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Almas mortas

Demétrio Magnoli / Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP / FOLHA DE SP

 

Edward Said errou. Durante a Primeira Intifada (1987-1993), o intelectual palestino-americano concluiu que, paradoxalmente, a ocupação dos territórios palestinos, iniciada em 1967, lançava as sementes da reconciliação. A experiência compulsoriamente compartilhada pelos dois povos curaria as feridas dos conflitos anteriores, propiciando um futuro de convivência pacífica sob um estatuto de igualdade. De fato, porém, a longa ocupação irrigou, nos dois lados, a planta da vingança, a mais permissiva das estruturas mentais.

Genocídio. Os atentados do Hamas, no 7 de outubro de 2023, genocídio em miniatura, expressaram as intenções formuladas pela carta de fundação da organização terrorista. A guerra justa deflagrada a seguir por Israel converteu-se em guerra de limpeza étnica contra o povo palestino, descrita por uma comissão de inquérito da ONU como campanha genocida. Vingança, duas vezes.

Ehud Barak e Ehud Olmert, antigos chefes de governo de Israel, empregaram as expressões "crimes de guerra", "massacres" e "limpeza étnica" para denunciar a barbárie cometida na Faixa de Gaza em nome do Estado judeu. Os dois, contudo, recuaram diante da palavra "genocídio". Há um motivo para isso.

Raphael Lemkin, judeu polonês, delineou o conceito em 1941, investigando a perseguição secular aos judeus. Depois, em 1948, à luz do horror de Auschwitz, foi o autor intelectual da Convenção contra o Genocídio (tinyurl.com/2khsk3hf). Com a finalidade política de contestar a legitimidade histórica do Estado judeu, a propaganda antissemita acusa Israel de genocídio desde a guerra árabe-israelense de 1948, tentando traçar um sinal de equivalência com a Alemanha nazista. O horror em curso na Faixa de Gaza confere substância à acusação ignominiosa.

Não faltaram palestinos indignados diante da matança cometida pelo Hamas no 7 de outubro. Por outro lado, sobraram manifestações populares de júbilo nos territórios palestinos e, sobretudo, não se registraram protestos de massa contra a organização terrorista. O regozijo e o silêncio ofereceram aos líderes extremistas israelenses o álibi para qualificar Gaza como uma "cidade perversa", desumanizar os palestinos e acender a fogueira de uma guerra sem limites.

Paralelo inevitável: a sociedade israelense aceitou o roteiro da vingança. As manifestações por um cessar-fogo concentram a indignação no desprezo do governo pela sorte dos reféns, não na catástrofe infligida à população de Gaza. O apoio popular à paz em dois Estados reduziu-se a uma estreita minoria. O povo de Israel desiste da luz, resignando-se à condição de "super-Esparta", invocação utilizada por Netanyahu para conduzir a limpeza étnica em meio ao isolamento internacional.

"Almas Mortas", de Nikolai Gogol, publicada em 1842, é um retrato da Rússia czarista. O título oscila no balanço de uma ambiguidade, referindo-se tanto aos servos mortos elencados pelos proprietários de terras quanto à mesquinharia e podridão da pequena nobreza russa.

Meio século de ocupação secou as almas de israelenses e palestinos. A pulsão da vingança, explorada por extremistas dos dois lados, deteriora por dentro as duas sociedades. Deslocados exaustos marcham em cenários de ruínas; reféns alquebrados são exibidos como troféus de guerra. Na Terra Santa, manda a morte, física ou espiritual.

 

PALESTINOS ESCOMBROS E AJUDA HUMANITÁRIA

 

Hipócritas e corajosos

Por Luiz Felipe D'Avila / O ESTADÃO DE SP

 

A degeneração institucional, política e moral que pavimentou o caminho da destruição da democracia nos anos 30 do século passado na Europa, está presente no Brasil. A filósofa Hannah Arendt, no seu livro Origens do Totalitarismo, relata que a liberdade só existe quando somos capazes de pensar, julgar e agir para combater o populismo, o autoritarismo e os governantes que usam o poder para sufocar a liberdade. Quando a desilusão com a democracia se transforma em cinismo político, o pensamento crítico desaparece, a conformidade substitui a ação política e a maioria da sociedade aceita passivamente as violações recorrentes dos princípios da liberdade e dos valores do Estado Democrático de Direito.

