Primeiro Papa dos EUA, Leão XIV significa continuidade de Francisco e contraponto a Trump
Por Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO DE SP
A eleição do papa Leão XIV é a confirmação de que a secular Igreja Católica é a instituição mais política do planeta, atenta aos ventos, circunstâncias e movimentos do mundo.
Robert Francis Prevost nasceu nos EUA, atuou duas décadas no Peru, foi decisivo na defesa dos pobres e encarna tanto o legado do Papa Francisco quanto a resistência a Donald Trump e ao que ele representa. A expectativa é que, por exemplo e ações, o primeiro papa americano dê continuidade a Francisco e seja um contraponto a Trump.
A própria escolha do seu nome, Leão XIV, carrega a simbologia nesses tempos tão revoltos, com Israel e Rússia destruindo Gaza e Ucrânia e, agora, a Índia bombardeando o Paquistão. Quem inaugurou esse nome foi São Leão Magno, ou Leão I, o Grande, que defendeu a doutrina cristã nas invasões bárbaras e, conciliador, convenceu Átila, rei dos Hunos, a não atacar Roma.
Já o Papa Leão XIII, o último com esse nome, deixou encíclicas históricas sobre a doutrina social da Igreja e prestigiou igualdade, ensino, ciência, diplomacia, o que reforça o caráter renovador e a identidade de Prevost com Francisco, com toda a sua grandeza e preocupação com desvalidos e minorias. Ele, com 69, tem a expectativa de um papado que atravesse duas, até três décadas. Leão XIII morreu aos 93...
Como seu passado, posições e a escolha do nome, fica claro que Prevost, como o argentino Bergoglio, tem uma visão de mundo oposta à de Trump, quanto à união, integração, acolhimento, pobres e minorias. Trump, aliás, é um feroz inimigo de imigrantes negros, indígenas, latinos e pobres, enquanto Prevost, de origem francesa, italiana e espanhola, nascido em Chicago, tem também nacionalidade peruana e orgulho de sua latino-americanidade. É imigrante e defensor de imigrantes.
Curiosidade: depois da Itália, com 17 cardeais, os Estados Unidos, com dez, têm a segunda bancada no conclave que ascendeu Prevost a Papa, seguidos pelo Brasil, com sete. Como assim? Por que os EUA, com maioria presbiteriana, muito longe de ser um país católico, têm o segundo maior número de eleitores do papa?
O arcebispo de Aparecida do Norte, Dom Orlando Brandes, explicou na Rádio Eldorado: “Não é nenhum privilégio aos EUA, a escolha de um cardeal depende da competência, da fé, da boa fama, para que ele seja o eco do pontificado do Papa e da Igreja Católica nas dioceses, paróquias e cidades onde vive”. Podemos concluir que Prevost virou Papa por ter todas essas qualidades para ser um eco da doutrina da Igreja Católica e do legado de Francisco no mundo, particularmente, na América Latina e no país onde nasceu.
Papa Leão XIV, anunciado em 8 de maio de 2025. Crédito: Vatican News
Leão XIV herda cinco grandes desafios do pontificado de Francisco
Por Adriana Dias Lopes — São Paulo / O GLOBO
A grande batalha inicial do Papa Leão XIV será manter a relevância da Igreja conquistada por Francisco, frente a uma sociedade cada vez mais crítica à moral católica. O Pontífice argentino estreitou a relação com os fiéis com atitudes mais arejadas e documentos que entraram na história pela coragem de tocar em temas relevantes, até então ignorados pela doutrina. Muitas questões, no entanto, não foram concluídas, outras estavam apenas no começo.
— O processo iniciado por Francisco precisa ser concluído. Ele se baseia em uma Igreja a serviço da humanidade, samaritana, que dá água a quem precisa, o padre Anderson Antonio Pedroso, reitor da PUC-Rio e doutor em História da Arte Contemporânea e Estética Filosófica, pela Universidade Sorbonne.
É possível que Leão XIV adote uma postura mais cautelosa em algumas questões, mas já sinalizou nas suas primeiras palavras como Papa, que não deverá reverter o legado do antecessor. “Ainda conservamos em nossos ouvidos aquela voz corajosa do Papa Francisco que abençoava Roma e dava sua bênção ao mundo inteiro naquela manhã do dia de Páscoa. Permitam-me a dar sequência, aquela mesma benção: Deus ama a todos. O mal não prevalecerá. Estamos todos na mãe de Deus, portanto, sem medo, unidos, mão a mão com Deus entre nós, sigamos adiante”.
