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Tarcísio cruzou o Rubicão

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

É difícil medir o impacto de um discurso na trajetória de um político no Brasil. Aqui, um cenário que parece consolidado hoje pode ser outro diametralmente oposto amanhã. Que dirá em pouco mais de um ano. Mas há momentos em que a palavra proferida torna-se tão eloquente por sua clareza que a eventual intenção de desdizê-la é muito difícil, se não impossível. Foi o que ocorreu no Sete de Setembro, na Av. Paulista. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, topou sujar sua imagem de moderado em troca de uma incerta bênção do réu Jair Bolsonaro à sua aventada candidatura à Presidência no ano que vem. Ao desferir ataques tão virulentos contra o Supremo Tribunal Federal (STF), e em particular o ministro Alexandre de Moraes, Tarcísio cruzou o Rubicão.

 

Em cima do carro de som, diante de uma plateia orgulhosa por desfraldar uma enorme bandeira dos EUA em plena data nacional brasileira, Tarcísio ecoou o infame discurso que Bolsonaro proferira naqueles mesmos dia e local quatro anos antes, quando o então presidente chamou Moraes de “canalha” e declarou que não cumpriria mais suas decisões. Com mais modos que seu padrinho boquirroto, Tarcísio fez o mesmo, dizendo que “ninguém aguenta mais a tirania de um ministro como Moraes”, acusando o STF de perseguir seu padrinho político e defendendo uma anistia “ampla e irrestrita” para os golpistas. A coroar esse discurso afinado para soar como música aos ouvidos de Bolsonaro, o governador paulista teve a audácia de dizer que não se pode mais “aceitar que nenhum ditador diga o que temos de fazer”, referindo-se, por óbvio, a Moraes.

 

Não foi um arroubo isolado. Dias antes, Tarcísio já havia dito que “não confia” na Justiça, um evidente ataque à institucionalidade democrática. O governador parece ignorar o fato de que, se há uma ação penal em curso contra Bolsonaro, por mais que alguns aspectos do processo possam ser criticados, é porque, antes, houve uma escalada golpista liderada pelo ex-presidente.

 

Bolsonaro não estaria sendo processado se tivesse conclamado seus seguidores acampados em frente aos quartéis a voltarem para casa; se não tivesse duvidado sistematicamente do processo eleitoral, sugerindo que sua derrota só poderia decorrer de fraude; se tivesse aceitado o resultado da eleição e passado a faixa a seu sucessor, Lula da Silva; e se não tivesse tentado envolver chefes militares numa trama de ruptura da ordem democrática “dentro das quatro linhas” da Constituição. E mais: caso se comportasse com um mínimo de respeito pelas regras democráticas, Bolsonaro não só não estaria preso e inelegível, como seria favorito na eleição presidencial de 2026. E ninguém estaria falando da “tirania” de Alexandre de Moraes.

 

Ao inverter a ordem lógica dos fatores, Tarcísio põe em xeque sua capacidade de dialogar com o Supremo, com os partidos que integram o centro político, com o setor produtivo nacional e, principalmente, com os eleitores moderados – justamente os que têm decidido as eleições presidenciais no País há pelo menos 30 anos.

 

A moderação, nesse sentido, era o capital político mais valioso de Tarcísio por seu potencial de reunir as forças de oposição ao lulopetismo – seja dos moderados, seja dos próprios bolsonaristas, que jamais deixarão de votar no candidato capaz de derrotar Lula. Mas, desde o domingo passado, o governador provavelmente terá de fazer um esforço redobrado para convencer parte considerável do eleitorado – supondo que queira fazê-lo – de que não disse o que disse em português cristalino.

 

Não era inevitável que fosse assim. O governador poderia ter alegado algum impedimento médico, como fez em outra ocasião, e faltado ao evento golpista da Av. Paulista. Uma vez que teve a imprudência de comparecer, poderia ter feito um discurso anódino, defendendo o que chama de “pacificação”, mas sem endossar as teses estapafúrdias de Bolsonaro nem muito menos atacar de forma antirrepublicana o STF. Ao optar pela via incendiária, Tarcísio deu a dimensão de sua aposta: humilhar-se para conquistar o coração do “mito” a qualquer preço.

