Leão XIV herda cinco grandes desafios do pontificado de Francisco
Por Adriana Dias Lopes — São Paulo / O GLOBO
A grande batalha inicial do Papa Leão XIV será manter a relevância da Igreja conquistada por Francisco, frente a uma sociedade cada vez mais crítica à moral católica. O Pontífice argentino estreitou a relação com os fiéis com atitudes mais arejadas e documentos que entraram na história pela coragem de tocar em temas relevantes, até então ignorados pela doutrina. Muitas questões, no entanto, não foram concluídas, outras estavam apenas no começo.
— O processo iniciado por Francisco precisa ser concluído. Ele se baseia em uma Igreja a serviço da humanidade, samaritana, que dá água a quem precisa, o padre Anderson Antonio Pedroso, reitor da PUC-Rio e doutor em História da Arte Contemporânea e Estética Filosófica, pela Universidade Sorbonne.
É possível que Leão XIV adote uma postura mais cautelosa em algumas questões, mas já sinalizou nas suas primeiras palavras como Papa, que não deverá reverter o legado do antecessor. “Ainda conservamos em nossos ouvidos aquela voz corajosa do Papa Francisco que abençoava Roma e dava sua bênção ao mundo inteiro naquela manhã do dia de Páscoa. Permitam-me a dar sequência, aquela mesma benção: Deus ama a todos. O mal não prevalecerá. Estamos todos na mãe de Deus, portanto, sem medo, unidos, mão a mão com Deus entre nós, sigamos adiante”.
A seguir, cinco grandes marcas desafiadoras do último pontificado que foram herdadas por Leão XIV.
A questão climática
Francisco foi o primeiro Pontífice a aprofundar esse assunto premente no mundo moderno. Um dos documentos mais emblemáticos do pontificado, a encíclica Laudato Si (Louvado Sejas), detalha e critica duramente a relação do ser humano com o meio ambiente.
O documento fala dos padrões insustentáveis de produção e consumo da sociedade global fora de controle que levam à degradação das relações humanas. Cita a necessidade de proteção dos oceanos, a poluição, as espécies ameaçadas, o papel das florestas e dos povos indígenas. E não poupa os católicos. “Temos de reconhecer também que alguns cristãos, até comprometidos e piedosos, com o pretexto do realismo pragmático frequentemente se burlam das preocupações pelo meio ambiente.” O envolvimento da Igreja com o tema deverá continuar, caso contrário seria como virar as costas para o planeta como é hoje constituído.
— Laudato Si inovou, foi um instrumento papal que entrou nas universidades, onde foi debatido por católicos e não católicos — diz o padre Pedroso, reitor da PUC-Rio.
A sinodalidade
O processo de discernir e tomar decisões importantes para a Igreja de forma colaborativa foi adotado ao longo de todo o pontificado de Francisco. O primeiro sinal de que teria esse estilo de gestão foi dado dias após sua eleição, quando criou o Conselho de Cardeais, um grupo para ajudá-lo a governar e trabalhar na reforma da Cúria. Nunca um Pontífice tinha aberto dessa maneira o poder de refletir e opinar sobre questões internas da Igreja.
— Não estamos uns acima dos outros, nem uns de um lado e outros de outro, mas sim em complementaridade. Somos comunidade. Por isso, devemos caminhar juntos percorrendo o caminho da sinodalidade — falou Francisco para o prelado.
Manter a sinodalidade no novo pontificado é fundamental para uma Igreja mais próxima aos diferentes fiéis. Envolve a consulta de novas ideias de todos os integrantes para discernir os desafios que a instituição enfrenta. É elemento essencial para a ação evangelizadora, mas abre espaço para vozes divergentes, o que não é simples para os dogmas da Igreja, já que para a Igreja o Papa é definido como infalível. A infalibilidade papal dita que o Sumo Pontífice é protegido do erro em relação a questões de fé e moral.
A perda do fiel
A população católica mundial aumentou em 1% nos últimos anos, correspondente um total de 1,4 bilhão. Por outro lado, o número de batismos, o sacramento primordial para a Igreja, caiu de 17,9 milhões para 13,32 milhões. No Brasil, um pouco mais da metade da população hoje se declara como católica — nos anos 80, eram 90%.
Arregimentar fiéis é um processo de décadas, em especial o chamado católico “de qualidade”, aquele que não apenas se diz pertencer à religião, mas que a pratica, cumpre os sacramentos e é entusiasmado com a vida cristã.
Uma das causas principais da evasão desse tipo de fiel foi a perda da influência da Igreja sobre as tantas esferas da sociedade. Francisco se reaproximou, dando ares novos a uma instituição endurecida que sobrepôs por anos o julgamento ao perdão. Ainda assim, há um longo caminho a ser percorrido.
— Francisco tentou implantar um frescor evangélico, mas não conseguiu por completo e não foi suficientemente bem compreendido por muitas comunidades católicas, faltou tempo para isso, diz Francisco Borba, sociólogo da religião.
A reforma da cúria
O Papa sucedeu Bento XVI, que renunciou por não ter mais forças físicas e mentais para lidar com problemas graves da Cúria Romana, envolvendo abusos sexuais e escândalos financeiros. Frente à imagem desgastada da Igreja, afastou prelados envolvidos em esquemas ilícitos, incluindo cardeais poderosos.
Com nove anos de pontificado, publicou o documento Praedicate Evangelium (Pregai o Evangelho), no qual descentraliza organizações do Vaticano. A nova constituição diz que qualquer membro da Igreja, incluindo mulheres, podem liderar um órgão, dificultando a corrupção interna – incluindo cargos anteriormente reservados apenas a cardeais e bispos. O impacto da crise de abusos sexuais na Igreja foi tema de debate entre os cardeais na oitava reunião pré-conclave, reforçando que o Papa Leão XIV não poderá retroceder.
A pastoralidade
Francisco deu inúmeros sinais, concretos ou não, de que foi um pastor para a Igreja, alguém que caminha ao lado do rebanho, a exemplo da figura central do cristianismo, Jesus Cristo. Lavou pés de presidiários, abraçou leprosos. Quando esteve no Rio, em 2013, andou em meio à população, entrou nas casas da comunidade do Complexo de Manguinhos .
Com Amoris Laetitia (Alegria do Amor), o documento de maior repercussão do seu pontificado, mostrou coragem ao abordar assuntos da vida humana, tratados sempre com dedos pela Igreja. Abriu as portas para que casais em segunda união e mães solteiras tivessem acesso aos sacramentos e estimulou a bênção para casais do mesmo sexo. Tais temas, porém, devem ser aprofundados no novo pontificado. Eles não foram detalhados e, por isso, são ainda incompreendidos por parte do prelado e pelos próprios fiéis.
O novo Papa Leão XIV cumprimenta os fiéis da sacada da Basílica de São Pedro, no Vaticano — Foto: Tiziana FABI / AFP

