Quanto mais longe Lula vai, mais bobagem diz
Por J.R. Guzzo / O ESTADÃO DE SP
O presidente Lula, positivamente, não reage bem às mudanças de fuso horário, de latitude e de temperatura ambiente. Seu GPS entra em pane assim que ele deixa o espaço aéreo nacional e o resultado mais imediato é o agravamento dos teores de estupidez líquida daquilo que fala – para não dizer nada sobre como se comporta. Já é uma tristeza quando ele está aqui mesmo. Quando viaja ao exterior fica pior. Lula, como o vinho, viaja mal.
Essa sua última expedição à Rússia e à China foi um portento, realmente, em matéria de declarações cretinas – quanto mais longe ele vai, ao que parece, mais bobagem ele diz. A mais notável de todas, pelos critérios de espessura, volume e peso, foi a sua dissertação sobre a “eliminação da pobreza” pela revolução de Mao Tse-tung. O que Mao fez, mesmo, foi a eliminação de chineses – 40 milhões de mortos no mínimo, numa das piores ditaduras que já se viu neste mundo.
O que tirou os chineses da pobreza foi exatamente o contrário: o fim do regime de Mao Tse-tung na China e sua substituição pelo capitalismo mais agressivo praticado nos últimos 45 anos sobre a face da Terra. Da era comunista só sobrou a ditadura e o partido único que manda em tudo. O resto é o oposto do que diz Lula – que ainda quis se pôr no mesmo nível de importância histórica de Mao.
Estamos, aí, em franco processo de alucinação. O capitalismo na China tirou 1 bilhão de pessoas da mais negra miséria, no maior episódio de progresso social da história, e fez do país uma potência mundial. Lula, que entra, sai e volta ao governo há mais de 20 anos, só empurrou o Brasil e os brasileiros para trás. O que ele tem hoje a oferecer, passado este tempo todo, é o escândalo do INSS.
Na Rússia, antes disso, Lula já tinha submetido o Brasil à humilhação inédita de exibir o seu presidente, com toda sua democracia recivilizada, no meio de uma camarilha de ditadores celerados, gangsters presidenciais e criminosos de guerra – o único tipo de convidado no desfile de Vladimir Putin para comemorar a vitória russa na Segunda Guerra Mundial. Não havia um único democrata; não se festeja a derrota do nazismo indo à festa do aliado original dos nazistas.
Para completar, há a demência de se levar uma comitiva oficial de 200 para mais esse passeio e das despesas brutas com viagens ao exterior – já na casa dos R$ 9 bilhões em dois anos e meio, e com viés de alta. Acima de tudo, há Janja. Ela não tem função nenhuma no governo – mas se intromete em tudo, com níveis de vulgaridade, grosseria e burrice que turbinam ao máximo os piores momentos do marido.
Lula parece vendido nessa história. Vai ficando, cada vez mais, no papel mundialmente ridículo do marido velho e rico casado com a mulher mais nova e exibida – todo mundo ri escondido, e ele pensa que está brilhando. Janja sempre dá um jeito de se meter na frente dele nas viagens, com a sua equipe de apoio, a extravagância das suas despesas e o seu deslumbre por hotéis caros. Na China, acrescentou um plus a mais.
Janja não apenas se intrometeu numa reunião de trabalho (ninguém aí trabalha em coisa nenhuma, mas todos fingem que aquilo é sério), mas cobrou medidas oficiais do presidente chinês – e, para piorar, medidas que ele deve tomar no Brasil. Em primeiro lugar, que diabo a mulher do presidente estava fazendo numa reunião formal de presidentes e ministros de Estado? Isso não existe. Mais: como o marido consegue aceitar calado uma intromissão dessas? Pior que tudo, enfim, é o que é ela fez, no lugar em que não deveria estar.