 

Em política, até a reputação mais enxovalhada pode ser restaurada. Mas Tarcísio terá de se esforçar muito para se dizer democrata depois de seu discurso na Av. Paulista.

A mão pesada de Lula sobre a Vale

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

 

O governo Lula da Silva tem recorrido a métodos pouco republicanos para convencer a Vale a realizar investimentos considerados estratégicos pelo petista. A investida mais recente, segundo apurou o Estadão, é impor dificuldades ao processo de renovação da concessão das estradas de ferro Vitória-Minas e Carajás, utilizadas pela mineradora para escoar sua produção em Minas Gerais e no Pará, para “convencer” a companhia a assumir um dos trechos da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol) na Bahia.

 

Essa novela não começou hoje. Inicialmente, o que o governo Lula realmente queria era obrigar a Vale a se associar ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para adquirir a Bahia Mineração (Bamin), empresa gerida pela Eurasian Resources Group (ERG), com origem no Cazaquistão e sede em Luxemburgo. A Bamin é dona de uma mina de minério de ferro em Caetité (BA), de um dos trechos da Fiol cujo traçado passará pela região e de um terminal portuário em Ilhéus (BA), conhecido como Porto Sul, mas abandonou os projetos por falta de recursos.

 

A conclusão do complexo custaria ao menos R$ 30 bilhões e é tratada com prioridade pelo governo Lula, de olho nos louros eleitorais. Em primeiro lugar, porque ele foi originalmente lançado no âmbito da segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2), cujas obras não concluídas se tornaram uma obsessão do presidente Lula. Em segundo lugar, porque o projeto fica na Bahia, Estado que foi governado duas vezes pelo ministro da Casa Civil, Rui Costa, que é próximo dos ministros de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e dos Transportes, Renan Filho.

A pressão sobre a Vale era esperada, pois poucas empresas no País teriam condições de assumir um projeto dessa monta. Lula não sossegou enquanto não deu um jeito de remover o ex-presidente da companhia Eduardo Bartolomeo do cargo, e a Vale, já sob a direção de Gustavo Pimenta, se comprometeu a reavaliar a Bamin.

 

Novos estudos técnicos foram realizados, e os resultados reafirmaram o que a empresa já sabia: as jazidas de minério de ferro de Caetité não têm a mesma qualidade dos depósitos em Carajás (PA) e os investimentos na implantação na mina, na ferrovia e no porto não dariam o retorno financeiro que a empresa almeja. Em poucas palavras, a conta não fecha.

O governo Lula, no entanto, não desistiu e decidiu aumentar a pressão sobre a empresa. A proposta, agora, é que a Vale se comprometa a fazer investimentos somente na Fiol, da ordem de R$ 8 bilhões, em contrapartida à renovação das concessões de suas outras ferrovias, concluída no fim do governo Jair Bolsonaro. Do contrário, o Executivo já não descarta leiloar as ferrovias Vitória-Minas e Carajás e oferecê-las para um novo operador.

 

É de perguntar qual seria o interesse de uma mineradora em assumir uma infraestrutura que não utilizará para transportar sua produção. Também há dúvidas sobre que concessionária estaria disposta a assumir uma ferrovia que é utilizada quase que unicamente pela Vale. Faltaria ainda achar alguém disposto a investir ao menos R$ 5 bilhões na renovação do porto onde a ferrovia vai desembocar.

 

Para o governo Lula, no entanto, nada disso importa. O que conta é o discurso político segundo o qual o Executivo não deixará que a Vale se aproprie de ativos da União por um valor irrisório. É dessa forma beligerante que o governo federal negocia com uma das maiores empresas do País e uma das principais mineradoras do mundo.

 

A estratégia não é nova. Foi assim que Lula conseguiu derrubar, em 2011, o então presidente da Vale, Roger Agnelli, e “convencer” a direção da empresa a investir em siderurgia e fertilizantes em seu segundo mandato, negócios que deram prejuízo e dos quais a companhia saiu anos depois para finalmente se concentrar nas operações que lhe dão maior retorno e, em última instância, ao País, na forma de investimentos, empregos, exportações e crescimento.

