamou de “condenação em instância única”.
“Três dos quarenta acusados eram políticos; no entanto, este não era o caso da possível vítima”, seguiu a defesa de Dirceu, destacando que, no período do julgamento, o ex-ministro não ocupava cargos públicos e, portanto, não tinha foro privilegiado para ser julgado no STF.
Esse argumento da incompetência do STF é comumente citado pelas defesas das centenas de investigados no 8 de Janeiro, quase todos sem foro. Também foi mencionado pelos ministros André Mendonça e Kassio Nunes Marques, que ficaram vencidos nesses julgamentos.