É uma desmoralização em regra – e é o presidente da República, mais uma vez, no papel do marido panaca que aceita tudo. Janja, obviamente, não foi convidada; arrombou a porta, só isso. Será que Lula acha que ninguém percebeu? Só podia dar em besteira, e deu. Janja pediu que o presidente da China faça aqui dentro do Brasil, numa questão brasileira, o que seu marido não consegue fazer: censurar o Tik Tok, de matriz chinesa. Por quê? Segundo ela, a plataforma é de “direita”.
O presidente Xi Jinping, é claro, deu a única resposta que poderia dar – basicamente, ele disse que não tem nada a ver com isso, e que quem tem de cuidar dos problemas do Brasil são os brasileiros, não a China. Querem censurar o Tik Tok? Então vão lá e censurem, mas não venham aqui pedir que eu faça o trabalho sujo de vocês. Lula ouviu o pito com cara de pamonha – e depois veio com a história de que foi ele quem puxou o assunto, que Janja não é uma mulher de “segunda categoria” e que a culpa é de quem vazou a informação para a imprensa. Continuamos, aí, em queda livre.

Jornalista escreve semanalmente sobre o cenário político e econômico do País
Ao se juntar a Putin e Xi Jinping, Lula comete erros dentro e fora do País
Por William Waack / O ESTADÃO DE SP
Lula parece ter desenvolvido certa intimidade com os homens fortes que mais corteja no momento, Vladimir Putin e Xi Jinping. Aos quais passou a dar conselhos e pedir ajuda pessoal.
O conselho foi dado por telefone para Vladimir Putin, sobre como deveria se comportar em negociações de paz nas quais o homem forte de Moscou demonstra pouco interesse.
A ajuda foi solicitada a Xi Jinpinge: mandar alguém da confiança do imperador chinês ao Brasil para tratar da regulação de uma plataforma, o TikTok, à qual a mulher de Lula atribui importante atuação em favor de direitistas. Não há dúvidas de que em matéria de controle de redes sociais os chineses têm enorme expertise.
Em outras palavras, o chefe de Estado de um país democrático vai pedir ao autocrata chefe de Estado de um país que vive sob o regime de partido único o empréstimo de um especialista em controle de plataforma digital. Nesse contexto, é óbvio que “regular” virou sinônimo de “censurar”.
Lula parece ter perdido de fato a noção do seu peso relativo no cenário das relações internacionais e do que significa o pedir ajuda a um especialista chinês em controle de redes sociais. Do ponto de vista internacional Lula supõe ter voz em acontecimentos de grande alcance quando sequer é capaz de influenciar o cenário mais próximo, o da América do Sul.
Gestos, palavras e posturas de chefes de Estado de países como o Brasil criam fatos políticos, e os que Lula criou em Moscou e Pequim cabem na famosa categoria de tiro no próprio pé. Em Moscou e Pequim Lula assumiu um lado no grande confronto geopolítico atual, apesar de dizer o contrário.
Não percebeu que, para o Brasil, a neutralidade pragmática tem mais inteligência estratégica embutida do que assumir, como fez na prática nas duas capitais, que o Brasil tem um “lado” nesse perigoso confronto que acompanha a dissolução da ordem internacional.
Do ponto de vista doméstico, embaralhou uma discussão já bastante complicada envolvendo Legislativo e o STF sobre a regulação de redes sociais. Há exemplos de países democráticos (como a Alemanha, o mais conhecido deles) que contém dispositivos constitucionais cerceando a liberdade de divulgação de determinados símbolos e conteúdos políticos (no caso, nazistas).
Há um considerável esforço internacional, envolvendo algumas das melhores cabeças no campo do direito, para estabelecer quais mecanismos permitiriam garantir o direito fundamental de opinião e bloquear nas redes sociais conteúdos criminosos e repulsivos. A China é um exemplo de censura, não de regulação.
O problema com a perda de noção é o de ser acompanhada pela perda do senso de ridículo.

