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4 efeitos que o abacate produz no corpo e quem deve evitar o consumo

Por 
Victoria Vera Ziccardi
, Em La Nacion / O GLOBO
 

De textura cremosa e cor verde vibrante, o abacate se tornou um alimento da moda, presente tanto em pratos gourmet quanto em receitas do dia a dia, como o popular avocado toast (torrada de abacate). É rico em gorduras saudáveis, fibras, vitaminas e minerais que fornecem energia e saciedade, mas que, sobretudo, favorecem a saúde cardiovascular, ajudam a reduzir o açúcar no sangue e combatem a prisão de ventre.

 

É o fruto do abacateiro, árvore que pode atingir até 20 metros de altura em regiões subtropicais da América Central, de onde é originário. No Brasil, é encontrado ao longo de quase todo o ano e, na Argentina, está disponível no mercado entre abril e dezembro. As principais variedades comercializadas lá são a Hass e a Pinkerton, caracterizadas pela casca rugosa e pelo tamanho pequeno. Devido à alta demanda, províncias como Tucumán, Salta e Jujuy se consolidaram como as maiores produtoras nacionais.

Segundo o "Guia Alimentar para a População Argentina", recomenda-se incluir o abacate ao menos uma vez por semana como substituto do óleo, trocando uma colher de sopa por metade de um abacate pequeno. Também pode ser usado em preparações doces, substituindo a manteiga: além de dar cremosidade, permite reduzir a quantidade de gorduras saturadas, tornando os pratos mais saudáveis.

 

Abacate: benefícios do consumo


O abacate se tornou um alimento da moda, presente tanto em pratos gourmet quanto em receitas do dia a dia — Foto: Freepik

A nutricionista Sol Vazquez explica que o abacate é um alimento muito completo: fornece gorduras saudáveis, principalmente monoinsaturadas, além de fibras, potássio, magnésio, vitaminas E e C, e outros antioxidantes.

— É um daqueles alimentos que dão prazer em comer e, ao mesmo tempo, trazem saúde — afirma.

 

1. Digestivo

A Academia Espanhola de Nutrição e Dietética aponta que, graças ao aporte de fibras (6,3 g a cada 100 g) e água (76,4 g), o abacate é um aliado no combate à prisão de ventre e na promoção da saúde intestinal. Seu consumo regular contribui para o bom funcionamento do sistema digestivo.

2. Melhora os níveis de colesterol

— A fibra do abacate pode melhorar os níveis de colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL) e a qualidade do colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL) — informa a Clínica Mayo. A instituição recomenda incluir duas porções por semana em uma dieta equilibrada para obter esses efeitos.

 

3. Reforça o sistema imunológico e a saúde cerebral

A Fundação Espanhola da Nutrição (FEN) destaca que um abacate médio (cerca de 200 g) fornece 33% da ingestão recomendada de vitamina B6 para um homem de 20 a 39 anos com atividade física moderada e 38% no caso da mulher com as mesmas características. Essa vitamina é essencial para o desenvolvimento normal do cérebro e do sistema nervoso, além de ajudar a manter o sistema imunológico fortalecido.

4. Contribui para a saúde cardiovascular

Pesquisadores da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, de Harvard, analisaram 30 anos de dados de aproximadamente 111 mil pessoas e descobriram que aqueles que consumiam o equivalente a um abacate por semana tinham 16% menos risco de doença cardiovascular e 21% menos risco de doença coronariana em comparação com quem não consumia a fruta. A redução do risco foi ainda maior quando o abacate substituía meia porção diária de margarina, manteiga, laticínios integrais, carnes processadas ou ovos.

 

Sobre o consumo, Vazquez ressalta que as gorduras monoinsaturadas presentes no alimento — do mesmo tipo que as do azeite de oliva — ajudam a melhorar o perfil lipídico e têm efeito anti-inflamatório. No entanto, ela adverte:

— Como todo alimento rico em energia e calorias, o segredo está na medida. Não se trata de proibir, mas de consumir com consciência, entendendo que até o que faz bem precisa de equilíbrio.

Por fim, a especialista acrescenta que pessoas com insuficiência renal avançada devem moderar o consumo de abacate por conta do seu alto teor de potássio.

— Fora desses casos, é um alimento seguro e recomendável — conclui.