A seguir, cinco grandes marcas desafiadoras do último pontificado que foram herdadas por Leão XIV.
A questão climática
Francisco foi o primeiro Pontífice a aprofundar esse assunto premente no mundo moderno. Um dos documentos mais emblemáticos do pontificado, a encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), detalha e critica duramente a relação do ser humano com o meio ambiente.
O documento fala dos padrões insustentáveis de produção e consumo da sociedade global fora de controle que levam à degradação das relações humanas. Cita a necessidade de proteção dos oceanos, a poluição, as espécies ameaçadas, o papel das florestas e dos povos indígenas. E não poupa os católicos. “Temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente.” O envolvimento da Igreja com o tema deverá continuar, caso contrário seria como virar as costas para o planeta como é hoje constituído.
— Laudato Si inovou, foi um instrumento papal que entrou nas universidades, onde foi debatido por católicos e não católicos — diz o padre Pedroso, reitor da PUC-Rio.
A sinodalidade
O processo de discernir e tomar decisões importantes para a Igreja de forma colaborativa foi adotado ao longo de todo o pontificado de Francisco. O primeiro sinal de que teria esse estilo de gestão foi dado dias após sua eleição, quando criou o Conselho de Cardeais, um grupo para ajudá-lo a governar e trabalhar na reforma da Cúria. Nunca um Pontífice tinha aberto dessa maneira o poder de refletir e opinar sobre questões internas da Igreja.
— Não estamos uns acima dos outros, nem uns de um lado e outros de outro, mas sim em complementaridade. Somos comunidade. Por isso, devemos caminhar juntos percorrendo o caminho da sinodalidade — falou Francisco para o prelado.
Manter a sinodalidade no novo pontificado é fundamental para uma Igreja mais próxima aos diferentes fiéis. Envolve a consulta de novas ideias de todos os integrantes para discernir os desafios que a instituição enfrenta. É elemento essencial para a ação evangelizadora, mas abre espaço para vozes divergentes, o que não é simples para os dogmas da Igreja, já que para a Igreja o Papa é definido como infalível. A infalibilidade papal dita que o Sumo Pontífice é protegido do erro em relação a questões de fé e moral.
A perda do fiel
A população católica mundial aumentou em 1% nos últimos anos, correspondente um total de 1,4 bilhão. Por outro lado, o número de batismos, o sacramento primordial para a Igreja, caiu de 17,9 milhões para 13,32 milhões. No Brasil, um pouco mais da metade da população hoje se declara como católica — nos anos 80, eram 90%.
Arregimentar fiéis é um processo de décadas, em especial o chamado católico “de qualidade”, aquele que não apenas se diz pertencer à religião, mas que a pratica, cumpre os sacramentos e é entusiasmado com a vida cristã.
Uma das causas principais da evasão desse tipo de fiel foi a perda da influência da Igreja sobre as tantas esferas da sociedade. Francisco se reaproximou, dando ares novos a uma instituição endurecida que sobrepôs por anos o julgamento ao perdão. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido.
— Francisco tentou implantar um frescor evangélico, mas não conseguiu por completo e não foi suficientemente bem compreendido por muitas comunidades católicas, faltou tempo para isso, diz Francisco Borba, sociólogo da religião.
A reforma da cúria
O Papa sucedeu Bento XVI, que renunciou por não ter mais forças físicas e mentais para lidar com problemas graves da Cúria Romana, envolvendo abusos sexuais e escândalos financeiros. Frente à imagem desgastada da Igreja, afastou prelados envolvidos em esquemas ilícitos, incluindo cardeais poderosos.
Com nove anos de pontificado, publicou o documento Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), no qual descentraliza organizações do Vaticano. A nova constituição diz que qualquer membro da Igreja, incluindo mulheres, podem liderar um órgão, dificultando a corrupção interna – incluindo cargos anteriormente reservados apenas a cardeais e bispos. O impacto da crise de abusos sexuais na Igreja foi tema de debate entre os cardeais na oitava reunião pré-conclave, reforçando que o Papa Leão XIV não poderá retroceder.
