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Desejo e realidade

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em busca da popularidade perdida, e com os olhos cada vez mais postos nas eleições de 2026, o governo Lula da Silva lançou em março uma nova modalidade de crédito consignado que, muito se alardeou, baratearia o custo do dinheiro para a população.

 

No entanto, dados recém-divulgados pelo Banco Central demonstram que, por ora, o crédito a juros baixos para o brasileiro “sair da mão do agiota” ou “resolver grande parte dos seus problemas”, como enfatizou Lula da Silva, está longe de ser realidade.

 

De acordo com o mais recente relatório Estatísticas monetárias e de crédito, do Banco Central (BC), os juros anuais do crédito consignado para trabalhadores em regime CLT subiram 15,1 pontos porcentuais (p.p.) em abril em relação a março, chegando a 59%.

 

Abril foi o primeiro mês cheio de operação do novo consignado, lançado oficialmente no final de março sob o nome de “Crédito do Trabalhador”.

 

O chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha, afirmou que a alta nos juros do consignado “provavelmente” está relacionada com uma avaliação de crédito pior, por parte das instituições financeiras, do perfil de endividamento dos novos clientes da modalidade.

 

Faz todo sentido, já que, ao expandir a base potencial de clientes do consignado de 4 milhões para até 47 milhões de pessoas, expandem-se também os perfis de risco, que são determinantes para que os bancos estabeleçam as taxas de juros.

 

Desde o lançamento, em março, mais de R$ 13 bilhões do novo consignado já foram concedidos a cerca de 2,3 milhões de trabalhadores. As estimativas do potencial pleno dessa modalidade de crédito variam entre R$ 120 bilhões e R$ 300 bilhões.

 

Embora o “Crédito do Trabalhador” tenha arrancado com juros mensais médios de 3,6%, governo e bancos estão otimistas em relação ao recuo futuro dessas taxas porque, a partir de julho, parte dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) poderá a ser utilizada como garantia na contratação do consignado CLT.

 

Inicialmente, o governo quis usar o FGTS, que o trabalhador acumula compulsoriamente com remuneração irrisória, para forçar os bancos a aceitarem um teto nos juros do consignado – uma total aberração, tanto porque os juros, como comprovam os dados recentes, variam de acordo com o perfil de risco do tomador, como porque não faz sentido algum que o trabalhador não possa decidir como usar um fundo que lhe pertence.

 

A grita foi tanta que o governo teve de recuar. Ainda assim, caso não haja mudanças, em breve o trabalhador poderá utilizar 10% do saldo do FGTS, ou 100% da multa rescisória em caso de demissão, como garantia para a contratação do novo consignado.

 

Residem aí as esperanças do governo de que o juro para os endividados se livrarem dos agiotas ficará mais baixo. Se assim será, só o tempo dirá. A realidade, porém, é de juros reais elevadíssimos e de um governo que superestima os efeitos benéficos de suas medidas, enquanto a população recorre ao crédito para lidar com a realidade de um cotidiano caro e cada vez mais incerto.

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