 

Quando o ódio e o medo se tornam os sentimentos predominantes no País, a ideologia e a mentira política se sobrepõem aos fatos e às leis para justificar a gradual destruição da liberdade e da democracia. A brutalidade do governo na perseguição de adversários políticos, a imposição da censura e o uso de violência para acabar com os “baderneiros” na política pareciam um preço razoável a ser pago para restabelecer a ordem na Alemanha nazista e na Itália fascista. O mesmo argumento é empregado no Brasil de hoje. A violação dos princípios do devido processo legal é justificada em nome da necessidade de se combater os “golpistas”. Por isso, tolera-se que pessoas que não gozam de foro privilegiado sejam julgadas e condenadas pela Suprema Corte; viola-se a prerrogativa de julgar um ex-presidente da República pelo colegiado do Supremo Tribunal Federal (STF); aceita-se que os supostos golpistas sejam julgados por um juiz-relator que é vítima, investigador e julgador da ação penal e que precisa prestar contas à sociedade sobre acusações gravíssimas de abuso de poder por perseguir cidadãos, como denunciado por um ex-assessor na “vaza toga”.

 

Em nome da volta da normalidade democrática, grande parte da imprensa e da sociedade parece se conformar com ministros do STF que soltam corruptos confessos, mas condenam a 14 anos de prisão uma mulher que escreveu com batom numa estátua. Em nome da defesa da liberdade, toleram-se decisões arbitrárias do STF que impõem censura prévia e suspensão de perfis em redes sociais de centenas de pessoas. Em nome da defesa do Estado de Direito, justifica-se o ativismo judicial, ignora-se a independência dos Poderes e aceita-se que o STF abandone o estrito cumprimento da Constituição, como admitiu o voto corajoso do ministro Fux na Ação Penal 2668.

 

Hannah Arendt dizia que o totalitarismo elimina a responsabilidade moral das relações humanas. Acaba o espaço para a liberdade na sociedade – para o dissenso, para a opinião crítica e para o pensamento crítico. Resta a conformidade, o silêncio, o cinismo e a indiferença do cidadão. No Brasil, onde a democracia plena já deixou de existir há tempos, o dissenso e a opinião crítica são tratados como atentado ao Estado Democrático de Direito. É revoltante a hipocrisia da claque que se diz “defensora da democracia”, mas que aplaude medidas de exceção e faz vista grossa para as violações flagrantes do Estado Democrático de Direito e das liberdades individuais.

 

Democratas de verdade acreditam que os princípios da liberdade, os freios e contrapesos da Constituição e o devido processo legal são suficientes para combater golpistas, populistas e governantes autoritários por meio das regras do jogo. Aqueles que acreditam que é preciso recorrer às medidas de exceção para salvar a democracia em tempos de crise são hipócritas. Daqui a alguns anos, os tais “golpistas” que cogitaram um plano estapafúrdio de golpe de Estado serão nota de rodapé na História do Brasil, mas a omissão na defesa da liberdade, a conivência com abuso de autoridade de juízes que violaram a Constituição, o voto e o apoio aos governos populistas, será motivo de opróbrio para aqueles que se dizem “defensores da democracia”.

 

Felizmente, existe uma minoria corajosa e destemida que não se rende à omissão e tampouco compactua com “golpistas”, juízes arbitrários ou governos populistas. Essa minoria é a reserva moral do País. No fim da Segunda Guerra Mundial, ela consistia em estadistas como Churchill, de Gaulle, De Gasperi, Adenauer e Franklin Roosevelt. Cada um lutou, de maneira intransigente, contra regimes totalitários e recusou-se a fazer acordo ou contemporizar com os usurpadores da democracia. Defenderam corajosamente os valores da liberdade, reconstruíram a democracia de seus países e reergueram a nova ordem mundial.

