Luta de classes
Gustavo Franco / O GLOBO
Acho que os próximos 30 anos serão melhores que os anteriores. Minha justificativa é que vamos ter mais atenção com a luta de classes, mas não esta que o PT enxerga com sua única referência, mas outra, menos falada, a luta entre jovens e velhos.
Se você acha que não existe essa luta, você não entendeu o que é a dívida pública. É simples. Pense como David Ricardo, um dos fundadores da economia: a dívida de hoje é o imposto de amanhã.
Agora reflita: quem você acha que vai pagar a dívida pública (de R$ 9 trilhões)?
Os velhos de hoje são como gastadores compulsivos que não podem esperar. Sua impaciência resulta em endividamento: gastar agora o dinheiro que não existe, significa sacar sobre o futuro.
Quando chegar a hora de pagar, os velhos serão os jovens de agora, talvez tentados a pedalar as dívidas para os jovens de mais adiante. Esse círculo vicioso será a luta que vai dominar a agenda dos próximos 30 anos, como a inflação foi a dos últimos 50.
Acho que vamos navegar bem nesse assunto, em razão dos aprendizados da luta contra a hiperinflação. Nossos jovens ficaram mais adultos. Por ora, todavia, a dívida vai crescendo, e os jovens não parecem se importar.
O fato é que os jovens são os que fumam, usam drogas e tomam riscos absurdos, tudo em comparação com gente mais experiente.
Não é racional, como explicava um velho professor meu, na faculdade de economia. Ao fumar — dizia ele, olhando para nós, fumantes perplexos (todos fumavam nos anos 1980), vocês estão abreviando a fase mais rentável de sua vida laboral — pois vão se aposentar, e morrer, mais cedo —, literalmente jogando dinheiro fora. Vocês não sabem fazer conta?
Eu acho que vamos aprender, especialmente no contexto de uma reforma no Orçamento. É difícil convencer os jovens a abandonar o “vape”, assim como fazer avançar a responsabilidade fiscal em país tão ansioso.
Mas as chances são boas para os próximos 30 anos.
Já temos um incentivo natural à responsabilidade fiscal na taxa de juros, que é o preço para antecipar as coisas. É uma descoberta recente: o juro alto eleva o custo da afobação, entendida como o consumo presente em detrimento do futuro. O juro é exatamente esse “detrimento”, a relação de troca entre o hoje e o amanhã.
Isso nós aprendemos, ou estamos perto de aprender: o juro alto no Brasil reflete a desarrumação fiscal, que esse governo mais se empenha em ocultar que combater.
Mas este é só o primeiro de seis governos que vamos ter nos próximos 30 anos.
A ousadia de imaginar o Brasil como solução global
Por Renata Piazzon / O ESTADÃO DE SP
Quando os mestres medievais se lançaram à construção das grandes catedrais da Europa, não sabiam quanto tempo levariam, quanto elas custariam ou se estariam vivos para ver o resultado. Ainda assim, começaram. Porque compreendiam que construíam algo maior que eles mesmos – obras de fé, cultura e pertencimento, erguidas por muitos e para muitos, que atravessaram séculos e moldaram identidades.
Séculos depois, outro projeto coletivo entraria para a história: o programa Apollo, com o ousado objetivo de levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança. Ao anunciar essa missão, o presidente John F. Kennedy não prometia apenas um feito tecnológico. A partir de um chamado à cooperação entre governo, ciência, indústria e sociedade civil, ele propunha uma reorganização das prioridades nacionais. Era uma ambição clara, inspiradora e dotada de propósito.
Essas experiências, tão distintas e distantes no tempo, têm algo essencial em comum: o poder das missões. Missões que mobilizam múltiplos setores, que desafiam a inércia institucional e catalisam inovações. Elas não surgem para “corrigir falhas de mercado”, mas para criar novos mercados, orientados por desafios reais da sociedade.