Jornalista e apresentador do programa WW, da CNN
Operação contra tráfico revela valor da inteligência nas investigações
Por Editorial / O GLOBO
Na Operação Contenção, ação conjunta da Polícia Civil do Rio de Janeiro e do Ministério Público realizada também nos estados de São Paulo, Mato Grosso e Rondônia, os policiais apreenderam 43 mil cartuchos de munição e 240 armas. Desse arsenal, 16 fuzis e 20 pistolas estavam numa casa na Barra da Tijuca, bairro da Zona Oeste do Rio onde a operação visitou dois condomínios de alto padrão. A ação comprova não apenas que o crime organizado há muito tempo se expandiu para além das favelas, mas sobretudo que combatê-lo exige integração entre órgãos de segurança, planejamento e investigações baseadas em dados e inteligência.
Tudo começou na apuração da invasão de uma delegacia em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, por traficantes, para resgatar um criminoso preso. As investigações conduziram à prisão em flagrante, numa favela da Baixada, de três suspeitos de integrar a organização criminosa Comando Vermelho (CV). Com eles havia um caderno repleto de números de telefones. Foi a semente de um trabalho exaustivo envolvendo quebra de sigilos de comunicação, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e até o apoio da agência que trata de crimes e ameaças transnacionais nos Estados Unidos. Ao final, estava mapeado um esquema de compra de drogas e armamentos pelo CV. Para tentar ludibriar a polícia e o Coaf, os traficantes fracionavam os pagamentos realizados por meio de Pix. Em seu relatório final, a polícia pede o bloqueio de R$ 40 milhões e o Ministério Público a prisão de 22 denunciados.
Um dos investigados faz parte de um grupo de traficantes de outros estados que foram para o Rio em busca de refúgio e treinamento. Um deles passou meses no Complexo do Alemão, subiu na hierarquia da facção criminosa e é dono de um fuzil capaz de abater helicóptero. Continua foragido, mas foi por meio do rastreamento dele que a polícia chegou ao dono de uma loja de armas em São Paulo, registrado como colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC), com acesso legal a armas e munições. A análise de dados do Coaf revelou que, também presidente de um clube de tiro, usava suas empresas para abastecer traficantes. Há registro do recebimento de R$ 1,6 milhão pela venda de carregadores e munição. Outro dos presos, acusado de transferir dinheiro em troca das armas, comprou um imóvel na Barra da Tijuca por R$ 9 milhões e, seis meses depois, repassou a um filho por R$ 500 mil, negócio que, segundo a polícia, caracteriza lavagem de dinheiro.
“Toda operação é lícita até um determinado momento em que entra na ilegalidade”, diz o delegado Carlos Oliveira, subsecretário de Planejamento e Integração Operacional. A investigação mostra como, para combater o crime organizado, se tornou fundamental esmiuçar esse “mercado cinza”. As informações e conexões desbaratadas pela polícia por meio do uso da inteligência se revelam muito mais eficazes que as operações violentas, em geral realizadas sem nenhum planejamento.
Armas apreendidas na operação Contenção — Foto: Felipe Grinberg / Agência O Globo/ 13/05/2025
Ministros do STF entram em campo para não escalar crise com Hugo Motta
Por Bela Megale / O GLOBO
A reação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sobre o imbróglio envolvendo a ação penal contra Alexandre Ramagem, Jair Bolsonaro e mais seis réus da trama golpista está sendo minimizada por integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF).
O fato de Motta ter apresentado um recurso para que o plenário da corte analise a suspensão do processo envolvendo o deputado federal e o ex-presidente, que foi revista pela Primeira Turma do Supremo, tem sido descrito como “parte do jogo”.
Os magistrados avaliam que Motta está “pressionado” pela oposição, que ocupa uma parte significativa das cadeiras da Câmara, e reforça que, para o próprio STF, não é interessante que o presidente da Casa esteja fraco e sem prestígio entre seus pares.