 

No Brasil, essa minoria terá uma missão difícil num país que nos últimos 40 anos teve apenas dois presidentes que lutaram para fortalecer as instituições democráticas: Fernando Henrique e Michel Temer. É hora de os corajosos se unirem para vencer o governo populista de Lula em 2026, recolher o STF ao seu devido papel de Corte constitucional e restabelecer a democracia plena no País, que foi sequestrada pela arbitrariedade de governantes e a conivência dos hipócritas na mídia, no Congresso e na sociedade civil.

Foto do autor
Opinião por Luiz Felipe D'Avila

Cientista político, autor do livro ‘Vire à direita, siga em frente’, foi candidato à Presidência da República

Onde está Bebeto Queiroz? Buscas por prefeito eleito alvo de operação da PF ultrapassam nove meses

Escrito por Redação DIARIONORDESTE
 
 
Com mandado de prisão em aberto há quase 300 dias, o paradeiro do prefeito eleito de Choró, no Ceará, Carlos Alberto Queiroz, o Bebeto Queiroz (PSB), segue como um mistério para as autoridades. O Diário do Nordeste apurou que nos últimos meses houve apenas duas investidas na tentativa de capturar o político.
 

Uma delas aconteceu no Ceará. A segunda, em outro estado do Nordeste. Segundo uma fonte ligada à investigação, quando os policiais chegaram ao suposto local onde Bebeto estava, lá já não havia mais rastros da permanência do foragido.

reportagem procurou a Polícia Federal e a Polícia Civil do Ceará a fim de saber informações sobre as diligências. Por nota, a PF disse "que não confirma, nem fornece informações sobre possíveis nomes envolvidos, bem como possíveis: ações, operações, prisões, investigações e inquéritos em andamento".

Já a Polícia Civil informa que "atua de forma ininterrupta com o foco constante no combate ao crime. Diariamente, equipes realizam operações na Capital e no interior, reforçando nosso compromisso institucional com a aplicação da lei e a manutenção da ordem pública, tendo as forças de segurança realizado 23.188 prisões em flagrante ou por mandado entre janeiro e agosto de 2025 em todo o Estado".

A defesa de Bebeto também foi procurada e disse que "todas as suas manifestações ocorrerão exclusivamente nos autos do processo, foro apropriado para o debate. Reiteramos a confiança na Justiça e temos a convicção de que a instrução processual esclarecerá devidamente os fatos", conforme os advogados do escritório Tenório Gondim Menezes e Freitas Advocacia.

 

PAPEL DE LIDERANÇA NO ESQUEMA

No dia 5 de dezembro do ano passado, a PF deflagrou a Operação Vis Occulta contra um esquema criminoso de compra de votos em dezenas de municípios cearenses. Bebeto teria papel central no crime devido a um suposto desvio de recursos de emendas parlamentares.

Segundo a Polícia Federal, foram realizadas dezenas de transferências de recursos financeiros para eleitores e candidatos, tanto por Bebeto como por aliados. Os investigadores indicaram que o prefeito eleito cometeu abuso de poder econômico, que a rede criminosa chegou a envolver um oficial da Polícia Rodoviária Estadual (PRE).

Em janeiro deste ano, o Diário do Nordeste noticiou que Bebeto teria contado com a ajuda de um tenente da PRE para colocar em prática o suposto esquema de compra e venda de votos nas Eleições 2024. 

 

O relatório da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (FICCO) feito a partir de uma investigação da Polícia Federal traz prints de conversas no Whatsapp entre o político e um tenente.

 

Em uma das conversas, o tenente diz a ‘Bebeto’ que estará na coordenação no Sertão Central de 24 de setembro a 7 de outubro de 2024 (período que engloba a votação das eleições) e que afastou o PM dos plantões na região.

