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O Brasil colhe na safra de 2025 o volume de grãos que só era previsto para 2029

Por Igor Savenhago / O ESTADÃO DE SP

 

Mário Sérgio Silvério cultiva mil hectares de grãos em Guaíra, interior de São Paulo. O principal produto é o milho, que ocupa 360 hectares de sequeiro e 640 irrigados. Parte dessa área é alternada com soja e feijão. A meta é, sempre que possível, realizar três safras por ano, o que era impensável em 1997, quando o sogro, com quem trabalhava, faleceu e Silvério assumiu os negócios. Na época, eram 90 hectares com soja, milho e arroz. E apenas uma colheita anual.

 

A história do agricultor ilustra o cenário das safras de grãos no Brasil, que batem recordes sucessivos. Na temporada 2024/25, a tendência se mantém. A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta que os produtores brasileiros deverão colocar no mercado 345,2 milhões de toneladas — alta de 15,6% sobre 2023/24.

 

A maior produção de grãos da história do Brasil deverá ser impulsionada por marcas inéditas em produtos como a soja, cuja previsão é crescer 15% em relação à safra anterior; o milho, com aumento projetado em 19%; o algodão, que deve ter incremento de 7%; o sorgo, com expectativa de salto de 23%; e o amendoim, que deve ter acréscimo de 45%, ultrapassando, pela primeira vez, 1 milhão de toneladas.

 

Números para além das projeções otimistas

Os números surpreendem até as perspectivas mais otimistas. Um documento com as projeções do agronegócio nacional elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em parceria com 13 entidades, entre elas a própria Conab, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), publicado em 2024, traçou previsões de produção de grãos para dez anos. Pelo levantamento, o Brasil produziria, em 2024/25, 319 milhões de toneladas. Um volume de quase 345 milhões, 8% acima da expectativa, só era previsto para 2028/29.

 

Fora dos grãos, um recorde de produção deverá ser registrado neste ano em produtos florestais — alta de pelo menos 11% em relação ao ano passado, segundo entidades do setor. Nos combustíveis, o etanol foi o maior já registrado, com 34,96 bilhões de litros no ciclo 2024/25 da cana-de-açúcar, encerrado em março — 4,06% acima da safra anterior. Já o biodiesel deve crescer 10% em 2025, chegando a 9,9 bilhões de litros.

 

As carnes também bateram recordes: em 2024, foram 10,2 milhões de toneladas de carne bovina, 14,2% a mais que em 2023; 13,6 milhões de toneladas de frango, avanço de 2,4%; e 5,3 milhões de toneladas de carne suína, alta de 1,2%. Para 2025, as projeções indicam novos crescimentos para o frango e os suínos. Apenas a bovina deve recuar levemente, por menor oferta de novilhas.

 

Exportações recordes também de carne

As vendas externas de carne pelo Brasil também foram as mais expressivas da história em 2024: 2,89 milhões de toneladas de bovina, 5,3 milhões de frango e 1,35 milhão de suína. Exceto o frango, que pode ter leve queda em 2025, motivada pelo caso de gripe aviária em granja comercial no Rio Grande do Sul em maio, as outras duas devem crescer — mesmo com a tarifa de 50% do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, sobre a carne bovina. Assim, o País deve manter a liderança nas exportações globais de carne.

 

Relatórios da BTG Pactual e da Cogo Inteligência em Agronegócio mostram como o Brasil virou um dos maiores exportadores mundiais em vários produtos do agronegócio, como a soja, que lidera as exportações, além de ser o terceiro maior exportador de milho, o segundo de etanol e o primeiro de algodãocaféaçúcar, tabaco e suco de laranja.

 

O suco, café, algodão e couros bateram recordes de volume exportado no último ano-safra (julho 2024 a junho 2025). Soja e milho devem encerrar 2025 com os maiores volumes já embarcados: 109 milhões e 45 milhões de toneladas, respectivamente.

Somos um dos poucos países com a condição geográfica que temos, clima tropical e tecnologia, que nos permitiu desenvolver sistemas de plantio e variedades adaptadas à nossa realidade

José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro

 

Para os próximos anos, são esperados novos avanços no agro. Segundo o consultor José Carlos Hausknecht, sócio-diretor da MB Agro, o Brasil continuará respondendo às demandas globais por alimentos e energia, em curva ascendente. “Somos um dos poucos países com a condição geográfica que temos, clima tropical e tecnologia, que nos permitiu desenvolver sistemas de plantio e variedades adaptadas à nossa realidade”, diz. “Para os países que não conseguem atender suas necessidades, existem poucas alternativas para comprar além do Brasil.”

