Tarcisio erra na estratégia de radicalização
Por Merval Pereira / O GLOBO
O governador de São Paulo, Tarcisio de Freitas, está errando na estratégia, na minha avaliação. Quer garantir o apoio de Bolsonaro, que ele sabe não será elegível para 2026, e está fazendo tudo para que o ex-presidente o apoie, quando ficar convencido de que não vai disputar. Acredito que está errando na dose; pode estar ganhando apoio do bolsonarismo mais radical, mas perdendo o do eleitorado antipetista. Erra porque o bolsonarista radical não tem escolha; no segundo turno, vai votar nele.
Caso Bolsonaro parta para a decisão absurda de fazer uma chapa familiar, ou encabeçada por alguém da família - vai entrar na eleição com apoio minoritário, porque a direita terá outras opções no segundo turno, como algum dos governadores - aparentemente, Tarcisio não disputa contra Bolsonaro. Se ele vai para a direita radical e Lula vem para o centro, mais uma vez Lula será eleito pelo centro.
Não há possibilidade de Bolsonaro ganhar na radicalização. Tarcisio tinha – e digo tinha, porque está perdendo - importância porque era um candidato conservador, de direita mas não radical, e teria apoio do antipetismo. Do jeito que vai, está perdendo o grande apoio que poderia ter do centro-direita. Está indo muito para a radicalização e vai ficar numa bolha. Pode acabar sendo candidato à reeleição em São Paulo, onde é muito bem avaliado.
Brasil colhe na safra de 2025 o volume de grãos que só era previsto para 2029
Por Igor Savenhago / O ESTADÃO DE SP
Mário Sérgio Silvério cultiva mil hectares de grãos em Guaíra, interior de São Paulo. O principal produto é o milho, que ocupa 360 hectares de sequeiro e 640 irrigados. Parte dessa área é alternada com soja e feijão. A meta é, sempre que possível, realizar três safras por ano, o que era impensável em 1997, quando o sogro, com quem trabalhava, faleceu e Silvério assumiu os negócios. Na época, eram 90 hectares com soja, milho e arroz. E apenas uma colheita anual.
A história do agricultor ilustra o cenário das safras de grãos no Brasil, que batem recordes sucessivos. Na temporada 2024/25, a tendência se mantém. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que os produtores brasileiros deverão colocar no mercado 345,2 milhões de toneladas — alta de 15,6% sobre 2023/24.
A maior produção de grãos da história do Brasil deverá ser impulsionada por marcas inéditas em produtos como a soja, cuja previsão é crescer 15% em relação à safra anterior; o milho, com aumento projetado em 19%; o algodão, que deve ter incremento de 7%; o sorgo, com expectativa de salto de 23%; e o amendoim, que deve ter acréscimo de 45%, ultrapassando, pela primeira vez, 1 milhão de toneladas.
Números para além das projeções otimistas
Os números surpreendem até as perspectivas mais otimistas. Um documento com as projeções do agronegócio nacional elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em parceria com 13 entidades, entre elas a própria Conab, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), publicado em 2024, traçou previsões de produção de grãos para dez anos. Pelo levantamento, o Brasil produziria, em 2024/25, 319 milhões de toneladas. Um volume de quase 345 milhões, 8% acima da expectativa, só era previsto para 2028/29.
Fora dos grãos, um recorde de produção deverá ser registrado neste ano em produtos florestais — alta de pelo menos 11% em relação ao ano passado, segundo entidades do setor. Nos combustíveis, o etanol foi o maior já registrado, com 34,96 bilhões de litros no ciclo 2024/25 da cana-de-açúcar, encerrado em março — 4,06% acima da safra anterior. Já o biodiesel deve crescer 10% em 2025, chegando a 9,9 bilhões de litros.
As carnes também bateram recordes: em 2024, foram 10,2 milhões de toneladas de carne bovina, 14,2% a mais que em 2023; 13,6 milhões de toneladas de frango, avanço de 2,4%; e 5,3 milhões de toneladas de carne suína, alta de 1,2%. Para 2025, as projeções indicam novos crescimentos para o frango e os suínos. Apenas a bovina deve recuar levemente, por menor oferta de novilhas.
