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O governo Lula e o antissemitismo

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Há poucos dias, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, disse à Comissão de Relações Exteriores da Câmara que o Brasil se retirou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), em 18 de julho passado, porque o instrumento de adesão, em 2020, estava “eivado de erros de forma”.

 

Segundo o ministro Vieira, não houve consulta prévia ao Congresso, razão pela qual faltou previsão orçamentária para a contribuição à IHRA (10 mil euros anuais), “deixando o Executivo brasileiro vulnerável a justos questionamentos por parte dos órgãos de controle”. O discurso em defesa da prudência no uso do dinheiro público, contudo, mal esconde o que parece ser a verdadeira motivação da retirada do Brasil da IHRA: marcar posição contra Israel.

 

A IHRA foi formada em 1998 com o objetivo de reforçar a educação sobre o Holocausto, diante da ignorância generalizada dos jovens europeus sobre o extermínio dos judeus na 2.ª Guerra. Logo conseguiu a adesão de diversos países, dentro e fora da Europa. Em 2016, decidiu adotar uma definição de antissemitismo para orientar o acompanhamento de ataques a judeus no mundo.

 

Segundo essa definição, antissemitismo é “ódio aos judeus” a partir de uma “determinada percepção dos judeus” e que se manifesta por meio de violência retórica ou física contra “indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas”. A questão central aqui é que, entre os exemplos de antissemitismo citados pela IHRA, estão alguns que dizem respeito a Israel, e é isso o que o governo brasileiro não aceita.

 

O chanceler Mauro Vieira expressou essa contrariedade ao apontar o que chamou de “total falta de clareza” por parte da IHRA “quanto aos limites do discurso e da ação política legítima em relação ao sionismo, a Israel e à Palestina”. Em seguida, o ministro atacou a “instrumentalização do antissemitismo para inibir críticas contra as graves violações de direitos humanos e ao Direito Internacional humanitário na Faixa de Gaza e na Cisjordânia cometidas pelo atual governo israelense”.

 

Ocorre que a IHRA, ao contrário do que disse o ministro Vieira, deixa claro que “críticas a Israel semelhantes às dirigidas a qualquer outro país não podem ser consideradas antissemitas”. Para a IHRA, no entanto, é antissemita quem aplica a Israel “padrões duplos ao exigir um comportamento não esperado ou exigido de nenhuma outra nação democrática” e “estabelece comparações entre a política israelense contemporânea e a dos nazistas” – que é exatamente o que o governo Lula faz.

 

Mas o chanceler Mauro Vieira escolheu ignorar as nuances do conceito de antissemitismo formulado pela IHRA e partiu para uma interpretação ardilosa, ao dizer que “aceitar que a crítica às políticas adotadas por Israel seja equiparada a antissemitismo equivaleria a acusar milhares de cidadãos israelenses, judeus, que se opõem ao governo do primeiro-ministro israelense, também de serem antissemitas”. A má-fé da declaração é gritante: o conceito de antissemitismo da IHRA obviamente não se presta a condenar cidadãos israelenses que não gostam de seu governo, e sim pessoas ou governos que vilanizam Israel em qualquer circunstância, mesmo que Israel esteja exercendo seu direito de se defender, como faria qualquer país em situações semelhantes.

 

Isso tudo é muito coerente com a visão de esquerda, prevalecente no governo de Lula da Silva, segundo a qual Israel é um país criado pelo imperialismo ocidental para roubar terras e explorar os palestinos. Eis aí por que o chanceler Vieira se queixou dos supostos “limites” impostos pela IHRA à “ação política legítima em relação ao sionismo” – referência ao movimento de autodeterminação do povo judeu. Para a esquerda, como se sabe, sionismo é sinônimo de racismo e nazismo.

 

Que militantes de esquerda disfarcem seu antissemitismo dizendo-se “antissionistas”, é compreensível; que o governo brasileiro se preste a isso quase oficialmente, abandonando, sob argumentos burocráticos e ideológicos, uma organização dedicada a preservar a memória do Holocausto, é profundamente lamentável, pois manda aos antissemitas a mensagem de que sua hostilidade aos judeus brasileiros é não só aceitável, mas justa.