 

Na nota do analista da Ficco que acompanhou as conversas é destacado uma “relação suspeita com a PRE”. “Bebeto conversa com o tenente sobre temas relacionados à política e à própria atuação da PRE, com troca perigosa e suspeita de favores, envolvendo Cleidiane, irmã de Bebeto”, conforme trecho do documento que o Diário do Nordeste teve acesso.

Em uma das conversas, Bebeto agradece ao PRE “por todo o apoio” e diz “até o dia 6… a eleição é nossa…”

 

DESVIO DE DINHEIRO PÚBLICO

Outra conduta apontada ao denunciado é acerca dos contratos envolvendo a empresa MK Serviços, Construções e Transporte Escolar, que seria usada para desviar o dinheiro público.

Ainda no início de 2025, o empresário Maurício Gomes Coelho, conhecido como "MK", o vereador por Canindé Francisco Geovane Gonçalves, o chefe de facção criminosa Guardiões do Estado (GDE) Francisco Flavio Silva Ferreira, o "Bozinho", outras 15 pessoas foram denunciadas pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) por integrar uma organização criminosa que pratica o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro, no Município de Canindé, no Interior do Ceará.

 

A investigação partiu de uma denúncia feita pela então prefeita de Canindé, Rosário Ximenes (Republicanos). Em depoimento ao MP no ano passado, ela disse que, além de Bebeto, a irmã dele, Cleidiane de Queiroz Pereira, e Maurício Gomes Coelho teriam atuado para tentar influenciar o resultado eleitoral nas cidades de Madalena, Quixadá, Boa Viagem, Aquiraz, Itaitinga, Canindé e São Gonçalo do Amarante.

 

Além das cidades citadas pela ex-prefeita, os investigadores identificaram contratos da empresa para prestação de serviços com os municípios de Acopiara, Alto Santo, Amontada, Apuiarés, Aracati, Aratuba, Barreira, Baturité, Camocim, Caridade, Choró, Coreaú, Farias Brito, General Sampaio, Guaiúba, Guaraciaba do Norte, Ibicuitinga, Independência, Iracema, Irauçuba, Itapajé, Itapipoca, Itatira, Juazeiro do Norte, Maracanaú, Massapê, Milagres, Mombaça, Nova Russas, Pacajus, Parambu, Paraipaba, Paramoti, Pedra Branca, Quiterianópolis, Quixeramobim, Russas, Saboeiro, Sobral, Tejuçuoca e Viçosa do Ceará.

PRIMEIRA PRISÃO

Bebeto chegou a ser preso temporariamente no dia 23 de novembro, mas foi solto com o término do mandado de prisão, que tinha validade de dez dias. 

Naquela ocasião, ele havia sido alvo da Ad Manus, uma operação realizada pelo MPCE, Polícia Civil do Ceará (PCCE) e PF para combater irregularidades em contratos do Município de Choró.

 

O político foi diplomado por meio de uma procuração para o seu filho. Mas, em janeiro, no âmbito da Justiça Eleitoral, a 6ª Zona Eleitoral de Quixadá determinou que a chapa eleita de Choró, composta por Bebeto e pelo vice-prefeito Bruno Jucá (PRD), não fosse empossada.

 

No último mês de maio, o Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) decidiu manter a cassação do prefeito eleito de Choró e do vice-prefeito.  A Corte ainda aplicou uma multa de R$ 53,2 mil, determinou a inelegibilidade do prefeito por oito anos e ordenou a realização de novas eleições na Cidade.

 

Saneamento para quem mais precisa

É auspicioso que a movimentação do setor privado impulsionada pelo novo marco legal do saneamento, de 2020, esteja alinhada ao objetivo da norma: levar água e esgoto não apenas aos municípios rentáveis mas também aos mais carentes.

Para alcançá-lo, o diploma determinou a formação de blocos regionais no intuito de que as empresas vencedoras de concessões ou parcerias público-privadas (PPPs) não deixassem a população pobre desassistida.