Exportações recordes também de carne
As vendas externas de carne pelo Brasil também foram as mais expressivas da história em 2024: 2,89 milhões de toneladas de bovina, 5,3 milhões de frango e 1,35 milhão de suína. Exceto o frango, que pode ter leve queda em 2025, motivada pelo caso de gripe aviária em granja comercial no Rio Grande do Sul em maio, as outras duas devem crescer — mesmo com a tarifa de 50% do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a carne bovina. Assim, o País deve manter a liderança nas exportações globais de carne.
Relatórios da BTG Pactual e da Cogo Inteligência em Agronegócio mostram como o Brasil virou um dos maiores exportadores mundiais em vários produtos do agronegócio, como a soja, que lidera as exportações, além de ser o terceiro maior exportador de milho, o segundo de etanol e o primeiro de algodão, café, açúcar, tabaco e suco de laranja.
O suco, café, algodão e couros bateram recordes de volume exportado no último ano-safra (julho 2024 a junho 2025). Soja e milho devem encerrar 2025 com os maiores volumes já embarcados: 109 milhões e 45 milhões de toneladas, respectivamente.
Somos um dos poucos países com a condição geográfica que temos, clima tropical e tecnologia, que nos permitiu desenvolver sistemas de plantio e variedades adaptadas à nossa realidade
José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro
Para os próximos anos, são esperados novos avanços no agro. Segundo o consultor José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro, o Brasil continuará respondendo às demandas globais por alimentos e energia, em curva ascendente. “Somos um dos poucos países com a condição geográfica que temos, clima tropical e tecnologia, que nos permitiu desenvolver sistemas de plantio e variedades adaptadas à nossa realidade”, diz. “Para os países que não conseguem atender suas necessidades, existem poucas alternativas para comprar além do Brasil.”
Ainda segundo ele, os produtores brasileiros conseguem atingir índices impressionantes, mesmo sem apoio governamental expressivo, o que é confirmado pelo relatório do BTG: segundo o documento, o Brasil é o quinto país do mundo com o agro menos subsidiado — o único com produção agrícola considerável à frente é a Argentina.
Crédito ainda é um desafio
O total de recursos para financiar um ciclo anual da produção agropecuária no Brasil está estimado por especialistas em R$ 1,3 trilhão. O valor anunciado pelo governo federal para o Plano Safra 2025/26 foi de R$ 605,2 bilhões — R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 89 bilhões para a familiar —, o que corresponde a pouco mais de 46% das necessidades. Esse fator se soma às dificuldades de acesso ao crédito no Brasil, que é caro e burocrático, segundo Hausknecht. E com um agravante: a ausência de políticas públicas eficazes voltadas ao seguro rural. Sem contar os entraves logísticos, que atrasam e oneram o escoamento.
Diante deste cenário, o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas, avalia que uma das principais dificuldades dos produtores para manter o ritmo de crescimento é equilibrar as contas. “Apesar dos aumentos de safra, o preço por unidade colhida vem caindo, o que até justifica o aumento em volume, como forma de compensar a perda de renda”.
Para Freitas, isso ajuda a explicar a elevação nas adesões de novos membros às cooperativas, de cerca de 10% ao ano. Tanto às agrícolas, que concentram cerca de 50% da colheita de grãos do País, quanto às de crédito, que podem responder, neste ano, segundo a OCB, por até 48% do total de crédito destinado ao agro, superando os valores liberados pelo governo.
Matheus Marino, presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus, uma das dez maiores cooperativas agrícolas do País, com presença em três Estados, concorda e acrescenta dois itens à lista de gargalos que o cooperativismo pode ajudar a enfrentar: a diversificação da lavoura — incentivando culturas como cacau e produtos de valor agregado, como azeite e vinho — e a sucessão no campo, como no caso de Silvério. “Precisamos garantir a continuidade dos negócios e, para isso, introduzir e envolver as novas gerações no agro, com tecnologia, escolas e auxílio jurídico”.

Mais um Orçamento ficcional
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O governo Lula da Silva enviou na semana passada ao Congresso sua proposta de Orçamento para o ano que vem, ato que representa mais um cumprimento formal de suas obrigações constitucionais do que um plano de voo consistente sobre receitas e despesas. Já faz algum tempo que a peça orçamentária mais parece ficção que realidade, e desta vez não foi diferente. Há, como sempre, muito otimismo com a possibilidade de obter recursos extraordinários e certa modéstia ao estimar os gastos da União, sobretudo num ano eleitoral, a ponto de a peça prever um superávit primário de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), equivalente a um saldo positivo de R$ 34,5 bilhões.