Um Nobel para a coragem

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

A concessão do Nobel da Paz de 2025 à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, é mais do que uma distinção pessoal: é a reafirmação do compromisso do mundo civilizado com os valores da democracia liberal, os direitos humanos e o Estado de Direito. Laureada foi a coragem de todos os venezuelanos que, liderados por María Corina, unem forças contra a tirania de Nicolás Maduro à custa de sua liberdade ou da própria vida. O prêmio, nesse sentido, deveria ser ocioso. Independentemente de chancelas honorárias, qualquer democrata de corpo e alma há de reconhecer o valor dos esforços dessa corajosa mulher em prol da paz em seu país e além.

 

Em tempos de inquietante tolerância com autocratas que corroem por dentro os pilares da democracia por meio da desvirtuação do poder político, o Comitê Norueguês do Nobel lembrou a todos que a luta pelo regime das liberdades ainda exige firmeza de caráter e sacrifício pessoal. Como lembrou Jørgen Frydnes, presidente do comitê, “apesar das sérias ameaças à sua vida”, María Corina permaneceu na Venezuela, uma decisão que “inspirou milhões” em seu país a continuar acreditando que viver sob as garras de Maduro não era destino e que, por meio da resistência cívica, um futuro mais auspicioso para todos os venezuelanos haverá de chegar.

 

A Venezuela vive há mais de duas décadas submetida aos horrores de um regime que, nascido das urnas, destruiu paulatinamente o próprio instrumento que o legitimou. Eleições no país vizinho são uma farsa. A ditadura de Maduro, herdeira do projeto de poder de Hugo Chávez, obliterou a separação de Poderes, calou o jornalismo profissional, cooptou instituições e reduziu a política à lealdade ao caudilho. Milhões de venezuelanos foram forçados ao exílio, inclusive no Brasil, por fome, medo ou desesperança. É nesse cenário de ruína moral e material que María Corina se ergueu como símbolo da oposição a Maduro, enfrentando cassações, ameaças e prisões de aliados sem jamais desistir da via pacífica nem abdicar do respeito à legalidade.

 

O Nobel dá ampla visibilidade a uma tragédia humanitária que parte da comunidade internacional preferiu deixar de lado em meio a tantas outras fontes de preocupação. É um alerta dirigido especialmente a alguns países da América Latina onde a solidariedade com as vítimas do regime tem sido substituída por constrangedora condescendência com Maduro. Governos autoproclamados democráticos – inclusive o brasileiro – tratam o ditador com deferência e, não raro, hostilizam seus opositores. A convicção democrática, nesses casos, foi superada pelo cálculo político.

 

É dever do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mais do que de qualquer outro líder da região, pôr a mão na consciência e refletir sobre o significado do Nobel concedido a María Corina. Quando o “companheiro” Maduro cassou a candidatura presidencial de María Corina, de forma escandalosamente ilegal, Lula reagiu com ironia. Na ocasião, o petista disse que também fora “impedido de concorrer” em 2018, mas que, “em vez de ficar chorando”, indicou outro candidato – sugerindo que a venezuelana fizesse o mesmo. Para além do preconceito, Lula igualou situações incomparáveis e desdenhou da força de uma mulher que arrisca a vida pelos mesmos princípios que o petista, aparentemente só da boca para fora, diz defender.

O Nobel da Paz concedido a María Corina é um lembrete de que a democracia não é um “conceito relativo”, como dissera Lula, em 2023, ao tratar da crise na Venezuela. Seus valores não podem ser moldados conforme arranjos geopolíticos. A Venezuela vive sob uma brutal ditadura. E o fato de ainda haver quem hesite em chamar as coisas pelo nome mostra o quanto a política regional se divorciou de princípios morais e humanitários que deveriam se sobrepor às divergências políticas.

 

Laurear María Corina é uma resposta, ainda que indireta, a esses democratas seletivos que sacrificam os valores democráticos sob o altar das afinidades ideológicas. O reconhecimento de sua luta, como já dito, independe de prêmios. Mas o Nobel da Paz tem o mérito de registrar para a História que, enquanto há líderes que se omitem diante do arbítrio, por cálculo ou tara ideológica, há quem o enfrente com coragem e dignidade.

Com derrota de MP do IOF, ajuste de gastos se impõe

Por  Editorial / O GLOBO

 

O plenário da Câmara dos Deputados: governo foi derrotadoO plenário da Câmara dos Deputados: governo foi derrotado — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/08/10/2025

 

Em meio a uma leva de boas notícias para o governo — aprovação da isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, abertura de diálogo sobre o tarifaço com Donald Trump e recuperação da popularidade —, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva precisará digerir a dura derrota que lhe foi imposta pela Câmara na última quarta-feira, quando deputados retiraram da pauta a Medida Provisória (MP) que criava alternativas à elevação do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Com o fim da validade da MP, o governo se viu desafiado a cobrir um rombo estimado em R$ 46 bilhões até o fim de 2026. Até agora, não tem proposta convincente para isso.

