De impedimento de Moraes a análise na 1ª instância: as estratégias das defesas para adiar julgamento da trama golpista
Por Daniel Gullino e Sarah Teófilo / o globo— Brasília
Ao longo da análise do processo da trama golpista, as defesas dos réus por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito buscaram, de diferentes maneiras, adiar o julgamento. Nesta terça-feira, tem início no Supremo Tribunal Federal (STF) a deliberação final sobre sete réus, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), acusados de tentativa de golpe.
A própria defesa do ex-presidente no ano passado pediu que o ministro Alexandre de Moraes fosse impedido de conduzir a apuração que ainda era realizada pela Polícia Federal (PF). Outros réus também pediram o mesmo. Na época, os advogados de Bolsonaro afirmaram que havia "manifesto impedimento" do magistrado "para a realização de qualquer ato processual" uma vez que haveria um "nítido interesse" pessoal do ministro no caso. A alegação foi levada ao colegiado da Corte, que negou o pedido.
Os advogados do ex-ministro Walter Braga Netto também tentaram o adiamento do julgamento ao pedir a Moraes a suspensão do interrogatório dos réus da ação penal da trama golpista. A defesa solicitou que as oitivas fossem realizadas apenas após os depoimentos de testemunhas de outros núcleos da investigação e também do acesso completo a todas as provas levantadas. O ministro negou o pedido, apontando que não havia "justificativa legal" nem "razoabilidade".
Em maio, a defesa do ex-presidente pediu ao STF o cancelamento das audiências para a tomada de depoimentos de testemunhas sobre a trama golpista, que começariam na semana seguinte. No requerimento, os advogados pediram a "concessão de prazo suficiente para que o conjunto probatório, que permaneceu fora do processo, seja analisado pela defesa". O ministro também negou, apontando que já havia dado acesso às provas coletadas.
A defesa do general Mário Fernandes, acusado por integrar outro núcleo da trama golpista e apontado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) como uma das lideranças operacionais da tentativa de golpe após as eleições de 2022, pediu ao STF que a análise da acusação fosse feita pela Justiça de primeira instância.
No pedido, feito em março, os advogados alegaram falta do requisito de foro privilegiado e apontaram para uma suposta arbitrariedade da Corte ao mudar o seu entendimento sobre o tema. O entendimento de Moraes, no entanto, é que o Supremo já confirmou a sua competência em julgar as ações relacionadas ao 8 de janeiro.
As defesas também alegaram mais de uma vez que houve uma tática por parte do relator chamada de "document dump”, termo jurídico que se refere ao fornecimento de um volume muito grande de documentos sem mostrar a conexão entre as provas, tampouco uma organização adequada. Os advogados, então, solicitaram mais prazo para análise do material probatório, mas nenhum pedido foi aceito pelo ministro relator.
Ao longo das audiências de testemunhas das ações penais da trama golpista, uma das estratégias adotadas pelas defesas dos réus dos principais núcleos foi contestar as provas apresentadas. As perguntas feitas pelos advogados, seja para as próprias testemunhas ou para as arroladas por outros alvos e pela acusação, indicaram um esforço para apontar brechas e possíveis erros na denúncia apresentada pela PGR.
A defesa de Bolsonaro não contestou que o ex-presidente discutiu a possibilidade de decretar Estado de Sítio ou de Defesa no país, instrumentos que, segundo a acusação, seriam usados para impedir a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O advogado Celso Vilardi disse, no entanto, que esses são dispositivos previstos na Constituição e que não havia elementos que mostrassem uma ação concreta que poderia configurar uma tentativa de golpe.
Os relatos dos ex-comandantes das Forças Armadas também foram alvo de indagações do advogado Demóstenes Torres, que defende o ex-chefe da Marinha Almir Garnier Santos. Após ouvir os depoimentos dos ex-comandantes do Exército, Freire Gomes, e da Aeronáutica, Baptista Junior, Demóstenes questionou, por exemplo, a versão de seu cliente, que disse ter colocado “tropas à disposição” do ex-presidente.
— Veja bem a incongruência temática. Os senhores discutiam institutos jurídicos. Como é que isso evoluiu para colocar tropas à disposição? — perguntou o advogado a Baptista Junior.