Na prática, no entanto, o Orçamento, já de saída, permite um déficit de R$ 23,3 bilhões, pois o governo poderá descontar R$ 57,8 bilhões em despesas que não serão contabilizadas nas regras fiscais, como uma parte dos precatórios, conforme decisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
A situação piora quando se considera que, para chegar a esse número, o governo contará com receitas incertas de quase R$ 146 bilhões. Nessa rubrica estão a arrecadação prevista com leilões de petróleo (R$ 31 bilhões), dividendos pagos por empresas estatais à União (R$ 54 bilhões), acordos de renegociação de dívidas de contribuintes (R$ 20 bilhões) e um corte de 10% em benefícios fiscais – medida que precisará do aval do Congresso para entrar em vigor. Não é preciso ser pessimista para colocar em xeque ao menos uma parte dessas ações.
O Executivo, até agora, não conseguiu nem aprovar uma medida provisória enviada em junho ao Congresso, com a qual prevê arrecadar R$ 20,87 bilhões. A proposta eleva a tributação sobre bets, acaba com a isenção de debêntures incentivadas de infraestrutura, Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e do Agronegócio (LCAs), aumenta a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) de fintechs e reduz as compensações tributárias.
Os benefícios fiscais concedidos pela União estão estimados em R$ 612 bilhões, mas obter apoio do Legislativo para reduzi-los de maneira linear e ampliar a arrecadação não será fácil. Alguns dos itens que lideram os gastos tributários estão fora do alcance da proposta, caso da Zona Franca de Manaus e do Simples Nacional.
Mas, para o governo, o projeto protocolado na sexta-feira passada pelo líder do governo na Câmara, José Guimarães (PT-CE), de certa forma já cumpriu seu principal objetivo. Embora não haja acordo para aprová-lo e haja outra proposta em negociação no Congresso, sua mera existência já permitiu ao Executivo incluir R$ 19,8 bilhões no Orçamento.
Quanto às despesas, basta dizer que o salário mínimo, piso para o pagamento de aposentadorias, pensões, abono salarial, seguro-desemprego e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), alguns dos principais gastos obrigatórios da União, deve aumentar 7,44%, de R$ 1.518 para R$ 1.631.
É improvável que deputados e senadores se deem por satisfeitos com a dotação de R$ 40,8 bilhões em emendas parlamentares e de R$ 1 bilhão para o Fundo Eleitoral. A título de comparação, a peça orçamentária deste ano reservou R$ 50,4 bilhões para emendas, bem mais que os R$ 38,9 bilhões que o governo havia previsto.
Esse valor diz respeito apenas a emendas individuais e de bancada estadual, mas não inclui as emendas de comissão, que substituíram as antigas emendas de relator e o chamado “orçamento secreto” e que devem chegar a R$ 12,1 bilhões. Da mesma forma, o Fundo Eleitoral de 2024, para o qual o governo havia previsto R$ 939,3 milhões, acabou ficando com R$ 4,9 bilhões – e isso apenas para as eleições municipais.
Em resumo, trata-se de uma proposta que reforça a incapacidade do arcabouço fiscal em limitar o avanço das despesas, reequilibrar o Orçamento, conter a trajetória da dívida pública, reduzir a inflação e criar condições para a redução dos juros no País. Também foi assim com o antigo teto de gastos, com a diferença de que a finada âncora fiscal vigorou por seis anos, e a expectativa é de que o arcabouço dure apenas quatro.
Fugir da regra fiscal não garante bons resultados
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_da025474c0c44edd99332dddb09cabe8/internal_photos/bs/2023/p/i/staeSiTym4OcXxrtfMKg/zeina-latif-800px.jpg)
Ações coordenadas e com bom uso da técnica deveriam ser mais frequentes. Como dar escala e replicar este modelo para outras áreas?
Temos um estado inchado, mas fraco, que falha em sua missão de prover serviços de qualidade e marcos jurídicos adequados ao desenvolvimento do país.