 

De nada adiantam as lamúrias e a busca por culpados externos. O maior responsável pelo abate da MP é o próprio governo. Errou desde o início, insistindo no aumento de impostos. A MP já era ruim, mas ficou pior quando deputados a desidrataram, reduzindo a tributação das bets e recuando na taxação de ativos financeiros como Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e do Agronegócio (LCAs).

 

Agora, o governo precisa se virar para obter novos recursos e promover cortes no Orçamento. O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), aventou a possibilidade de contingenciar até R$ 10 bilhões em emendas parlamentares — uma ideia mais que oportuna. Lula deverá discutir o assunto com a equipe na próxima semana, depois de voltar de viagem a Roma, mas adiantou que uma proposta cogitada é taxar fintechs. “A gente vai propor que o sistema financeiro, sobretudo as fintechs, porque tem fintech hoje maior que banco, pague o imposto devido a este país”, disse.

 

O governo se vê sempre diante do mesmo problema: cobrir déficits no Orçamento gerados por uma gestão perdulária, que despreza o controle dos gastos públicos. Desde o início do mandato, essa nunca foi uma preocupação genuína. Quando a popularidade de Lula começou a despencar, cresceu o pacote de bondades do Palácio do Planalto, independentemente de haver recursos para sustentá-lo. A solução canônica tem sido o avanço sobre o bolso do contribuinte, apesar de os brasileiros já sofrerem com uma das maiores cargas tributárias do mundo.

 

Até aqui, Lula tem se recusado a fazer o que é necessário: promover ajustes estruturais nas despesas para equilibrar as contas. A política de aumento real do salário mínimo, que acarreta reajustes automáticos em todas as despesas a ele vinculadas (como aposentadorias, Benefício de Prestação Continuada, abono salarial ou seguro-desemprego), é um sorvedouro de recursos públicos. Assim como a vinculação obrigatória das despesas com saúde e educação à arrecadação (se a economia cresce, também cresce o gasto nessas duas áreas sem nenhuma avaliação de critério ou necessidade). Não surpreende que o Orçamento seja dominado por despesas obrigatórias, praticamente sem espaço para gastos livres.

 

É provável que nem o governo saiba qual será a saída para compensar o fracasso da MP do IOF. Petistas têm dito ser possível mexer em impostos sem aval do Congresso. O Supremo validou a competência do governo para elevar o IOF sem consultar o Parlamento. Mas esse caminho resultaria em mais crise e novos impasses. O Congresso já deixou claro que não está disposto a chancelar a sanha arrecadatória do Planalto. O governo não pode se furtar a implementar ajustes nas despesas.

Trump anuncia tarifa de 100% sobre a China a partir de novembro

Por Bloomberg — Washington / O GLOBO

 

O presidente americano Donald Trump anunciou, através de sua rede social Truth Social, que vai taxar todos os produtos chineses em 100% e que irá adotar controles de exportação sobre "qualquer e todo software crítico". A declaração acontece poucas horas de ameaçar cancelar a reunião marcada com o líder chinês, Xi Jinping, que seria realizada na Coreia do Sul.

 

"Acaba de ser revelado que a China adotou uma posição extraordinariamente agressiva em relação ao comércio, ao enviar uma carta extremamente hostil ao mundo, declarando que, a partir de 1º de novembro de 2025, iria impor controles de exportação em larga escala sobre praticamente todos os produtos que fabrica — e até mesmo sobre alguns que nem produz. Essa medida atinge todos os países, sem exceção, e foi obviamente planejada por eles há anos. Trata-se de algo totalmente inédito no comércio internacional e de uma vergonha moral no relacionamento com outras nações", disse ele em trecho da publicação.

 

A declaração veio após Trump ameaçar novas medidas comerciais contra a China, citando os “hostis” controles de exportação impostos por Pequim sobre minerais de terras raras. Trump também afirmou que não via “razão” para manter a reunião planejada com Xi à margem da cúpula da APEC, na Coreia do Sul, ainda neste mês, embora o prazo anunciado para a entrada em vigor das novas tarifas ainda deixe espaço para que o encontro ocorra antes disso.

