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Tarifaço de Trump encerra o século americano e inicia século chinês. Como fica o Brasil?

Por William Waack /  O ESTADÃO DE SP

 

 

Sem dúvida é histórica a data na qual Donald Trump anunciou um tarifaço. Ela marca no calendário o fim de uma era, e não apenas de políticas comerciais. Mas é enganador o alívio sentido em Brasília pelo fato do País ter sido contemplado com “apenas” 10% a mais de tarifas.

 

Pois em vez de tentar corrigir distorções do sistema multilateral de comércio do qual muitos se aproveitaram – a China é o melhor exemplo – Trump decidiu explodir o sistema. Que nunca existiu sozinho. Nas grandes alianças das quais os EUA fizeram parte (ou lideraram) nos últimos oitenta anos, comércio formava o terceiro pilar junto de inteligência e defesa.

 

Trump demoliu os três, abrindo caminho no seu lugar para a Lei da Selva – aquela na qual leva vantagem quem é mais forte e tem mais força bruta. Como o Brasil é uma potência regional média com escassa capacidade de projeção de poder, e responsável por irrisórios 1,5% de todo o comércio mundial, o mundo com um mínimo de regras seria mais favorável.

 

Mas esse mundo acabou. A destruição da antiga ordem traz sem dúvidas oportunidades comerciais para o Brasil, especialmente nos setores exportadores da agroindústria (leia-se possível aumento da demanda chinesa). Talvez também para exportadores de sapatos. E espera-se mais investimento direto chinês em setores além de infraestrutura.

 

Ocorre que essa monumental disrupção expõe sobretudo vulnerabilidades brasileiras. A principal delas é nossa conhecida pouca capacidade de competição internacional fora do campo das commodities em geral e agrícolas em particular. E a nossa profunda dependência de insumos sofisticados, não só de defesa – espalhou-se um arrepio de horror pelos setores privados quando se falou no governo brasileiro na possibilidade de retaliar o tarifaço de Trump atacando os EUA no campo da propriedade intelectual.

 

Não será fácil para o Brasil e o resto do mundo lidar nessas delicadas circunstâncias com um país “cuja alma está doente”, na excelente definição dada pelo professor Mark Lilla em recente entrevista a este jornal. Na cerimônia “histórica” do anúncio do tarifaço, Trump fez um discurso de perdedor, descrevendo um tipo de economia (e de emprego) que não existe mais e prometendo, como todo populista rasteiro, dias de glória logo ali na esquina.

 

Muito dependerá de como Washington responderá ao óbvio: a “doença americana” explicitada em Trump abre extraordinárias possibilidades para a China. Cuja presença na América do Sul (além do Canal do Panamá) é abertamente descrita pelo atual governo americano como parte de seus problemas de segurança nacional.

 

O 2 de abril marca o fim do século americano, provavelmente o início do século chinês. Como fica o Brasil?

 

DONALD TRUMP

Foto do autor
Opinião por William Waack

Jornalista e apresentador do programa WW, da CNN

Facção invade velório e incendeia corpo de rival morto em intervenção policial no Interior do Ceará

DIARIONORDESTE

 

velorio INCENDIARAM O CAIXA COM O MORTO

 

Membros de uma facção criminosa invadiram um velório e incendiaram o cadáver de um 'rival', enquanto a família velava o corpo da vítima. O crime aconteceu nesta terça-feira (1º), na cidade de Trairi, no Interior do Ceará.

Quatro suspeitos pelo crime de vilipêndio a cadáver foram conduzidos à Delegacia Municipal de Trairi, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Um deles, de 18 anos, foi preso em flagrante e autuado por organização criminosa, por perturbação de cerimônia funerária, vilipêndio, por causar incêndio e corrupção de menor. A participação dos demais será investigada. 

Um dos suspeitos de tocar fogo no corpo foi atingido pelas chamas e precisou ser socorrido a uma unidade hospitalar.

A investigação deste crime "está a cargo da Delegacia Municipal de Trairi, unidade da Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) que realiza diligências para elucidar os fatos. A ocorrência está em andamento", conforme a Pasta. 

