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Lula nega erro em anúncio do IOF e atribui medida ao ‘afã’ de Haddad em responder à sociedade

BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 3, que o anúncio do aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) não foi um erro do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e atribuiu a medida a um “afã” do ministro para dar respostas à sociedade sobre esse tema.

 

Ele garantiu que outras possibilidades serão discutidas, mas não respondeu se está disposto a discutir desvinculações como alternativa ao IOF. O presidente disse que o aumento do IOF foi uma tentativa de fazer um “reparo”, porque o Senado descumpriu uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de compensar a desoneração da folha de pagamentos.

 

“Em nenhum momento o companheiro Haddad teve qualquer problema de rediscutir o assunto, em nenhum momento. A apresentação do IOF foi o que tinham pensado naquele instante”, ele disse. “Se alguém tiver uma ideia melhor, vamos discutir.”

 

O presidente relatou que houve uma reunião no domingo à noite, no Palácio da Alvorada, para debater alternativas ao IOF. Defendeu, ainda, que é necessário dialogar com “parceiros” — citando os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e líderes partidários — antes de enviar qualquer medida ao Congresso. Ele afirmou que a Fazenda está em um esforço para “dar tranquilidade ao povo” nas negociações.

Lula disse ainda que vai se reunir às 13h com as pessoas que participam da discussão sobre alternativas ao aumento do IOF no Palácio da Alvorada. Haddad se reuniu na noite de segunda-feira com os presidentes da Câmara e do Senado para tratar do tema.

 

“Vai ter um almoço na minha casa, com todas as pessoas que estão participando dessa discussão, para a gente saber se o acordo está feito ou não, para anunciar o que vai fazer, a compensação que o Brasil precisa ter para colocar as nossas contas fiscais em ordem”, disse Lula.

 

Mais cedo, Haddad disse que havia apresentado a Motta e Alcolumbre um conjunto de medidas para sanear as contas públicas estruturalmente, e que ainda se reuniria com o presidente para definir detalhes./Gabriel Hirabahasi, Cícero Cotrim, Gabriel de Sousa e Victor Ohana

 

Zambelli diz que deixou o Brasil após ser condenada à prisão e afirma que não voltará

Marianna Holanda / FOLHA DE SP

 

Condenada a dez anos de prisão, a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) disse nesta terça-feira (3) ter deixado o Brasil e que não voltará.

Ela afirmou estar fora do país "há alguns dias" e que ficará baseada na Europa, por ter cidadania de um país do continente, mas não entrou em detalhes sobre a localidade. A parlamentar disse querer ter no continente uma atuação como a de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, fazendo que chama de "denúncias" contra os ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

"Queria anunciar que estou fora do Brasil, já faz alguns dias, vim à princípio buscar tratamento médico, que já fazia aqui, e agora vou pedir inclusive para que eu possa me afastar do cargo. Tem essa possibilidade na Constituição. Acho que as pessoas conhecem um pouco mais disso hoje em dia, é o que o Eduardo [Bolsonaro] fez também", disse.

"Então, eu passo a não receber mais salário e meu gabinete vai ser ocupado pelo meu suplente. [Ele] assume e fico fora do país neste período. Vou me basear na Europa", completou.

Eduardo Bolsonaro tem defendido junto a autoridades do governo de Donald Trump, nos Estados Unidos, sanções contra ministros do Supremo e criticado o que classifica como perseguição do judiciário brasileiro contra bolsonaristas.

 

Na semana passada, o STF abriu investigação contra o deputado, pelos supostos crimes de coação, obstrução de investigação e abolição violenta do Estado democrático de Direito.

O ministro Alexandre de Moraes atendeu a um pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República), que apontou atuação de Eduardo contra "integrantes do Supremo Tribunal Federal, da Procuradoria-Geral da República e da Polícia Federal" nos Estados Unidos.

Quando ele deixou o país, não era investigado pelo STF e alegou temor de ter o passaporte apreendido.

Carla Zambelli já foi condenada na Primeira Turma da corte e seus advogados recorrem internamente da decisão. Durante a entrevista, ela citou diversas vezes a atuação de Eduardo.

"Estou escolhendo a Europa, porque ele já está fazendo trabalho exemplar nos Estados Unidos", disse.

