Atropelamentos demonstram risco da leniência com violações no trânsito
Por Editorial / O GLOBO
Dois episódios trágicos ocorridos nesta semana expõem os danos causados pela leniência de autoridades com infrações de trânsito e pelo desrespeito às normas mais básicas de convivência. No Rio, uma adolescente morreu depois de atropelada por um carro oficial do governo do estado numa pista exclusiva do BRT Transcarioca, no bairro de Campinho, Zona Norte da cidade. Numa praia de Itanhaém, Litoral Sul de São Paulo, uma turista que andava de bicicleta morreu depois de atropelada por uma charrete (a polícia investiga se o veículo participava de um “racha”).
O carro envolvido no acidente estava a serviço da secretaria estadual de Cultura e não poderia trafegar pela pista do BRT, exclusiva dos ônibus. Imagens obtidas pelo GLOBO mostram que, como o trânsito estava congestionado, o motorista pegou a faixa do BRT, infração gravíssima pelo Código de Trânsito Brasileiro. Apenas ambulâncias, veículos de socorro a incêndio e salvamento, viaturas da polícia e de fiscalização de trânsito podem usar faixas exclusivas, mesmo assim em situações de urgência. O motorista foi exonerado e responderá por homicídio culposo, mas a tragédia está consumada.
O atropelamento não é fato isolado. Levantamento da empresa MOBI-Rio, que administra o BRT, mostra que somente neste ano aconteceram 58 acidentes nos 157,5 quilômetros de pistas exclusivas. No ano passado, foram 226. Colisões e atropelamentos são provocados sobretudo por carros que invadem as pistas, fazem conversões proibidas ou avançam sinais.
No caso de Itanhaém, o dono da charrete negou que disputasse corrida. Alegou que realizava um passeio familiar na faixa de areia e que prestou socorro à vítima. Testemunhas, porém, disseram que a charrete estava em alta velocidade, com outra. Investigações preliminares da polícia sugerem que ela participava de um “racha”.
Corridas entre charretes são comuns no local, muitas documentadas em vídeos na internet. Moradores disseram que o atropelamento não foi o primeiro acidente. A secretária executiva do Conselho de Defesa do Meio Ambiente do município de Peruíbe, Mari Polachini, afirmou que eventos desse tipo acontecem quinzenalmente e chegam a reunir em torno de 300 pessoas.
Em ambos os atropelamentos, as mortes poderiam ter sido evitadas se as normas tivessem sido cumpridas. Num país onde infelizmente impera a cultura do “ilegal, e daí?”, fugir do engarrafamento pela faixa do BRT, pegar a contramão, trafegar pelo acostamento, avançar sinal, participar de rachas, entre outras aberrações, são práticas que põem em risco motoristas, passageiros e pedestres. É certo que prefeituras instalam equipamentos eletrônicos de fiscalização e muitas vezes multam os infratores.
Mas pelo visto não é suficiente. Além de fiscalizar, é preciso realizar campanhas educativas informando sobre as normas de trânsito e até criando vergonha nos imprudentes. Acima de tudo, é preciso puni-los com rigor. Há uma crença equivocada de que uma pequena violação não faz mal. Não só faz mal, como mata.