CONFRONTO E TIROTEIO

A reportagem apurou que o corpo velado era de um homem, horas antes baleado em um confronto com policiais militares do Batalhão Especializado em Policiamento do Interior (Bepi), em Santana do Acaraú.

De acordo com a PMCE, "os suspeitos efetuaram disparos contra os policiais, que revidaram à injusta agressão. Após o cessar dos disparos, três homens foram localizados feridos. Eles foram socorridos, mas vieram a óbito", na ação registrada na madrugada da segunda-feira (31).

Durante a ação, foi apreendida uma submetralhadora calibre 9mm, um revólver calibre .38, um revólver calibre .22 com numeração raspada e diversas munições. Não há informações se o trio tinha ou não antecedentes criminais.

bepi cotar

Legenda: Durante a ação, foi apreendida uma submetralhadora calibre 9mm e outras armas
Foto: Reprodução/PMCE

Erros no Pé-de-Meia expõem descontrole de programas sociais

Por Editorial // O GLOBO

 

O governo Luiz Inácio Lula da Silva tem sido pródigo em criar programas sociais, seguindo a receita que funcionou em seus mandatos anteriores para conquistar popularidade. A despeito da relevância de várias iniciativas, é óbvio que, por mais bem-intencionadas que sejam, não prescindem de controle rigoroso. Os programas precisam ter foco, para que recursos públicos não sejam destinados a quem não precisa ou desviados. Não é o que se tem visto. Vira e mexe, surgem indícios de descontrole.

 

O exemplo mais recente é o Pé-de-Meia, lançado no ano passado para incentivar, por meio de poupança, a permanência de alunos do ensino médio em sala de aula — a evasão é um dos maiores problemas do segmento. Um levantamento realizado a partir de dados do programa mostrou que, em pelo menos três cidades de três estados (Bahia, Pará e Minas Gerais), o número de beneficiários era maior que o de matriculados na rede pública. Em 15 municípios de cinco unidades da Federação, o programa atende mais de 90% dos estudantes do ensino médio, percentual que chama a atenção. Em alguns casos, há indícios de que os contemplados têm renda acima da permitida.

 

O estranhamento não se restringe às discrepâncias entre beneficiários e matriculados. As informações são desencontradas. Em Porto de Moz (PA), 1.687 estão no Pé-de-Meia, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). De acordo com diretores dos dois colégios estaduais do município, há 1.382 matriculados. Para o MEC, há 3.105 alunos de ensino médio na cidade, mais que o dobro. Não adianta o governo federal alegar que a responsabilidade pelas informações é das secretarias estaduais. Elas precisam ser fiscalizadas por quem é dono do programa.

 

Situações de descontrole têm sido frequentes noutros programas. Em 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) estimou irregularidades de R$ 34 bilhões no Bolsa Família. No fim do ano passado, o próprio Ministério do Desenvolvimento Social percebeu que, em dois terços dos municípios brasileiros, o número de famílias com um único beneficiário era superior ao razoável, sugerindo fraudes ou erros no cadastro. Prometeu um pente-fino.

 

Em fevereiro deste ano, o TCU detectou irregularidades no pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC) pelo INSS. Segundo a Corte, elas causaram prejuízo de R$ 5 bilhões em um ano. O principal problema era a incompatibilidade com as regras do programa — 6,3% tinham renda acima do limite. Foram encontrados também casos de acúmulo com outros benefícios (é proibido), inconsistência de dados cadastrais e até pagamento a quem já tinha morrido.

 

O governo precisa ter maior controle sobre os programas sociais. Primeiro, porque não há dinheiro sobrando. Ao contrário, o Planalto vive buscando meios de aumentar a arrecadação para tapar buracos no orçamento, diante de gastos descontrolados. Segundo, porque valores pagos indevidamente poderiam ser usados para atender quem realmente precisa.

 

Com cruzamento de informações dos diferentes bancos de dados dos organismos federais, não faz sentido pagar benefícios indevidos, ainda que isso envolva diferentes esferas de governo. É preciso haver auditorias permanentes e detalhadas nos cadastros para evitar erros e fraudes. Os eventuais benefícios trazidos pelos programas não justificam o descontrole e o desperdício de dinheiro público.