 

Os anos passam, mas a motivação de Lula continua a mesma de sempre: o presidente nunca se conformou com a privatização da Vale e ainda acha que pode tratar a mineradora como se fosse uma faz-tudo do governo federal.

Próximo a veredito de Bolsonaro, The Guardian faz perfil de Moraes: ‘Juiz que inspira amor e ódio’

Por Raisa Toledo / O ESTADÃO DE SP

 

 

Em meio ao julgamento da trama golpista, o jornal britânico The Guardian publicou um perfil do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Ele é definido como um juiz que “inspira amor e ódio”, além de uma das “maiores e mais controversas celebridades” brasileiras, que lidera o julgamento “histórico” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

 

O jornal aponta que a atuação do “belicoso” e “musculoso” juiz desde a eleição do ex-presidente é o que o tornou um “herói para os progressistas” e uma “figura odiada para os devotos de Bolsonaro”.

 

O The Guardian lista que ele conduziu uma série de investigações relacionadas ao ex-presidente e seus aliados e bloqueou perfis de ativistas de extrema-direita nas redes sociais ao longo dos últimos anos.

 

Sobre acontecimentos mais recentes, o jornal usa o inquérito das fake news para mostrar que “até alguns progressistas se preocupam que Moraes pode ter ido além de sua autoridade constitucional em sua cruzada para defender a democracia”. ”O inquérito foi aberto há seis anos e ainda não está claro quando as investigações vão ser concluídas ou quem exatamente foi alvo e por qual motivo", diz.

 

O texto traça a trajetória acadêmica e profissional de Moraes até se tornar ministro da Justiça de Michel Temer (MDB), em 2016. Trechos mencionam o “currículo invejável” e perfil “workaholic” e lembram que ele escreveu um livro sobre direito constitucional “que vendeu centenas de milhares de cópias”.

 

“Hoje, muitos brasileiros de esquerda exaltam Moraes como o salvador da quinta maior democracia do mundo. Mas, durante seus dias de universidade, Moraes era um homem de direita”, destaca a publicação, lembrando a entrevista de um amigo de Moraes ao Le Monde em 2023. Floriano de Azevedo Marques Neto afirmou que “a última coisa que ele teria no quarto seria um pôster do Che (Guevara)!”.

 

Para dar o tom da dicotomia sobre a imagem do ministro do STF, o jornal menciona que o bilionário Elon Musk já se referiu a ele como “um ditador malvado fazendo cosplay de juiz” e conta a história do açougueiro Adauto Gomes Nascimento, de Belém (PA), que tatuou o rosto de Moraes na perna.

 

“Se tatuar o rosto de um juiz da Suprema Corte na perna parece uma decisão peculiar, o cenário político excepcional do Brasil ajuda a explicar a escolha”, diz o jornal.

Escrito por Igor Cavalcante e Marcos Moreira

POR REDAÇÃO DIARIO DO NORDESTE

 

O Itaú Unibancodemitiu cerca de mil funcionários nesta segunda-feira (8) por problemas na produtividade dos colaboradores, principalmente no regime híbrido e home office. A empresa usou a justificativa de incompatibilidades entre o registro do ponto e a atividade registrada nas plataformas de trabalho. A estimativa é do Sindicato dos Bancários.

 

A companhia alegou que as horas trabalhadas eram inferiores às registradas e que as demissões são "decorrentes de uma revisão criteriosa de condutas relacionadas ao trabalho remoto e registro de jornada". As informações são da Folha de S. Paulo.

Assim, o banco levou em consideração a produtividade dos colaborares para o desligamento. Segundo alguns deles, o banco não apresentou as métricas de telemetria que resultaram nas demissões. 

"Em alguns casos, foram identificados padrões incompatíveis com nossos princípios de confiança, que são inegociáveis para o banco. Essas decisões fazem parte de um processo de gestão responsável e têm como objetivo preservar nossa cultura e a relação de confiança que construímos com clientes, colaboradores e a sociedade", informou o Itaú.

O quadro de funcionários do banco tem, ao todo, aproximadamente 100 mil funcionários. Mesmo no regime híbrido e home office, é necessário bater ponto de entrada e saída.

Sindicato repudia demissão em massa

O Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região se pronunciou afirmando repudiar a demissão em massa dos profissionais.