 

Rico em gorduras saudáveis, fibras, vitaminas e minerais, o abacate ajuda na saúde cardiovascular, digestiva e cerebral

 

 

Deputados do PT garantiram aprovação de voto secreto para blindar parlamentares

Por  Bernardo Mello Franco / O GLOBO

 

 

O Centrão deve a deputados do PT a aprovação do voto secreto para blindar parlamentares contra a abertura de processos criminais.  Em manobra capitaneada pelo presidente Hugo Motta (Republicanos-PB), a Câmara restabeleceu a votação secreta no texto da PEC da Blindagem.

 

A emenda foi aprovada com 314 votos favoráveis — ou seja, apenas seis a mais do que o necessário para mudar a Constituição.

 

A maioria apertada pode ser creditada à dissidência do PT. Na votação desta quarta, oito deputados petistas contrariaram a orientação do partido e defenderam a emenda do voto secreto.

 

Foram eles: Odair Cunha (PT-MG), Jilmar Tatto (PT-SP), Kiko Celeguim (PT-SP), Alfredinho (PT-SP), João Daniel (PT-SE), Dilvanda Faro (PT-PA), Paulo Guedes (PT-MG) e Valmir Assunção (PT-BA).

 

Em outras palavras: se não fossem os oito petistas, a proposta teria sido derrotada. E o Congresso teria mais dificuldade para proteger parlamentares da polícia e da Justiça.

Alcolumbre vai 'matar no peito' blindagem e anistia?

Vera Magalhães / O GLOBO

 

 

E, de repente, o Senado virou repositório das esperanças nacionais no resgate da moralidade na política, depois que Hugo Motta jogou a Câmara num vale-tudo, com a aprovação simultânea e às pressas da PEC da Blindagem e da urgência para a discussão de um projeto de anistia que ninguém sabe ainda qual será. Mas será que dá para confiar que Davi Alcolumbre vai matar no peito, como asseguram alguns?

 

O presidente do Senado manifestou publicamente desconforto pelo fato de essa agenda negativa praticamente sequestrar a pauta do Congresso, no momento em que matérias importantes estão à espera de deliberação. Na sessão desta quarta-feira, ele desabafou:

 

-- Estamos com os problemas daqueles que não querem votar a legislação porque ficam se atendo aos debates seja do Judiciário, seja de impeachment de ministro do Supremo, seja de anistia. Então, está impossível...

 

Essa bronca pública reforçou a aposta do Planalto e de senadores governistas de que ele vai, sim, segurar o que Motta liberou. Acontece que o presidente do partido de Alcolumbre, Antonio Rueda, é um dos principais artífices do pacotão que inclui blindagem e anistia. O segundo é um senador: Ciro Nogueira, presidente da outra metade da sigla surgida da federação União-PP.

 

O presidente do Senado tem mais autoridade pessoal e é menos refém da influência desses personagens que Motta, que vai se mostrando o presidente mais frágil politicamente da história do parlamento.

 

O caminho para segurar a PEC da Blindagem parece mais aplainado: em reunião na noite de quarta-feira, Alcolumbre se comprometeu a mandar a proposta para a Comissão de Constituição e Justiça, resistindo a tentativas do Centrão e do PL de atalhar caminhos. Lá, a proposta tende a ser represada ou considerada inconstitucional, numa ação coordenada pelo presidente do colegiado, Otto Alencar (PSD-BA) e pelos senadores do MDB.

 

Em relação à anistia, vai depender do projeto que sair da Câmara. Alcolumbre era um dos artífices de uma proposta de revisão do Código Penal para permitir que o STF revisse as penas dos condenados do 8 de Janeiro. Mas o casuísmo da medida fez com que ministros do Supremo não topassem um acordo para encaminhar essa saída, e as conversas passaram a andar em círculo.

 

Outro ponto de atenção: nos últimos tempos, Hugo Motta e Davi Alcolumbre haviam estreitado relações e passado a jogar juntos. Haverá apelos para que o presidente do Senado não "abandone" ou "exponha" o da Câmara num momento em que ele foi para o tudo ou nada com a agenda que foi acordada no motim dos bolsonaristas, semanas atrás.