 

 

Cartão do programa Pé-de-Meia

O MEC deve defender o Pé-de-Meia

Elio Gaspari /Jornalista e escritor / O GLOBO
O Pé-de-Meia é o melhor programa social do terceiro mandato de Lula. Ele busca incentivar jovens carentes a permanecer nas salas de aula do ensino médio, oferecendo-lhes bolsas de R$ 1.000 ao fim de cada ano letivo concluído. O repórter André Shalders mostrou que o programa está contaminado por fraudadores. Numa balbúrdia de estatísticas, há cidades onde o número de bolsistas é maior que o de estudantes. Riacho de Santana, na Bahia, teve 1.231 bolsistas.
 
A direção do único colégio público da cidade informa que há só 1.024 matriculados no ensino médio. A Secretaria de Educação do estado diz que os alunos são 1.677. Para o MEC, seriam 1.860. Seja qual for o número certo, há gato na tuba.
 
Nos últimos tempos, o MEC teve dois programas ambiciosos: o ProUni e o Fies. O primeiro matriculou em faculdades privadas estudantes bem colocados no Enem. Sucesso, não custou um centavo, pois as bolsas compensavam isenções tributárias concedidas havia tempo. O Fies, em tese, financiava estudantes de faculdades privadas. Fracasso, emprestava sem fiador a jovens com desempenhos medíocres no Enem. Na vida real, repassaram-se para a Viúva as carteiras de inadimplência dos maganos do ensino superior privado. O Fies resultou num rombo estimado em R$ 20 bilhões.
 

Se o ralo do Fies tivesse sido reconhecido ou denunciado no primeiro ano da festa, o buraco teria sido menor. Infelizmente, o governo preferiu fazer o jogo do contente, enquanto as ações dos grupos que controlavam as faculdades bombaram na Bolsa de Valores.

 

As fraudes descobertas no Pé-de-Meia são pontuais, pois o dinheiro vai direto para o bolso dos estudantes ou de suas famílias. O MEC tem dois caminhos: pode varrer o problema para baixo do tapete com estatísticas mágicas ou pode cavalgar nas denúncias, expondo os municípios fraudadores. É difícil imaginar que as fraudes numa cidade partam de iniciativa dos estudantes. O lance seria impossível sem a mão invisível de gente da rede pública de ensino.

 

Além das fraudes que podem desmoralizar o Pé-de-Meia, sob o guarda-chuva do MEC há hoje outra esquisitice. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) engavetou dados do seu sistema de avaliação do desempenho dos estados. A decisão, tomada pela direção, contrariou pareceres técnicos.

 

Os dados engavetados mostram que alguns estados vão bem e outros vão mal. O efeito político dessas avaliações é óbvio: alguns governadores ficarão felizes e outros amargurados.

 

O Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é uma conquista da pedagogia nacional. Ele mostra quem vai bem e quem não vai. Sua utilidade depende da divulgação das pesquisas.

 

Avaliar para engavetar seria repetir o que fazia D. Pedro II. Em suas viagens pelo Brasil, além de contar degraus de escadas, fazia questão de visitar escolas, arguindo professores e alunos. Em 1859 ele foi à Bahia, contou 107 degraus, conversou com diversos professores, anotou tudo, para nada. Como lembrou Sérgio Buarque de Holanda, naquela figura avaliadora e paternal havia “muito lastro para pouca vela”.

 

Os dados do Inep e o Pé-de-Meia não podem virar lastro de barco sem vela.

 

 

De quem é a culpa pela escalada de incêndios no Brasil? O que precisa ser feito?

Por Juliana Domingos de Lima / FOLHA DE SP

 

O primeiro fogo deve ser apagado com o pé, conforme o jargão da prevenção e combate a queimadas. A escalada de incêndios nos últimos anos mostra que os pés do poder público não tem conseguido alcançar as fagulhas a tempo, o que põe em risco biomas, como Amazônia e Pantanal.