Hoje, o enfrentamento da crise climática, da desigualdade estrutural e da erosão da confiança coletiva demandam justamente esse tipo de ousadia. Não basta esperar que as soluções emerjam espontaneamente da soma dos interesses individuais. É preciso definir rumos, fazer escolhas, tomar riscos. Estabelecer missões claras, capazes de provocar reações em cadeia, saltos tecnológicos e transformações institucionais.
É nesse ponto que o Brasil ganha relevância. Embora tenha desafios sociais e econômicos consideráveis, o país tem atributos para liderar um novo capítulo da história econômica global. Anfitrião da COP30 em Belém, o Brasil tem reafirmado seu papel como potência da biodiversidade, da restauração florestal, da energia limpa e da segurança alimentar. Além disso, nos últimos dois anos o País apresentou sinais reais de retomada. O desmatamento na Amazônia caiu mais de 50%. A pobreza extrema e o desemprego atingiram suas menores taxas históricas. A renda média subiu. A desigualdade recuou (o Brasil continua inegavelmente desigual, mas houve uma melhora recente da distribuição de renda), e o País saiu do Mapa da Fome da ONU. São avanços expressivos, mas que continuam sendo subestimados, dentro e fora do Brasil.
Como mostra o estudo O Brasil que o Brasil quer ser, mesmo diante de fatos positivos, permanece entre nós uma relutância em reconhecer nossas virtudes. É a velha síndrome do vira-lata, essa crença inconsciente de que somos sempre “menos” – menos capazes, menos confiáveis, menos prontos. Romper com esse padrão narrativo é parte da missão.
Um caminho poderoso para isso é recuperar e celebrar histórias que provem o contrário. É nesse sentido que iniciativas como o Amazônia Revelada, liderado pelo arqueólogo Eduardo Góes Neves, ganham dimensão estratégica e simbólica. Elas mostram que o Brasil que conhecemos é apenas uma camada de um território muito mais complexo e sofisticado. Por trás da floresta, há vestígios de civilizações milenares que manejavam ecossistemas com precisão, criavam redes de troca e produziam conhecimento. Não somos um país à margem da história: somos um centro de inteligência ancestral. Recontar essa história – pelo Brasil e para o Brasil – é fundamental para reconstruir nossa autoestima coletiva e projetar um futuro que não repita as exclusões do passado.
Essa consciência histórica não é apenas motivo de orgulho: é um lembrete de que temos, hoje, muitos elementos para exercer protagonismo global. Somos a maior democracia tropical do mundo. Temos a matriz energética mais limpa entre as grandes economias. Saberes tradicionais vivos, ciência de ponta, juventude criativa, tecnologias sociais sofisticadas. Somos guardiões da maior biodiversidade do planeta. E o mundo precisa do que temos: para alimentar, para energizar, para regenerar.
Essa não é uma missão abstrata, mas uma resposta a necessidades concretas e urgentes. As demandas globais estão bem definidas: aumentar em 50% a produção de alimentos até 2050 sem ampliar a fronteira agrícola; triplicar a capacidade instalada de energias renováveis nesta década; e restaurar, anualmente, milhões de hectares de ecossistemas para conter a perda de biodiversidade e o avanço do aquecimento global.
E é justamente nesse ponto que o Brasil pode transformar discurso em prática. Já estamos respondendo a cada um desses desafios: sistemas integrados de produção que triplicam a produtividade por hectare na agricultura tropical; liderança mundial em energia eólica e solar de baixo custo, somada ao etanol e ao biogás; e tecnologias de restauração florestal que combinam ciência, saberes tradicionais e geração de renda para comunidades locais. Em vez de oferecer promessas vagas, podemos apresentar ao mundo casos replicáveis, escaláveis e economicamente viáveis, capazes de conciliar prosperidade econômica e integridade ambiental.
