Andreazza: ‘Marco Civil da Internet não é omisso. Ao Supremo só cabe decidir se é constitucional’
Por Redação / O ESTADÃO DE SP
Nesta quinta-feira, 5, o colunista Carlos Andreazza, do Estadão, comenta no quadro Andreazza Reage a discussão sobre o artigo 19 do Marco Civil da Internet no Supremo Tribunal Federal (STF). O debate no Supremo analisa a responsabilidade das redes sociais e a responsabilização das plataformas por conteúdos publicados por usuários.
Andreazza ressalta que não há omissão na lei. De acordo com o colunista, o Marco Civil da Internet estabelece que as “plataformas podem ser responsabilizadas mediante determinação judicial para que um conteúdo seja removido. Os senhores [ministros do Supremo] buscam, com alguns filtros, uma espécie de responsabilização automática mediante notificação. É uma mudança legislativa que deve ser feita no Parlamento, não no Supremo, que deveria apenas declarar uma lei constitucional ou não”.
Durante a discussão, o ministro Luís Roberto Barroso (STF) afirmou que “os critérios adotados pelo Tribunal para decidir os casos trazidos diante dele só prevalecerão até que o Congresso Nacional legisle, se e quando entender que deve legislar a respeito”.
Andreazza, em sua crítica, ressalta que “a função que se espera do STF não é a proatividade, isso considerando o equilíbrio republicano e as prerrogativas de cada Poder”. O colunista explica que a Corte poderia definir critérios de constitucionalidade, mas não normas para a lei. “Ele [o ministro Barroso] vai dizer como as plataformas devem se comportar, estabelecendo regras, o que não é papel no Supremo”, afirma.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), discordou da posição de Barroso e, nesta quinta-feira, 5, votou para manter a forma atual da lei, garantindo que responsabilidade das plataformas por publicações de usuários recaia apenas quando há descumprimento de decisões judiciais para remover conteúdos.
Os ministros Dias Toffoli e Luiz Fux já haviam votado defendendo punições para as empresas de tecnologia que não removerem publicações ofensivas imediatamente após a notificação dos usuários. Já Barroso considera que a exigência de ordem judicial para remoção de conteúdo deve continuar a valer, desde que as empresas melhorem seus sistemas internos de monitoramento.
De acordo com o Andreazza, o Supremo desvia de sua função ao tentar legislar sob a alegação de que o Parlamento é omisso. “O Parlamento pode se omitir, pode considerar, inclusive sob influencia de lobbys, que não há estrutura para ir além. A omissão parlamentar é um posição”, ele explica.
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Espetáculo não combate corrupção
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A aposentadoria compulsória do juiz federal Marcelo Bretas, decidida por unanimidade pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) na terça-feira passada, encerra de forma melancólica um capítulo sombrio da história do Poder Judiciário nacional. Como então juiz titular da 7.ª Vara Federal do Rio de Janeiro, o sr. Bretas foi um dos mais espalhafatosos expoentes da Operação Lava Jato, um dos magistrados que fizeram da toga uma capa de super-herói e exerceram o poder de que foram investidos pelo Estado confundindo justiça com justiçamento. Deu no que deu.
Em sua essência, a Lava Jato nasceu do legítimo anseio da sociedade brasileira por um Brasil mais íntegro e menos tolerante com a corrupção. Tratava-se, afinal, de ver materializado o princípio republicano fundamental, qual seja, a igualdade de todos perante a lei. Mas logo esse desejo de ver qualquer criminoso responder por seus atos, independentemente de seu status político e financeiro, foi traído pela personalidade vaidosa, pela sanha purgadora e pela parcialidade de autoridades como o sr. Bretas, mais do que em boa hora afastado da judicatura.
Do ponto de vista particular, o destino profissional de Marcelo Bretas é absolutamente irrelevante, em que pese o fato de ser uma vergonha para qualquer república digna do nome haver um Poder que “pune” seus membros malfeitores com o ócio remunerado. Entretanto, seu caso é exemplar não apenas pelo que revela sobre o mau juiz, mas pelo que diz sobre a erosão institucional causada por uma cruzada moral personalista. E quando a vaidade e os interesses pessoais de um magistrado se sobrepõem a seu compromisso com as leis e a Constituição, o Estado Democrático de Direito é a maior vítima.
A esta altura, com a Lava Jato morta e sepultada, já está mais do que comprovado que a espetacularização do combate à corrupção pode até servir para enriquecer alguns e alavancar a carreira política de outros, mas não presta para o País. Violações de direitos e garantias fundamentais praticadas por esses juízes justiceiros só produziram uma legião de condenados que hoje sentem-se autorizados a posar de vítimas diante de uma nação estupefata com a desfaçatez. Se jamais será eliminada, a corrupção pode muito bem ser reduzida com inteligência, estratégia, serenidade e espírito público – sem falar, evidentemente, no estrito cumprimento das leis.