A avaliação da maioria dos ministros é que o trato com Hugo Motta é bom e que ele busca fazer gestos que mostram seu respeito ao Judiciário. Magistrados relataram que não há interesse em escalar a crise com uma figura como o presidente da Câmara, que tem buscado construir com o Supremo uma saída conjunta para boa parte dos conflitos.
Como informou a coluna, uma ala do tribunal defende que o plenário da corte, formado pelos 11 ministros, analise a suspensão da ação penal contra Alexandre Ramagem, Jair Bolsonaro e os outros seis réus no caso da tentativa de golpe. Esse segmento avalia que a medida seria um “gesto” ao Congresso e poderia ajudar a distensionar a relação com o Legislativo.
O destino do pedido de Motta para que o caso vá para o plenário, no entanto, será definido pelo ministro Alexandre de Moraes, que não tem mostrado disposição para atender essa demanda.
A leitura de magistrados é que Moraes teria a ressalva de que aceitar a solicitação seria “abrir a porteira” para pressões vindas do meio político sobre o Judiciário.
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Fortaleza conquista com hospitalidade despretensiosa, diversão e boa comida
Gabriel Justo / FOLHA DE SP
Principal porta para um dos litorais mais bonitos do Brasil, a capital cearense é, muitas vezes, apenas uma escala. Mas, felizmente, não é preciso de muito tempo para que a cidade caia nas graças de quem a visita.
É bem verdade que os espigões que ajudam a conter a força do mar sobre a orla podem causar certa estranheza a quem procura praias cinematográficas, mas essa sensação é logo ofuscada pela imensa riqueza natural, cultural e humana da cidade.
Fortaleza, diz-se, tem "um Sol para cada um". Por isso, é bom se planejar para passar o pico do calor (entre 11h e 14h) em lugares fechados ou pelo menos sombreados —e talvez até fazer siesta.
Se for a sua primeira vez, considere dedicar um dia a mais para visitar o Beach Park, parque aquático símbolo do estado. Para facilitar os deslocamentos, hospede-se à beira-mar, entre o Meireles e a Aldeota.
Fortaleza, diz-se, tem "um Sol para cada um". Por isso, é bom se planejar para passar o pico do calor (entre 11h e 14h) em lugares fechados ou pelo menos sombreados —e talvez até fazer siesta.
Se for a sua primeira vez, considere dedicar um dia a mais para visitar o Beach Park, parque aquático símbolo do estado. Para facilitar os deslocamentos, hospede-se à beira-mar, entre o Meireles e a Aldeota.
Veja a seguir um roteiro para curtir o melhor de Fortaleza em três dias.
DIA 1
Para matar logo a sede de praia, dedique esse primeiro dia a Sabiaguaba, praia no extremo leste da capital, cercada de dunas, onde o rio Cocó encontra o mar. É possível ir de carro ou Uber mas, especialmente se você tiver chegado cedo, vale incluir no passeio uma passada no Parque do Cocó, o maior parque urbano da América Latina. De lá, um passeio de barco (R$ 300 para até cinco pessoas no Instagram @navegacao_coco) desce o rio Cocó até a Sabiaguaba, atravessando uma natureza aparentemente tão intocada que fará com que você se esqueça de que está numa grande cidade.
Passe o dia na praia (é preciso combinar isso com o barqueiro antes do passeio) e, na volta, de Uber, mate a fome nos pratinhos da Cidade 2000 ou no Centro das Tapioqueiras, um polo gastronômico popular que serve uma variedade infinita de tapiocas generosamente recheadas e acompanhadas de cafezinho à vontade. Tudo por menos de R$ 30 por pessoa.
Caso o cansaço tenha te forçado a voltar direto para o hotel, as agitadas e simpáticas ruas Sabino Pires e Norvinda Pires, na Aldeota, têm opções de jantar para todos os gostos e bolsos. Destaque vai para os hambúrgueres do Hey Joe e para a animação musical do Simpatizo Amor de Bar.