 

Ainda segundo ele, os produtores brasileiros conseguem atingir índices impressionantes, mesmo sem apoio governamental expressivo, o que é confirmado pelo relatório do BTG: segundo o documento, o Brasil é o quinto país do mundo com o agro menos subsidiado — o único com produção agrícola considerável à frente é a Argentina.

 

Crédito ainda é um desafio

O total de recursos para financiar um ciclo anual da produção agropecuária no Brasil está estimado por especialistas em R$ 1,3 trilhão. O valor anunciado pelo governo federal para o Plano Safra 2025/26 foi de R$ 605,2 bilhões — R$ 516,2 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 89 bilhões para a familiar —, o que corresponde a pouco mais de 46% das necessidades. Esse fator se soma às dificuldades de acesso ao crédito no Brasil, que é caro e burocrático, segundo Hausknecht. E com um agravante: a ausência de políticas públicas eficazes voltadas ao seguro rural. Sem contar os entraves logísticos, que atrasam e oneram o escoamento.

 

Diante deste cenário, o presidente da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), Márcio Lopes de Freitas, avalia que uma das principais dificuldades dos produtores para manter o ritmo de crescimento é equilibrar as contas. “Apesar dos aumentos de safra, o preço por unidade colhida vem caindo, o que até justifica o aumento em volume, como forma de compensar a perda de renda”.

 

Para Freitas, isso ajuda a explicar a elevação nas adesões de novos membros às cooperativas, de cerca de 10% ao ano. Tanto às agrícolas, que concentram cerca de 50% da colheita de grãos do País, quanto às de crédito, que podem responder, neste ano, segundo a OCB, por até 48% do total de crédito destinado ao agro, superando os valores liberados pelo governo.

 

Matheus Marino, presidente do Conselho de Administração da Coopercitrus, uma das dez maiores cooperativas agrícolas do País, com presença em três Estados, concorda e acrescenta dois itens à lista de gargalos que o cooperativismo pode ajudar a enfrentar: a diversificação da lavoura — incentivando culturas como cacau e produtos de valor agregado, como azeite e vinho — e a sucessão no campo, como no caso de Silvério. “Precisamos garantir a continuidade dos negócios e, para isso, introduzir e envolver as novas gerações no agro, com tecnologia, escolas e auxílio jurídico”.

 

SOJA PRODUÇÃO

Sozinha, Fortaleza gera mais empregos do que nove estados brasileiros

Escrito por Letícia do Vale / diarionordeste
 
O saldo de empregos de carteira assinada (admissões menos desligamentos) registrado em Fortaleza entre janeiro e agosto deste ano foi maior que o de nove estados brasileiros.  

Isso significa que a Capital gerou, sozinha, mais vagas que o Rio Grande do Norte, Sergipe, Alagoas, Amazonas, Tocantins, Rondônia, Amapá, Acre e Roraima

Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), divulgados nesta segunda-feira (29) pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).

Segundo a pesquisa, o saldo de Fortaleza (18.615) foi cerca de 586% maior que o de Horizonte (2.714), segunda colocada no ranking de municípios cearenses que mais geraram empregos de carteira assinada em 2025 até agosto. Na terceira colocação está Juazeiro do Norte, com 2.158 vagas

Na visão da Conselheira do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-Ce) e Diretora da Associação Brasileira de Recursos Humanos do Ceará (Abrh/CE), Desirée Mota, Fortaleza mantém uma performance relativamente alta na geração de vagas formais

A economista considera vantagens econômicas da Capital fatores como:

  • Economia mais diversificada; 
  • Aglomerado urbano; 
  • Economia de escala, que atrai investimentos, facilita logística e oferece infraestrutura mais robusta (mercado de trabalho, oferta de serviços de apoio, instituições de ensino, conectividade);
  • Maior demanda interna: consome mais bens e serviços, o que sustenta empregos em diversos setores. 

Além disso, Desirée ressalta que “muitas pessoas de municípios próximos podem se deslocar para Fortaleza para trabalhar, o que pode diluir a criação de postos no município menor, concentrando a geração de empregos na Capital”. 

Levando em consideração o mesmo período de tempo, o Ceará é o terceiro estado do Nordeste em saldo de empregos (40.518), atrás da Bahia (88.679) e de Pernambuco (45.899). 

