Conta da incúria fiscal já chega para Lula
Por Editorial / O GLOBO
Começa a chegar a conta do populismo econômico do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É o que mostra a desaceleração do crescimento exposta nos últimos números do Produto Interno Bruto (PIB). Alavancar a expansão econômica com incentivos ao consumo e aumento desenfreado do gasto público é uma fórmula que já se mostrou equivocada no passado. Infelizmente o PT insiste em cometer os mesmos erros. Invariavelmente ela resulta em pressão inflacionária, e o Banco Central (BC) precisa aumentar os juros para tentar conter a alta dos preços. Quando isso acontece, não demora para a economia frear. São evidentes as limitações dessa política de voo curto. O esgotamento do modelo de crescimento era questão de tempo. Faltando pouco mais de um ano para a eleição presidencial de 2026, o cenário econômico se desenha mais desafiador para Lula que o imaginado.
O PIB cresceu 0,4% entre abril e junho, desaceleração forte ante o 1,3% registrado nos primeiros três meses do ano. O impulso da agropecuária perdeu fôlego e, para completar, os investimentos e o consumo sentiram o efeito dos juros altos. Depois de seis altas consecutivas, o investimento recuou 2,2%. O crescimento do consumo das famílias caiu à metade, para 0,5%. Tudo somado, a demanda doméstica (que também inclui consumo do governo) caiu 0,2% no segundo trimestre. Entre janeiro e março, crescera 1,2%.
Pródigo em gastança, o governo Lula deverá provocar, ao longo dos quatro anos de mandato, aumento de 10 pontos percentuais na dívida pública, que alcançará 82% do PIB no ano que vem, muito acima da média dos países emergentes. Regras fiscais frouxas e o emprego de artimanhas contábeis, como a retirada de despesas do cálculo das metas de ajuste, aumentam o buraco das contas públicas. Ao continuar estimulando a economia de todas as formas, o governo contribui para inflar as expectativas de inflação. Não havia alternativa para o BC a não ser o aperto monetário. De setembro do ano passado a junho, a taxa básica de juros, a Selic, sofreu sete aumentos consecutivos, de 10,5% para 15%. Quando os analistas passaram a acreditar na desaceleração do PIB, as previsões de alta de preços passaram a sugerir queda. Os dados do terceiro trimestre comprovam o acerto desse movimento.
O sucesso da política monetária não apaga os erros do governo, maior responsável por juros reais próximos de 10%. Julho registrou o maior índice de inadimplência das famílias brasileiras com renda de até três salários mínimos em mais de dois anos. Quatro em dez estão com dívidas em atraso, segundo a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo. Essas famílias são as mais afetadas pelo aumento do custo das dívidas. Também perdem com os ciclos de alta e baixa da economia provocados pela política centrada no curto prazo. Enquanto o governo não abandonar a crença de que gasto é vida, o crescimento sustentado do PIB continuará escapando dos brasileiros. É difícil, porém, acreditar que Lula resista à tentação de dobrar a aposta na gastança para aumentar suas chances na campanha à reeleição.
Ministério da Fazenda em Brasília — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