Dedique a tarde e o começo da noite para conhecer a beira-mar. Um bom ponto de chegada é a Ponte dos Ingleses, recentemente reformada. À esquerda dela fica o Poço da Draga, onde o público predominantemente jovem faz a festa saltando no oceano do alto da ponte metálica.
À direita de quem olha para o mar, fica a praia dos Crush, bastante agitada e já com estrutura de barracas e serviços. Ela é margeada por um espigão que entra 700 metros mar adentro —não deixe de caminhar até o final dele para sentir a força dos ventos alísios, e ter uma visão mais de fora de toda a orla da cidade.
Para uma cervejinha pós-praia, com ou sem jantar, sente-se na simpática varanda do Mar de Rosas, restaurante encantador que também é uma opção para o almoço, com pratos caprichados e apresentação impecável. Ele fica na rua dos Tabajaras, uma das mais boêmias da cidade, onde está também o JamRock, para quem curte um reggae. Se a sua praia for o samba, vai gostar mais do Teresa&Jorge, que agita uma esquina a 900 metros dali.
DIA 3
Comece o dia visitando o MIS, o Museu da Imagem e do Som, outro importante centro cultural de Fortaleza, inaugurado em 2022 e que atualmente abriga uma exposição de fósseis do Cariri e uma outra de fotografias feitas pelo japonês Hiromi Nagakura em uma viagem pela Amazônia nos anos 1990 —com curadoria do ambientalista Ailton Krenak.
Assim que o Sol permitir, se despeça do mar de Fortaleza na praia no Miereles ou na praia do Náutico, que também têm infraestrutura de barracas, mas com um ambiente mais turístico e familiar. Elas ficam mais próximas do principal trecho da nova beira-mar de Fortaleza, inaugurada em 2022, que concentra a famosa feirinha da beira-mar e inúmeras opções de comida de rua.
Até o ano que vem, os dois espigões dali, que foram concedidos ao Beach Park, serão repaginados com restaurantes e brinquedos.
No final da tarde, siga a pé ou de bicicleta pela beira-mar até o Mercado dos Peixes, onde é possível comprar os mais frescos frutos do mar da cidade e levá-los ao restaurante de sua preferência, que cobrará apenas pelo preparo e pelo serviço. Mesmo que eles não sejam a sua praia, não deixe de ir. Visto de lá, o pôr do sol é de cair o queixo.

Camocim guarda corredores de praias selvagens na divisa entre Ceará e Piauí
Roberto de Oliveira / FOLHA DE SP
Os gringos já descobriram. Subiram e desceram aquele mundão sem fim de dunas entremeadas pela vegetação de restinga. Percorreram a extensa faixa litorânea, onde compraram terras, tomaram banho na barra de rios, mergulharam em lagos de água da chuva e surfaram por seus mares ao sabor do vento incessante em praias desertas.
Vizinha de Jeri, com preços mais acessíveis e sem aquela atmosfera de turismo predatório, a cidade de Camocim, na costa oeste do Ceará, vem-se tornando a sensação para quem procura lugares ainda selvagens do litoral brasileiro.
Camocim é um dos 14 municípios que fazem parte da Rota das Emoções, roteiro turístico que percorre os estados do Ceará, do Piauí e do Maranhão. Já descoberto pelos visitantes estrangeiros, o itinerário ainda é pouco explorado por brasileiros.
Por um trajeto de mais ou menos 500 km, o visitante é envolvido por paisagens deslumbrantes, como os Lençóis Maranhenses e o Delta do Parnaíba —Camocim é, justamente, a dona do maior trecho litorâneo da rota, com aproximadamente 64 km.
Graças ao aeroporto de Jericoacoara, que se localiza no município vizinho de Cruz, chegar até Camocim ficou mais fácil para quem sai do Sul/Sudeste. De São Paulo, por exemplo, são cerca de três horas e meia de voo, mais 90 km de estradas pelo semiárido, boa parte atravessando a caatinga. Partindo da capital, Fortaleza, o percurso aumenta para 355 km, ou ao menos cinco horas de carro.