A pastoralidade
Francisco deu inúmeros sinais, concretos ou não, de que foi um pastor para a Igreja, alguém que caminha ao lado do rebanho, a exemplo da figura central do cristianismo, Jesus Cristo. Lavou pés de presidiários, abraçou leprosos. Quando esteve no Rio, em 2013, andou em meio à população, entrou nas casas da comunidade do Complexo de Manguinhos .
Com Amoris Laetitia (Alegria do Amor), o documento de maior repercussão do seu pontificado, mostrou coragem ao abordar assuntos da vida humana, tratados sempre com dedos pela Igreja. Abriu as portas para que casais em segunda união e mães solteiras tivessem acesso aos sacramentos e estimulou a bênção para casais do mesmo sexo. Tais temas, porém, devem ser aprofundados no novo pontificado. Eles não foram detalhados e, por isso, são ainda incompreendidos por parte do prelado e pelos próprios fiéis.
O novo Papa Leão XIV cumprimenta os fiéis da sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano — Foto: Tiziana FABI / AFP
Ministro de Lula ganha apelido de ‘Odorico Paraguaçu’ e disputa protagonismo com Haddad
Por Vera Rosa / O ESTADÃO DE SP
O ministro da Casa Civil, Rui Costa, ganhou um novo papel no governo e, nos bastidores, disputa cada vez mais protagonismo com o titular da Fazenda, Fernando Haddad. A pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Costa passou a executar missões estratégicas, que vão além das tarefas da Casa Civil, e a fazer um “road show” internacional para atrair investimentos.
Na semana passada, por exemplo, o chefe da Casa Civil esteve em Pequim e Xangai para preparar a visita que Lula fará à China nas próximas segunda e terça-feiras, após a viagem a Moscou.
Costa teve reuniões com empresários do ramo de transportes e infraestrutura, apresentou o Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) aos chineses e integrará agora a comitiva de Lula ao país asiático. Como se fosse um embaixador, o ministro também tenta alinhavar acordos para a visita de Xi Jinping ao Brasil, em julho, quando haverá a reunião dos Brics.
Desde o início do terceiro mandato de Lula, Costa fez muitos desafetos na Esplanada dos Ministérios. Não sem motivo: segurou projetos apresentados por colegas, como a chamada PEC da Segurança – só recentemente enviada ao Congresso –, barrou contatos com Lula e deu memoráveis chás de cadeira naqueles que são chamados para reuniões.
Certa vez, cansado de esperar pelo chefe da Casa Civil para um encontro no Palácio do Planalto, Haddad não teve dúvida: se levantou e foi embora.
Ex-governador da Bahia, Costa chegou a receber na Esplanada o apelido de “Odorico Paraguaçu”, prefeito de Sucupira, cidade imaginária do interior baiano. Cinquenta e dois anos depois, o impagável personagem interpretado por Paulo Gracindo na novela “O Bem Amado”, de Dias Gomes, encarna até hoje a síntese da política no Brasil.
Nenhum dos dois ministros comenta a guerra de nervos estabelecida entre eles e Lula gosta de estimular a disputa, assim como fez, no seu primeiro mandato, com Antônio Palocci (Fazenda) e José Dirceu (Casa Civil).
Quando era presidente do PT, Gleisi Hoffmann atacava o que o partido batizou como “austericídio fiscal”. Muitos previam que, no comando da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi se juntaria a Costa para reforçar o polo de poder contra Haddad no Planalto. Mas a ministra adota agora discurso cauteloso.
“As minhas críticas lá atrás eram sobre um determinado projeto, que foi o arcabouço e o déficit zero. Mas isso é página virada. Eu perdi esse debate e vamos tocar para frente", disse Gleisi à coluna. “Os resultados que nós temos na economia são muito positivos e acho que precisamos falar mais sobre eles”, completou.
Tanto Rui Costa como Fernando Haddad têm o desejo de suceder Lula, ainda que seja somente na eleição de 2030. Até agora, porém, o presidente não construiu herdeiros políticos nem no PT nem em outros partidos nas fileiras da esquerda. Para 2026, o ministro da Casa Civil planeja se candidatar a senador pela Bahia; o titular da Fazenda, por sua vez, pode concorrer ao mesmo cargo por São Paulo.