 

"Vou denunciar, sim, tudo que está acontecendo. (...) Quero expor isso para o mundo para que eles saibam quem são os ministros da Suprema Corte do Brasil", completou.

Carla afirmou ainda que quer buscar lideranças de ultradireita na Itália, em Portugal e na França. Ela disse que a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, precisa "entender" o que está acontecendo, que os espanhois precisam "acordar, que a esquerda está fazendo muito mal para o país".

Questionada sobre André Ventura, presidente do partido Chega, e líder de ultradireita em Portugal, ela disse que vai procurá-lo e quer mostrar o que está "acontecendo no Brasil".

"Está acontecendo um movimento mundial de supremas cortes tentando entrar no legislativo e no executivo e afogar as pessoas conservadoras", disse.

A deputada federal fez ainda críticas ao sistema de urnas eletrônicas do Brasil e disse que Jair Bolsonaro (PL) não perdeu a eleição de 2022 porque ela perseguiu armada um homem em São Paulo nas vésperas do segundo turno -- episódio pelo qual foi denunciada pela PGR e disse nesta terça-feira que não estava errada.

 

Carla classificou o momento ocorrido na Avenida Paulista como seu "inferno astral", e disse que o ex-secretário de Comunicação e advogado de Bolsonaro, Fábio Wajngarten, contaminou o ex-presidente contra ela. "Quando na verdade todo mundo carrega um pouco das coisas que poderiam ter sido feitas", disse.

Ela afirmou ainda que ainda que não "abandonou" o país. "Não estou desistindo da minha luta, pelo contrário, é resistir. Poder continuar falando o que eu quero falar", completou. Ele se comparou ainda à tatuagem de fênix que disse ter, e afirmou que vai renascer das cinzas.

Foi em uma conversa com o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos que ela disse ter se convencido de não voltar ao Brasil. Ele tem um pedido de extradição nos Estados Unidos, mas as autoridades americanas não dão prosseguimento ao caso.

Segundo a parlamentar, ele questionou se ela veria nas próximas semanas ou meses o Brasil "voltar a ser uma democracia". Bolsonaristas repercutem a narrativa de que há hoje no país uma ditadura, por não reconhecerem o resultado das eleições de 2022, apesar de não apresentarem provas sobre irregularidades, e por criticarem a atuação do STF.

"Eu poderia ir para a prisão. Esperar um tempo, continuar no meu país, e depois me entregar para a justiça. Mas que justiça? Que judiciário? Que prende a Débora [Rodriges] por 14 anos. Quer prender Carla Zambelli por 15? Uma pessoa que matou outra acabou de pegar 14 [anos]. Eu não roubei, não estuprei, não matei. Eu falei", disse.

 

No último dia 9 de maio, a parlamentar foi condenada por unanimidade pela Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) sob acusação de ter comandado invasão aos sistemas institucionais do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), com o auxílio do hacker Walter Delgatti. O objetivo seria emitir alvarás de soltura falsos e provocar confusão no Judiciário.

Ela teria orientado Delgatti a forjar documentos falsos, entre os quais um mandado de prisão para o ministro Alexandre de Moraes, com a finalidade de causar tumulto político no país.

A deputada, que nega as acusações, disse em entrevista à Folha no mês passado ter medo do que poderia acontecer com ela na prisão.

"Eu tenho um pouco de receio das outras mulheres na cadeia, né? Porque eu nunca sei o que vou encontrar, mas eu também luto, então não tenho medo de apanhar. O maior problema é ficar longe da família", diz a deputada, relatando temer por sua saúde.

Nesta terça, Zambelli disse que pedirá para se afastar do cargo com uma licença não remunerada, assim como fez o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O prazo para este tipo de afastamento é de quatro meses.

DEPUTAda caSSADA CARLA ZAMBELLI

Fim de um delírio

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

A manutenção da nota de crédito do Brasil pela Moody’s, na sexta-feira passada, teve gosto amargo para o governo. Ao alterar a perspectiva do rating de positivo para estável, a agência de classificação de risco sepultou a chance de o País recuperar o grau de investimento no curto prazo, conquista com a qual o presidente Lula da Silva contava até o fim de seu terceiro mandato, em 2026.

