Combate sem trégua à criminalidade
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Atlas da Violência 2025 revela uma notícia auspiciosa: o Brasil registrou, em 2023, a menor taxa de homicídios em 11 anos – 21,2 por 100 mil habitantes, um recuo de 26,4% em uma década. É um progresso digno de ser comemorado, mas com cautela, sem complacência. Com uma taxa quase quatro vezes superior à média global, o Brasil, com menos de 3% da população mundial, responde por cerca de 9% dos homicídios e agoniza no pelotão dos 20 países mais violentos do mundo.
Além disso, o recuo dos homicídios não significa um arrefecimento generalizado da violência. O suicídio juvenil aumentou 42,7% na última década; as mortes no trânsito crescem, puxadas pelas motocicletas; e as discrepâncias regionais e demográficas persistem. Enquanto São Paulo, por exemplo, teve uma taxa de 6,4 homicídios por 100 mil habitantes – inferior à dos EUA –, Estados do Norte e do Nordeste voltaram a registrar alta. Em 2023, o Amapá registrou 57,4 homicídios por 100 mil habitantes; a Bahia, 43,9.
É verdade que alguns Estados vêm colhendo frutos de políticas públicas que combinam inteligência, repressão e integração entre forças de segurança. São Paulo, Minas Gerais, Distrito Federal e Rio Grande do Sul, por exemplo, têm conseguido, com métodos distintos, manter quedas sistemáticas nas taxas de homicídios. O Espírito Santo reduziu quase a zero os chamados homicídios ocultos integrando sistemas de informação entre polícia e saúde.
Mas nenhum desses avanços será duradouro se o País não enfrentar o fenômeno mais grave do nosso tempo: a expansão e sofisticação do crime organizado. Facções como o PCC e o Comando Vermelho operam como cartéis transnacionais, com conexões internacionais, infiltração política e ramificações no mercado legal, controlando territórios, intervindo em eleições, cooptando servidores, participando de licitações e operando redes de tráfico de drogas, armas, ouro e madeira – muitas vezes sob a fachada de ONGs ou associações civis. Pedaços do Brasil, seja em metrópoles como o Rio de Janeiro, seja em regiões como a Amazônia, estão se transformando em enclaves próximos de narcoestados.
No Norte e no Nordeste, em especial na faixa amazônica, cresce um ecossistema do crime que combina mineração ilegal, tráfico internacional e grilagem com alto poder de fogo. Diante desse quadro funesto, a flutuação das taxas de homicídio muitas vezes reflete não a eficácia do Estado, mas os humores das facções. Tréguas circunstanciais motivam quedas nas mortes, mas disputas por rotas ou mercados podem fazer a violência explodir a qualquer momento.
A resposta deve ser sistêmica. Há bons exemplos no continente. A abordagem de dissuasão focada, testada no México, mostrou que é possível conter a violência letal ao concentrar esforços nos indivíduos e redes mais violentos, ao invés do encarceramento em massa. Em Medellín, o uso combinado de inteligência, inclusão social e urbanismo reduziu significativamente os homicídios. No Brasil, esforços de maior integração federativa, como a PEC da Segurança Pública, são um passo necessário. A proposta de legislação antimáfia, inspirada nos modelos italiano e americano, também representa avanço: ela trata de forma diferenciada organizações infiltradas na estrutura do Estado e fortalece instrumentos de asfixia financeira e cooperação interestadual.
Mas nenhum desses instrumentos funcionará sob os vícios de sempre. À direita, a tentação autoritária que aposta no populismo penal e na truculência. À esquerda, a leniência que reduz o crime a mero sintoma da desigualdade que marca o País. A experiência internacional mostra que repressão eficaz e respeito aos direitos humanos não são incompatíveis – são indispensáveis. Precisamos de uma polícia forte e responsável, Justiça célere e confiável e políticas sociais que ampliem oportunidades e enfraqueçam o apelo do crime.
O copo não está “meio cheio”. Está menos vazio, mas ainda longe de saciar a sede de paz dos brasileiros. A redução dos homicídios é real, mas frágil. Celebrá-la é justo; acomodar-se diante dela, irresponsável. A civilidade só virá com vigilância, inteligência e coragem política para enfrentar os verdadeiros donos da violência no Brasil.