Para além da captura do estado por grupos organizados, vemos com frequência decisões na esfera pública que se desviam da racionalidade econômica e do objetivo de promover o bem-estar coletivo. Além disso, a falta de princípios meritocráticos na administração pública desestimula a busca por excelência.
Compõe o desastre a crise fiscal latente. Órgãos públicos são impactados pela falta de investimentos e de capital humano, comprometendo o cumprimento de sua missão. Com instituições enfraquecidas, os próprios servidores ficam mais vulneráveis a interferências externas indevidas.
Muitos especialistas apontam a fragilidade das agências reguladoras. São órgãos de estado carentes de capacidade técnica e de força institucional, elementos necessários para reduzir o risco de decisões arbitrárias e aumentar a blindagem contra pressões externas.
Há muita preocupação com instituições vitais ao bom funcionamento dos mercados. Há inclusive questionamentos ao desempenho da Comissão de Valores Mobiliários, autarquia cuja missão é regulamentar e fiscalizar segmentos do mercado financeiro. Há tempos se sabe do déficit de pessoal na CVM e, também, no Banco Central.
Como reação, vários órgãos buscam regras diferenciadas para elevar investimentos e recompor quadros, muitas vezes sem amparo técnico para isso e abusando da criatividade.
No caso do BC, a instituição almeja sua autonomia financeira, por meio da PEC 65/2023, que prevê, entre outras coisas, a utilização da receita de senhoriagem (emissão de moeda).
No ano passado, houve a tentativa de criação da Fundação IBGE+ como Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT), com personalidade jurídica de direito privado e sem fins lucrativos.
No final de 2024, a Advocacia-Geral da União (AGU), órgão que representa judicial e extrajudicialmente a União, decidiu se autodesignar como Instituição Científica, Tecnológica e de Inovação (ICT). O objetivo é ficar fora dos limites de gastos do arcabouço fiscal, conforme previsto na lei. Caberá ao Tribunal de Contas da União (TCU) julgar essa matéria.
O próprio TCU, responsável por fiscalizar a gestão das finanças públicas, baixou uma portaria se autodesignando uma ICT. Quem irá julgar a decisão do TCU?
O STF, por sua vez, legislando em causa própria, decidiu pela retirada do limite de gastos da regra fiscal a despesas pagas com receitas próprias do Judiciário. A decisão não só ampliou o espaço para gastos, como elevou seu patamar de partida, contrariando a recomendação de técnicos do governo. Ainda, a Corte rejeitou o recurso da AGU para excluir taxas relativas a custas processuais e emolumentos do cálculo da receita própria.
As agências reguladoras também pleiteiam utilizar recursos arrecadados para a sua gestão, por meio de um Projeto de Lei Complementar. Embora algumas demandas sejam legítimas, o corporativismo mora ao lado. São necessários mais recursos, mas não para todos.
Os atalhos pretendidos ferem o regime fiscal, podem envolver conflitos de interesse (por exemplo, com ações para aumentar a receita do órgão) e não garantem o bom uso do dinheiro público. E há muita revisão de políticas públicas a ser feita de modo a direcionar os recursos para atividades prioritárias de Estado.
Conta da incúria fiscal já chega para Lula
Por Editorial / O GLOBO
Começa a chegar a conta do populismo econômico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o que mostra a desaceleração do crescimento exposta nos últimos números do Produto Interno Bruto (PIB). Alavancar a expansão econômica com incentivos ao consumo e aumento desenfreado do gasto público é uma fórmula que já se mostrou equivocada no passado. Infelizmente o PT insiste em cometer os mesmos erros. Invariavelmente ela resulta em pressão inflacionária, e o Banco Central (BC) precisa aumentar os juros para tentar conter a alta dos preços. Quando isso acontece, não demora para a economia frear. São evidentes as limitações dessa política de voo curto. O esgotamento do modelo de crescimento era questão de tempo. Faltando pouco mais de um ano para a eleição presidencial de 2026, o cenário econômico se desenha mais desafiador para Lula que o imaginado.
O PIB cresceu 0,4% entre abril e junho, desaceleração forte ante o 1,3% registrado nos primeiros três meses do ano. O impulso da agropecuária perdeu fôlego e, para completar, os investimentos e o consumo sentiram o efeito dos juros altos. Depois de seis altas consecutivas, o investimento recuou 2,2%. O crescimento do consumo das famílias caiu à metade, para 0,5%. Tudo somado, a demanda doméstica (que também inclui consumo do governo) caiu 0,2% no segundo trimestre. Entre janeiro e março, crescera 1,2%.