O Instituto Trata Brasil, por meio de pesquisa publicada em agosto, elaborou um ranking de acesso aos serviços com os 100 municípios mais populosos. Dentre os 20 piores colocados, 16 já passaram ou devem passar por concessões até 2026, como Santarém (PA), onde só 3,8% dos moradores contam com esgoto.

O Piauí, que tem 8 municípios na lista dos 10 piores em rede de esgoto, concedeu a operação à Aegea em 2024. O setor privado avança, assim, onde o Estado brasileiro historicamente falhou.

Outros pilares da lei, além da regionalização obrigatória, são a uniformização regulatória em âmbito nacional, a exigência de comprovação de viabilidade financeira das estatais, sob pena de perda de contratos, e a priorização de modelos como concessões plenas e PPPs.

A evolução dos investimentos é perceptível. Antes do marco, em 2019, a iniciativa privada respondia só por 5% das operações; hoje, são 33%, com projeção de 50% dos municípios sob essa modalidade de gestão até o fim de 2026.

Entre 2019 e 2023 a taxa da população com acesso a rede de esgoto passou de 53,2% para 55,2%, e a que conta com tratamento de esgoto foi de 46,3% para 51,8%.

Tal precariedade mostra que ainda é preciso ampliar os aportes para alcançar a universalização. Os municípios com contratos regulares investem R$ 68 por habitante, quando precisariam chegar a R$ 224 para garantir as metas do marco —99% da população com abastecimento de água potável e 90% com esgotamento sanitário até o final de 2033.

O arcabouço regulatório está em fase de maturação, sob liderança da Agência Nacional de Águas (ANA); a regionalização lenta em estados como o Amazonas e a complexidade das obras em áreas alagadiças são desafios.

Contudo a expansão privada demonstra que uma legislação bem calibrada é capaz de incentivar investimentos inclusivos, servindo de exemplo para setores essenciais da infraestrutura. Se mantido o ímpeto, há potencial para transformar o saneamento de gargalo em motor do desenvolvimento sustentável.

 

saneamento em sp

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Sanções de Trump ofuscam primeiro dia de Lula em NY e reforçam tendência de resposta em fala na ONU

Por Felipe Frazão / O ESTADÃO DE SP

 

ENVIADO ESPECIAL A NOVA YORK - Uma nova leva de punições do governo Donald Trump contra autoridades brasileiras ofuscou o primeiro dia de compromissos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Nova York e reforçou a tendência de que ele responda nesta terça-feira, 23, durante o discurso de abertura na Assembleia-Geral da ONU. 

 

Lula já pretendia fazer uma defesa enfática do que o governo brasileiro considera como agressões do governo americano e uma tentativa de interferência contra a soberania brasileira e as instituições democráticas, como mostrou o Estadão.

 

O teor final do discurso de Lula passou por revisões e ajustes ao longo da segunda-feira, como é praxe na véspera do pronunciamento mais importante da política externa brasileira, perante os líderes globais.

 

Lula cumpriu agendas públicas em Nova York, como uma conferência para apoiar a criação do Estado palestino, deu uma entrevista ao canal americano PBS e se reuniu com o CEO do TikTok, Shou Zi Chew, na residência diplomática do Brasil em Manhattan.

 

Lula terá um papel de antagonizar com Trump, pela pauta em choque aberto entre os governos. O petista vai defender a Organização Mundial do Comércio (OMC) - bloqueada pelo republicano -, e cobrar mais ação dos países ricos e financiamento climático no âmbito do Acordo de Paris, abandonado pelos EUA novamente, dois meses antes da COP-30, em Belém (PA).

 

O presidente faz sua 10ª participação em Assembleias da ONU e deverá apresentar uma pauta crítica sobre a condução da organização, por ver “paralisia” e “inação” recorrentes do Conselho de Segurança - em função do poder de veto dos membros permanentes - e falta de representatividade para a nova ordem multipolar. O debate abre os trabalhos de 80 anos da ONU.