A desigualdade persiste
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Brasil tem como um de seus mais pungentes traços distintivos a extrema desigualdade entre os cidadãos, em particular no que concerne à renda. Isso fica ainda mais claro quando se olha para a estratificação da pirâmide de rendimentos do País, divulgada há poucos dias pelo IBGE.
Segundo o instituto, o 1% da população que detém as maiores faixas de renda recebeu, no ano passado, o equivalente a 36,2 vezes o rendimento dos 40% na base da pirâmide. Outra leitura dos dados do IBGE escancara essa brutal discrepância: ampliando o topo da pirâmide para os 10% mais ricos, vê-se que, ainda assim, esse estrato populacional recebeu 13,4 vezes o rendimento dos 40% mais pobres em 2024.
Por mais tentadora que seja a conclusão, o fato de essas relações já terem sido ainda mais desequilibradas no passado – 48,9 vezes em 2019, na comparação com o 1% mais rico; e 17,1% em 2018, no caso dos 10% mais bem remunerados em relação à base ampla da pirâmide – não revela um país mais equânime. Antes, mostra que o Brasil apenas saiu de um patamar obsceno de desigualdade de renda para outro um pouco menos constrangedor.
Entre as causas desse resultado destacadas pelo IBGE figuram o reajuste do salário mínimo acima da inflação e o recebimento de benefícios de diferentes programas sociais do governo. O aumento da renda na base da pirâmide também foi atribuído ao maior dinamismo do mercado de trabalho, o que, segundo o instituto, provocou a elevação do nível de ocupação e o crescimento do rendimento médio. Porém, esses são fatores que atingem todos os níveis de renda da pirâmide, e não apenas a base, embora possam, eventualmente, ser mais ou menos intensos em cada uma das faixas.
A despeito da fanfarra do governo Lula da Silva, a análise da queda da desigualdade no Brasil com base na mudança do coeficiente de Gini (de 0,518 em 2023 para 0,506 em 2024) precisa ser relativizada. O coeficiente de Gini é uma medida estatística que afere o nível de distribuição de renda e vai de zero (igualdade perfeita entre a população) a 1 (desigualdade absoluta). Por óbvio, programas de transferência de renda interferem nos dados estatísticos sobre a distribuição per capita dos rendimentos, e isso não é ruim. O que é preocupante é o fato de uma eventual melhora da renda dos estratos mais vulneráveis da população ser dependente daqueles paliativos governamentais, que melhor deveriam servir como um colchão de segurança social.
O Bolsa Família, para citar o mais abrangente dos programas sociais do governo, alcança 53,8 milhões de pessoas, ou seja, mais de um quarto da população brasileira. Não se espera que dele derive uma ascensão social dos beneficiários, o que só advirá do crescimento sustentável da economia, do acesso à educação de qualidade e da ocupação de postos mais qualificados no mercado de trabalho, entre outros fatores. Como medida emergencial, o ideal seria que a clientela do programa diminuísse ao longo do tempo, acompanhando um natural e desejável crescimento da economia e das oportunidades de crescimento do rendimento próprio. Mas o que se vê nos últimos anos é o contrário.
Note-se, ainda, que o índice de Gini não distingue países mais ricos ou mais pobres, mas sim os que apresentam maior concentração de renda e aqueles que conseguem distribuir melhor sua riqueza entre a população. O ranking do Banco Mundial de 2023, por exemplo, inclui o Nepal, um dos países mais pobres da Ásia, entre os mais igualitários, com Gini de 0,30, à frente da Áustria (0,31). É um caso típico de igualdade na pobreza.
O Brasil ocupa a segunda metade do ranking de Gini, o que coloca o País entre as nações mais desiguais, malgrado ser a oitava maior economia do mundo. Esse paradoxo – um país rico, mas incapaz de abrir vias seguras de desenvolvimento pessoal para milhões de seus cidadãos – está na raiz de muitos entraves ao crescimento nacional.
Além de ser moralmente condenável, a desigualdade renitente é um obstáculo econômico. Países profundamente desiguais tendem a crescer menos e a viver ciclos de instabilidade política e social, uma realidade que, a despeito dos ganhos que representa para alguns, impõe custos elevadíssimos à sociedade como um todo.