O desafio, no entanto, é que avanços isolados não bastam. Para que esse potencial se sustente e se amplifique, precisamos transformá-lo em projeto de país. Isso significa assumir uma nova mentalidade, que compreenda o papel do Estado não como freio da inovação, mas como seu motor; que veja a cooperação entre setores como vantagem competitiva; que estabeleça objetivos de longo prazo orientados pelo bem comum. Que permita o erro, o experimento, a reinvenção. E que valorize a imaginação como um ativo estratégico.
Como no programa Apollo, as soluções que o planeta precisa não surgirão de abordagens fragmentadas. Precisamos de uma nova narrativa pública, de um pacto intergeracional, de uma ambição institucionalizada. Precisamos construir nossas catedrais do século XXI – em rede, com escuta, com propósito. Projetos que unam governos, comunidades, empresas, universidades e artistas em torno de um futuro desejável e compartilhado.
A COP30 é a nossa chance de inaugurar esse novo tempo. Precisamos fazer dela um marco referencial – não apenas pela sua dimensão diplomática, mas porque pode consolidar o Brasil como ponto de virada na transição global para a sustentabilidade. Esse é o momento de mostrar ao mundo que somos mais do que detentores de florestas e biodiversidade: somos capazes de liderar uma agenda de soluções, de prosperidade compartilhada e de futuro comum.
O mundo está em busca de novos faróis. E o Brasil pode e deve ser um deles. Para isso, precisamos deixar de pedir licença para existir e aprender a falar bem do Brasil pelo Brasil.
Se um dia fomos capazes de chegar à Lua, podemos – e devemos – habitar melhor a Terra. E o Brasil pode ser o lugar onde essa nova missão começa.
Porteira aberta para o crime
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
No mesmo dia em que três operações simultâneas da Polícia Federal revelaram a infiltração do crime organizado no setor financeiro formal, a Secretaria da Receita Federal anunciou uma nova regulação das fintechs, empresas que oferecem serviços financeiros de pagamento, crédito e investimentos, mas não são classificadas como bancos. Em questão de horas, o Diário Oficial da União publicava a nova instrução normativa que submete todas essas operações aos mesmos controle e fiscalização aplicados ao sistema bancário.
Obviamente, não foi coincidência, assim como também não foi por acaso o destaque explícito, no texto da nova norma, ao caráter de combate ao crime embutido na medida, “inclusive aqueles relacionados ao crime organizado, em especial a lavagem ou ocultação de dinheiro e fraudes”. Restou evidente a preocupação do governo em evitar a repetição do estrago causado pela “crise do Pix”, ainda fresco na memória de todos, durante a tentativa anterior de criar exigências regulatórias para essas instituições, que se multiplicaram extraordinariamente em menos de dez anos.
De acordo com as estatísticas do Banco Central, em 2016 apenas uma instituição de pagamento tinha autorização para operar; em 2020, ano de criação do Pix, o total passou a 26; em dezembro do ano passado, chegou a 173; e, em junho deste ano, já somava 189, a maioria (129) sediada em São Paulo, o maior centro financeiro do País. Esse tipo de empresa surgiu mundialmente depois de 2008, quando a queda do Lehman Brothers, nos Estados Unidos, colocou em xeque os bancos e desencadeou a maior crise financeira mundial desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929.
O avanço tecnológico e digital facilitou a rápida expansão dos meios automáticos de pagamento. Em 2013, o Banco Central abriu o mercado de pagamentos e carteiras digitais e não demorou a surgirem empresas especializadas em emissão de moeda eletrônica, por meio de cartão de débito, maquininhas para pagamento e até cartão de crédito. Para o grande público, elas parecem bancos, muitas têm nomes que remetem a bancos, mas não são bancos. São empresas exclusivamente digitais, que não podem, como os bancos, usar dinheiro de seus clientes para conceder empréstimos e não dispõem da proteção do Fundo Garantidor de Créditos, do Sistema Financeiro Nacional.