Antes de mais nada, é bom que se diga: Camocim não é exatamente um destino praiano daqueles em que o turista simplesmente estende a canga na areia e passa o dia debaixo do guarda-sol curtindo só preguiça.
É, digamos assim, um lugar mais para explorar a beleza da natureza à beira-mar, em passeios por praias desertas ou travessias por vilas rústicas de pescadores, encravadas entre dunas e o mar, para tomar um banho de rio ou de lagoa, para curtir uma piscina natural salgada onde não há vivalma.
O tempo se divide basicamente em duas estações: a chuvosa, de janeiro a junho, e a seca, de julho a dezembro. A temporada internacional de kitesurfistas se inicia em agosto, momento de alta incidência de forasteiros estrangeiros por lá.
É quando o céu passa a ser rabiscado pelas cores vivas das pipas de kitesurfe, um tipo de vela que permite o deslocamento sobre a água ao sabor do vento.
"Camocim é o Havaí do kitesurfe", compara Leonardo Fernandes, instrutor. "Aqui, temos ventos constantes que chegam a atingir 60 km/h durante a temporada."
As praias do Maceió e da Baía das Caraúbas costumam ser bastante prestigiadas pelos kitesurfistas. Outro ponto apadrinhado por eles é a praia do Farol do Trapiá —apesar do nome, não existe essa construção luminosa junto ao mar.
Afora o fato de oferecer condições ideais para velejar, a área é estratégica para os chamados "downwinds", como são conhecidas as práticas de velejar, geralmente em duplas ou em grupos, de um ponto ao outro da costa, acompanhados por uma equipe de apoio.
Fernandes diz que já teve alunos dos 8 aos 75 anos. O curso oferecido por ele consome em torno de dez horas, com preços a partir de R$ 370 a hora. Mesmo quem nunca praticou, conta o instrutor, consegue durante esse período aprender lições básicas de controle do kite e de segurança, suficientes para dar os primeiros passos sobre a prancha.
Em uma linguagem bem praieira, podemos dizer que, enquanto boa parte do Brasil vai estar sacando do guarda-roupa casacos, echarpes e moletons, a depender das maluquices climáticas, em Camocim, não tenha dúvida, vai dar praia… em julho.
Os deslocamentos entre um areal e outro são feitos em bugues ou em veículos de tração nas quatro rodas. Ao contrário da parte leste da costa cearense, sentido Rio Grande do Norte, no lado oeste, rumo ao Piauí, ainda há longos trechos de praia verdadeiramente ermos.
O bugueiro Jeimisom Oliveira da Costa, de 33 anos, 8 deles como condutor de trilhas, conhecido como Neguinho, faz uma parada em trechos remotos nos quais o único sinal de vida vem de uma jangada que parece flutuar nas águas do Atlântico. Esse tipo de embarcação, que também se move graças à força do vento, é bastante comum em praias como Nova e Formosa.
Para quem busca, de fato, desconectar-se de tudo e mergulhar numa área praticamente exclusiva, onde nem pega celular, a dica é não desanimar durante o trajeto de quase três horas de contemplação que leva até a praia da Barra dos Remédios.
O nome já é um indicativo de que ali se pode encontrar a cura dos males modernos. É um tipo de refúgio intocado, perfeito para relaxar. Com suas águas de temperatura agradável e tons esverdeados, ao lado de dunas, a praia separa os municípios de Camocim e Barroquinha. A travessia é feita por balseiros. Sem pressa, no timing perfeito para curtir a paisagem. Só cabe um bugue por vez.
Já em território vizinho, em Barroquinha, a praia das Curimãs é uma pacata vila de pescadores, rodeada por dunas e praticamente deserta, à qual o mar chega com aquela temperatura que só o Nordeste sabe oferecer.