Manter queda dos homicídios depende de substituir improviso pela ciência
Por Editorial / O GLOBO
O Atlas da Violência 2025, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública com base em estatísticas do Ministério da Saúde, confirma uma inflexão notável no Brasil: em 2023 o país registrou 45.747 homicídios, ou 21,2 por 100 mil habitantes — a menor taxa desde 2012. A queda foi de 30% em relação ao pico de 2017. Trata-se de conquista de grande relevância neste momento em que a segurança pública se tornou a maior preocupação dos brasileiros. Entender o que contribuiu para a queda é fundamental para o país combater o crime com sucesso.
Há, é verdade, questões de ordem metodológica. Certas mortes violentas não têm sido classificadas como homicídios, pois os registros não atribuem causa determinada. Mas esses “homicídios ocultos” não mudam o quadro nacional. Estados como Amapá, Pernambuco ou Bahia são bem mais violentos, enquanto São Paulo, Santa Catarina e Distrito Federal se destacam pelos índices baixos. No Rio de Janeiro, conflagrado pela guerra entre traficantes e milicianos, a situação piorou: os homicídios saltaram 14%. Há, contudo, fatores que no país todo têm surtido efeito positivo. “A grande guerra do narcotráfico acabou escondendo o que acontecia em vários estados”, diz o pesquisador do Ipea Daniel Cerqueira, coordenador do Atlas da Violência.
Três foram as principais causas para a queda nos homicídios. Primeiro, uma “revolução invisível” no combate ao crime alia o policiamento das ruas à gestão por resultados, à inteligência e a programas de prevenção. Segundo, o envelhecimento populacional, especialmente no Norte e Nordeste, reduz a proporção de jovens mais vulneráveis ao recrutamento por quadrilhas. Terceiro, a acomodação em disputas por território entre as facções do crime organizado também ajudou.
Para que a tendência perdure, um bom começo é aprovar a PEC da Segurança Pública, enviada pelo governo ao Congresso. Ela atribui ao governo federal papel central no combate ao crime organizado, define responsabilidades e metas mensuráveis. Os mecanismos de financiamento devem estar condicionados a evidências, não a fórmulas automáticas de correção de gastos. É fundamental também padronizar registros estaduais e integrar as bases de boletins de ocorrência, homicídios, armas e munições. Estados que adotam policiamento orientado por dados e obrigam o uso de câmeras corporais devem receber incentivos federais. Por fim, é preciso retomar o controle sobre áreas dominadas por facções criminosas e milícias. O STF já determinou que o governo fluminense apresente um plano específico. A lição vale para outras partes do país.
Os números comprovam que a violência cede quando políticas baseadas na ciência substituem o improviso. O Brasil já pagou caro por oscilar entre picos de repressão ineficaz e descaso. O caminho para manter — e aprofundar — a queda dos homicídios passa por integração, uso intensivo de informação e atuação policial comprometida com o Estado de Direito.
Apreço de Lula pela democracia flutua segundo conveniência
Por Editorial / O GLOBO
Uma semana atrás, editorial neste mesmo espaço criticou a ida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Moscou para participar dos festejos pelos 80 anos da vitória na Segunda Guerra, promovidos pelo autocrata Vladimir Putin. A realidade se revelou mais constrangedora do que se antevia. Nas imagens do desfile militar na Praça Vermelha, Lula — eleito empunhando a bandeira da democracia e alvo de uma tentativa de golpe de Estado — aparece ao lado de um escol invejável de ditadores. Lá estão Ibrahim Traoré, de Burkina Faso, Umaro Sissoco Embaló, de Guiné-Bissau, Abdel Fattah el-Sisi, do Egito, Emmerson Mnangagwa, do Zimbábue e Denis Sassou Nguesso, da República do Congo. Mais distantes, o venezuelano Nicolás Maduro e o cubano Miguel Díaz-Canel. Sem esquecer o anfitrião Putin.