 

Lula vai citar exemplos da crise do multilateralismo, criticar a violação de soberania de países com ataques aéreos nas guerras no Oriente Médio e abordar em tom de apoio às discussões de paz na Ucrânia, travadas pela contínua campanha militar da Rússia.

 

Há tendência de que ele atenda de fato um pedido de encontro reservado com Volodmir Zelenski, com quem não falou nos últimos meses, embora tenha conversado três vezes desde agosto com o presidente russo Vladimir Putin.

As atividades de Lula perante a ONU foram atropeladas pela agenda bilateral com os EUA, uma crise diplomática considerada por especialistas como a mais grave em 200 anos de laços de amizade.

Na segunda-feira, o Departamento de Estado confirmou ao Estadão o corte de vistos ao ministro Jorge Messias, advogado-geral da União, e autoridades do Judiciário. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, havia recebido restrições de locomoção nos EUA e desistiu de viajar.

 

O Itamaraty protestou em carta ao secretário-geral António Guterres. Além disso, o Tesouro dos EUA aplicou mais sanções financeiras ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, sua mulher Viviane Barci de Moraes e o Instituto Lex, que pertence à família dele (esposa e filhos).

 

Conversa com Trump

À PBS, Lula disse que “o comportamento de Trump é inacreditável” e que não há explicação que justifique o tarifaço de 50%. Ele afirmou que a taxação é “absurda” e que nunca conversou com Trump porque ele errou ao tomar partido de Jair Bolsonaro.

 

Lula disse à PBS que nunca conversou com Trump, mas voltou a indicar disposição de fazê-lo. Para a Casa Branca e o Palácio do Planalto a razão do tarifaço é uma divergência de fundo político e não um desequilíbrio comercial. “Na hora que o presidente Trump quiser conversar sobre política, eu também converso sobre política”, afirmou o petista.

‘Tenho pena dos ricos’, diz autor que se infiltrou entre milionários e expôs a elite brasileira

Por Gabriel Zorzetto / O ESTADÃO DE SP

 

 

Michel Alcoforado não é um homem ingênuo. Ao decidir se infiltrar no mundo dos multimilionários brasileiros, sob o traje postiço de “antropólogo do luxo”, para escrever Coisa de Rico (Ed. Todavia), ele sabia do potencial deste tema. Não imaginava, contudo, que sua tese de doutorado, após 15 anos de pesquisa, se tornaria um dos livros mais comentados no Brasil em 2025, com 10 mil exemplares vendidos e sete impressões apenas no mês de agosto.

 

Em entrevista ao Estadão, por videoconferência, o autor carioca explica que o fascínio pelas elites é uma tendência global, citando o sucesso de séries como The White Lotus e Succession, e que o ódio contra a classe abastada não permeia a sociedade brasileira.

 

“Nenhum rico sabe se é rico no Brasil. Os ricos estão comprando o livro para saber se são ricos, e aqueles que não se consideram ricos estão comprando para parecer mais ricos do que são”, analisa. “Um dos lugares onde mais temos vendido livros são nas livrarias da Faria Lima, que atende público indubitavelmente rico, mas também temos movimentado bastante as classes médias”.

 

Testes no mundo dos ricaços

 

Entrar no universo dos ricaços não foi uma tarefa fácil. Alcoforado não pertence a esse mundo, precisou fazer muitos contatos, estudar os gostos dos privilegiados e até criar uma falsa secretária (para parecer um homem extremamente ocupado) a fim de penetrar nas festas e propriedades de alto padrão. Aos poucos, foi sendo aceito e passou por alguns “testes de reconhecimento”: silêncios hierárquicos, name-dropping [citação de nomes, na tradução] e duelos de cifras.

 

“No Brasil, os traços de distinção são muito mais frágeis do que em outras culturas. Na França, por exemplo, se você tem um determinado sobrenome, facilmente qualquer cidadão reconhece que você vem de uma família com herança nobre. No Brasil, a gente nunca sabe direito com quem está falando. Então, aquele [ricaço] que está liderando um encontro vai se esforçar a todo momento para entender você e fazer você entender quem ele é”, conta.

