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Lula trai memória da 2ª Guerra ao celebrar vitória com Putin

Por Editorial / O GLOBO

 

 

É um erro a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de participar, ao lado do russo Vladimir Putin, das celebrações do Dia da Vitória, que marca o 80º ano do triunfo sobre a Alemanha nazista na Segunda Guerra. Além de Lula, assistirão ao desfile militar na Praça Vermelha o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e o cubano, Miguel Díaz-Canel. Nenhum líder de democracia ocidental relevante aceitou dar apoio público ao responsável pela invasão da Ucrânia, maior agressão militar em solo europeu desde justamente o final da Segunda Guerra.

O contexto em que ocorre a celebração promovida por Putin está repleto de significados. A máquina de desinformação russa tem mantido atividade frenética nos últimos tempos ao espalhar mentiras sobre a Segunda Guerra. Um dos exemplos mais notórios ocorreu no ano passado, em entrevista ao propagandista americano do trumpismo Tucker Carlson. Naquela ocasião, Putin declarou que a Polônia “colaborou com Hitler”. Trata-se de uma distorção sem cabimento dos fatos históricos.

 

A guerra, como todos sabem, começou em 1º de setembro de 1939, com a invasão da Polônia por tropas nazistas. Putin acusa os poloneses de ter forçado a invasão ao se recusar a ceder à Alemanha o “corredor polonês”, saída polonesa para o Mar Báltico que separava o território alemão da região de Danzig (hoje, Gdansk na Polônia). Por essa interpretação, os poloneses levaram Hitler a iniciar a guerra — um absurdo. Por mais que o governo polonês, a exemplo da União Soviética sob Stálin, tivesse firmado um pacto de não agressão com a Alemanha, continuou durante a guerra a lutar contra os nazistas, tanto no exílio quanto por meio da resistência local.

 

A empulhação de Putin endossa a versão usada pelos nazistas para justificar sua agressão à Polônia. O interesse é evidente: traçar um paralelo com a invasão da Ucrânia, que Putin sempre justificou sob a alegação de que os ucranianos controlavam territórios reivindicados pela Rússia.

 

As mentiras de Putin são tão descaradas e ofensivas que um grupo reunindo mais de 200 dos maiores estudiosos da Segunda Guerra subscreveu um abaixo-assinado intitulado “Historiadores pela Ucrânia”. O texto qualifica a acusação contra os poloneses como “completamente falsa”. Lembra ainda que, sob Stálin, a União Soviética também ocupou partes da Polônia, atacou a Finlândia, invadiu Lituânia, Letônia e Estônia. “A razão pela qual esta luta sobre a nossa História é tão importante é que Putin usa a memória da Segunda Guerra como arma para justificar a invasão da Ucrânia de hoje — um país que ele falsamente afirma ser um ‘Estado fascista’ que precisa de ‘desnazificação’ ”, afirmam os historiadores.

 

Quando soube da visita de Lula, o governo ucraniano não escondeu o mal-estar. Como informou reportagem do GLOBO, o presidente Volodymyr Zelensky encara os acenos do Brasil a Putin como sinal de parcialidade. Zelensky tem razão. O fato de o Brasil importar da Rússia fertilizantes imprescindíveis para o agronegócio não justifica os agrados a Putin, muito menos a presença de Lula nas celebrações do Dia da Vitória. Ao fazer isso, ele não apenas endossa implicitamente a versão mentirosa da propaganda russa sobre a Segunda Guerra, mas a própria invasão da Ucrânia, exatamente como faz Donald Trump.

 

O presidente Luiz Inácio Lula da SilvaO presidente Luiz Inácio Lula da Silva — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/17/04/2025

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