Diante desse cenário nebuloso, Lula quer que os dois atuem como “mascates” para atrair investimentos ao Brasil, uma tarefa que, em tese, deveria ficar muito mais com o vice-presidente Geraldo Alckmin, também ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Haddad embarcou para os Estados Unidos logo depois de Costa retornar da China e hoje está no México. Na Califórnia, o ministro da Fazenda se reuniu com o secretário do Tesouro do governo Donald Trump, Scott Bessent.
As viagens dos dois homens fortes da gestão Lula ocorrem na esteira dos conflitos tarifários entre Estados Unidos e China e no momento em que o Brasil enfrenta grave crise com o escândalo do INSS.
Uma reforma ministerial não resolve o problema do presidente, que parece estar com o relógio atrasado e perdeu o “timing” das mudanças necessárias na equipe.
Enquanto isso, a agenda econômica de Haddad submerge no Congresso. A oposição a Lula só fala em anistia para golpistas e CPI do roubo dos aposentados.
Com dinheiro das emendas parlamentares no bolso e ministérios sob seu comando, o Centrão aproveita a descoordenação do governo para dar palanque aos adversários do Planalto. A estratégia lhe rende dividendos para construir candidaturas que vão enfrentar Lula, ou quem ele escolher, em 2026. Indo para os “finalmente”, o Brasil parece mesmo uma grande Sucupira...
Patifaria não é disputa política
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Conselho de Ética da Câmara suspendeu na terça-feira passada o mandato do deputado Gilvan da Federal (PL-ES) após as ofensas que ele proferiu contra a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). A decisão é fruto de uma representação por meio da qual a Mesa Diretora da Casa acusou Gilvan de quebra de decoro em razão de “manifestações gravemente ofensivas e difamatórias” feitas durante uma sessão da Comissão de Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado, em 29 de abril.
Nela, em vez de arguir o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, que participava de audiência pública para falar das iniciativas de sua pasta, o deputado usou seu tempo para distribuir insultos. Este jornal poupará o leitor da íntegra de suas declarações e do contexto em que elas ocorreram. Fato é que ele chamou a ministra de “prostituta”, e nada justifica uma ofensa dessa ordem à dignidade de uma mulher. A Polícia Legislativa teve de intervir, pois faltou pouco para que ele e Lindbergh, que além de colega de partido é companheiro de Gleisi, chegassem às vias de fato.
Gilvan há tempos abusa da imunidade parlamentar para falar tudo que lhe vem à cabeça. Menos de um mês antes, o deputado defendeu uma proposta para desarmar a guarda presidencial e afirmou desejar a morte do presidente Lula da Silva. Em junho, usou o plenário para chamar o senador Marcos do Val (Podemos-ES) para uma briga em um ringue depois que os dois trocaram empurrões no Aeroporto de Vitória. Em dezembro de 2023, xingou o senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) de “traidor”.
Sempre com uma bandeira do Brasil a tiracolo, o deputado, um empedernido bolsonarista, não faz distinção político-partidária ao eleger seus alvos. Isso deve ter sido decisivo para que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), assinasse uma representação contra ele no dia seguinte ao episódio contra a ministra Gleisi, recomendando sua suspensão cautelar ao Conselho de Ética da Casa.
Foi a primeira vez que Motta fez uso de uma resolução aprovada no ano passado que alterou o Regimento Interno e criou um rito sumário para punir deputados. Houve quem visse despotismo na proposta, de autoria do ex-presidente da Casa Arthur Lira (PP-AL), mas parece claro que era necessário impor limites à escalada da baixaria na Câmara.
Discussões acaloradas entre parlamentares governistas e de oposição sempre foram comuns no Congresso, mas o que temos assistido nos últimos anos não pode ser chamado de debate. A ascensão de deputados eleitos no rastro do bolsonarismo mudou o perfil da Câmara. Se antes da chegada dos bolsonaristas a Câmara já não primava muito pela qualidade dos debates, mas havia algum respeito, agora o que se testemunha cada vez mais são bate-bocas grosseiros provocados deliberadamente para gerar audiência em redes sociais.