 

Em 2024, o Brasil teve o ano mais críticos para incêndios desde 2010. “A eficácia da atuação estatal ficou muito aquém do que deveria. O Ministério do Meio Ambiente e outros órgãos têm de reconhecer”, diz a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo. “A gravidade com que os incêndios tomaram o País mostrou que a atuação dos governos tem de ser mais forte”, acrescenta ela, que presidiu o Ibama na gestão Michel Temer (MDB).

 

Para Suely, um sinal positivo foi a declaração, em fevereiro de emergência ambiental nas áreas vulneráveis a incêndios pela ministra do Meio Ambiente, Marina Silva e de aumento de 25% o número de brigadistas. O governo atribui as dificuldades do último ano, principalmente, às mudanças climáticas.

 

A União é alvo desde de 2020 de uma série de ações constitucionais sobre falhas na prevenção e combate a incêndios na Amazônia e no Pantanal. Em 2024, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino reuniu os processos, realizando audiências sobre o tema, ainda em curso.

De quem é a responsabilidade?

O governo federal é diretamente responsável pela prevenção e controle do fogo nas áreas federais, como parques nacionais e terras indígenas. E tem a atribuição de coordenar e apoiar Estados, municípios e agentes privados, como prevê a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, aprovada em 2024.

 

Segundo o governo federal trata-se de “estratégia integrada que leva em conta a ecologia do fogo (como ele se comporta no ambiente), as necessidades das populações no seu uso para fins produtivos, os saberes tradicionais e os conhecimentos científicos”, além da prevenção.

 

Conforme uma resolução aprovada este ano, todos os Estados terão até 2027 para aprovar seus planos de manejo integrados de fogo. A regra também obriga unidades de conservação e propriedades em região de alto risco a criarem seus planos e a adotarem ações de prevenção, como ter brigada florestal própria treinada ou apoiar brigada local.

 

Embora a temporada mais intensa de incêndios normalmente seja no 2º semestre no Brasil, anos recentes de seca extrema e temperaturas acima da média mostram que a preparação precisa começar muito antes.

 

Para especialistas, as condições climáticas têm alongado o período de fogo em biomas como Cerrado e Pantanal, o que diminui a janela da prevenção. Além disso, o fogo está mais severo e se espalha mais rápido devido à vegetação seca.

 

“Há carência grande de investimento (em prevenção). As próprias brigadas só são contratadas durante parte do ano”, afirma Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam). “Como os recursos são poucos, tem de ser indicado dependendo das áreas mais críticas”.

 

Para Suely, do Observatório do Clima, o número de brigadistas federais e o repasse a Estados e municípios deve ser ampliado. Ela também destaca o controle insuficiente feito pelos Estados do uso do fogo em atividades agrícolas:

 

“Dá pra dobrar o numero de brigadistas (federais), tem recurso pra isso. E eles têm que entrar antes da época de seca e fogo para ações de prevenção, como a execução de aceiros. Mas também tem que se assegurar a articulação federativa”.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diz que o ambiente é prioridade da gestão, mas a escalada de queimadas pôs em xeque a capacidade do governo na área. Em novembro, o País receberá em Belém a Cúpula do Clima das Nações Unidas (COP-30). Desmate e incêndios na Amazônia são duas das principais fontes brasileiras de emissão de gases de efeito estufa.

 

Recorde de focos em reservas federais

Em 2024, o fogo devastou mais áreas florestais e houve recorde de queimadas nas unidades de conservação federais, segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão federal. Foram 2 milhões de hectares atingidos, maior número desde o início da série histórica em 2012.

 

Servidor de carreira do ICMBio, João Morita coordena o centro especializado em manejo integrado do fogo do órgão, que forma brigadistas federais.

 

Em março, o instituto tem feito queimas prescritas nos Parques Nacionais de Brasília e da Chapada dos Veadeiros (Goiás), reservas que pegaram fogo ano passado e deixaram Brasília sob fumaça. Essas queimas são feitas em condições e períodos determinados para eliminar vegetações secas que se acumulam no solo (o que pode agravar incêndios). Segundo Morita, os resultados da medida têm sido bons no Cerrado.