“Lula se elegeu com um discurso de defesa da democracia, afirma ter combatido um golpe de Estado no 8 de Janeiro. Agora aparece ao lado não apenas de ditadores, mas também de criminosos de guerra”, disse ao GLOBO Vitelio Brustolin, professor de relações internacionais da Universidade Federal Fluminense e pesquisador da Universidade Harvard.
Questionado sobre a ausência de líderes democráticos, Lula revelou seu desapreço pela História. Afirmou que “a Europa inteira deveria estar fazendo festa” e insinuou que outros países da União Europeia deveriam ter marcado presença em Moscou, em vez de gastar em armas para se precaver contra a ameaça russa. Ora, todos os países europeus celebram a vitória sobre o nazismo. Lula esquece que, ao invadir a Ucrânia, a Rússia mostrou não ter respeito pela integridade territorial dos vizinhos. Apelos genéricos em favor da paz de nada servem ante riscos que o próprio Lula reconhece implicitamente ao citar a luta contra a Alemanha nazista (cujo avanço foi facilitado pelos que pregavam a “paz” no Ocidente).
Lula parece acreditar que o Brasil pode ter papel importante para que Rússia e Ucrânia alcancem a paz. “A guerra só pode acabar se os dois quiserem”, afirmou. “Então, eu vou continuar trabalhando no grupo de amigos.” Fora do círculo próximo de Lula, porém, ninguém acredita que ele possa ter relevância nas negociações. O Brasil não tem assento no Conselho de Segurança da ONU, Brasília fica a mais de 10 mil quilômetros do cenário de guerra, e os ucranianos consideram Lula parcial. Não há motivo para ser ouvido como parte isenta.
Outro pretexto foi alegado para justificar a viagem: o déficit comercial de quase US$ 11 bilhões do Brasil com a Rússia. Em vez de aderir às sanções impostas a Putin, o Brasil se tornou grande importador de diesel russo, que se soma aos fertilizantes imprescindíveis para o agronegócio. Mas tais necessidades não justificam sua presença em Moscou. Por fim, Lula também afirmou almejar um acordo estratégico com a Rússia. Quem tem esse tipo de ligação com Putin são países como Coreia do Norte, Venezuela ou Irã. Será esse o “grupo de amigos” de Lula?
O desfile na Praça Vermelha não passou de peça de propaganda de Putin. Outros líderes democráticos foram convidados e declinaram sem embaraço diplomático. A única explicação para o presidente de uma democracia pujante como a brasileira participar de tal pantomima em má companhia é que seu apreço pela democracia — tão propalado pelos apoiadores — flutua segundo a conveniência e a ideologia.
O presidente Lula assiste a desfile militar em Moscou ao lado de ditadores — Foto: Ria Novosti / Divulgação
Homicídios caem em um país ainda muito violento
Não é todo dia que se podem celebrar dados de segurança pública em um país acostumado a conviver dolorosamente com a violência. A recém-divulgada redução de 20,3% dos homicídios entre os anos de 2013 e 2023 precisa ser valorizada, no devido contexto.
De acordo com o Atlas da Violência, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, nesse período o número anual de vítimas caiu de 60.474 para 45.747, e a taxa por 100 mil habitantes, de 28,8 para 21,2 —com pico de 31,8 em 2017.
É notável que, a despeito da melhora, nos últimos anos a criminalidade passou a figurar entre as principais preocupações mencionadas por brasileiros em pesquisas de opinião. Talvez o fenômeno deva algo ao acirramento da polarização política, mas é fato que o país se mantém entre os mas violentos do mundo, só superado por outros 14.
As estatísticas também deixam de lado possíveis ou prováveis assassinatos que não foram assim classificados por falta de evidências. Os pesquisadores do atlas estimam 3.755 casos do gênero em 2023 e nada menos que 51.608 em todo o decênio.
Ademais, os dados nacionais camuflam grandes desigualdades entre regiões e estados. Os números são visivelmente piores no Norte e no Nordeste que no Sul e no Sudeste. São Paulo (6,4) e Santa Catarina (8,8) são os únicos com taxas abaixo de 10 por 100 mil habitantes.