Já o Nordeste é a terceira região brasileira que mais gerou vagas de carteira assinada (261.908), atrás somente do Sudeste (690.306) e do Sul (267.149). 

Saldo de empregos com carteira assinada de janeiro a agosto de 2025

Posição Local Saldo
1 Fortaleza 18.615
2 Amazonas 18.415
3 Rio Grande do Norte 15.397
4 Tocantins 10.610
5 Rondônia 10.533
6 Sergipe 8.711
7 Amapá  6.548
8 Acre 4.774
9 Roraima 2.688
10 Alagoas  -2.658

Maioria no saldo de vagas de Fortaleza é de homens jovens com ensino médio completo

De acordo com o relatório, o maior saldo de contratações na Capital entre janeiro e agosto de 2025 foi de pessoas com ensino médio completo, entre 18 e 24 anos. Além disso, o saldo de homens contratados (11.429) foi maior que o de mulheres (7.186).

Esse perfil se destaca para trabalhos operacionais, cujas vagas estão mais em alta no mercado de trabalho fortalezense. É o que defende a diretora da AGIRH Consultoria Organizacional, Isabela Edson. 

Paralelamente, a especialista aponta áreas que apresentam maior número de oportunidades do que profissionais qualificados, como os setores comercial, de marketing e contábil

Fortaleza tem sido referência na área logística, de data centers, na área de Tecnologia da Informação (TI), então oportunidades nessas áreas também estão acima do mercado. Eu vejo o Ceará como muito estratégico”, ressalta. 

Segundo o Novo Caged, a atividade econômica que gerou mais vagas de carteira assinada em Fortaleza foi Serviços ( 9.581), seguida de Construção (5.881), Indústria (3.258), Agropecuária (62) e Comércio (-167). Os números são referentes ao período de tempo entre janeiro e agosto deste ano. 

“Dentro dos serviços, atividades ligadas à administração pública, educação, saúde e atividades administrativas tiveram destaque”, indica Desirée Mota. 

Carteira de Trabalho

Por que cresceu o nº de mortes em acidentes de trânsito no Brasil e quem são as vítimas?

Por Franklin Weise / O ESTADÃO DE SP

 

 

Todos os anos, recebemos notícias sobre quantas dezenas de milhares de brasileiros morreram no trânsito – mas elas costumam focar no total apenas. Senti falta de um maior detalhamento do que está ocorrendo, e mergulhei nos dados para entender sua evolução desde a virada do milênio. E me surpreendi com o que acontece com os homens mais idosos.

 

Comecemos pelo básico: a série histórica em números absolutos. Depois de um pico no meio da década passada, os óbitos começaram a cair, mas voltaram a subir em 2020.

 

Quando colocamos os óbitos em índice relativo à população, temos a possibilidade de comparar com outros países. Optei pelos EUA para ilustrar. A despeito de os EUA terem um índice maior de veículos automotores/habitante, o índice de mortos no trânsito é menor lá. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente que o nosso índice não seja tão maior assim - apenas 23% (mas já foi o dobro em meados da década de 2010).

 

Aqui um parêntese: um comparativo mais preciso demandaria saber também o quanto se usa de cada modal – e quais as distâncias e tempos de percurso.

 

Mas voltemos ao Brasil apenas: o que será que anda acontecendo nos últimos anos para explicar o aumento no número absoluto de óbitos no trânsito?

 

Algumas observações aqui. Começando pelos óbitos de motociclistas, que subiram muito e não tiveram queda em anos recentes dentre veículos automotores. Eu queria colocar em índice (comparar com a frota em circulação neste período), mas infelizmente os dados disponíveis no Sindipeças (que faz um levantamento mais preciso que o Denatran) não voltam até 2000. Considerando o período 2010-2023, a taxa de óbitos por moto em circulação se manteve estável.

 

De qualquer forma, em ocupantes de automóveis tivemos uma queda importante no total de óbitos, a despeito do aumento da frota circulante - o que é ótimo.

Já os óbitos de ciclistas andam constantes nos últimos dez anos - mas aqui não temos um bom referencial, já que não há registro de bicicletas (o número em circulação pode ter aumentado muito, mas não há dados seguros a respeito).

 

Quanto aos pedestres, houve uma enorme queda no total a partir de 2005 - quase 50%. E isto é excelente!