O brigadeiro sustentou sua versão ao dizer que não ficou sabendo “à toa” que a Marinha tem 14 mil fuzileiros. Já Freire Gomes, ao ser confrontado sobre o mesmo tema, disse ter visto as declarações de Garnier como uma “demonstração de respeito” do ex-chefe da Marinha ao então presidente da República. O general, contudo, confirmou o que havia dito à Polícia Federal, de que apenas ele e Baptista Junior haviam se posicionado de forma contrária às medidas cogitadas por Bolsonaro.
Afastamento
Uma das figuras mais próximas de Bolsonaro em seu governo foi o general Augusto Heleno, que comandou o Gabinete de Segurança Institucional (GSI), área responsável pela segurança do presidente e seus familiares. Perante a Justiça, a defesa do militar adotou a estratégia de apontar o afastamento de seu cliente dos demais réus da ação. Em vez de contestar provas ou se houve ou não uma tentativa de golpe, o advogado do general optou por tentar demonstrar que Heleno estava isolado dentro do governo e que, por essa razão, não teria como participar dessas articulações.
Ouvidos como testemunhas, quatro ex-subordinados de Heleno reconheceram esse distanciamento. Um deles, o coronel Amilton Coutinho, apontou que isso ocorreu após Bolsonaro se aproximar dos partidos do Centrão. Isso porque, na campanha de 2018, Heleno havia ironizado as legendas, ao cantar: “Se gritar, pega Centrão, não fica um”.
— A partir da aproximação do presidente com essa corrente majoritária (do Congresso), o general Heleno perdeu, vamos dizer assim, espaço no dia a dia na sala do presidente — relatou Coutinho.
Manifestação em Brasília reúne aliados de Bolsonaro na porta de condomínio às vésperas de julgamento
Por Redação / O ESTADÃO DE SP
Uma manifestação em apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ) aconteceu em Brasília na tarde deste domingo, 13. Os atos contaram com pessoas caminhando e também com uma carreata.
Além do apoio a Bolsonaro, os manifestantes também fizeram críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Muitos traziam bandeiras do Brasil ou se vestiam com suas cores.
Carlos Bolsonaro (PL-RJ), vereador na cidade do Rio de Janeiro e um dos filhos do ex-presidente esteve no protesto, segundo ele, “em apoio a Jair Bolsonaro e contra as covardias cometidas contra a Constituição”. Carlos ainda publicou um vídeo indicando que teria ido à manifestação sem chamar atenção, usando capacete em sua motocicleta.
A concentração inicial se deu na região da Torre de TV e, em seguida, uma carreta foi em direção à casa onde Bolsonaro cumpre prisão domiciliar, na região do Jardim Botânico.
“Nós viemos aqui hoje para dar uma força ao presidente Bolsonaro e espero que esse juiz tenha um pouco de senso, que o Bolsonaro não fez crime nenhum e ele julga o Bolsonaro livre no dia três. Nós estamos pedindo muito a Deus para que isso aconteça.”, disse o comerciante Pedro Carlos Sérgio Alcântara.
No sábado, Moraes ordenou novas medidas para reforçar a vigilância da área externa da residência de Bolsonaro. O ex-presidente cumpre prisão domiciliar desde o início de agosto e é monitorado por tornozeleira eletrônica.
“Esperamos que ele esteja elegível, que esse processo não leve à condenação dele e que seja absolvido.”, disse o aposentado Marcos, que não revelou o sobrenome.
Acusado de conspirar para permanecer no poder de forma autoritária após a derrota nas eleições de 2022 para Lula, Bolsonaro pode ser condenado a quase 40 anos de prisão.
Bolsonaro será julgado a partir desta terça
Como será o julgamento de Bolsonaro e outros sete réus da trama golpista no STF O julgamento de Jair Bolsonaro e outros sete réus da trama golpista será realizado a partir da próxima terça-feira, 2 de setembro, com sessões agendadas em cinco dias. O processo será conduzido pela Primeira Turma do STF, composta por Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cármen Lúcia e Luiz Fux. No primeiro dia serão ouvidos a Procuradoria-Geral da República e a defesa de cada um dos réus.

Rinha política nas agências
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Dois anos e oito meses após o início do mandato, o governo Lula da Silva corrigiu, enfim, o desfalque nos colegiados das agências reguladoras com a escolha de 24 novos diretores, no total. Passaram pelo crivo do Legislativo nomes para as autarquias que fiscalizam e regulam os mercados de energia elétrica, energia nuclear, petróleo, vigilância sanitária, telecomunicações, proteção de dados, aviação civil, saúde suplementar, águas e saneamento básico, mineração, transportes terrestres e transportes aquáticos.