Trouxeram a vantagem do acesso a meios eletrônicos de pagamentos a uma população historicamente excluída do universo bancário, ainda que seja incorreto falar em aumento da “bancarização”, já que não são instituições bancárias. A popularização estrondosa do Pix, contudo, criou essa impressão, para o bem e para o mal. Hoje, de acordo com o Banco Central, 937 instituições participam do sistema de pagamento por Pix e outras 35 estão em processo de adesão. Um sucesso inquestionável, que despertou a rivalidade das multinacionais do crédito e, inclusive, protesto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que acusa o Brasil de “práticas desleais” em serviços de pagamento eletrônico.
Gritarias à parte, o vácuo regulatório durante o período de multiplicação das instituições de pagamento funcionou como passaporte para as operações de lavagem do dinheiro do crime organizado. Como ressaltou em entrevista ao Estadão a superintendente da Receita Federal em São Paulo, Marcia Meng, criminosos recorrem a fintechs para adquirir patrimônio, por meio de fundos de investimentos, e limpar dinheiro ilícito. Por óbvio, não é prática generalizada no setor.
A avalanche de fake news que se seguiu à tentativa anterior de monitorar essas movimentações financeiras – incluindo o Pix –, feita pela Receita em setembro de 2024, causou pânico e levou o governo Lula da Silva a um humilhante recuo quatro meses depois, com direito a uma medida provisória assinada pelo presidente garantindo manter o que já havia: a não taxação do Pix. As notícias falsas, disseminadas por bolsonaristas, ganharam ar de credibilidade por causa da sanha arrecadatória do governo e de sua baixa confiabilidade, agravada por um anúncio pouco transparente. Tomara que, desta vez, o governo faça a coisa certa.
O veneno da antipolítica
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A história republicana do País demonstra que a supremacia da emoção sobre a razão abre um perigoso espaço, de tempos em tempos, para a ascensão de aventureiros políticos. Na atual quadra, a insatisfação popular com a chamada “classe política”, associada ao desgaste provocado pela polarização tão virulenta quanto estéril entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro, abriu uma avenida para os chamados outsiders, aqueles que se apresentam como elixir contra um “sistema” que supostamente degrada tudo o que toca. A tentação de seguir essa gente, como bem se sabe, é grande. Mas é também perigosa.
Uma pesquisa Genial/Quaest realizada entre os dias 13 e 17 deste mês, à qual o jornalista César Felício, do Valor Econômico, teve acesso, revelou que 27% dos eleitores consideram ideal para o Brasil, em 2026, a eleição de “alguém de fora da política” para a Presidência da República. Já para 28% o melhor cenário é a reeleição de Lula, ante 19% que acreditam que o melhor para o País é a vitória de Bolsonaro, malgrado o ex-presidente estar inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral. Trata-se da comprovação estatística de que cresce na sociedade uma “demanda por novidade”, como salientou Felício. Essa “novidade” confunde-se com a negação da política. Isso deveria preocupar todos os que, como este jornal, têm compromisso inarredável com os valores democráticos e princípios republicanos.
O apelo dos outsiders não é fruto da irracionalidade do eleitor. É apenas o termômetro de uma patologia social à qual não deu causa: o descaso de políticos profissionais pelos reais anseios da sociedade. Parlamentares e governantes, ao priorizarem seus interesses pessoais e partidários em detrimento das necessidades prementes da população, afastam-se da missão essencial de exercer o poder com responsabilidade e espírito público. Diante disso, pouco resta ao eleitor a não ser pautar suas decisões pela descrença. O erro, portanto, não é do eleitorado, mas daqueles que traem o mandato por enxergarem a política como patrimônio, não como serviço.
Convém lembrar: não há solução civilizada fora da política. Rejeitar a política é abrir caminho para a barbárie e para o arbítrio. A política, com todas as suas imperfeições, é a única via de concertação civilizada entre a miríade de interesses em jogo numa sociedade complexa como a brasileira. Não é por outra razão que a Constituição estabelece a filiação partidária como condição de elegibilidade. Mas outsiders, por definição, são incontroláveis. Ao não se submeterem às regras escritas e não escritas que regem a vida pública, em particular a vida partidária, transformam a atividade política em terreno instável, hostil ao debate democrático e nocivo ao desenvolvimento político, social e econômico do País.