 

Como o governo é cada vez mais um ator passivo na relação com o Congresso, surpreendido a cada votação e dependente de articulações nas quais não toma a iniciativa, não se sabe que ascendência Lula e o Planalto poderão ter para fazer diferença no cabo-de-guerra e conseguir fidelizar Alcolumbre. Nesse xadrez, os ministros do STF têm mais peso, mas o fator emendas é um ponto de dúvida, uma vez que o senador do Amapá opera sua distribuição para manter seu poder na Casa que comanda.

Reações em cadeia

Hélio Schwartsman / Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…"/ FOLHA DE SP

 

A Terceira Lei de Newton, aquela que diz que toda ação gera reação de igual magnitude e sentido oposto, vale, com adaptações, para a política. A famigerada PEC da Blindagem é a reação dos deputados a ações penais contra congressistas abertas pelo STF.

O problema é que a Câmara exagerou. A autoproteção que os parlamentares pretendem conceder-se é tão descarada e tão antirrepublicana que subtrairá muitos pontos à já combalida imagem do Legislativo.

Veremos se os senadores têm mais visão estratégica. Se tiverem, vão enterrar ou ao menos mitigar a proposta, que, para tornar tudo mais complicado, tramita em paralelo com o projeto de lei que anistiaria ou reduziria penas da turma do golpe.

 

Se há algo em que o centrão é bom, é transformar crises em vantagens para o bloco. Foi assim que as emendas chegaram à impressionante marca de R$ 50 bilhões anuais. De todo modo, a eventual aprovação da PEC não encerraria a novela. O STF também tem suas armas. Ele poderia, em tese, julgar a mudança de regra inconstitucional, mas não é tão simples, já que as alterações retomam dispositivos que constavam da redação original da Carta de 1988.

Embora a hermenêutica jurídica tudo permita, o STF teria de concluir que a Constituição original era inconstitucional —um desafio lógico.

Há, porém, alternativas. A blindagem suspende, mas não anula processos criminais parlamentares. Em princípio, eles deveriam ser retomados assim que o deputado ou senador perde o mandato. Isso significa que a corte pode ir na jugular de qualquer ex.

O STF poderia até abandonar o entendimento de que a reeleição representa a continuação do mandato e afirmar que constitui um novo. Nesse caso, congressistas poderiam ser processados por delitos cometidos na legislatura anterior sem necessidade de autorização.

E é ingenuidade imaginar que o Legislativo ficaria de braços cruzados. Assim, de reação em reação, acabaríamos com a nossa democracia, que só funciona se os atores principais atuarem de boa-fé. A Câmara não está fazendo isso.CAMARA de deputados votação da pec da BLIDAGEM

Crime organizado expulsa população e transforma vilarejo no sertão do Ceará em cidade-fantasma

Por  Nathan Martins* / O GLOBO

 

Impulsionado por execuções em praça pública, pichações com ameaças, invasões violentas a residências e comércio, o clima de terror imposto pelo crime organizado transformou um pequeno vilarejo no sertão do Ceará em cidade-fantasma. Membros de uma facção criminosa expulsaram assim, há cerca de dois meses, de Uiraponga, distrito de Morada Nova, no sertão do Ceará, quase todos os seus cerca de 2 mil moradores. Hoje restam cinco famílias.

 

Os conflitos se intensificaram na comunidade, localizada a cerca de 170km de Fortaleza, após o rompimento entre duas facções — o TCP Cangaço, braço do Terceiro Comando Puro, do Rio de Janeiro, e a Guardiões do Estado (GDE), de São João de Jaguaribe, originária do Ceará. Atualmente, o cenário é de completo abandono: ruas desertas, comércio fechado, casas vazias e marcas de tiros espalhadas pelas construções compõem o atual retrato sombrio do local.

 

Até abril deste ano, o vilarejo era uma típica cidade do interior do Brasil: uma igreja católica com missas aos domingos, um posto de saúde para atendimento a casos de emergência e uma escola municipal elogiada por sua organização faziam parte da estrutura. — A escola parecia até particular — contou um ex-morador que preferiu não se identificar.

 

O que não havia, entretanto, era um posto policial, destaca o especialista em segurança pública Wagner Sousa Gomes, formado pela Academia de Polícia Militar General Edgard Facó — responsável pela formação dos oficiais da PM cearense —, bacharel em Direito e pós-graduado em Ciências Jurídicas. – O Comando de Policiamento já havia solicitado reforço várias vezes, mas nunca foi autorizado. Nem sequer existe um prédio disponível para que a polícia se instale – frisou Wagner.