Mas a indicação pelo Executivo e a aprovação pelo Senado dos nomes para completar as 11 diretorias está longe de solucionar a situação crítica das agências. Em primeiro lugar, é preciso frisar que as nomeações não foram resultado de avaliação criteriosa de saberes e experiência técnica. O que prevaleceu nas escolhas, como pôde ser acompanhado publicamente por intermináveis meses, foi a disputa de grupos políticos por influência e poder em diferentes setores econômicos.
Tivesse o governo preferência por indicações baseadas em critérios técnicos, as vagas por certo teriam sido preenchidas nos primeiros cem dias de governo, período em que é estabelecida a base de cada mandato. Mas é notório que a atuação dos órgãos de controle de atividades repassadas ao setor privado nunca esteve na lista de prioridades de Lula, e tão ou mais prejudicial do que ignorar, por período tão longo, os danos no funcionamento de diretorias incompletas é permitir – e até incentivar – a arena política formada em torno das agências.
A disputa escancarada envolveu ministros, senadores, deputados e ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) e serviu de palco para um toma lá, dá cá capitaneado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), munido do poder de levar ou não a pauta à votação, o que acabou ocorrendo depois de muita barganha.
O triste espetáculo foi mais um capítulo do desmantelamento das agências, alvo de sucateamento contínuo desde a gestão de Jair Bolsonaro, que inaugurou os cortes orçamentários substanciais nesses órgãos – alguns, ressalte-se, com receita própria capaz de bancar com folga os custos, não fosse a obrigatoriedade de envio dos recursos à Conta Única do Tesouro.
Agora, além da penúria orçamentária, um lote de projetos em avaliação no Congresso prevê mudanças na legislação das agências. Um deles, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 42/2024, de autoria do deputado Danilo Forte (União-CE), propõe que as agências reguladoras passem a ser fiscalizadas pela Câmara dos Deputados.
A submissão à Câmara vai contra a própria ideia de autonomia das agências, imposta justamente para bloquear interferências políticas e dar segurança jurídica aos investidores de cada setor. As decisões estritamente técnicas dos reguladores são essenciais para quem investe e também para quem utiliza serviços essenciais. As agências foram criadas para supervisionar a prestação de atividades e serviços públicos que passaram a ser prestados por operadoras privadas. Seu papel é preservar a concorrência do mercado, garantir a qualidade dos serviços e proteger os direitos dos usuários. Sua captura pelos políticos é um desastre para o País.
Judiciário precisa se afastar da política
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Não é de hoje que as Cortes Superiores, particularmente o Supremo Tribunal Federal (STF), têm sido percebidas como centros de ação política. Mas a desenvoltura com que alguns ministros passaram a transitar nos meios político e empresarial e a promiscuidade entre os interesses envolvidos nessas rodas têm adquirido contornos demasiadamente inapropriados até para o padrão de escracho dos poderosos deste país.
Há poucos dias, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, afirmou sem pejo algum que Jair Bolsonaro “tem grandes chances” de ser candidato à Presidência em 2026, malgrado estar inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Segundo o sr. Valdemar, a troca de comando no TSE – que, em agosto do ano que vem, passará a ser presidido pelo ministro Nunes Marques, indicado por Bolsonaro – abriria o caminho para a reversão da condenação do ex-presidente. É óbvio que se trata de um discurso para inflamar as hostes bolsonaristas. Porém, ainda que por vias tortas, a fala do capo do PL ilustra um problema gravíssimo: a percepção de que as mais altas instâncias do Judiciário são tribunais essencialmente políticos.
A inelegibilidade de Bolsonaro, vale lembrar, decorre de decisão colegiada do TSE, tomada com base em fatos e provas, não em preferências pessoais. A presidência da Corte Eleitoral não confere a seu titular o poder monocrático para anular julgamentos. Uma raposa como o sr. Valdemar sabe disso, mas ainda assim alimenta a vã esperança de que um só ministro irá reverter um caso juridicamente consolidado. Isso ocorre porque, em larga medida, o sistema político acostumou-se a tratar o STF e o TSE como Cortes abertas à barganha, não como tribunais que se limitam a aplicar as leis.
O mesmo se viu quando o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, intercedeu junto ao STF para que fosse devolvido o passaporte de Bolsonaro a fim de que o réu por tentativa de golpe de Estado, pasme o leitor, viajasse aos EUA para “negociar” com o presidente Donald Trump a reversão do tarifaço imposto ao Brasil. O pedido foi repelido, é claro, mas a mera iniciativa revela como mesmo autoridades de relevo, como o governador paulista, supõem natural recorrer ao STF como se fosse uma ouvidoria política, para não dizer um balcão de lamúrias.