"É inaceitável que uma instituição que registra lucros bilionários promova demissões em massa sob a justificativa de 'produtividade'. Os avanços tecnológicos e os ganhos decorrentes da digitalização poderiam ser revertidos em melhores condições de trabalho e em emprego decente. No entanto, enquanto os trabalhadores são sacrificados, os acionistas seguem acumulando ganhos recordes", disse o sindicato em nota.

A associação também demonstrou preocupação com a recolocação desses funcionários no mercado de trabalho.

"O sindicato seguirá cobrando do Itaú responsabilidade social, diálogo e compromisso com os trabalhadores e vai intensificar os protestos contra as demissões", finalizou.

itau

COMO A ousadia de imaginar o Brasil como solução global

Por Renata Piazzon / O ESTADÃO DE SP

 

 

Quando os mestres medievais se lançaram à construção das grandes catedrais da Europa, não sabiam quanto tempo levariam, quanto elas custariam ou se estariam vivos para ver o resultado. Ainda assim, começaram. Porque compreendiam que construíam algo maior que eles mesmos – obras de fé, cultura e pertencimento, erguidas por muitos e para muitos, que atravessaram séculos e moldaram identidades.

 

Séculos depois, outro projeto coletivo entraria para a história: o programa Apollo, com o ousado objetivo de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança. Ao anunciar essa missão, o presidente John F. Kennedy não prometia apenas um feito tecnológico. A partir de um chamado à cooperação entre governo, ciência, indústria e sociedade civil, ele propunha uma reorganização das prioridades nacionais. Era uma ambição clara, inspiradora e dotada de propósito.

Essas experiências, tão distintas e distantes no tempo, têm algo essencial em comum: o poder das missões. Missões que mobilizam múltiplos setores, que desafiam a inércia institucional e catalisam inovações. Elas não surgem para “corrigir falhas de mercado”, mas para criar novos mercados, orientados por desafios reais da sociedade.

 

Hoje, o enfrentamento da crise climática, da desigualdade estrutural e da erosão da confiança coletiva demandam justamente esse tipo de ousadia. Não basta esperar que as soluções emerjam espontaneamente da soma dos interesses individuais. É preciso definir rumos, fazer escolhas, tomar riscos. Estabelecer missões claras, capazes de provocar reações em cadeia, saltos tecnológicos e transformações institucionais.

 

É nesse ponto que o Brasil ganha relevância. Embora tenha desafios sociais e econômicos consideráveis, o país tem atributos para liderar um novo capítulo da história econômica global. Anfitrião da COP30 em Belém, o Brasil tem reafirmado seu papel como potência da biodiversidade, da restauração florestal, da energia limpa e da segurança alimentar. Além disso, nos últimos dois anos o País apresentou sinais reais de retomada. O desmatamento na Amazônia caiu mais de 50%. A pobreza extrema e o desemprego atingiram suas menores taxas históricas. A renda média subiu. A desigualdade recuou (o Brasil continua inegavelmente desigual, mas houve uma melhora recente da distribuição de renda), e o País saiu do Mapa da Fome da ONU. São avanços expressivos, mas que continuam sendo subestimados, dentro e fora do Brasil.

 

Como mostra o estudo O Brasil que o Brasil quer ser, mesmo diante de fatos positivos, permanece entre nós uma relutância em reconhecer nossas virtudes. É a velha síndrome do vira-lata, essa crença inconsciente de que somos sempre “menos” – menos capazes, menos confiáveis, menos prontos. Romper com esse padrão narrativo é parte da missão.

 

Um caminho poderoso para isso é recuperar e celebrar histórias que provem o contrário. É nesse sentido que iniciativas como o Amazônia Revelada, liderado pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, ganham dimensão estratégica e simbólica. Elas mostram que o Brasil que conhecemos é apenas uma camada de um território muito mais complexo e sofisticado. Por trás da floresta, há vestígios de civilizações milenares que manejavam ecossistemas com precisão, criavam redes de troca e produziam conhecimento. Não somos um país à margem da história: somos um centro de inteligência ancestral. Recontar essa história – pelo Brasil e para o Brasil – é fundamental para reconstruir nossa autoestima coletiva e projetar um futuro que não repita as exclusões do passado.