E aqui algo diferente: parece uma pirâmide etária, que não representa a população por faixa etária, mas sim os óbitos dentro de cada grupo de idade e sexo.

Vejam o quanto o sexo masculino passa a morrer muito mais que o sexo feminino em acidentes de trânsito, a partir da entrada na vida adulta – e continua assim pelo resto da vida. Esta particularidade dos homens dá pano pra manga e será tema exclusivo de uma coluna vindoura.

Ao abrirmos este índice por tipo de vítima, temos mais detalhes interessantes: Como esperado, o índice de óbitos de motociclistas é altíssimo entre os mais jovens – para os homens de 20 a 29 anos, é mais de 3 vezes superior que o de ocupantes de automóveis.

 

Falando em ocupantes de automóveis, algo surpreendente é constatar que o índice de óbitos se mantém praticamente constante nas faixas etárias de adultos.

Algo que vale tanto para homens quanto para mulheres: o avanço dos óbitos de pedestres à medida que escalamos a faixa etária, chegando a cerca da metade do total de vítimas entre homens e mulheres acima de 80 anos.

 

E, novamente: notem o quanto o índice dos homens é maior que o das mulheres mesmo quando não é em veículos a motor (em torno de 3 vezes mais, independente da faixa etária). Isto é algo recorrente ao analisar óbitos por causas acidentais, o que denota o quanto homens são mais propensos a se exporem a riscos que mulheres.

E por fim, uma tabela que detalha não apenas qual o meio de transporte das vítimas fatais (nas linhas), mas também qual o outro ente envolvido no acidente (em colunas):

Alguns pontos que chamam a atenção:

  • Os mais vitimados são motociclistas, principalmente por colisões com automóveis – mas há uma proporção notável de óbitos sem colisão, colisão contra objeto ou contra caminhão/ônibus. Mas o maior número de óbitos (28% deles) é classificado como “outros” ou “não especificado”)
  • As vítimas fatais ocupantes de automóvel, quando identificado o outro ente do acidente, são vitimados principalmente por colisões com caminhão ou ônibus – mas em 1/3 dos casos, o outro ente é não identificado ou identificado vagamente como “outros”
  • Já os óbitos de pedestres ocorrem majoritariamente por acidentes envolvendo automóveis, mas reparem que em quase metade dos óbitos (!) não se conhece o outro ente de trânsito envolvido – ou seja, dentre todos, é o ente com pior completude dos dados. Como o gestor público pode tomar medidas preventivas sabendo tão pouco?
  • E há uma categoria bastante ampla de vítimas “outros óbitos/não especificados” que abrange quase 20% do total – para estes, não sabemos nem mesmo qual tipo de veículo a vítima ocupava. Uma clara deficiência nas declarações de óbito que alimentam o sistema.
  • E ainda há aqueles óbitos nos quais se sabe ao qual tipo de ente do tráfego a vítima pertence - mas sem saber o que a vitimou. São cerca de 25% do total. Pouco ajudam a entender.

Em suma, temos um trânsito que mata muito, mas menos que no pico da série histórica, ocorrido na década passada. Um ponto que precisa ser estudado é a intrigante reversão da tendência de queda no pós-pandemia. E outro ponto que precisa ser melhorado é o fato que os dados das declarações de óbito colhidas pelo DataSUS não detalham o tipo de vítimas em 18% dos óbitos no trânsito terrestre (mas já é bem melhor que em 2000, quando não se sabia qual o tipo de vítima em 39% dos mortos no trânsito).

 

Tudo isto que eu detalhei não está escondido em rincões inescrutáveis da internet – está facilmente acessível a todos via DataSUS, um sistema amigável e rápido, que recomendo fortemente a todos. É um ótimo passo inicial para explorar a realidade que nos cerca.

 

AICENTE DE TRASITO

 

Foto do autor

Opinião por Franklin Weise

Engenheiro, co-criador do site DesvenDados e conhecido nas redes sociais como Frankito, o curioso. Usa embasamento quantitativo e visualização de dados para falar de temas relevantes à sociedade.