Curimãs esconde outro achado: o Brilho do Mar, bistrô do francês François Bourhis. O espaço convida o forasteiro a provar o filé de robalo assado no forno, com crosta de castanha de caju, purê de abóbora, vinagrete de maracujá e arroz branco (R$ 72).
Na alta temporada, que começa em julho, o Brilho do Mar funciona todos os dias da semana, exceto às quintas. Fica aproximadamente a 40 minutos do Maceió, vindo pela praia. Para relaxar depois do almoço, vale a pena subir até a singela sacada do piso superior, pedir um drinque e apreciar o refrescante entardecer.
O restaurante de cara para as Curimãs de fato se destaca entre as raras opções gastronômicas daquelas bandas. Enquanto a rede hoteleira em Camocim é generosa, com boas opções para todos os gostos e bolsos, ainda falta um bom lugar para comer. Geralmente, os melhores restaurantes ficam nos próprios hotéis e oferecem, com raras exceções, atendimento exclusivo aos hóspedes.
Uma boa pedida é o "glamping" Baía das Caraúbas ("glamping" é a junção de "glamour" e "camping", ou seja, é uma combinação certa para quem gosta de estar em contato com a natureza sem abrir mão do conforto e da boa mesa). Pé na areia, o espaço tem sete bangalôs erguidos sobre palafitas de madeira e palha, em meio ao coqueiral, com diárias a partir de R$ 900 (casal com café da manhã), numa praia praticamente deserta. Serve um divino espaguete com lagosta por R$ 120.
Para quem busca algo mais conectado à cidade, a dica é o hotel-boutique Casa de São José, localizado na parte histórica do município, onde hoje vivem cerca de 65 mil moradores. Ocupa um casarão colonial, em cujo centro um jardim tropical, com bananeiras, sapotis e seriguelas, é rodeado por uma piscina. São quatro suítes e seis chalés, todos eles com área externa privativa e diárias a partir de R$ 570 (casal com café da manhã).
Dos dois hotéis há acesso para aquela que é considerada uma das estradas litorâneas mais bonitas do Nordeste, um trecho de asfalto que liga a parte urbana de Camocim à praia do Maceió, trajeto aproximado de 15 km, onde há uma ampla estrutura de barracas e restaurantes em frente ao mar —sem destaque para os cardápios.
Em determinado trecho da rodovia, somos acompanhados pelo mar, no lado direito, e pelas dunas, no esquerdo. Ao fundo, um parque eólico. Maceió, a praia, costuma ter temperatura e maré agradáveis para banho. É daquelas tipo família. No entanto, cabe aqui um lembrete: essa parada pode ficar ainda mais especial caso não ocorra em feriados ou nos fins de semana.
A depender da época do ano, pode haver piscinas naturais formadas entre a faixa de areia e o mar. Como se trata de uma rústica vila de pescadores, é comum o vaivém de embarcações.
É em seus arredores, todavia, que o entardecer pode deixar a viagem ainda mais especial. Nas dunas do Maceió, elevações de areia formadas pela ação do vento ora desembocam em praias desertas, ora seguem por trilhas que alcançam lagoas de água doce. Todos os ambientes ali são abraçados pelas dunas, que dominam o cenário.
Entre trancos e barrancos, com possibilidade de ficar atolado em algum ponto, o bugue sobe e desce trilhas de areia. Percorremos áreas de lazer ao longo do lago das Cangalhas, seguimos por caminhos que parecem perdidos no tempo, encaramos outras subidas que culminam em uma parada deslumbrante, de cara para a imensidão do oceano.
Quem gosta de tomar banho de mar como veio ao mundo pode deliciar-se com a abundância de praias desertas, propícias para essa imersão. O truque é tirar a sunga ou o biquíni dentro da água, quiçá montar uma "cabaninha" de canga. O bugueiro certamente não vai nem perceber a travessura –o mais provável é que esteja curtindo um forrózinho baixado no celular ou tirando uma soneca, embalado pelo movimento das marés e pelo assobio incessante dos ventos.