Já o Amapá, com assustadores 57,4, é onde mais se assassina no país em termos relativos —e, pior, sem tendência de queda. Estados mais populosos, como Bahia (43,9) Pernambuco (38) e Ceará (32) têm taxas muito acima da média brasileira. No Rio de Janeiro, houve piora de 2022 para 2023 (de 21,4 para 24,3).
Há nuances também na sociedade. O número de mulheres assassinadas em 2023, 3.903, foi o maior desde 2018. No mesmo ano, as mortes de negros, 35.531, responderam por mais de três quartos do total —elas também caíram em ritmo menor que as demais ao longo do decênio.
Dado que a criminalidade é um fenômeno multicausal, a queda dos homicídios se deve a fatores diversos. O processo de envelhecimento da população impacta os dados, pois adolescentes e jovens adultos entre 15 e 29 anos têm propensão elevada a se envolverem em episódios violentos (47,8% das vítimas em 2023).
Se disputas entre facções criminosas tendem a elevar as ocorrências, como mostra o exemplo do Amapá, o pacto de não agressão entre as duas maiores facções do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), favorece a redução.
O relatório também destaca o aprimoramento de políticas públicas no setor, com planejamento, tecnologia, prevenção e inteligência. Mas é fato que autoridades estaduais e federais, dentro de suas competências, precisam avançar mais em experiências bem-sucedidas como o uso das câmeras nos uniformes policiais.
O que há de nós, adultos, em atos monstruosos de adolescentes
Bruno Siniscalchi
[RESUMO] Autor sustenta que internet e redes sociais são perigosas para adolescentes, mas que, para explicar atos monstruosos cometidos por jovens, como no enredo da série da Netflix "Adolescência", é preciso olhar para a barbárie não como fenômeno exterior à nossa cultura, mas parte das famílias e da sociedade, como mostrou Freud.
Lançada em março, a série "Adolescência" ainda vem ocupando as conversas entre pais e educadores, impactados com a violenta história do assassinato de uma garota de 13 anos por Jamie, seu colega de escola.
A brutalidade do assassinato a facadas de uma adolescente por um garoto da mesma idade já seria chocante o suficiente para desassossegar todos nós, mas é a trama que está por trás desse ato bárbaro que parece perturbar ainda mais intensamente os adultos.
Dois comentários que parecem revelar um mesmo assombro têm sido comuns. O primeiro é o desconcerto profundo que a série provoca quando, desde o primeiro momento em que a polícia invade a casa da família de Jamie para a sua apreensão como suspeito, o que se apresenta é uma família e um lar funcionais e afetuosos. Desde o início, sabemos que Jamie foi cuidado por uma família estruturada e atenta, de pessoas brancas, formada por seu pai, sua mãe e sua irmã poucos anos mais velha.
Na delegacia, o pai de Jamie, diante da situação chocante e, naquele momento, incompreensível para a qual de repente a sua vida é arrastada, revela que nunca antes havia estado em uma delegacia, nomeando o quanto o que estava acontecendo era da ordem do desconhecido e do impensável para as experiências vividas por ele e por aquela família até ali.
A questão que se coloca, então, é como em um contexto de uma família de classe média com pais estáveis, aparentemente sólidos em suas funções de cuidado e que não é afetada por limitações socioeconômicas drásticas, algo e alguém tão monstruoso pode acontecer.
É diante desse desconcerto que um segundo comentário também vem sendo recorrente: precisamos abrir os olhos para o que acontece na vida online dos nossos adolescentes, afinal as redes podem funcionar como uma espécie de território livre para conteúdos de ódio, como os discursos misóginos que aparecem na história de Jamie quando as motivações do crime são descortinadas.
Aos poucos, o que está por trás da fúria de Jamie quando comete o assassinato é desvelado e acaba por nos revelar que esse episódio de feminicídio está diretamente ligado à potencialização que acontece na internet dos discursos de ódio às mulheres por grupos masculinistas e a sua circulação entre adolescentes pelas redes sociais —alimentando, por essa via, o ato monstruoso de Jamie.
A internet e as redes sociais —centrais nos cotidianos e nas formas de subjetivação da maioria dos adolescentes de hoje— se mostram, aos olhos dos pais e cuidadores, mais do que nunca perigosas.