Crise às avessas: Aumento de energia solar provoca desequilíbrio, crise financeira e risco de apagão

Por Renée Pereira e Luiz Guilherme Gerbelli / O ESTADÃO DE SP

 

 

No domingo de 10 de agosto, no Dia dos Pais, o Brasil enfrentou uma situação crítica. Enquanto a produção de energia aumentava, o consumo despencava por causa do feriado e da temperatura baixa (em Parelheiros chegou a fazer 2,5º). Para evitar que o sistema entrasse em colapso e provocasse um apagão, cerca de 90% da geração precisou ser cortada e várias usinas desligadas. A crise já é comparada ao racionamento de 2001, com restrições técnicas e financeiras. Mas, desta vez, o problema é o oposto.

 

Naquela época, o Brasil teve de implementar um programa de redução do consumo de energia para se adequar à oferta, que vivia momentos de escassez devido ao baixo nível de chuvas e dos reservatórios. Agora, a situação é contrária. A geração está maior que a demanda. Isso ocorre sobretudo por causa da escalada da geração distribuída, aquela produzida pelos consumidores com painéis solares instalados no telhado das residências e estabelecimentos comerciais.

O sistema elétrico nacional é interligado e coordenado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), responsável por decidir quais usinas devem gerar energia e quais precisam reduzir a produção, de acordo com a oferta e a demanda. O desafio é que o ONS vem perdendo parte desse controle devido ao avanço da geração distribuída, que injeta energia diretamente na rede de distribuição.

Como não consegue regular esse tipo de produção — aumentar ou reduzir conforme a necessidade —, o operador é obrigado a cortar a geração das grandes usinas, especialmente eólicas e solares, o que gera impactos financeiros significativos. Esse movimento é conhecido no setor como curtailment.

A escalada da energia solar foi uma saída que os consumidores encontraram para ficarem menos vulneráveis ao encarecimento da energia elétrica no Brasil. Mas essa não uma solução para todos, pois o preço dos painéis solares ainda não cabe no bolso de todos os brasileiros. Embora seja uma fonte renovável essencial para a transição energética e para a redução de custos, seu crescimento precisa ser acompanhado de planejamento cuidadoso e políticas que garantam sua expansão de forma equilibrada e sustentável.

“O aumento da Micro e Minigeração Distribuída traz desafios adicionais para a operação do sistema, pois com o crescimento da geração distribuída e de usinas conectadas na rede das distribuidoras, a projeção é que, em 2029, apenas 45% da capacidade instalada estará sob a coordenação do ONS”, afirma o órgão, em nota. Para especialistas, esse dado expõe a gravidade da situação no setor e significa que 55% do sistema estaria sem gerenciamento.

O dia 10 de agosto foi um exemplo claro de como o Brasil pode ter de conviver com um desequilíbrio constante no sistema. Nesse dia, às 11h da manhã, só a geração distribuída injetou uma carga de 23 gigawatts, quando o País consumia 58 gigawatts, o que obrigou o ONS a derrubar as demais fontes de energia para dar conta de manter o sistema funcionando, sem riscos.

“A geração distribuída tem de ser marginal e não determinante. Caso contrário, coloca o sistema em risco e põe em xeque todo o modelo do setor”, diz a presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoun. Segundo dados da associação, entre outubro de 2021 e agosto de 2025, a energia solar e eólica cortada somou 39 terawatt-hora, o equivalente a todo o consumo do Nordeste no ano passado.

Na prática, esses cortes resultam numa perda bilionária para o setor, trazem uma insegurança jurídica grande e inibem novos investimentos. Entre outubro de 2021 e agosto de 2025, o prejuízo chegou a R$ 6 bilhões, sendo metade desse valor neste ano até agosto, segundo dados da Abeeólica.

Em recente entrevista ao Estadão, o presidente da fabricante de turbinas eólicas Vestas, Eduardo Ricotta, disse que a cadeia de energia eólica corre risco de estrangulamento se não houver uma solução rápida para o problema. “O País precisa enfrentar essa questão em até três meses para viabilizar a reestruturação do setor eólico brasileiro, de modo a manter sua cadeia produtiva estruturada.”

“Há parques no Ceará e na Bahia em que o corte chega a 70%”, afirma Talita Porto, diretora técnico-regulatória da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). “Isso impacta no retorno financeiro do projeto.”

Com toda essa incerteza, a Absolar estima que R$ 30 bilhões em projetos estão parados. “Não está sendo possível fazer uma previsibilidade do quanto vai ser cortado, e aí você acaba tendo uma fuga de capital”, afirma Talita.

Outro problema provocado pela geração distribuída é que entre 10h e 16h as usinas e painéis solares geram muita energia num horário em que o consumo é baixo. No fim da tarde e início da noite, quando essas unidades já não geram mais energia pela falta do sol, a demanda começa a crescer e exige que usinas térmicas, algumas poluentes, entrem em operação.