 

"Diante do fato de que a China tomou essa posição sem precedentes, e falando apenas em nome dos Estados Unidos, e não de outras nações que também foram ameaçadas, a partir de 1º de novembro de 2025 (ou antes, dependendo de novas ações ou mudanças por parte da China), os Estados Unidos da América imporão uma tarifa de 100% sobre a China, além de quaisquer tarifas já em vigor. Também em 1º de novembro, serão impostos controles de exportação sobre qualquer e todo software crítico", disse ele.

 

As tarifas planejadas por Trump elevariam os impostos de importação sobre produtos chineses para 130%, já que, atualmente, há cobrança de 30% sobre os produtos importados do país asiático. A alíquota é um pouco abaixo do nível de 145% imposto no início deste ano, antes de ambos os países reduzirem as tarifas em uma trégua que visava avançar nas negociações comerciais.

 

Antes da reunião planejada, tanto os Estados Unidos quanto a China haviam adotado medidas para restringir o fluxo de tecnologia e materiais entre os dois países. Essas ações foram vistas como tentativas de ganhar vantagem nas negociações.

 

Na ação mais recente, a China impôs novas taxas portuárias a navios americanos e iniciou uma investigação antitruste contra a Qualcomm, após novas restrições à exportação de minerais de terras raras, essenciais para a fabricação de motores, semicondutores e jatos de combate.

 

O anúncio coloca em dúvida não apenas a agenda da viagem de Trump à Ásia, que incluía o encontro com Xi na cúpula de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) ainda este mês, mas também o futuro das negociações sobre a recusa da China em comprar soja dos EUA, o que tem prejudicado os agricultores americanos.

Israel aprova acordo com Hamas para fim da guerra na Faixa de Gaza

Guilherme Botacin Victor Lacombe / FOLHA DE SP

 

Em decisão histórica, o governo de Israel aprovou nesta quinta-feira (9) o acordo assinado com o grupo terrorista Hamas para encerrar, após dois anos e dois dias, a guerra na Faixa de Gaza. Mais cedo, a facção palestina havia dito ter recebido garantias dos Estados Unidos e dos mediadores TurquiaQatar e Egito de que o conflito oficialmente acabou.

Falando na reunião de gabinete que ratificou o acordo, o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, disse que o país está prestes a conseguir o retorno dos reféns ainda em poder do Hamas.

"Lutamos por dois anos para atingir nossos objetivos de guerra", afirmou o premiê, em inglês, ao lado de Steve Witkoff e Jared Kushner, enviados de Donald Trump que participaram da reunião. "Um desses objetivos era a volta dos reféns, todos eles, vivos e mortos. E estamos prestes a atingir esse objetivo."

A reunião contou com a presença de todos os ministros do governo Netanyahu e durou horas, estendendo-se até a madrugada no horário local. A aprovação do gabinete era a última etapa necessária para que o acordo entrasse em vigor —com isso, o cessar-fogo tem início imediato e as tropas israelenses devem começar seu primeiro recuo, movimentação que tem prazo de 24 horas para acontecer.

Em seguida, assim que os soldados se retirarem, o Hamas tem 72 horas para entregar todos os reféns que estão no território. A expectativa levantada por Trump é de que os primeiros cheguem em Israel no sábado (11).

Não há clareza se os corpos dos reféns mortos também serão recuperados no mesmo período, e Trump disse que pode haver dificuldade de devolver alguns dos cadáveres. Durante esses três dias, o Hamas e Tel Aviv precisam ainda negociar a lista de prisioneiros palestinos que serão libertados por Israel —a facção afirma que todas as mulheres e crianças presas serão soltas.

O Exército israelense afirmou, em comunicado, que já iniciou "preparações operacionais" para a primeira fase do acordo, quando os soldados recuarão a uma linha intermediária, mas não deixarão Gaza em definitivo. Hoje, Israel controla mais de 70% do território —ao final da retirada, deve ter domínio de 53%, tendo saído também dos principais centros urbanos.

Um recuo mais amplo deve acontecer apenas após o estabelecimento de uma força internacional incumbida do que está sendo chamado de estabilização do território palestino. Autoridades americanas disseram a agências de notícias internacionais que o governo Trump vai enviar 200 soldados a Israel para essa etapa da transição em Gaza, mas que os americanos não vão entrar no território.