Por sua vez, o decano do STF, Gilmar Mendes, jactou-se com a maior naturalidade do mundo de ser habitual interlocutor de políticos e empresários ao responder perguntas sobre a menção a seu nome em conversas entre Bolsonaro e seu filho Eduardo Bolsonaro, publicadas recentemente com autorização do STF. Onde já se viu um juiz considerar natural atuar como mediador político?
O presidente do STF, Luís Roberto Barroso, tem razão quando sustenta que a Constituição de 1988 conferiu à Corte um protagonismo político inescapável, assegurando-lhe a palavra final sobre temas que, em outros países, ficam restritos à concertação entre Executivo e Legislativo. Contudo, se esse é o desenho institucional brasileiro, o que se espera dos ministros é ainda mais comedimento, não menos. E o que se vê é o contrário: votos se transformaram em manifestos ideológicos; ministros buscam holofotes como siriris; eventos supostamente acadêmicos são pretexto para juízes tagarelarem sobre as mais variadas questões como se fossem políticos em exercício de mandato.
Um Judiciário que aceita esse papel – e com aparente gosto – torna-se alvo fácil de críticas nem sempre republicanas ou bem-intencionadas. A confiança da população na Justiça depende fundamentalmente da convicção de que ela se pauta exclusivamente pelas leis e pela Constituição, não por predileções partidárias. Nossa democracia não precisa de um STF militante, mas sim sereno, que fale menos e decida melhor. O País anseia por um Supremo que estimule mais a discrição de ministros como Edson Fachin ou Rosa Weber, ora aposentada.
É o caso de reafirmar o óbvio: o Judiciário não é arena política. Quanto mais os ministros reforçam essa caricatura, mais fragilizam a autoridade das Cortes Superiores e mais abrem espaço para a corrosão de sua legitimidade.
Lula abusa de seu poder
Por Notas & Informações / OESTADÃO DE SP
A certeza de que, em 2026, disputará uma eleição presidencial pela última vez em sua longuíssima vida política parece ter dado a Lula da Silva a ilusão de que ganhou um salvo-conduto para abusar da lei e da paciência dos brasileiros. Não ganhou, ao contrário do que ele pensa, mas para o demiurgo petista isso pouco importa, desde que possa agir e falar sem parar de acordo com suas intenções eleitorais. E assim ele tem extrapolado todos os limites aceitáveis ao converter a Presidência da República e os eventos oficiais em palanque permanente e transformar a posição de chefe de Estado em condição privilegiada para fazer o que realmente gosta: campanha eleitoral.
Como não governa, Lula faz comícios, disso já se sabe. Entretanto, o que o País tem visto neste ano é de outra ordem. Na mais recente reunião ministerial, por exemplo, momento em que, em tese, deveria discutir com auxiliares ideias e decisões restritas à esfera de governo, Lula transformou o Palácio do Planalto em arena eleitoral e sua fala de chefe de Estado em discurso de candidato. Citou nominalmente o provável principal adversário capaz de tomar-lhe a reeleição (o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas), como quem coloca o dedo em riste contra um inimigo a enfrentar, e levou seus ministros a vestir bonés com jeito e slogan de caráter eleitoral, convocando os auxiliares a uma tarefa de cunho claramente partidário. Como se sabe, ele e seus sabujos estão empolgados com a linha de conflito adotada pelo governo e pelo PT depois de amargar meses de impopularidade pelo vazio programático que marca o terceiro mandato.
Não foi o único episódio em modo campanha e, infelizmente, não será o último. Não há dia ou evento oficial sem que Lula deixe de fazer referência à sua condição de candidato nas próximas eleições – mesmo quando é para fingir que pode não levar tal ideia adiante, como se não tivesse passado os últimos 40 anos pensando apenas na próxima disputa eleitoral. Não deixou de fazê-lo nem sequer nos meses em que foi um presidiário condenado por corrupção em duas instâncias. Hoje, nos comícios em atos públicos – todos na condição de chefe de governo, convém insistir –, ele invariavelmente ignora abordagens administrativas e a busca efetiva de soluções para os muitos problemas do País, preferindo desancar adversários, repisar o mote patriótico do lulopetismo na campanha, difundir realizações do seu governo como quem reinventou o Brasil e incentivar a militância a aproveitar os bons ventos trazidos pelo tarifaço de Donald Trump.