Em paralelo, a dificuldade do Legislativo de punir seus membros é histórica e, mais recentemente, alcançou níveis anedóticos. Preso desde março de 2024, o deputado Chiquinho Brazão, acusado de ser um dos mandantes do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), só teve o mandato cassado há duas semanas. Motivo: excesso de faltas.
É compreensível, portanto, que os arruaceiros se sintam à vontade para fazer o que mais sabem, pois parecem intuir que não serão punidos por quebra de decoro. Mesmo quando teve seu mandato suspenso, o sr. Gilvan da Federal ainda ganhou dos colegas do Conselho de Ética um castigo de apenas três meses, metade do que pretendia a Mesa Diretora. O deputado, claro, disse que não pretende recorrer da decisão.
Se é impossível mudar a natureza baderneira de alguns políticos da Câmara, que não honram os votos que receberam para exercer o mandato, espera-se que ao menos o rito sumário lhes coloque um freio. Sabe-se que a Câmara não é um mosteiro, mas tampouco pode ser palco para agressões físicas e verbais. É preciso deixar claro que patifaria não é política.
A solidão de Lula
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo do presidente Lula da Silva protagonizou nesta semana mais um capítulo de um enredo cada vez mais constrangedor para o atual mandato: foi esnobado até pelo PDT, que com seus 17 deputados é apenas o nono partido da Câmara. A legenda informou que deixará a base de apoio ao governo, por se considerar desrespeitada no episódio que culminou com a demissão de Carlos Lupi, presidente licenciado do PDT, que estava no Ministério da Previdência – aquele sob cujas barbas ocorreu o escândalo da rapinagem dos aposentados do INSS.
Eis aí o retrato pronto e acabado da solidão de Lula. Uma coisa é ter dificuldade para manter na base governista partidos poderosos do Centrão, que têm interesses eleitorais e políticos próprios e cuja agenda nem de longe coincide com a do PT. Outra, muito diferente, é perder o apoio de um partido de baixa estatura, portanto dependente dos holofotes do governo, e que ademais é perfeitamente alinhado com a estatolatria lulopetista. Se até o PDT ameaça abandonar Lula, é difícil saber com quem o presidente pode contar para o resto de seu mandato e para seu projeto de reeleição.
O líder do PDT na Câmara dos Deputados, Mário Heringer (MG), disse que o problema de relacionamento com o governo “já vem de muito tempo”, e que a crise envolvendo o INSS foi a “gota d’água” que faltava para o copo da insatisfação transbordar. Afirmou também que o governo não estava oferecendo “a reciprocidade e o respeito” que o PDT “julga merecer”. Enquanto isso, integrantes da ala mais oposicionista do partido, ligada a Ciro Gomes, criticaram a troca de Carlos Lupi por Wolney Queiroz, que, embora número 2 na pasta e também pedetista, foi escolhido, ao que parece, sem o crivo oficial da caciquia da legenda. Não obstante a relutância de Lula em demitir Lupi, mesmo com toda a crise deflagrada no INSS, o partido considerou o tratamento dado ao ministro um “extremo constrangimento”.
Pois “constrangimento” resume bem a dificuldade de articulação política do Executivo, obrigado a lidar com uma base heterogênea, frágil, indócil e hostil, um governo impopular e sem pauta clara para o País, um presidente impaciente para recuperar a popularidade e displicente no diálogo com os partidos, além da concentração excessiva de poderes no PT, que tem 12 das 38 pastas, incluindo todos os ministérios que funcionam no Palácio do Planalto. Sem falar na evidente inclinação de Lula para acelerar as pautas da esquerda, o que torna ainda mais penosa a tarefa de manter legendas centristas, como PSD, União Brasil, PP e Republicanos, todos integrantes do governo, mas com críticos cada vez mais ferozes do lulopetismo.
Não há ingênuos ou injustiçados nessa história. Basta lembrar que grande parte dos partidos hoje é uma soma de interesses paroquiais e ideologias distintas. Não é incomum, por exemplo, a convivência simultânea, num mesmo partido, entre alas oposicionistas e governistas. Também se tornou parte da rotina do governo enfrentar situações como a do PSD, do União Brasil e do Republicanos, que mesmo tendo ministros na Esplanada dos Ministérios não hesitam em exibir prováveis pré-candidatos em oposição a Lula em 2026 – respectivamente, os governadores Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Tarcísio de Freitas.
