Desaceleração do PIB é necessária neste momento
Surpresa não foi a atividade econômica brasileira ter perdido ritmo no segundo trimestre deste ano, conforme divulgou o IBGE nesta terça-feira (2). Surpreendentes de fato foram sucessivos resultados positivos a partir de 2021, depois de superado o pior momento da pandemia de Covid-19.
Nesse período recente, o desempenho da produção e da renda superou as expectativas de analistas e o padrão de semiestagnação dos três anos anteriores à crise sanitária, que sucederam a recessão brutal de 2014-16 produzida por Dilma Rousseff (PT).
Não é que tenha havido algum milagre. É razoável supor que reformas como a trabalhista e novas regras para investimentos em infraestrutura, além de avanços tecnológicos, tenham contribuído para a melhora, embora ainda faltem estudos conclusivos a esse respeito. Mais claro, porém, é que a economia tem sido forçada além de sua capacidade.
Assim indica a persistência da inflação, que voltou a subir em 2024 e forçou o Banco Central a elevar seus juros de já excessivos 10,5%, há um ano, para os atuais e cavalares 15% anuais.
A aceleração dos preços, por usa vez, é decorrência previsível da ampliação de gastos públicos promovida no final do governo Jair Bolsonaro (PL) e radicalizada por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes mesmo de sua posse.
A tarefa dos juros, em português claro, é dificultar o consumo e o investimento, de modo que a queda da demanda tire o fôlego de uma inflação que está acima dos 5% em 12 meses, ante uma meta de 3%. A política monetária seria menos sufocante se tivesse a ajuda da política fiscal —mas Lula não quer ouvir falar em controle da despesa.
Em tal cenário, não se pode considerar mau resultado a alta de 0,4% do Produto Interno Bruto no segundo trimestre, bem abaixo do 1,3% do primeiro. O desaquecimento, que não sugere uma guinada traumática, é necessário e, pela lógica, deve continuar por algum tempo.
Assim, aumentam as chances de o BC iniciar mais rapidamente o corte dos juros, que hoje impõem peso descomunal sobre a dívida pública. Na atual gestão, os encargos financeiros do governo federal subiram de R$ 500 bilhões para R$ 840 bilhões ao ano. A diferença é suficiente para pagar dois anos do Bolsa Família.
O país incorreu, mais uma vez, no erro de usar o gasto público como um atalho para o crescimento econômico —que deve estar baseado em um bom ambiente para investimentos, criação de empregos e avanço da produtividade. A próxima administração herdará uma conta pesada.
Quanto mais se insistir na receita, piores serão os ajustes inevitáveis que estão por vir. As regras fiscais terão de ser revistas para conter uma dívida pública que caminha para 80% do PIB, e é melhor fazê-lo com inflação sob controle. A urgência de cortar gastos e elevar juros ao mesmo tempo gerou salto do desemprego e da pobreza dez anos atrás.