 

Essa consciência histórica não é apenas motivo de orgulho: é um lembrete de que temos, hoje, muitos elementos para exercer protagonismo global. Somos a maior democracia tropical do mundo. Temos a matriz energética mais limpa entre as grandes economias. Saberes tradicionais vivos, ciência de ponta, juventude criativa, tecnologias sociais sofisticadas. Somos guardiões da maior biodiversidade do planeta. E o mundo precisa do que temos: para alimentar, para energizar, para regenerar.

Essa não é uma missão abstrata, mas uma resposta a necessidades concretas e urgentes. As demandas globais estão bem definidas: aumentar em 50% a produção de alimentos até 2050 sem ampliar a fronteira agrícola; triplicar a capacidade instalada de energias renováveis nesta década; e restaurar, anualmente, milhões de hectares de ecossistemas para conter a perda de biodiversidade e o avanço do aquecimento global.

 

E é justamente nesse ponto que o Brasil pode transformar discurso em prática. Já estamos respondendo a cada um desses desafios: sistemas integrados de produção que triplicam a produtividade por hectare na agricultura tropical; liderança mundial em energia eólica e solar de baixo custo, somada ao etanol e ao biogás; e tecnologias de restauração florestal que combinam ciência, saberes tradicionais e geração de renda para comunidades locais. Em vez de oferecer promessas vagas, podemos apresentar ao mundo casos replicáveis, escaláveis e economicamente viáveis, capazes de conciliar prosperidade econômica e integridade ambiental.

 

O desafio, no entanto, é que avanços isolados não bastam. Para que esse potencial se sustente e se amplifique, precisamos transformá-lo em projeto de país. Isso significa assumir uma nova mentalidade, que compreenda o papel do Estado não como freio da inovação, mas como seu motor; que veja a cooperação entre setores como vantagem competitiva; que estabeleça objetivos de longo prazo orientados pelo bem comum. Que permita o erro, o experimento, a reinvenção. E que valorize a imaginação como um ativo estratégico.

 

Como no programa Apollo, as soluções que o planeta precisa não surgirão de abordagens fragmentadas. Precisamos de uma nova narrativa pública, de um pacto intergeracional, de uma ambição institucionalizada. Precisamos construir nossas catedrais do século XXI – em rede, com escuta, com propósito. Projetos que unam governos, comunidades, empresas, universidades e artistas em torno de um futuro desejável e compartilhado.

 

A COP30 é a nossa chance de inaugurar esse novo tempo. Precisamos fazer dela um marco referencial – não apenas pela sua dimensão diplomática, mas porque pode consolidar o Brasil como ponto de virada na transição global para a sustentabilidade. Esse é o momento de mostrar ao mundo que somos mais do que detentores de florestas e biodiversidade: somos capazes de liderar uma agenda de soluções, de prosperidade compartilhada e de futuro comum.

 

O mundo está em busca de novos faróis. E o Brasil pode e deve ser um deles. Para isso, precisamos deixar de pedir licença para existir e aprender a falar bem do Brasil pelo Brasil.

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Opinião por Renata Piazzon

Diretora-geral do Instituto Arapyaú e representante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável (CDESS)

A patrulha do bem

A reforma tributária, que deveria ser uma simplificação da arrecadação no Brasil, favorecendo a produção e o desenvolvimento nacional, desobrigando empresas a prestar obediência a um cipoal de leis, decretos e portarias dos mais diferentes tipos, ganhou uma dimensão fundamentalmente arrecadatória. Procura-se a aumentar a tributação mediante os mais diferentes tipos de subterfúgios, como é o caso do dito Imposto Seletivo. Pior ainda, esse último aparece revestido sob a ideia iluminada de que estaria fazendo o bem às pessoas, procurando impor-lhes um comportamento determinado e, mesmo, formas de pensar. Quem pensar ou se comportar diferentemente seria “desviante” ou “nocivo”, para si mesmo e os outros. Imposto deveria ser tributação de renda, e não prescrição de comportamentos “bons” e “saudáveis”.