 

A mudança na perspectiva, na prática, significa que a Moody’s não pretende alterar a nota do Brasil no horizonte dos próximos 18 meses, nem para cima nem para baixo. De certa forma, é algo até positivo, pois, para alguns economistas, já existem motivos suficientes para a agência rebaixar a nota de crédito brasileira. Não se trata de torcida contrária. Em maio de 2024, a decisão da Moody’s de melhorar a perspectiva da nota de crédito do País surpreendeu o mercado, e a posterior elevação do rating, em outubro, gerou muita controvérsia.

 

Na ânsia por recuperar o selo de bom pagador, conquistado em 2008, no segundo mandato de Lula da Silva, e perdido em 2015, durante a administração Dilma Rousseff, o governo trocou os pés pelas mãos. Em vez de trabalhar pelo reequilíbrio estrutural das contas públicas – que seria muito mais efetivo, tendo em vista o objetivo –, Lula, acompanhado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, foi pessoalmente a Nova York para se reunir com representantes das agências e convencê-los de que o País merecia um voto de confiança.

 

Se a estratégia funcionou ou não, o fato é que a Moody’s melhorou a nota brasileira no mês seguinte ao referido encontro. À época, a Moody’s deu ênfase ao crescimento econômico vigoroso e à posição favorável do País no setor externo. A questão é que a vulnerabilidade da economia brasileira não estava na dívida externa, mas na área fiscal, e o endividamento na proporção do Produto Interno Bruto (PIB) não dava sinais de recuo ou mesmo de estabilização, razão pela qual a atitude da agência foi encarada como excessivamente benevolente.

 

Com a decisão de outubro, a Moody’s foi a única, entre as grandes agências de classificação de risco, a posicionar o Brasil a um passo do grau de investimento, destoando de suas principais concorrentes, Standard & Poor’s e Fitch Ratings, que mantinham o País a dois degraus da desejada marca. Para a equipe econômica, no entanto, era questão de tempo até que as outras agências reconhecessem o cenário que só a Moody’s havia enxergado.

 

Pois o governo, logo depois, provou não ser digno do voto de confiança que recebeu. Quem prometia um plano de corte de gastos vigoroso após as disputas municipais entregou uma promessa eleitoreira de isentar de Imposto de Renda da Pessoa Física a trabalhadores que ganhassem até R$ 5 mil mensais, anunciada por ninguém menos que Haddad em rede nacional de rádio e TV. As poucas medidas do pacote que pretendiam conter o nível explosivo do crescimento das despesas, tais como a revisão de critérios para a concessão do Benefício de Prestação Continuada (BPC), foram esvaziadas ou rejeitadas pelo Congresso Nacional após um movimento de boicote liderado por parlamentares petistas.

 

Foi como um divisor de águas, em que ficou claro que a prioridade do governo, a partir de então, seria a reeleição de Lula. Mais recentemente, muitas outras medidas corroboraram essa avaliação, como o anúncio da expansão do Auxílio Gás e da Tarifa Social de Energia Elétrica e a criação de mais uma faixa no Minha Casa Minha Vida, entre muitas outras. A elas somou-se a malfadada iniciativa de elevar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre operações de crédito, câmbio e previdência privada, evidência da disposição do governo de gastar e arrecadar mais sem resvalar em reformas estruturais que desvinculem receitas e o piso de benefícios previdenciários e assistenciais.

 

Enquanto a Moody’s ajusta sua rota, o País mantém a marcha rumo à inviabilização das despesas discricionárias e do arcabouço fiscal já em 2027, cenário atestado pelo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias enviado ao Congresso e reconhecido pela ministra do Planejamento, Simone Tebet. Mas nada disso importa para quem se diz enviado de Deus para levar água ao sertão.

 

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Oportunidades no Nordeste

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Um levantamento da consultoria IPC Maps, divulgado pelo Estadão há poucos dias, revelou que as famílias da Região Nordeste consumirão R$ 1,5 trilhão em 2025, ficando atrás apenas das famílias da Região Sudeste. Se isso se confirmar, o Nordeste trocará de posição com a Região Sul, que no ano passado respondeu por 18,57% do consumo brasileiro, ante 18,06% dos nove Estados nordestinos. Estima-se que neste ano o Nordeste responderá por 18,59% do consumo no País, e o Sul, por 18,51%.