Com todas as fases do acordo concluídas, Israel ainda manterá uma zona-tampão por todo o perímetro de Gaza, inclusive no chamado corredor Filadélfia, área no sul do território palestino que vai da costa até o território israelense.

Ou seja, a previsão é de que Tel Aviv mantenha o controle da fronteira de Gaza com o Egito, ainda que o plano do presidente americano proponha a entrada de ajuda humanitária no território palestino sem interferências —cerca de 150 caminhões de suprimentos já estão a caminho da fronteira sul do território, e a expectativa é que eles possam entrar assim que os soldados israelenses se retirarem.

Outro ponto ainda sem resolução, e que ameaça derrubar o acordo em próximas fases, é o desarmamento do Hamas. O grupo disse que não aceitará entregar suas armas, enquanto o governo israelense definiu como objetivo de guerra a desmilitarização do território e o presidente americano promete que isso vai acontecer nas próximas etapas de negociações.

Especialistas israelenses ouvidos pela reportagem apontam que Tel Aviv pode ter que aceitar um desarmamento parcial, assim como o Hamas terá que aceitar uma retirada parcial de tropas israelenses de Gaza. Também pode ser necessário flexibilizar a exigência de que o grupo terrorista não tenha qualquer papel no governo do território quando a guerra terminar.

Ainda assim, Netanyahu sofre pressão externa e interna para não violar o acordo, a começar pelo próprio presidente americano, que aumentou a cobrança sobre o israelense depois que Tel Aviv atacou a liderança do Hamas no Qatar.

"Esse foi o maior erro estratégico cometido por Netanyahu desde o 7 de Outubro", disse João Koatz Miragaya, mestre em história pela Universidade de Tel Aviv e assessor do Instituto Brasil-Israel, à Folha. "Netanyahu quis dar uma resposta para sua base de que ele poderia fazer o que bem entendesse no Oriente Médio. Acabou sendo obrigado a se desculpar pelo ataque ao Qatar e a aceitar um cessar-fogo contra a sua vontade."

Internamente, Netanyahu tenta colher créditos pelo fim de uma guerra que ele próprio estendeu além do que a sociedade israelense parece suportar: poucos meses após o mega-ataque terrorista do Hamas, que deixou 1.200 mortos e deu início ao conflito, Netanyahu passou a ser duramente cobrado por críticos e familiares de reféns pela demora no retorno dos sequestrados —dos 251 levados pela facção, 50 ainda estão em Gaza, e apenas 20 deles supostamente vivos. Em Gaza, mais de 67 mil palestinos morreram nos dois anos de guerra, segundo o Ministério da Saúde do território, controlado pelo Hamas.

A percepção generalizada entre críticos do prolongamento do conflito é que Netanyahu o fez colocando interesses políticos pessoais em primeiro plano. Antes do ataque do Hamas, Netanyahu era alvo de protestos massivos contra uma reforma judicial controversa que retirava poderes do Judiciário em meio a investigações criminais contra ele por corrupção.

Seu gabinete, o mais à direita desde a criação do Estado judeu, tem integrantes da extrema direita nacionalista que sustentam a coalizão governista e são contrários a um acordo que termine a guerra sem a destruição completa do Hamas —Bezalel Smotrich (Finanças) e Itamar Ben-Gvir (Segurança Nacional) falam ainda abertamente na anexação dos territórios e expulsão dos palestinos de lá.

Por isso, o fim do conflito em termos que não agradam a ala mais extremista do governo pode se transformar em um novo desafio para que Netanyahu, que perde com o fim da guerra o principal elemento para desviar o holofote das críticas, mantenha-se no poder. Antes da reunião, Smotrich, por exemplo, adiantou que não votaria a favor do acordo de paz, e Ben-Gvir disse que derrubaria o governo se o Hamas não for desmantelado.

Na quinta, Netanyahu voltou a defender que Trump deveria ganhar o Prêmio Nobel da Paz pelo esforço para o fim do conflito. O perfil do gabinete do premiê publicou montagem em que Trump aparece com um grande colar com a medalha da láurea ao lado do primeiro-ministro.

CREIANÇAS PALESTINA COMEMORAM FIM DA GUERRA

Fintech de ‘prateleira’ da CPI da Covid liga caso INSS a bet suspeita de lavar dinheiro

Por Vinícius Valfré / O ESTADÃO DE SP

 

 

BRASÍLIA - Investigado por participação no suposto esquema de descontos ilegais a aposentados, o empresário Fernando Cavalcanti dirigiu uma fintech em parceria com Ernildo Junior, dono da Pixbet, a casa de apostas que patrocinava o Flamengo e se vinculou a políticos do Centrão na Paraíba.