 

Os silêncios hierárquicos são uma estratégia inconsciente para os endinheirados saberem até que ponto alguém está dentro ou fora desses círculos. Perguntas de foro pessoal são praticamente proibidas e as conexões se dão por meio de marcas restritas, do domínio da língua inglesa ou até mesmo do conhecimento do cardápio de algum restaurante chique.

 

“Depois dessa cena, que é quase como se fosse um teatro, temos o name-dropping. Toda vez que você encontra alguém importante, você certamente viu essa pessoa falar nomes de pessoas que para ela são meros conhecidos, que ela chama pelo o primeiro nome. Por exemplo, não chamam o Ministro da Economia de Fernando Haddad. Falam que estiveram com o Fernando no final de semana. Partem do pressuposto que você certamente saberia qual o Fernando estão se referindo”, diz Alcoforado.

 

Já o duelo de cifras mede o poderio financeiro dos membros das elites. É a capacidade de testar a prontidão de alguém para viajar ao exterior no dia seguinte ou para adquirir cartões exclusivos a clientes que possuem R$ 30 milhões investidos em determinado banco. São testes fundamentais para que os ricos avaliem com quem vale a pena perder tempo ou não.

 

Milionários possuem consciência social?

 

Uma das principais reflexões despertadas em Coisa de Rico é que as elites não se enxergam como parte do problema da desigualdade social no Brasil. “Eles acreditam que esse é um problema que deve que ser resolvido pelo Estado, e no qual eles não têm nenhuma participação”, afirma.

 

O autor reforça, no entanto, que os multimilionários não são “abobalhados” e possuem plena noção do abismo social que há no País. “As elites brasileiras são preocupadas e empáticas diante da grave situação dos mais pobres. Nenhum rico paulistano acorda de manhã e, no sentido do aeroporto de Guarulhos, passa pelo centro de São Paulo e não se comove com a situação dos usuários de crack, por exemplo”.

 

Em termos de orientações políticas, Alcoforado detectou predomínio maior de alinhamento à centro-direita, mas também encontrou ricaços de centro-esquerda, conectados às pautas progressistas. “O interessante é que, tanto num lado quanto no outro, há preocupação social desde que as distâncias [entre as classes] não mudem”, aponta.

 

‘Tenho pena dos ricos’

 

Alcoforado alterou os nomes de todas as figuras retratadas e afirma não ter sofrido medo de represália dos poderosos. “Não vou lançar o Coisa de Rico 2, eles podem ficar em paz", brinca, ao comentar as reações deles diante da publicação.

 

“Quando voltei aos meus interlocutores dizendo que o livro estava às vésperas de ser lançado, contando as histórias que vivemos juntos, eles riam e falavam: ‘Michel, rico é muito engraçado, né?’. Eles não se identificavam. Para eles, rico é sempre o outro. Por mais que eu tenha dito que sou um antropólogo e estava fazendo pesquisa, ao longo do tempo isso se foi e ninguém se lembra de mim. Estamos falando de um fenômeno social, e não de experiências individualizadas”, comenta.

 

Por se tratar de uma obra descritiva e sem julgamento de valores, Coisa de Rico não revela os sentimentos de Michel quanto aos ricos. Ele nega ter nojo deles – nutre, na verdade, sentimento de pena.

 

“Dá um trabalho do caramba ser rico. Ter um almoço de família como momento de perpetuação do patrimônio, ou enxergar uma viagem como canal de aquisição de novos comportamentos. Ter uma vida pensada em organizar fronteiras entre os de dentro e os de fora, não é uma vida que facilmente alguém deseje ter”, reflete. “Eu diria que comecei a pesquisa espantado e saí com pena. Não uma pena cristã, no sentido vê-los como coitados, mas sendo consciente do esforço desumano que eles precisam dedicar para se manter onde estão”, finaliza.

 

Coisa de Rico

  • Autor: Michel Alcoforado
  • Editora: Todavia (250 págs.; R$ 74 e R$ 59 o e-book)

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