 

Mais de um fator explica o aumento do consumo no Nordeste. E não se pode esquecer as trágicas enchentes que vitimaram o Rio Grande do Sul no primeiro semestre de 2024, reduzindo porcentualmente o consumo da Região Sul como um todo. Ainda assim, é positivo que o Nordeste, que concentra o segundo maior contingente populacional do País – 54,6 milhões de habitantes, segundo o IBGE, atrás apenas dos 84,8 milhões que vivem no Sudeste – seja também a segunda maior região consumidora do Brasil.

 

Dado que a população nordestina é praticamente o dobro da sulista (29,9 milhões), seria natural que o segundo lugar em gastos fosse registrado por margem bem mais ampla. Não o é porque, como atestam diversos indicadores socioeconômicos, o Nordeste está em desvantagem em relação às outras regiões. A boa notícia é que a desvantagem relativa pode se converter em oportunidades. O saneamento básico é exemplo disso. De acordo com o IBGE, em 2023 apenas 50,8% dos domicílios do Nordeste estavam conectados à rede de coleta de esgoto sanitário. Investimentos nesse setor, bem como no de energia, devem fazer com que a região cresça a taxas superiores às das demais (3,2% entre 2027 e 2034, segundo a consultoria Tendências).

 

O Marco Legal do Saneamento Básico estabeleceu a universalização da oferta de serviços de água e esgoto tratados em todo o Brasil até 2033. Ainda que a esta altura já se saiba que a meta dificilmente será cumprida, é mais do que desejável não se afastar em demasia desse patamar civilizatório.

 

No caso do Nordeste, bastante atrasado nessa área, a universalização é fundamental não só porque estudos comprovam que a falta de saneamento básico prejudica indicadores de escolaridade e saúde das populações que não contam com esse serviço, o que prejudica a produtividade e onera o sistema público de saúde, como também porque a região tem enorme potencial turístico.

 

Dados do Ministério do Turismo mostram que, nos quatro primeiros meses de 2025, quase 160 mil estrangeiros desembarcaram nos aeroportos nordestinos, bem mais que os cerca de 100 mil turistas do exterior que visitaram a região no mesmo período no ano passado. Embora variáveis flutuantes, como o câmbio, desempenhem papel relevante nas escolhas turísticas, visitantes retornam ou recomendam destinos que ofereçam boa infraestrutura, para além de belos atrativos.

 

Infelizmente, algumas capitais do Nordeste, famosas por paisagens naturais exuberantes, têm índices de saneamento bastante baixos, o que, mais do que afugentar turistas, mantém a população local presa em um ciclo de subdesenvolvimento, o que é significativamente pior.

 

Esse ciclo torna a região bastante dependente de programas de assistência social, que, como os investimentos em projetos de energia, saneamento e o aumento do fluxo turístico, contribuíram para que o consumo das famílias da região superasse o das do Sul do País. Mais de um terço dos lares do Nordeste recebe Bolsa Família – a média nacional é de 19%. Importantes e necessários, os benefícios sociais cumprem o papel de atender a uma população que, por décadas, foi completamente negligenciada.

 

Remediar, contudo, não basta. É preciso mapear as deficiências da região, bem como as potencialidades não só em turismo, mas também em serviços, infraestrutura e tecnologia, entre outras, para que o aumento do consumo da população não seja apenas consequência de circunstâncias transitórias.

 

Rico em potencial, o Nordeste também tem ampla representatividade política. O atual presidente da Câmara dos Deputados e seu antecessor são nordestinos, assim como três dos últimos presidentes da República desde a redemocratização, o que só comprova que a região não apenas merece, como pode muito mais.

Desejo e realidade

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em busca da popularidade perdida, e com os olhos cada vez mais postos nas eleições de 2026, o governo Lula da Silva lançou em março uma nova modalidade de crédito consignado que, muito se alardeou, baratearia o custo do dinheiro para a população.

 

No entanto, dados recém-divulgados pelo Banco Central demonstram que, por ora, o crédito a juros baixos para o brasileiro “sair da mão do agiota” ou “resolver grande parte dos seus problemas”, como enfatizou Lula da Silva, está longe de ser realidade.