 

Unidades de conservação federais são 10% do território continental do País. Das 340 áreas protegidas geridas pela União, que incluem parques e florestas nacionais, reservas extrativistas e outras categorias, 110 enfrentam problemas de incêndios e têm algum nível de planejamento para prevenção e combate e brigadistas contratados, segundo Morita.

 

Os incêndios dentro de UCs cresceram principalmente na Amazônia, onde o órgão diz ter aumentado o total de brigadistas a partir de 2023.

 

Falta de aeronaves é gargalo

Para Morita, a situação na floresta está mais complexa, com ocupação maior de áreas internas ou próximas às reservas. As principais dificuldades incluem adequar o uso do fogo pelas populações tradicionais (como indígenas e quilombolas) e a logística do combate, por ser difícil ir a certas áreas de carro e até de barco.

 

Uma operação de combate pode durar vários dias em áreas isoladas, o que torna necessário montar acampamento para alimentação e descanso dos brigadistas.

Para o transporte, Ibama e ICMBio não têm aeronaves próprias, o que exige contratar o serviço e esbarra na disponibilidade para aluguel e empréstimo.

 

Secretário antidesmate do Ministério do Meio Ambiente, André Lima argumenta que adquirir helicópteros é inviável para o orçamento da pasta, devido a custos de manutenção. Em 2024, diz, a demanda de aeronaves das Forças Armadas para transportar urnas eletrônicas e itens de abastecimento para áreas isoladas pela seca na Amazônia se sobrepôs ao uso para levar brigadistas.

 

O governo federal prevê neste ano 15 helicópteros, 10 aeronaves de lançar água, dois aviões de transporte, quase 200 veículos especializados, 340 caminhonetes operacionais e 50 embarcações. Lima enfatiza ser necessário que Estados e entes privados também se equipem, adaptando aeronaves usadas pelo agronegócio na pulverização aérea de agrotóxicos.

 

A Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, no oeste do Pará, teve grandes incêndios em 2015, 2016 e em 2023, mas conseguiu reduzir a área queimada nesses anos de 150 mil hectares para 10 mil, segundo o ICMBio.

A gestão da UC, a mais populosa da Amazônia, vem investindo em brigadas comunitárias desde 2017 – são ao menos 11 –, o que tem contribuído para controle mais efetivo do fogo, e contará com queimas prescritas em certos locais após a estação chuvosa a partir de 2025.

 

“Temos volume grande de brigadas voluntárias comunitárias, mas o governo precisa conectar as coisas”, afirma o engenheiro florestal Osvaldo Gajardo, da ONG WWF Brasil, que atua na formação de brigadas indígenas dessa modalidade. Ele destaca que elas conseguem implementar ações de prevenção o ano inteiro e são as primeiras a conseguir chegar em territórios isolados para combater os incêndios.

 

Estados

No Pantanal, bioma com a pior projeção de incêndios para 2025 devido a anos sucessivos de seca extrema, o fogo se concentra principalmente em áreas privadas, o que demanda responsabilização de proprietários, Estados e municípios.

 

Em Mato Grosso do Sul, a Operação Pantanal, instaurada contra os incêndios do ano passado, se mantém com a permanência de equipes em locais específicos do bioma, informa o governo do Estado. Foram instaladas 11 bases avançadas dos bombeiros em regiões estratégicas para dar “resposta rápida e eficaz no caso de surgimento de focos precoces”. Em 2024, o Pántanal teve recorde de incêndios no 1º semestre.

 

Conforme o governo do sul-mato-grossense, o Corpo de Bombeiros teve reforço de 170 soldados, que recebem capacitação. Outra medida é a simplificar o processo de licenciamento do manejo integrado do fogo, usando inteligência digital para auxiliar na identificação de acúmulos de biomassa, e orientar produtores rurais sobre a prática de queimas controladas.

 

Já Mato Grosso, informa, em nota ter ampliado investimentos para combate a incêndios e desmate ilegal de R$ 74,5 milhões em 2024 para R$ 80 milhões este ano. Também prevê reforço de 550 bombeiros militares temporários, além de 150 brigadistas estaduais.