O perigo da internet, atentando a preocupação de pais sobre os conteúdos que seus filhos acessam muitas vezes de forma invisível para eles, é, sem dúvida, uma questão de fundamental importância para famílias e escolas em um momento em que tanto as redes sociais são o campo de expressão e interação principal entre adolescentes quanto essas mesmas redes sociais declaram a redução de moderação de seus conteúdos, cedendo espaço para discursos como os que influenciam a violência de Jamie.
No entanto, na tentativa de nos explicarmos como algo de tão monstruoso pode acontecer dentro das nossas famílias e escolas, se incorre em uma demonização da internet (como vem chamando atenção a especialista em cultura digital Gabriela Agustini), como se o horror pertencesse a ela e viesse de fora.
Não encontrando respostas sobre como algo tão terrível pode se dar das nossas estruturas de cuidado, tidas como saudáveis por um certo imaginário social, as redes sociais tomam a forma de um meteoro que atinge a formação dos nossos adolescentes e produz a catástrofe.
"Adolescência", no entanto, ao narrar a história de um crime hediondo por um adolescente, também apresenta uma espécie de instantâneo sobre a adolescência enquanto fato subjetivo e cultural na contemporaneidade. Dentro desse instantâneo, podemos encontrar algumas pistas sobre o que, de fato, nos assombra.
Em determinado momento da história, uma policial, durante a investigação na escola de Jamie, diz ao seu parceiro que detesta estar em ali: "As escolas têm esse cheiro. É um misto de vômito, repolho e masturbação. É horrível". A escatologia que ela deflagra naquele ambiente lotado de garotos e garotas por meio do cheiro parece dizer respeito a algo de incômodo que pode se dar quando convivemos de perto com adolescentes.
Em outra cena, o pai e a mãe de Jamie rememoram na frente da filha quando tinham 13 anos, de que forma viam um ao outro adolescente, como flertavam e os detalhes do primeiro beijo. Nesse momento, a situação se inverte e a filha faz cara de nojo. Ao mesmo tempo que se diverte com aquele relato, também encena o quão desagradável é visualizar a adolescência dos pais, fazendo contato com versões deles mais desengonçadas e escatológicas do que a adulta.
A adolescência pode ser desagradável e desconfortável para os adultos que estão à sua volta justamente pelo seu inerente caráter de experimentação e metamorfose. Ao experimentar sobre si próprio, ensaiando diferentes versões de quem se pode e quer ser, a adolescência também realiza experimentações sobre a sexualidade, o corpo e a linguagem que acabam por escancarar algo de íntimo de todos nós e da sociedade.
Afinal, é com as fantasias que também habitam os adultos que os adolescentes vão produzir as suas experimentações e ensaios de quem se vai vir a ser —ou seja, as suas próprias versões sobre ser adulto. Durante os seus ensaios em busca de uma versão própria, fantasias, que também pertencem ao universo dos adultos, são colocadas em ato, incluindo aquelas as quais temos pavor.
Conviver com a adolescência significa conviver com metamorfoses e deformações em diferentes registros —no próprio corpo, na subjetividade, sobre a cultura. Há algo de monstruoso, portanto, intrínseco à própria adolescência e suas expressões. Não à toa, em diferentes momentos, desde que a adolescência foi estabelecida socialmente tal qual a conhecemos agora, as suas expressões causaram desconforto por apresentarem algo de bárbaro e, por isso, serem socialmente nocivas. Aconteceu com a cultura do rock, com a cultura rap e funk, com a cultura digital. O que há de bárbaro nessas expressões, no entanto, costuma ser mais interno à cultura do que imaginamos à primeira vista.
Freud nos mostrou isso quando caracterizou, em 1915, a cultura como algo que procura dar contorno à barbárie. Por essa via, o que nos parece bárbaro e exterior ao que reconhecemos socialmente como nosso advém da interioridade da própria cultura. São os limites desses contornos que os adolescentes costumam barbarizar em suas experimentações.