 

De acordo com o mais recente relatório Estatísticas monetárias e de crédito, do Banco Central (BC), os juros anuais do crédito consignado para trabalhadores em regime CLT subiram 15,1 pontos porcentuais (p.p.) em abril em relação a março, chegando a 59%.

 

Abril foi o primeiro mês cheio de operação do novo consignado, lançado oficialmente no final de março sob o nome de “Crédito do Trabalhador”.

 

O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, afirmou que a alta nos juros do consignado “provavelmente” está relacionada com uma avaliação de crédito pior, por parte das instituições financeiras, do perfil de endividamento dos novos clientes da modalidade.

 

Faz todo sentido, já que, ao expandir a base potencial de clientes do consignado de 4 milhões para até 47 milhões de pessoas, expandem-se também os perfis de risco, que são determinantes para que os bancos estabeleçam as taxas de juros.

 

Desde o lançamento, em março, mais de R$ 13 bilhões do novo consignado já foram concedidos a cerca de 2,3 milhões de trabalhadores. As estimativas do potencial pleno dessa modalidade de crédito variam entre R$ 120 bilhões e R$ 300 bilhões.

 

Embora o “Crédito do Trabalhador” tenha arrancado com juros mensais médios de 3,6%, governo e bancos estão otimistas em relação ao recuo futuro dessas taxas porque, a partir de julho, parte dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) poderá a ser utilizada como garantia na contratação do consignado CLT.

 

Inicialmente, o governo quis usar o FGTS, que o trabalhador acumula compulsoriamente com remuneração irrisória, para forçar os bancos a aceitarem um teto nos juros do consignado – uma total aberração, tanto porque os juros, como comprovam os dados recentes, variam de acordo com o perfil de risco do tomador, como porque não faz sentido algum que o trabalhador não possa decidir como usar um fundo que lhe pertence.

 

A grita foi tanta que o governo teve de recuar. Ainda assim, caso não haja mudanças, em breve o trabalhador poderá utilizar 10% do saldo do FGTS, ou 100% da multa rescisória em caso de demissão, como garantia para a contratação do novo consignado.

 

Residem aí as esperanças do governo de que o juro para os endividados se livrarem dos agiotas ficará mais baixo. Se assim será, só o tempo dirá. A realidade, porém, é de juros reais elevadíssimos e de um governo que superestima os efeitos benéficos de suas medidas, enquanto a população recorre ao crédito para lidar com a realidade de um cotidiano caro e cada vez mais incerto.

Brasil atinge meta de médicos em atenção primária, mas rotatividade é alta em locais mais pobres

Jairo Marques / FOLHA DE SP

 

Quase todas as regiões de saúde do Brasil (99%), ao longo de 2024, alcançaram a meta de profissionais —entre médicos e não médicos—, nas unidades de atendimento primário de saúde, um para cada 3.500 habitantes. No entanto, a área enfrenta alta rotatividade dos formados em medicina, 33,9% de desligamentos. O destaque fica para a saída dos que atuam em saúde da família e em regiões com menor desenvolvimento econômico.

Apesar de a cobertura nacional ter avançado, as distorções pelo país são flagrantes. Enquanto no Piauí 98% das unidades tenham a proporção de médicos considerada adequada para a saúde primária, no Amapá ela é de 53%.

Em relação à distribuição pela população, na atenção primária, Santa Catarina tem a melhor média (3,15 para 3.500) e o Distrito Federal a pior (1,2 para 3.500).

Os dados são de estudo da Umane, organização que fomenta iniciativas no âmbito da saúde pública, e do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, com base em indicadores de fontes nacionais como o Datasus, IBGE, Sisvan, Ipea e outros.

Os pesquisadores demonstram relação entre pobreza e fuga de profissionais médicos cruzando informações de PIB regional, com dados de 2021, com os desligamentos.

Em estados menos desenvolvidos, como a Paraíba e o Rio Grande, os índices de rotatividade são de 36,4% e 34,4%, respectivamente. Já no Espírito Santo e no Rio de Janeiro ficaram em 22,17% e 26,18%.