O País precisa de instituições fortes, não de heróis, muito menos de heróis togados. De magistrados se espera seriedade e serenidade. O combate à corrupção é tarefa árdua e permanente que exige firmeza, técnica e compromisso inarredável com o devido processo legal. Quando essa missão é apropriada por atores movidos por ambições pessoais e sede de glória, não se fortalece a Justiça – perverte-se.
Ao fim e ao cabo, a conta desses desmandos recai sobre a legitimidade de todo o Poder Judiciário. E os cidadãos apenas assistem, atônitos, à desmoralização de causas que deveriam unir a sociedade de modo a propiciar a construção de um Brasil mais justo para todos, como o devido combate à corrupção.
Quando piada dá cadeia, salve-se quem puder
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A condenação de um comediante à prisão marca um ponto de inflexão alarmante na trajetória democrática brasileira. Mais do que um veredicto equivocado, é a expressão mais grotesca de uma tendência crescente: a criminalização do discurso incômodo sob o pretexto de proteger os vulneráveis. A toga virou armadura ideológica, e o Código Penal, instrumento de censura.
Léo Lins foi condenado a oito anos de cadeia e quase R$ 2 milhões em multas e indenizações, não por incitar violência ou praticar atos concretos de discriminação, mas por satirizar grupos sociais. Seu humor seria “preconceituoso”, “humilhante”, perigoso. Nada mais perigoso, no entanto, do que essa nova ortodoxia judicial que confunde o direito de não ser agredido com um suposto direito de não se sentir ofendido – e que torna o Judiciário tribunal moral, e o artista, réu político.
Uma das bases da condenação – a Lei 14.532/2023, apelidada “antipiada” – escancara o desatino. Ao prever aumento de pena quando a ofensa ocorre “com intuito de descontração, diversão ou recreação”, inverte um princípio liberal elementar: que o contexto artístico deve ser protegido, e não punido com mais rigor. Pior: cria uma categoria penal contra a liberdade artística. Uma aberração jurídica, incompatível com qualquer concepção madura de pluralismo.
Libertar o humor do arbítrio estatal não é capricho. É condição da liberdade. Desde Aristófanes até os criadores do Monty Python, Casseta & Planeta ou Porta dos Fundos, o humor sempre foi uma linguagem transgressora, perturbadora, essencial à crítica cultural, social e política. Como a arte, o humor lida com ambiguidades, exageros e contradições. Suprimir esse campo da linguagem é mutilar parte do espírito humano. Não cabe ao Estado decidir o que é engraçado – nem o que é tolerável.
As piadas de Lins são preconceituosas? E daí? A liberdade de expressão não existe para proteger discursos populares ou elegantes que não precisam de proteção, mas sim aquilo que desagrada, desafia convenções, irrita e até fere sensibilidades. Como ensinou Ronald Dworkin, reconhecer a liberdade de expressão é tratar os cidadãos não como crianças a serem tuteladas pelo Estado, mas como agentes morais autônomos, capazes de julgar ideias por si. Como advertiu John Stuart Mill, silenciar a opinião minoritária – mesmo quando absurda ou repulsiva – é roubar da sociedade a chance de confrontá-la, refutá-la e amadurecer com o embate.
O caso não é isolado. O Judiciário condenou jornalistas por divulgar com “linguagem sarcástica” dados públicos sobre salários de magistrados. Um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) mandou destruir livros com “conteúdo preconceituoso”. A Corte ameaça reescrever o Marco Civil da Internet, enquanto o governo Lula a pressiona a punir as redes sociais, atropelando o Legislativo. Tudo sob a retórica de proteção da democracia. Mas uma democracia que precisa censurar para se proteger não é uma democracia – é um simulacro.
Sob o manto das boas intenções, a sociedade brasileira flerta com duas tentações iliberais: a do Estado paternalista, que infantiliza o cidadão em nome de sua proteção, e a judicialização da vida moral, estética e cultural – como se todo dissenso precisasse ser solucionado pelo martelo do juiz criminal.
O Brasil precisa resistir a esse impulso regressivo e repressivo. Piadas ruins devem ser criticadas, e não criminalizadas. Discursos odiosos devem ser desmoralizados, e não aniquilados com prisão. O riso – inclusive o cruel, ácido, perturbador – é uma válvula essencial das sociedades livres. Retirá-lo do espaço público é sufocar a liberdade.