Nesse sentido, podemos entender as redes sociais como uma espécie de cripta da cultura. Como trabalhado pelos psicanalistas Nicolas Abraham e Maria Torok, a "cripta" é o processo psíquico de enterrar vivas certas perdas que não puderam ser nomeadas como tais. Dessa forma, também estão enterrados nas profundezas da internet, de modo encriptado, traumas sociais que não foram assimilados pela cultura. Mas que, por terem sido enterrados vivos, retornam à superfície da sociedade pelas redes sociais, de maneira violenta e assustadora.
Do mesmo jeito que a psicanálise nos permite perceber que a violência e a barbárie que circulam nas profundezas da internet guardam estreita relação com o que é feito na superfície da cultura, podemos também extrair dela respostas sobre como algo de tão monstruoso pode ser fruto de uma família com boas intenções.
Freud, desde o início da sua obra, quando se volta para a versão psicanalítica da formação do eu, nos mostra como não é exatamente quem são ou o que é dito e feito pelos pais em relação ao seu filho que terá influência determinante na constituição psíquica dele, mas algo de inconsciente dos pais (ou de quem exerce essa função) que se transmite para seu filho. São os sonhos e anseios que os pais não puderam realizar de que o bebê torna-se herdeiro. É central para Freud também que caberá ao sujeito decidir, na história que escreverá para si próprio, que destinos dará à essa herança adquirida.
"Você acha que ele herdou isso de mim?" é a pergunta que o pai faz à mãe de Jamie e a si próprio. São os começos de Jamie que seus pais vão revisitar na tentativa de fazer um escrutínio do que foi dado a Jamie por eles e do que foi sendo adquirido por ele na sua história. O que o pai nos conta é como uma inadequação de Jamie ao futebol e depois ao boxe fizeram tanto ele quanto Jamie se sentirem falhando.
Na verdade, são as possibilidades de inserção nos modelos de masculinidade que lhe foram apresentados que falham. Algo que, como vemos no episódio da sua avaliação psicológica, é por meio da internet que ele vai poder buscar e encontrar outros modelos do que é ser homem e versões disso que prometam dar outros sentidos à condição rejeitada e inadequada em que se encontra.
Judith Butler nos chama atenção justamente para o quanto as normas de gênero que moldam as identidades na nossa sociedade produzem sofrimento não somente para as pessoas LGBTQIA+, mas também para quem se encontra inserido na heterossexualidade. Uma vez que as normas de gênero operam pela exclusão, punição e regulação, elas visam definir não só como devemos ser, mas também aqueles que não podem ser porque frustram as expectativas do que é masculino ou feminino, por exemplo.
Diante das identidades fixas que as normas de gênero impõem, qualquer um pode falhar diante do que é esperado ou aceito na performance de um "homem de verdade" e assim ser alvo de violência dos seus pares e das suas próprias referências.
No fim das contas, por trás tanto do desconcerto de como uma história terrível como a que se apresenta na minissérie pode ser enredada em uma família com a qual muitos de nós identificamos com as nossas referências de cuidado quanto da demonização das redes sociais como a responsável por trazer o horror para perto de nós sem que percebamos está a idealização que mantemos das nossas estruturas familiaristas. Familiarismo que é arraigado e articulado com valores classistas (e, então, racistas) e heterocisnormativos —calcando um imaginário social em que as famílias se autoidealizam como intactas e, por isso, impecáveis.
Algo disso explica também o processo crescente de patologização e medicalização da infância e da adolescência com uma certa "epidemia de diagnósticos", em que diferentes transtornos (como TDAH) funcionam como uma forma de manter a fábula da impecabilidade familiarista ao situar desvios e sofrimentos de seus filhos na esfera unicamente intrapsíquica.
Dessa forma, a autoidealização familiarista cumpre o seu objetivo de não querer ver como seu o que de si próprio está escancarado na sua frente.
Emblemático disso é quando, no último episódio, a van do pai de Jamie é pichada por adolescentes do bairro com a palavra pervertido. Não fica claro para a família e para nós se o escracho diz respeito à perversão de Jamie, do seu pai ou da própria família. No fundo, a perversão é de todos nós —ou como diz sua irmã ao final: "Jamie é nosso".
"Adolescência" parece nos mostrar que há mais de nós mesmos do que gostaríamos nos nossos adolescentes, nas profundezas da internet, nas coisas monstruosas que acontecem nas nossas famílias e escolas.