"Temos que olhar por que que os médicos estão saindo, nos debruçar sobre isso. Será que de fato existe uma política de valorização da atenção primária e com a força de trabalho junto? Existe resistência a trabalharem em alguns lugares?", diz a médica de família e comunidade, uma das autoras do estudo e pesquisadora do FGVsaúde, Marcella Abunahman.

Segundo ela, as faculdades de medicina já estão aplicando há vários anos a disciplina de atenção primária de saúde em todos os semestres, obrigatoriamente, e o Ministério da Saúde tem se movimentado para estimular a profissionalização e especialização na área.

"O estudante começa observando, vivenciando e entendendo o que é, até efetivamente sair da faculdade já atendendo e conhecendo muito bem o sistema. Durante muito tempo não existia esse campo de vivência, o médico era formado para ser especialista", afirma.

Para os pesquisadores, um dos fatores que apontam para a qualidade da atenção primária em saúde é o tempo dedicada a ela. O paciente precisa ser acompanhado, preferencialmente pelos mesmos profissionais, por longo período, criar vínculo, e a rotatividade dos médicos impacta diretamente nisso.

"O paciente deve estabelecer uma relação vitalícia com a unidade básica de saúde. Quanto mais o profissional conhece seu paciente, menos ele erra e maior é a taxa de satisfação, com resultados incríveis, gerando economia para o sistema de saúde. Todo mundo ganha".

O estudo também analisou a oferta da cobertura de ações básicas de saúde nos pontos de atenção primária, como vacinação, atendimento pré-natal e controle de doenças crônicas. Nesses quesitos, a questão econômica se inverte em alguns aspectos.

Embora nenhum estado tenha atingido a meta do Ministério da Saúde para o controle de diabetes e de hipertensão, que é de 50% dos pacientes com consulta e acesso à hemoglobina glicada solicitadas, o Ceará ficou com o melhor índice nos dois quesitos (43% diabetes e 47% hipertensão), seguido por Alagoas (45% e 42).

Já estados mais desenvolvidos, como São Paulo e o Distrito Federal ficaram na rabeira da meta de diabetes, com 19%, e Rio de Jairo e São Paulo entre os piores no tratamento da hipertensão, com 24% e 26%.

De acordo com os pesquisadores, o período pandêmico, as subnotificações e a qualidade tecnológica de alguns bancos de dados públicos podem ter levado impacto às estatísticas.

"A gente precisa que o profissional de saúde insira a informação, que ele declare o que atendeu, o que ele solicitou. A gente precisa que as UBSs (Unidades Básicas de Saúde) sejam informatizadas. Na ponta, a gente trabalha muito e, por enquanto, isso não está se refletindo na realidade", declarou a médica Marcella Abunahman.

Também na vacinação infantil para crianças abaixo de um ano, nenhuma unidade da federação conseguiu atingir a meta de cobertura de 95%. Alagoas ficou entre os destaques, com 87%, e, na outra ponta, o Amapá, com 55%.

Na avaliação de Marcella, "a gente viveu momentos tenebrosos de negacionismo, em que de repente a questão da vacinação foi colocada em dúvida e houve uma parte da população que realmente abraçou esse comportamento, que é um comportamento de risco, que não condiz com elevadas práticas de saúde".

De acordo com a análise, o melhor indicador nacional de atenção primária à saúde ficou com o atendimento pré-natal, com todos os estados atingido a meta do Ministério de Saúde para a cobertura de 45% das gestantes com até seis consultas. Em Alagoas o índice chegou a 65%.

O principal objetivo do estudo, na avaliação de Pedro Ximenez, cientista de dados da Superintendência de Estatísticas Públicas do FGV IBRE, e responsável pelo levantamento das informações, é guiar planejamentos estratégicos e formulação de políticas públicas mais eficazes na atenção primária.

Todas as informações organizadas pelo estudo poderão ser acessadas livremente, por todos os públicos, nos próximos dias, em um painel interativo chamado Observatório de Saúde Pública. A expectativa é que a ferramenta auxilie na visualização de tendências e no planejamento estratégico para aprimoramento dos serviços na atenção primária de saúde.

projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde

 

ATENDIMENTO MEDICO EM UBS

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