Os partidos políticos, por sua vez, ao invés de se fortalecerem como instituições que filtram, preparam e disciplinam lideranças públicas, têm se deixado capturar pelo canto de sereia das candidaturas oportunistas. Movidos pelo desejo imediato de conquistar o poder – e ter acesso a nacos cada vez mais robustos do Fundo Partidário –, oferecem legenda a figuras notoriamente desqualificadas para a política, mas que, por seu apelo midiático ou carismático, acabam capturando atenções e passam a submeter a máquina partidária a seus desígnios pessoais. O resultado é a degradação do próprio modelo de representação política democrática.
Os outsiders não são prejudiciais apenas para as legendas, mas sobretudo para o País. A curtíssimo prazo, os choques que buscam dar nas instituições e nos modelos de governança podem até gerar resultados que vão ao encontro dos anseios daqueles que os elegeram. Mas a imprevisibilidade e o personalismo logo cobram seu preço. Afinal, como fazer negócios e prover segurança jurídica a cidadãos e empresas em um ambiente sem regras estáveis, vale dizer, suscetível aos humores do governante de turno?
A antipolítica nunca foi solução para nossas mazelas. É veneno. O Brasil precisa de líderes capazes de resgatar a confiança da sociedade na política como instrumento de mudança. A alternativa a isso é a aventura – e aventureiros, como a experiência comprova, só trazem desordem e frustração.
Derrotar facções criminosas exige política nacional
Por Editorial / O GLOBO
Durante muito tempo se acreditou que o domínio de vastas extensões do território nacional por organizações criminosas fosse um problema restrito às comunidades e regiões conflagradas do Rio de Janeiro e uma ou outra cidade brasileira. Um estudo recente de pesquisadores das universidades de Chicago e do Wisconsin, publicado pela Cambridge University Press, desfaz esse mito. A pesquisa estima que aproximadamente 26% da população brasileira, entre 50,6 milhões e 61,6 milhões, está submetida às regras das facções do crime organizado — algo como uma Itália sob o jugo das máfias. De acordo com a análise, realizada com base em sondagens do Latinobarómetro, o Brasil é disparado o país com a maior presença de facções criminosas no continente (a segunda colocada é a Costa Rica, com 13% da população sujeita ao governo do crime).
Há várias explicações para a persistência dessa realidade trágica. As organizações criminosas ocupam o espaço do Estado em várias dimensões. Não só no controle de serviços públicos, como fornecimento de gás, coleta de lixo, transporte ou sinal de telefonia e internet. Mas também pela imposição de leis e “tribunais” próprios, de um sistema de governança que anula a principal prerrogativa do Estado — o monopólio do uso legítimo da força.
Paradoxalmente, quando consolidam poder, as facções acabam por reduzir a violência. Não é outro o motivo, dizem os pesquisadores, para haver conexão entre a queda das mortes violentas em São Paulo nos anos 2000 e a expansão do Primeiro Comando da Capital (PCC), maior facção criminosa do país. A hegemonia da facção estabelece uma “paz” negociada com outros grupos, impõe maior silêncio às comunidades e facilita acordos espúrios com as autoridades policiais. Mata-se e rouba-se menos, para que os negócios ilegais transcorram sem atropelo. O fluminense Comando Vermelho (CV) usa os mesmos métodos. A pesquisa relata a expulsão, no Amazonas, de dois homens punidos pelo CV por bater em suas mulheres. Não interessam ao crime ocorrências que exijam a presença da polícia.