Como disse o historiador da liberdade de expressão Jacob Mchangama: “Combater ideias iliberais com leis iliberais só perpetua o iliberalismo”. A sentença contra Lins não protege os vulneráveis. Só os infantiliza. Não fortalece a democracia. Só expõe suas debilidades.
É hora de desfazer essa caricatura de Justiça e de revogar as leis grotescas que a sustentam. É hora de reafirmar que uma democracia em que o humor é tratado como crime não é uma democracia. Porque, no fundo, onde o riso é proibido, o pensar também está em risco.
Estadão Analisa: “Governo Lula e o desespero da desaprovação”
No “Estadão Analisa” desta sexta-feira, 06, Carlos Andreazza fala sobre desaprovação do Governo Lula. Segundo pesquisa da Genial/Quaest a aprovação ao governo federal segue em tendência de queda entre os menos escolarizados e famílias com menor renda.
Lula não conseguiu recuperar sua margem de aprovação entre nordestinos, um dos segmentos que apresentavam os melhores resultados de avaliação do petista. A aprovação ao governo está em tendência de queda entre os menos escolarizados e as famílias com menor renda. Também houve piora nos índices de aprovação entre beneficiários do Bolsa Família.
O levantamento mostra que a aprovação ao governo Lula atingiu o pior patamar numérico desde janeiro de 2023: são 57% os que desaprovam a gestão federal, enquanto 40% aprovam o mandato. Embora a percepção sobre a economia do País tenha melhorado, o escândalo dos descontos indevidos no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) agravou a imagem negativa do governo.
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Sobre o programa
Acompanhe Estadão Analisa com o colunista Carlos Andreazza, de segunda a sexta-feira às 7h, com uma curadoria dos temas mais relevantes do noticiário.
Pará dá exemplo ao criar modelo de financiamento a iniciativas ambientais
Por Editorial / O GLOBO
Sede da COP30, marcada para novembro em Belém, o Pará acaba de estabelecer regras para financiar seu Fundo Estadual de Meio Ambiente (Fema) que devem servir de exemplo a outros estados. Um conjunto de três leis destina a ações ambientais parte dos recursos arrecadados por taxas já existentes, cobradas sobre atividades que exploram recursos hídricos e minerais. Estima-se que o estado contará com R$ 1 bilhão a mais para tentar alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Agenda 2030 das Nações Unidas.
Uma lei complementar, chamada Lei de Responsabilidade Ambiental, determina “o adequado planejamento e transparência das políticas públicas ambientais, de bioeconomia”, por intermédio da “definição de metas, meios e resultados que assegurem a realização de ações e serviços públicos de meio ambiente e sustentabilidade”. Discrimina 19 ações e serviços a ser apoiados com os recursos — de capacitação de agentes públicos e modernização da gestão ambiental a redução do desmatamento ilegal e emissão de gases de efeito estufa no estado. O conjunto de leis abrange aspectos específicos da conservação, mas também mira objetivos mais amplos. “O grande mérito do pacote é que definitivamente apontamos uma solução de autofinanciamento para a agenda ambiental do estado”, afirma o governador Helder Barbalho (MDB). Tal solução está nas regras que asseguram percentuais fixos de impostos ao setor, “independentemente de política de governo”.
Irão para projetos ambientais 50% da Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das Atividades de Exploração e Aproveitamento de Recursos Hídricos (TFRH) e 10% da Taxa de Controle, Acompanhamento e Fiscalização das Atividades de Pesquisa, Lavra, Exploração e Aproveitamento de Recursos Minerários (TFRM). Terão o mesmo destino 30% das Transferências de Compensação Financeira pelo Uso de Recursos Naturais, royalties que a União paga a estados por projetos como a exploração mineral.
O mecanismo das taxas fortalece um princípio correto: o agente poluidor deve financiar as políticas ambientais. Outro aspecto positivo da destinação compulsória é permitir que os organismos ambientais tenham previsibilidade orçamentária e independência para executar ações de alcance duradouro, sem ficar restritos a problemas cotidianos. As leis aprovadas no Pará estão em linha com modelos modernos de financiamento, que buscam a sustentabilidade a longo prazo.
A fixação de metas para as diversas iniciativas, de acordo com lei complementar, é de grande importância para evitar a perda de foco. A vinculação de recursos ajuda na avaliação de resultados e na prestação de contas. Definidos os objetivos e garantidos os recursos, o governo do Pará precisará ter capacidade técnica e administrativa para formular políticas ambientais sólidas. A gestão pública continuará sendo fundamental.