Pródigo em gastança, o governo Lula deverá provocar, ao longo dos quatro anos de mandato, aumento de 10 pontos percentuais na dívida pública, que alcançará 82% do PIB no ano que vem, muito acima da média dos países emergentes. Regras fiscais frouxas e o emprego de artimanhas contábeis, como a retirada de despesas do cálculo das metas de ajuste, aumentam o buraco das contas públicas. Ao continuar estimulando a economia de todas as formas, o governo contribui para inflar as expectativas de inflação. Não havia alternativa para o BC a não ser o aperto monetário. De setembro do ano passado a junho, a taxa básica de juros, a Selic, sofreu sete aumentos consecutivos, de 10,5% para 15%. Quando os analistas passaram a acreditar na desaceleração do PIB, as previsões de alta de preços passaram a sugerir queda. Os dados do terceiro trimestre comprovam o acerto desse movimento.
O sucesso da política monetária não apaga os erros do governo, maior responsável por juros reais próximos de 10%. Julho registrou o maior índice de inadimplência das famílias brasileiras com renda de até três salários mínimos em mais de dois anos. Quatro em dez estão com dívidas em atraso, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Essas famílias são as mais afetadas pelo aumento do custo das dívidas. Também perdem com os ciclos de alta e baixa da economia provocados pela política centrada no curto prazo. Enquanto o governo não abandonar a crença de que gasto é vida, o crescimento sustentado do PIB continuará escapando dos brasileiros. É difícil, porém, acreditar que Lula resista à tentação de dobrar a aposta na gastança para aumentar suas chances na campanha à reeleição.
Ministério da Fazenda em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Desaceleração do PIB é necessária neste momento
Surpresa não foi a atividade econômica brasileira ter perdido ritmo no segundo trimestre deste ano, conforme divulgou o IBGE nesta terça-feira (2). Surpreendentes de fato foram sucessivos resultados positivos a partir de 2021, depois de superado o pior momento da pandemia de Covid-19.
Nesse período recente, o desempenho da produção e da renda superou as expectativas de analistas e o padrão de semiestagnação dos três anos anteriores à crise sanitária, que sucederam a recessão brutal de 2014-16 produzida por Dilma Rousseff (PT).
Não é que tenha havido algum milagre. É razoável supor que reformas como a trabalhista e novas regras para investimentos em infraestrutura, além de avanços tecnológicos, tenham contribuído para a melhora, embora ainda faltem estudos conclusivos a esse respeito. Mais claro, porém, é que a economia tem sido forçada além de sua capacidade.
Assim indica a persistência da inflação, que voltou a subir em 2024 e forçou o Banco Central a elevar seus juros de já excessivos 10,5%, há um ano, para os atuais e cavalares 15% anuais.
A aceleração dos preços, por usa vez, é decorrência previsível da ampliação de gastos públicos promovida no final do governo Jair Bolsonaro (PL) e radicalizada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes mesmo de sua posse.
A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%. A política monetária seria menos sufocante se tivesse a ajuda da política fiscal —mas Lula não quer ouvir falar em controle da despesa.
Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.
Assim, aumentam as chances de o BC iniciar mais rapidamente o corte dos juros, que hoje impõem peso descomunal sobre a dívida pública. Na atual gestão, os encargos financeiros do governo federal subiram de R$ 500 bilhões para R$ 840 bilhões ao ano. A diferença é suficiente para pagar dois anos do Bolsa Família.
O país incorreu, mais uma vez, no erro de usar o gasto público como um atalho para o crescimento econômico —que deve estar baseado em um bom ambiente para investimentos, criação de empregos e avanço da produtividade. A próxima administração herdará uma conta pesada.
Quanto mais se insistir na receita, piores serão os ajustes inevitáveis que estão por vir. As regras fiscais terão de ser revistas para conter uma dívida pública que caminha para 80% do PIB, e é melhor fazê-lo com inflação sob controle. A urgência de cortar gastos e elevar juros ao mesmo tempo gerou salto do desemprego e da pobreza dez anos atrás.