O problema é que os reconhecidos vícios partidários são aguçados mais ainda pela disfuncionalidade do governo (com sua ineficiência crônica) e do sistema (um Executivo enfraquecido, um Legislativo com poderes exacerbados pelo controle do Orçamento e um Judiciário politizado). Pior, Lula não só não entendeu a natureza da “frente democrática” que o elegeu, como os quase 30 meses de mandato foram insuficientes para aprender com sucessivas derrotas no Congresso.
Sua fragilidade na articulação política tornou ainda mais evidente a carência de novas ideias vindas dele e do PT. Tudo somado, fica claro que Lula vem perdendo o poder de sedução. Conforme a tradição da política brasileira, quando se trata de namoro entre partidos, o maior afrodisíaco é mesmo a perspectiva de poder.
E assim vai a malaise governista, onde se misturam impopularidade, incompetência e horizonte sombrio.
Lula trai memória da 2ª Guerra ao celebrar vitória com Putin
Por Editorial / O GLOBO
É um erro a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de participar, ao lado do russo Vladimir Putin, das celebrações do Dia da Vitória, que marca o 80º ano do triunfo sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra. Além de Lula, assistirão ao desfile militar na Praça Vermelha o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e o cubano, Miguel Díaz-Canel. Nenhum líder de democracia ocidental relevante aceitou dar apoio público ao responsável pela invasão da Ucrânia, maior agressão militar em solo europeu desde justamente o final da Segunda Guerra.
O contexto em que ocorre a celebração promovida por Putin está repleto de significados. A máquina de desinformação russa tem mantido atividade frenética nos últimos tempos ao espalhar mentiras sobre a Segunda Guerra. Um dos exemplos mais notórios ocorreu no ano passado, em entrevista ao propagandista americano do trumpismo Tucker Carlson. Naquela ocasião, Putin declarou que a Polônia “colaborou com Hitler”. Trata-se de uma distorção sem cabimento dos fatos históricos.
A guerra, como todos sabem, começou em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia por tropas nazistas. Putin acusa os poloneses de ter forçado a invasão ao se recusar a ceder à Alemanha o “corredor polonês”, saída polonesa para o Mar Báltico que separava o território alemão da região de Danzig (hoje, Gdansk na Polônia). Por essa interpretação, os poloneses levaram Hitler a iniciar a guerra — um absurdo. Por mais que o governo polonês, a exemplo da União Soviética sob Stálin, tivesse firmado um pacto de não agressão com a Alemanha, continuou durante a guerra a lutar contra os nazistas, tanto no exílio quanto por meio da resistência local.
A empulhação de Putin endossa a versão usada pelos nazistas para justificar sua agressão à Polônia. O interesse é evidente: traçar um paralelo com a invasão da Ucrânia, que Putin sempre justificou sob a alegação de que os ucranianos controlavam territórios reivindicados pela Rússia.
As mentiras de Putin são tão descaradas e ofensivas que um grupo reunindo mais de 200 dos maiores estudiosos da Segunda Guerra subscreveu um abaixo-assinado intitulado “Historiadores pela Ucrânia”. O texto qualifica a acusação contra os poloneses como “completamente falsa”. Lembra ainda que, sob Stálin, a União Soviética também ocupou partes da Polônia, atacou a Finlândia, invadiu Lituânia, Letônia e Estônia. “A razão pela qual esta luta sobre a nossa História é tão importante é que Putin usa a memória da Segunda Guerra como arma para justificar a invasão da Ucrânia de hoje — um país que ele falsamente afirma ser um ‘Estado fascista’ que precisa de ‘desnazificação’ ”, afirmam os historiadores.
Quando soube da visita de Lula, o governo ucraniano não escondeu o mal-estar. Como informou reportagem do GLOBO, o presidente Volodymyr Zelensky encara os acenos do Brasil a Putin como sinal de parcialidade. Zelensky tem razão. O fato de o Brasil importar da Rússia fertilizantes imprescindíveis para o agronegócio não justifica os agrados a Putin, muito menos a presença de Lula nas celebrações do Dia da Vitória. Ao fazer isso, ele não apenas endossa implicitamente a versão mentirosa da propaganda russa sobre a Segunda Guerra, mas a própria invasão da Ucrânia, exatamente como faz Donald Trump.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/17/04/2025