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Impopularidade de Lula torna mais cara fatura no Congresso e afasta apoios para reeleição
Raphael Di Cunto / FOLHA DE SP
É recorrente ouvir nos corredores do Congresso que, hoje, poucos deputados e senadores têm coragem de postar uma foto com o presidente Lula (PT) em suas redes sociais, dada a impopularidade atual do petista, reforçada por pesquisas de opinião em série.
Desta vez, foi o levantamento da Quaest a apontar que a percepção negativa sobre a gestão permanece elevada, num momento em que o governo se vê às voltas com as crises do IOF e, principalmente, do INSS.
O medo de perder eleitores faz com que até parlamentares de partidos de esquerda hesitem em divulgar a aliança com o petista.
Há três dias, Lula participou da cerimônia que deu posse a João Campos na presidência do PSB e afirmou que, se continuar "bonitão", a "extrema direita não volta a governar esse país". Era natural que, após comparecer ao evento, Lula tivesse fotos e vídeos publicados pelos parlamentares da sigla nas redes, mas eles pareceram não concordar com o autoelogio.
Dos 15 deputados federais do PSB, só 4 postaram retratos ou falas do petista nas últimas semanas em seus feeds. Dos 4 senadores, 2 não publicam imagens do presidente há meses.
Se a vinculação ao governo afeta até os congressistas de esquerda, é no centrão que a impopularidade de Lula bate mais forte: a fatura para aprovar no Congresso as propostas de interesse do Planalto será cada vez mais alta, e as chances de apoio à reeleição parecem praticamente nulas.
MDB e PSD já não escondem que estão distantes da "frente ampla" pela reeleição. Seus líderes argumentam que apenas os políticos da região Nordeste topam essa foto.
Nos demais estados, a percepção é que estar ao lado de Lula na reeleição tirará votos e que não há motivo para impor esse desgaste quando a prioridade é fortalecer as bancadas na Câmara e no Senado.
Nos demais partidos de centro-direita e direita, a hesitação é maior e provoca momentos inusitados. Em abril, quando Lula jantou com líderes partidários, alguns políticos fugiram discretamente da lente do fotógrafo para não aparecer no registro do encontro. Nem o protagonista do livro "Onde Está Wally?" se escondeu tão bem.
A pesquisa Quaest desta quarta (4) acaba reforçando a falta de boa vontade dos políticos do centrão com o petista dentro do Congresso. Os dados mostram dificuldade de recuperação de Lula em seu pior momento, com 43% de avaliação negativa e apenas 26% de positiva. Em março, eram 41% a 27%. A margem de erro é de dois pontos.
No começo do ano, os motivos que levaram Lula a atingir o que os petistas esperavam ser o fundo do poço eram a inflação alta e a crise do Pix. Agora, a impressão sobre a alta dos preços dos alimentos e dos combustíveis caiu, o que pode até ser comemorado por eles, mas a fraude contra aposentados e os protestos de empresários contra a nova alta de impostos mantiveram o desgaste em patamar elevado.
No caso do INSS, o governo Lula foi incapaz de fazer a população acreditar na sua estratégia de jogar a culpa no governo Bolsonaro e assumir o papel de algoz dos malfeitores, responsável por devolver o dinheiro pilhado dos velhinhos. Para 31% dos eleitores, a culpa é, sim, da atual gestão. Apenas 8% atribuem a paternidade da fraude nos descontos à administração anterior.
Na crise do IOF, a população se mostra mais inclinada a apoiar os atores que defendem derrubar a alta do imposto do que enxergar mérito nos argumentos do governo, de que é necessário elevar novamente a arrecadação para o poder público não travar.
A pesquisa mostra que 50% dos entrevistados consideram o aumento do tributo um erro, embora só 39% tivessem conhecimento de que isso havia ocorrido quando foram questionados pelos entrevistadores.
A falta de apoio popular à iniciativa deixa o Palácio do Planalto e o Ministério da Fazenda em situação delicada para negociar as medidas compensatórias que permitam a Lula recuar da alta do imposto e, ao mesmo tempo, manter o patamar de despesas nos níveis pretendidos.
A maioria dos deputados e senadores não é de esquerda —é de centro-direita ou de direita. O que o petista tem a oferecer a eles?
As moedas de troca tradicionais já não têm o mesmo efeito dos governos anteriores. As emendas parlamentares são quase todas de pagamento obrigatório e em volume recorde. Os cargos nos ministérios e estatais ainda servem para alocar aliados políticos, mas o Orçamento próprio das pastas para entregar políticas públicas é mínimo.
Sobrava ao petista oferecer a vinculação à imagem de um governo e um presidente populares, em troca de apoio parlamentar. A um ano da eleição, não sobra mais.