A questão, diz Elbia, é que uma térmica tem a chamada “rampa”. Ou seja, para começar a funcionar às 18h, ela precisa se ligada bem mais cedo, gerando mais custos. “O curtailment gera um círculo vicioso."

Para o presidente da consultoria PSR, Luiz Barroso, a operação do sistema elétrico brasileiro ficou muito mais complexa nos últimos anos. “A experiência do passado já não serve para o futuro. É preciso modernizar as ferramentas computacionais usadas na gestão do sistema”, disse o executivo. Na avaliação dele, os desafios da operação precisam ser mais escutados pelo planejamento para o Brasil ter uma matriz de recursos com características e atributos necessários que permitam ao ONS fazer seu trabalho e equilibrar oferta e demanda.

Como chegamos até aqui

Normalmente, o ONS e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) planejam o crescimento das linhas de transmissão vinculado ao da demanda e não da oferta. “O problema é que o avanço da geração distribuída se deu de tal forma que as previsões não capturaram o movimento. Hoje o volume de geração distribuída já atingiu o previsto para 2030″, diz o Coordenador geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, Nivalde de Castro. “O que está ocorrendo é algo absolutamente crítico.”

“O subsídio concedido foi tão interessante que seus volumes cresceram exponencialmente a ponto de transformar a solar na maior fonte em capacidade instalada após as hidrelétricas”, explica Barroso. Esse crescimento desordenado impactou o sistema de várias formas, acelerando muito os desafios para a operação e regulação.

O pesquisador da FGV Energia, Paulo Cunha, afirma que o crescimento acelerado da energia solar no Brasil ocorreu sem o devido tempo para adaptação das redes elétricas. “O avanço foi tão rápido que não houve um processo de preparação das redes para conviver com esse aumento. Isso impôs uma nova forma de operação a um sistema que não estava pronto para isso”, explica.

Já o presidente da Associação Brasileira de Geração Distribuída (ABGD), Carlos Evangelista, reconhece a expansão expressiva do setor nos últimos anos, mas discorda da caracterização dos incentivos como subsídios. “O que existe hoje não são subsídios, e sim incentivos. Subsídio é um aporte financeiro direto para fomentar uma atividade de interesse econômico e social”, afirma.

Segundo Evangelista, o incentivo previsto no Marco Legal da Geração Distribuída (Lei 14.300) se traduz em políticas públicas que reduzem ou isentam tributos, facilitando o desenvolvimento do setor. “Esses incentivos têm prazo para terminar — estão programados para acabar em 2029”, completa.

Solução de longo prazo

Independentemente das discussões sobre subsídios, o fato é que o problema deve persistir nos próximos anos, pois há uma série de projetos em andamento e que vão ampliar a fonte solar no sistema. Não há solução de curto prazo. Quase todas as medidas em análise são de longo prazo.

Na avaliação de Nivalde de Castro, uma das saídas é aumentar a demanda de energia no País, com a atração de grandes consumidores, a exemplo de data centers e produtores de hidrogênio. “Também é preciso ampliar o sistema de armazenamento, seja por meio de baterias ou hidrelétricas reversas (sistema que bombeia água de um reservatório para outro).”

O ONS afirmou que uma das propostas para aliviar o sistema sem medidas emergenciais é a implementação de Operadores do Sistema de Distribuição (DSO — Distribution System Operators), que permitiria coordenar os recursos conectados diretamente às redes das concessionárias. Ou seja, seria como se as distribuidoras atuassem como um operador do sistema.

Grupo de estudos para solucionar o problema Em março, o Ministério de Minas e Energia (MME) criou o Grupo de Trabalho do Curtailment, no âmbito do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), com o objetivo de seguir “atuando de forma estruturada para garantir a segurança e estabilidade do sistema elétrico brasileiro”.

“Reforçamos que, entre as medidas já encaminhadas, estão a elaboração de diagnósticos técnicos sobre a natureza e a magnitude dos cortes, a proposição de soluções regulatórias e operacionais, além da priorização de obras de transmissão e da instalação de equipamentos que aumentem a confiabilidade da rede”, afirmou a pasta por meio de nota.