 

O XBank Digital também teve em sua constituição o advogado Nelson Wilians, outro personagem investigado pela Polícia Federal e pela CPI do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS) por suspeita de envolvimento no caso dos descontos associativos ilegais.

 

Procurados por meio de suas equipes, Ernildo Junior e Nelson Wilians não comentaram. Por nota, Cavalcanti disse que não tem relação com a Pixbet e o que o XBank foi um “negócio que não avançou”. Ele prestou depoimento à CPI na segunda-feira, 6, e não respondeu a perguntas sobre sua relação com as “bets”.

 

Nelson Wilians é ex-sócio de Fernando Cavalcanti e um dos advogados da Pixbet e de Ernildo Junior. A bet e seu responsável enfrentam uma investigação da Polícia Federal na Paraíba. O caso que tramita em segredo de Justiça apura crimes de evasão de divisas, operação irregular de instituição financeira e lavagem de dinheiro.

 

Criado em 2023, o XBank, dirigido por Junior e Cavalcanti, foi oficialmente dissolvido em junho deste ano. Os primeiros donos da empresa, Cléber Faria Fernandes e a Sueli de Fátima Ferretti, são ligados a um escritório de advocacia especializado em abertura e transferências de sociedades empresariais.

 

Cleber e Sueli tornaram-se personagens de outra CPI, a da Covid, realizada em 2021. Ambos são donos de dezenas de CNPJs que a comissão dizia ser de “prateleira”. Eles são abertos e repassados para outras atividades econômicas.

 

Eles foram citados depois que ficou constatado que ambos foram sócios de uma empresa que tinha como dono Francisco Maximiano, apontado como pivô de um esquema de corrupção na tentativa de compra de vacinas da Covaxin durante o governo de Jair Bolsonaro (PL). Os dois também eram representantes de empresa que depois foi transferida a Carlos Wizard, apontado na CPI como integrante do “gabinete paralelo” de Bolsonaro.

 

Ao Estadão, Cleber Fernandes afirmou que o escritório somente disponibiliza “empresas pré-operacionais” e que “confirmamos que não temos nenhuma vinculação com as pessoas por você mencionadas”.

 

Fintech foi fechada após um ano

A fintech de Fernando Cavalcanti e Ernildo Junior originalmente chamava-se L.P.G.S.P.E Empreendimentos, quando Cleber Fernando e Sueli Ferretti eram os únicos sócios. Foi aberta em junho de 2023 com capital social de R$ 500 – valor em dinheiro ou em bens investido para funcionamento inicial de um empreendimento.

Ainda em setembro de 2023, Cleber e Sueli renunciaram para que Ernildo Junior e Fernando Cavalcanti assumissem como diretores e elevassem o capital social para R$ 5 milhões. Os atos administrativos tiveram entre os “subscritores” Nelson Wilians e uma das empresas de Fernando Cavalcanti.

 

A empresa ganhou um escopo amplo com 11 tipos de atividades. De suporte técnico a serviços de informática até consultoria em gestão empresarial e serviços de cobrança.

 

Um ano depois de assumir o negócio, o grupo decidiu dissolver a empresa, em setembro de 2024. O encerramento só foi oficializado na Receita Federal em 16 de junho deste ano.

 

Inquérito da PF apura envio de dinheiro ao exterior

Enquanto Cavalcanti é investigado por suposto envolvimento com o escândalo do INSS, a Pixbet e Ernildo Junior enfrentam pelo menos uma investigação da Polícia Federal, na Paraíba.

 

O caso que tramita em segredo de Justiça apura crimes de evasão de divisas, operação irregular de instituição financeira e lavagem de dinheiro.

 

Uma parte da linha investigada veio à tona quando uma decisão do juiz federal Vinícius Costa Vidor, da 4ª Vara Federal da Paraíba, saiu do segredo de Justiça, no mês passado. O magistrado autorizou, em fevereiro, a quebra dos sigilos bancário e fiscal de 17 pessoas e empresas, incluindo familiares de Ernildo Junior.

A suspeita é a de que a casa de apostas e seu dono integrem um esquema de remessa ilegal de valores ao exterior e lavagem de dinheiro, usando o mercado de apostas esportivas online como fachada.