É o exato contrário do que manda a liturgia do cargo de presidente, mas coerente com quem se enxerga acima do bem, do mal e da lei. Afinal, Lula não parece contente em ser apenas um enviado de Deus, com assim já se definiu, ou comparado a um novo messias, como também já se apresentou diversas vezes. Com alguma frequência perfila-se com grandes heróis da história nacional, de Tiradentes a Getúlio Vargas, de modo a ilustrar o quanto se sente como a personificação do povo e seus anseios. Esse panegírico só serve para mostrar que Lula é mesmo incorrigível, um vício de origem que se agravou com o iminente fim de sua carreira eleitoral. Em outubro de 2026, Lula terá 81 anos e até mesmo os petistas já se preparam para chegar o momento em que precisarão trabalhar sem seu campeão de votos, posto que o chefão passará a ser apenas uma inspiração ou um retrato na parede.
Mas antes que esse momento chegue – infortúnio da militância do PT e alívio de um Brasil que gostaria de ver a política brasileira sem as amarras da polarização entre o lulopetismo e o bolsonarismo –, convém ter cuidado. Recorde-se que o Tribunal Superior Eleitoral tornou Jair Bolsonaro inelegível porque enxergou abuso de poder na reunião do então presidente com embaixadores estrangeiros, em pleno Palácio da Alvorada. À época, Bolsonaro usou o encontro para deslegitimar o sistema eletrônico de votação. Hoje Lula usa as reuniões no Palácio do Planalto para deslegitimar outras coisas: a Presidência que exerce e as leis eleitorais que restringem seus delírios palanqueiros. Não há outro nome a chamar: abuso de poder.
Proliferação de motos ilegais exige ação determinada das autoridades
Por Editorial / O GLOBO
O cantor Tom Zé participava da gravação de um vídeo no bairro de Perdizes, Zona Oeste de São Paulo, quando um motociclista subiu na calçada e tomou o celular de quem filmava. Em fevereiro, depois da morte de um ciclista, foi presa em São Paulo Suedna Barbosa Carneiro, conhecida como Mainha do Crime, suspeita de chefiar uma quadrilha. Carona numa moto com placa adulterada, o assassino roubou o celular antes de desferir o tiro. Na casa dela, a polícia encontrou dez placas falsas. O mesmo grupo é acusado da morte de um delegado da Polícia Civil noutro roubo de celular.
Em evento no início do mês, o governador do estado, Tarcísio de Freitas (Republicanos), ao lado do prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), reconheceu que a cidade vive uma epidemia de crimes praticados por motociclistas. “É gente que adultera placas”, disse Tarcísio. Vendidas por até R$ 20, as peças falsas tomaram conta das ruas. Câmeras da Prefeitura flagram 185 ocorrências por dia. A placa BRA49CC é a mais frequente, com mais de 4.700 diferentes registros em um mês.
Governador e prefeito deveriam promover uma política de tolerância zero com essas fraudes. Andar com placa adulterada é crime de trânsito, não mera infração. As operações nas ruas exigem um contingente grande de policiais e não são infalíveis. Os locais das operações costumam vazar, e no caso de motociclistas taxas de fuga tendem a ser mais elevadas. Apesar disso, não há estratégia melhor para tirar de circulação as motos ilegais.
Para obter sucesso, as operações dependem de ações coordenadas. É preciso haver guinchos para o transporte, pátios para guardar os veículos apreendidos e leilões quando não forem retirados. É fundamental também insistir nas operações de fiscalização até que a incidência do crime caia. Por fim, as autoridades devem investir em campanhas de esclarecimento para ganhar apoio da opinião pública. Motos regulares serão paradas com mais frequência. Entregas talvez sofram com atrasos. Haverá engarrafamentos. Mas todos também são vítimas dos roubos perpetrados por criminosos montados em motos.
Tarcísio e Nunes reclamam do fim dos lacres nas placas a partir da implantação do modelo Mercosul em 2018. Prefeitura e governo estadual investem em motocicletas da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da Polícia Militar equipadas com câmeras, capazes de ler em segundos placas de outros veículos. Projeto aprovado na Câmara Municipal prevê bônus para a GCM por recuperação de moto roubada ou adulterada. Todas essas medidas ajudam, mas nenhuma substitui o corpo a corpo. Há motos ilegais demais, operações de fiscalização são críticas para apreendê-las e para prender quem se vale delas para praticar crimes.