A pesquisa também constata outro paradoxo: a associação entre o aumento da repressão pelo Estado e a ampliação dos domínios do crime. Na esteira de operações policiais sem critério nem planejamento, cujo objetivo é apenas demonstrar força e cujo resultado costumam ser tiroteios irresponsáveis que matam moradores, a população passa a aceitar a aparente tranquilidade do controle pelas facções, mesmo que falsa.
A operação movida na semana passada contra o PCC aponta um caminho promissor para derrotar as facções. O estudo fornece ainda mais argumentos para que o poder público combata o crime organizado com base na cooperação entre diferentes esferas do governo, em investigações e inteligência, dando prioridade ao sufocamento das finanças das quadrilhas.
É um trabalho que precisa ser executado com apoio de outros países, dada a expansão internacional do crime. A pesquisa mostra, por fim, por que é urgente e necessária a agenda legislativa que permita coordenação no combate ao crime. Em especial, a PEC da Segurança, que promove articulação entre governos federal e estaduais, e a nova Lei Antimáfia, que cria mecanismos para enfrentar uma criminalidade hoje mais organizada que o próprio Estado.
Barricada erguida por facção criminosa na Cidade de Deus, Zona Oeste do Rio — Foto: Gabriel de Paiva/ Agência O Globo/11/02/2025
Novo PAC corre risco de deixar legado de obras paradas ou mal executadas
Por Editorial / O GLOBO
Um das principais apostas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a eleição do ano que vem é o Novo Programa de Aceleração do Crescimento, o Novo PAC. Sob a coordenação do ministro Rui Costa, da Casa Civil, ele reúne um sem-número de projetos e obras que planejam movimentar, entre investimentos públicos e privados, R$ 1,3 trilhão. O risco, para Lula, é deixar um legado de obras paralisadas.
O que preocupa o governo nem são os grandes projetos, invariavelmente sujeitos a toda sorte de exigência, mas especificamente obras financiadas em áreas de alto interesse popular, como educação e saúde. É o caso de hospitais, policlínicas, postos de saúde, escolas ou creches, em geral indicados por prefeitos e governadores. Até agora, como revelou reportagem do GLOBO, o governo federal reservou R$ 111 bilhões para essas obras e liberou R$ 94,3 bilhões. Os R$ 16,7 bilhões restantes ainda estão retidos porque falta a comprovação de realização das despesas.
O calendário eleitoral não tem ajudado. O governo acredita que vários prefeitos têm retardado o andamento de obras para inaugurá-las o mais próximo possível de 2028, quando haverá eleição municipal. Só que a presidencial é no ano que vem, por isso Lula tem mandado a Casa Civil pressionar os prefeitos. “Não temos mais muito tempo, a gente vai disputar uma eleição”, afirmou.
Uma das maiores fontes de preocupação para o Planalto são as 1.884 obras previstas no âmbito da educação. Apenas 4% estão em execução, e 82% estão ainda em licitação. Nenhum dos 102 institutos federais para ensino médio prometidos por Lula na campanha foi inaugurado. Menos da metade (41) está em obras, e a licitação só foi aberta para mais 31. Vinte e dois aguardam a abertura de concorrência, e o terreno que abrigará outros oito nem foi regularizado. Calcula-se que esses projetos podem levar de nove a 18 meses para ficar prontos. Há uma difícil corrida contra o relógio. Na área da saúde, também de grande apelo eleitoral, há 1.910 obras, das quais 73% estão em andamento, 19% em licitação e 2,5% em análise. O Ministério da Saúde informa que põe à disposição de estados e municípios projetos de engenharia e arquitetura, modelos de licitação, canais abertos de comunicação via WhatsApp e conversas ao vivo para orientações técnicas.
Em todo projeto de cunho eleitoral, há o risco de interesses políticos sobrepujarem critérios técnicos. Não é diferente com o Novo PAC. Fica a cada dia mais difícil para Lula evitar deixar um legado de obras paralisadas, atrasadas ou mal executadas. É o que acontece quando políticas públicas se tornam reféns do calendário eleitoral.