Insistindo no conteúdo local

Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP

 

Resolução recente do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) elevou para 50% o índice de conteúdo local na construção de navios-tanque acima de 15 mil toneladas. Antes, o porcentual girava em torno de 30%. Trata-se de um tipo de embarcação de menor complexidade tecnológica do que equipamentos de exploração e produção, como sondas e plataformas, mas a exigência de alta proporção nacional na indústria naval em gestões do PT carrega um histórico temerário que não pode ser ignorado.

 

A produção centrada em equipamentos locais é defendida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva desde a campanha eleitoral de 2002. A reativação forçada de estaleiros, sem a necessária capacitação prévia da indústria naval, se coaduna com a agenda desenvolvimentista do PT, que já se provou atrasada e prejudicial ao País. A política de conteúdo local ganhou destaque na exploração dos campos de petróleo do pré-sal e, mais tarde, no governo Dilma Rousseff, chegou ao irrealizável patamar de 65%.

 

Foi uma imposição sem lastro técnico, destinada a encher de encomendas estaleiros – antigos e novos – claramente incapazes de atender à demanda. O resultado foram atrasos monumentais nas atividades de produção da Petrobras e equipamentos com inúmeros defeitos de fabricação. O esvaziamento posterior dos estaleiros foi a consequência previsível de uma política mal planejada e executada a toque de caixa para forjar a imagem de um governo gerador de empregos.

 

O índice de 50% fixado agora pelo CNPE é alto, mas ao menos se limitará às embarcações usadas como apoio. Mesmo de grande porte, os navios, nesse caso, operam na cabotagem, transportando petróleo e derivados, entre a plataforma e a refinaria e entre as refinarias e o mercado consumidor.

Na Noruega, após a descoberta de gás no Mar do Norte, na década de 1970, houve investimento pesado em capacitação na produção de equipamentos e, ao longo dos anos, as exigências de conteúdo local aumentaram gradativamente de 5% ao patamar atual em torno de 80%. Trata-se de um modelo de planejamento de longo prazo sustentável, ao contrário do que pretende o governo petista, que acredita ser capaz de estimular o desenvolvimento de um setor apenas com base em sua vontade, com retornos rápidos e vistosos – muito úteis em época de eleição.

 

Os exagerados porcentuais de nacionalização desorganizaram a indústria petroleira no passado recente. Na gestão de Dilma, muitas empresas reclamavam da dificuldade de conseguir comprar equipamentos no Brasil, que ficaram mais caros do que no exterior. O governo de Michel Temer reduziu os índices de conteúdo local, atendendo a apelos da indústria, e adotou escalas conforme a fase de exploração e de desenvolvimento da produção de petróleo.

 

A indústria nacional pode ser competitiva na fabricação de equipamentos para a indústria de petróleo – em alguns, inclusive, já é –, mas para isso não precisa de voluntarismo, e sim de planejamento, investimento e qualificação, o que não acontece do dia para a noite.

Círio faz Belém esquecer COP30 e mergulhar em festa católica de 2 milhões de devotos

Vinicius Sassine /FOLHA DE SP
Belém

Aos poucos, antes mesmo de outubro chegar, Belém passou a respirar o Círio de Nazaré, descrito pelos organizadores do evento como a maior procissão católica do mundo –ou mesmo como a maior procissão religiosa do mundo, segundo afirmado por parte da igreja.

As casas, prédios e lojas ganharam adereços que lembram a todo momento que o Círio se aproxima. São cordas que adornam portas e entradas, imagens de Nossa Senhora de Nazaré rodeadas por flores e fitas coloridas.

Para onde se vai, só se fala no Círio: em como será o almoço de domingo, com pratos típicos da culinária paraense; sobre o movimento de parentes rumo à capital; e sobre as festas –religiosas ou não– que cada um pretende estar presente.

É como se Belém, durante o extenso calendário do Círio, esquecesse que, em novembro, vai sediar a COP30, a conferência do clima da ONU.

Para o Círio, são esperados 2 milhões de pessoas, levando em conta toda a movimentação de gente ao longo dos dias, conforme a Igreja Católica em Belém. A quantidade prevista de turistas é de 100 mil –10% a mais do que em 2024. Para a COP30, existem 55 mil inscritos até agora, segundo os últimos dados dos governos federal e do Pará.

A festa católica, que homenageia Nossa Senhora de Nazaré há 233 anos e que é patrimônio cultural da humanidade declarado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), começa oficialmente nesta terça-feira (7), às 18h, com uma missa de abertura na Basílica Santuário de Nazaré.