 

O inquérito policial é de 2022 e foi aberto depois que o Ministério Público Federal identificou um grupo de empresas atuando na comercialização de créditos de jogos online que eram recebidos no exterior em dólares, sem registro formal do câmbio.

 

A investigação apontou ainda a utilização de uma empresa em nome da irmã e do sobrinho de Ernildo Junior que seria usada para “suprimir o pagamento de tributos” da Pixbet, “mascarar os negócios jurídicos” e “criar embaraços à eventual cobranças de natureza trabalhista”.

 

Em nota enviada ao Estadão no dia 11 de setembro, Nelson Wilians, advogado da Pixbet, afirmou que “três anos após a abertura do inquérito nenhum investigado foi indiciado ou intimado”, o que tornaria as quebras de sigilo “especulativas e indevidas”.

 

“A Pixbet, licenciada e autorizada a operar no País, reafirma a regularidade de suas operações e permanece à disposição das autoridades e da imprensa para esclarecimentos”, destacou.

 

No dia seguinte, ele foi um dos alvos de uma nova fase da Operação Sem Desconto, da PF, que cumpriu mandado de busca e apreensão em endereços dele.

Nelson Wilians tem movimentações financeiras consideradas suspeitas com o empresário Maurício Camisotti, apontado como um dos principais beneficiários do esquema de desvios em aposentadorias. O advogado seria um destinatário de recursos arrecadados por associações que praticavam descontos ilegais contra aposentados.

 

A polícia chegou a pedir a prisão dele. A Procuradoria-Geral da República concordou com o pedido, mas o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), indeferiu a solicitação.

 

Fernando Cavalcanti também foi alvo de buscas, em Brasília, por suspeitas de que ele ocultou veículos de luxo para escapar da ação policial. De acordo com a PF, os veículos estavam em nome de uma empresa de Cavalcanti, mas pertenceriam de fato a Nelson Willians.

 

Cavalcanti era sócio do advogado em empresas e chegou a dizer em entrevistas que “não existe Fernando Cavalcanti sem Nelson Wilians”.

 

À CPI, Fernando Cavalcanti contou que deu um Fusca, versão de colecionador, para o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), e que viabilizou um negócio de R$ 80 milhões para o escritório do amigo e ex-sócio, sem revelar o nome do cliente.

 

A Pixbet foi citada na última reunião da CPI do INSS. Um helicóptero de Nelson Wilians, avaliado em cerca de R$ 20 milhões, era cedido para a casa de apostas e chegou a voar com a logomarca da bet na cauda.

 

O senador Marcos Rogério (PL-RO) quis saber se a aeronave atribuída a Nelson Wilians pertenceria, na verdade, a Cavalcanti.

 

“Nós vamos ter que fazer esse cruzamento, porque me parece estarem sendo juntadas as duas coisas: o esquema de fraude aos aposentados e o esquema da jogatina, que se usou de estruturas e de escritórios para praticar a lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio”, disse o parlamentar.

 

Durante a campanha eleitoral de 2024, Ernildo Junior usou a aeronave para ir até sua cidade natal, Serra Branca, na região do Cariri da Paraíba. Como mostrou o Estadão, o dono da casa de apostas lançou e apoiou fortemente o candidato Michel Alexandre Pereira Marques (União), o Alexandre Pixbet. Ele foi presidente do Serra Branca, time de futebol profissional recriado e patrocinado pela Pixbet como parte dos negócios de Ernildo Junior.

 

A vitória de Alexandre na disputa de 2024 marcou a aproximação de Ernildo Junior com políticos do Centrão, como Antônio de Rueda, presidente do União Brasil, e o senador Efraim Filho (União-PB), e o início da criação de uma força política a partir do interior do Paraíba.

 

Em uma das visitas à cidade de 13 mil habitantes, Rueda lançou a pré-campanha de Efraim Filho ao governo da Paraíba, em 2026. “A mudança da Paraíba começa aqui. Estou pré anunciando. Isso aqui nasce hoje, não será a partir de João Pessoa, será a partir de Serra Branca. Vamos à vitória”, discursou. A Pixbet virou a patrocinadora máster do Flamengo em janeiro de 2024, com contrato até dezembro de 2025 e possibilidade de renovação até 2027. Em agosto, o clube rubro-negro anunciou o fim antecipado da parceria.

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