 

Estados democráticos estão fundados na liberdade de ação e de pensamento, baseados na concepção de que tudo que não for prejudicial deve ser permitido, salvo, evidentemente, ataques à ordem pública, à segurança pessoal e patrimonial das pessoas, seus bens e a proteção da família e dos seus. Não podem as pessoas ser tolhidas por um emaranhado de regras que visam a coibir, favorecer ou desfavorecer certos comportamentos arbitrariamente tidos por “nocivos” ou “maléficos”. A liberdade tem sempre os seus inconvenientes que deveriam ser contidos por uma boa regulamentação, que não afete o exercício da liberdade de escolha.

 

Em todo caso, considerações de ordem moral e inclusive sanitária são particularmente prejudiciais à sociedade quando procuram impor, via regulamentação estatal, leis proibitivas derivadas de uma concepção do bem, conduzida por um grupo de pessoas. Tudo o que não ponha o Estado em perigo, atentando à segurança dos indivíduos, deveria ser permitido. A sua determinação é negativa, por assim dizer, o da não proibição por princípio, e não a da sua imposição graças a uma noção determinada e particular do bem. Estaríamos aqui diante de uma concepção moral e religiosa, apesar de se apresentar como laica. Tem todos os seus componentes, embora sob disfarces.

 

O Imposto Seletivo pretende impor uma determinada noção do bem via tributação sobre bebidas alcoólicas, açucaradas, cigarros e qualquer produto que venha a ser considerado como “nocivo” à saúde. Isto apesar de tais atividades empresariais serem constitucionalmente asseguradas, além de pagarem impostos “não seletivos”. Seria uma espécie de bitributação moralmente e religiosamente justificada. Ora, o que é considerado nocivo ou não deveria ser única e exclusivamente fruto da escolha individual, de pessoas livres que sabem o que é melhor para si. No entanto, por intermédio do Imposto “Seletivo”, procura-se obrigar determinados comportamentos, tidos, então, por “virtuosos”. Seus defensores e ideólogos deveriam ser mais bem tidos por “patrulheiros do bem”.

 

Spinoza, em seu Tratado Teológico-Político, é bastante incisivo a esse respeito, ganhando particular atualidade. Chega ele a escrever que “querer regulamentar tudo por leis é irritar os vícios, e não corrigi-los”. O efeito alcançado não é, então, o pretendido, suscitando vontade de maiores transgressões e a não admissão de imposições estatais. Dentre suas consequências, provocando comportamentos não virtuosos, destaquem-se os decorrentes do contrabando, do mercado ilegal, a evasão de impostos, o desemprego em empresas afetadas, e assim por diante. Ou ainda, “o que não se pode proibir, deve-se necessariamente permitir, a despeito do dano que possa resultar”. Pergunta-se ele: “Não há males que têm a sua origem no luxo, na inveja, na bebedeira e coisas semelhantes?”.

 

Acontece que tais comportamentos são inerentes à natureza humana. As pessoas procuram naturalmente o prazer, a satisfação dos desejos, o atendimento de seus interesses particulares, a sua liberdade de escolha ao atingir os seus objetivos, conforme o que cada um considera como o seu bem. Cabe ao Estado assegurar que não tenham medo nessa busca individual e não prescrever certos comportamentos. Em seus extremos, já vimos como Estados totalitários, comunistas e nazistas, ao levarem a cabo tal projeto, provocaram os maiores horrores, pervertendo a natureza humana.

 

Spinoza temia que a tentativa de corrigir os vícios levaria o Estado a procurar o controle de pensamentos, coibindo, senão proibindo, a liberdade de expressão, algo extremamente prejudicial às ciências e às artes. Isso já está ocorrendo no Brasil mediante a imposição de determinados pensamentos como corretos e outros não, sob o controle autoritário do politicamente correto e do “despensamento” woke. Pessoas passam a ter medo de expressar suas opiniões sob pena de incorrerem em ações judiciais e em eventuais consequências em penas e punições, isto é, formas jurídicas e policiais de “comportamentos morais”, tidos por “justos” e “saudáveis”. E hoje não faltam patrulheiros politicamente motivados. É o retrocesso das liberdades.

 

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Opinião por Denis Lerrer Rosenfield

Professor de Filosofia na UFRGS, Denis Lerrer Rosenfield escreve quinzenalmente na seção Espaço Aberto

 
 
 
 
 
 
 

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