 

O Estado afirma ainda ter iniciado a elaboração do Plano Estadual de Manejo Integrado do Fogo e investir na capacitação de brigadas particulares e em fiscalização.

 

Segundo Gajardo, da WWF, essa mobilização é exceção nos Estados. Em muitos casos, os brigadistas estaduais são poucos e contratados na última hora, quando a situação do fogo já está extrema. Ele cita um caso positivo: o Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), no Jalapão, onde as equipes que fazem a gestão de incêndios têm brigadas permanentes.

 

A punição dos responsáveis pela ignição dos incêndios é outro desafio. Em 2024, queimadas no interior de São Paulo e na Amazônia levantaram suspeitas de ação dolosa coordenada, investigadas pela Polícia Federal.

 

De 130 inquéritos instaurados pela PF, 26 já foram encerrados e os demais estão em andamento, segundo a corporação. O órgão não detalhou o desfecho das investigações já concluídas.

 

Conforme André Lima, do ministério, se não há flagrante é difícil responsabilizar depois. “Imagine alguém que ‘taca fogo’ na floresta no meio da Amazônia e sai. Ninguém pega.”

 

FOGO NO PATANAL

Negligência com a saúde feminina

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Os índices de realização dos exames de mamografia e papanicolau nas capitais brasileiras seguem abaixo dos registrados antes da pandemia de covid-19. São dois exames preventivos que podem ajudar a evitar o câncer de mama e o câncer do colo do útero, que, juntos, matam 25 mil mulheres por ano no País.

Segundo dados do Observatório da Saúde Pública, da Umane, entidade que fomenta projetos em saúde, o número de mulheres com 18 anos ou mais que já fizeram mamografias nas capitais caiu de 66,7%, em 2017, para 59,8%, em 2023; e em 2020, durante a pandemia, o índice foi a 61,5%. No mesmo período, o papanicolau diminuiu de 87% para 78,9%; em 2020, foi de 82,5%.

 

Esses números revelam que mesmo durante a pandemia os índices estavam em patamares mais altos do que os registrados mais recentemente. Com o arrefecimento da covid e a diminuição de demanda emergencial sobre os equipamentos de saúde pública, não faz sentido esses indicadores apresentarem desempenhos tão pífios.

 

A mamografia e o papanicolau aumentam o diagnóstico precoce, o que eleva a chance de cura, além de possibilitar a indicação do tratamento mais adequado, menos invasivo e mais barato. Tudo isso é um ganho para a paciente e para o Sistema Único de Saúde (SUS).

 

Mas, como disse ao Estadão a presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), Angélica Nogueira, o País ainda demanda políticas públicas que aumentem o acesso a esses dois procedimentos, que já estão disponíveis na rede pública. É de perguntar o que falta para fazer com que as mulheres busquem esses exames.

 

Falta muita coisa, a começar pela articulação dos municípios, dos Estados e do governo federal para a adoção de medidas efetivas, como campanhas de prevenção. Isso se justifica porque, segundo dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), 45,1% das mulheres que nunca fizeram o papanicolau acham o exame desnecessário, e 14,8% nunca foram orientadas a fazê-lo.

 

As autoridades públicas devem assumir a responsabilidade de transmitir informações às mulheres, com campanhas na televisão e no rádio, na internet, nas redes sociais e nos jornais. Segundo Angélica Nogueira, da SBOC, até mesmo a inteligência artificial poderia ser usada para chegar a mais gente.

 

Ademais, cabe ao poder público a busca ativa das pacientes, assim como já é feito no caso das campanhas de vacinação das crianças. Há milhares de agentes de saúde no País que diariamente batem de porta em porta nos lares brasileiros e que poderiam estar engajados nesse trabalho preventivo. Além disso, o estabelecimento de metas municipais poderia estimular essa busca e, em caso de cumprimento, a cidade receberia mais recursos.

 

Todos os esforços para reverter esse quadro devem ser empreendidos pelas autoridades públicas brasileiras. É inaceitável um estado de negligência em que as mulheres, por desinformação, entre outros fatores, fiquem alijadas da realização da mamografia e do papanicolau, dois procedimentos tão cruciais para lhes garantir qualidade de vida.

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