Conforme a tradição católica, foi na região da basílica que foi encontrada uma imagem de Nossa Senhora de Nazaré, em 1700. Em 1793, diante do aumento da devoção à santa, os paraenses fizeram a primeira procissão em homenagem à padroeira do estado.

Tudo no Círio é um acontecimento. Existem a revelação do cartaz (já feita); a revelação do manto que a imagem usará neste ano (na próxima quinta, 9); uma romaria fluvial no sábado (11) pela baía do Guajará, com 200 a 300 embarcações; e uma romaria de motos no mesmo dia, com cerca de 15 mil veículos de duas rodas.

Ao todo, são feitas 14 procissões. Há peregrinos que caminham quilômetros e quilômetros, vindos de cidades vizinhas, para participação no Círio.

Cerca de 27 mil pessoas estão envolvidas na segurança e suporte aos fiéis, segundo a organização. São militares das Forças Armadas, servidores de governos das três esferas e uma "guarda de Nazaré", com 3.000 homens voluntários.

Os eventos mais importantes são a trasladação, na noite de sábado (11), quando a imagem de Nossa Senhora de Nazaré deixa a basílica e é levada para a Catedral de Belém, na Cidade Velha, e o Círio propriamente dito, que é o retorno da imagem à basílica, no domingo (12), a partir das 7h.

É na trasladação e no Círio que a corda feita com fibra amazônica –produzida em Castanhal, a 70 km de Belém– é estendida para um dos momentos mais emblemáticos e imagéticos de toda a procissão.

São 400 m de corda. Às 14h no sábado, ela é estendida. No domingo, é na madrugada, a partir de 1h30. Devotos guardam seus lugares desde o primeiro minuto, para pagar promessas, fazer promessas, agradecer pelo que consideram uma graça alcançada. Um pedaço dessa corda será levado para casa ao fim das procissões.

No trajeto, existem entre 20 e 30 postos de atendimento médico, diante dos riscos que sempre existem na multidão, num dos meses mais quentes do verão amazônico. Para dezenas de fiéis, é preciso buscar atendimento em hospitais

A COP30 não influenciou nos preços de hotéis e casas, pelo menos até onde é sabido pela diretoria do Círio de Nazaré. O evento está incorporado na rotina de paraenses católicos, que se organizam com parentes que moram na capital. O almoço tradicional –quase como um segundo Natal, com maniçoba e pato com tucupi nas mesas de parte das casas– é servido no dia do Círio.

Para a COP30, quando são esperados mais de 50 mil pessoas de quase 200 países, há uma crise de hospedagem persistente, que se arrasta desde janeiro. A crise é provocada pela cobrança de preços abusivos para leitos em hotéis e imóveis com hospedagem disponível. O governo Lula (PT) disse que ingressará na Justiça com ação contra hotéis em razão dos preços abusivos.

A cúpula de chefes de Estado e de governo da COP30 ocorrerá nos dias 6 e 7 de novembro –em um mês, portanto. Na sexta (3), durante agenda de Lula em Belém, o presidente da conferência, embaixador André Corrêa do Lago, disse que o evento ainda depende de preços mais acessíveis em hotéis para que estejam presentes "todos os atores que a gente quer que venham".

No Círio, a COP30 estará presente em mensagens de organizações como a Repam-Brasil (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e Articulação Igreja Rumo à COP30, com distribuição de fitinhas, ventarolas e faixas que associam a festa católica e a pauta ambiental.

O tema do Círio também é uma alusão à questão ambiental, segundo os organizadores: "Maria, mãe e rainha de toda a criação".

"A igreja quis mostrar quem é o autor de toda criação, com o olhar de mãe", afirma Antônio Luís de Sousa, coordenador do Círio há 21 anos. A diretoria do evento é da Arquidiocese de Belém.

Em paralelo ao calendário religioso, uma agenda de festas atrai devotos e não devotos. A igreja não as incorpora ao calendário, mas também não se opõe, pelo menos não de forma ostensiva.

Uma das mais tradicionais é a Festa da Chiquita, logo após a trasladação no sábado, em um espaço público –a Praça da República. A festa é voltada ao público LGBTQIAPN+. Existe há 49 anos, e incluiu a COP30 no horizonte. O tema de 2025 é "Chiquita na COP30: exclusão social e os riscos para a população LGBTQIAPN+ na Amazônia".

CIRIO DE NAZARE

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