Hoje, a igreja está sem padre e sem fiéis. O posto de saúde não conta com profissionais, tampouco com pacientes. Já a escola foi temporariamente transformada em um posto policial: onde antes havia professores e alunos, agora há três policiais militares que fazem rondas periódicas pelas ruas desertas. — O lugar acabou — resume um dos dois ex-moradores, entre os 25 procurados pelo GLOBO, que aceitou falar sob a condição de anonimato.

 

Um policial militar que conhece a região e que também preferiu manter sua identidade em sigilo explicou ao GLOBO que o desafio na região se torna maior por conta do controle exercido pelos traficantes locais, que, pelo medo, impedem que informações vazem da comunidade. — Eles matam qualquer um que acharem que falou algo para a polícia ou que tenha se associado a algum inimigo. Sempre com tiros de calibre 12 na cabeça. Isso aterroriza tanto a população que ninguém se arrisca a falar — contou o agente.

 

O conflito entre TCP Cangaço e GDE

Quando o confronto começou, o TCP Cangaço era liderado por Gilberto de Oliveira Cazuza, conhecido como Mingau. Já a GDE de São João do Jaguaribe estava sob o comando de um homem identificado pelo policial como Márcio da Viúva, que comandaria as ações da facção de dentro do presídio no Ceará.

 

O interesse pelo pequeno vilarejo tem um motivo: Uiraponga se situa entre seis cidades do Vale do Jaguaribe — Morada Nova, Limoeiro do Norte, Tabuleiro do Norte, Alto Santo, Mauriti e São João do Jaguaribe. Desde 2020, as duas facções coexistiam na região, controlando o tráfico, extorquindo dinheiro de comerciantes e fazendeiros, roubando de gado e praticando pistolagem.

 

O cenário mudou há cerca de dois anos. Em março de 2023, uma operação da Polícia Civil prendeu cerca de 18 pessoas ligadas ao TCP Cangaço, incluindo ao menos sete parentes de Mingau. Para o agente da Polícia Militar, o grupo funcionava como uma rede de apoio e logística, em estrutura que remete ao antigo cangaço, justificando o nome da facção.

 

— Isso existe desde a época de Lampião. Eles funcionam como uma rede de logística e informação do bando. Levam comida, avisam quando a polícia passa e para onde ela segue. A única diferença para os cangaceiros antigos é que eles não são errantes; ficam estáticos, circulando e se abrigando dentro do território deles — explicou o policial.

 

Informações da inteligência da Polícia Civil do Ceará indicam que, após a operação, Mingau se refugiou em uma favela do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O enfraquecimento do TCP Cangaço e a fuga de Mingau abriram caminho para que a GDE avançasse sobre territórios antes dominados pelo outro bando, buscando expandir seu controle.

 

Em uma das investidas, Márcio da Viúva ordenou que o traficante José Witals da Silva Nazário, conhecido como Playboy, assassinasse os braços-direitos de Mingau ainda presentes no distrito: Neriano e Thierry.

 

Expulsão dos moradores

Apesar das ordens, o apoio da população local teria impedido que as execuções fossem concluídas, conforme explicou o policial militar. Antes da chegada dos traficantes rivais pela estrada de difícil acesso, Neriano e Thierry já tinham se escondido. Em retaliação, integrantes do GDE executaram um homem que atuava como coiteiro, em praça pública, disparando vários tiros diante dos moradores. Em seguida, deram ordem de expulsão aos habitantes da comunidade.

 

— A população de Uiraponga apoiava o TCP Cangaço, alguns por benefícios, outros por medo. Com essa rede de coiteiros (pessoas que ajudam a esconder criminosos), os traficantes ficavam praticamente inacessíveis tanto para a polícia quanto para a facção rival. Então, Playboy decidiu expulsar toda a comunidade para que Neriano e Thierry perdessem apoio e logística — relatou o policial.

 

Playboy foi preso no fim de julho, em São Paulo, durante uma operação integrada das polícias civis do Ceará e de São Paulo. Em nota enviada ao GLOBO, a Polícia Civil do Ceará (PCCE) informou que um segundo suspeito foi detido no dia seguinte, em uma residência no próprio distrito de Uiraponga. Mingau segue foragido e é um dos criminosos mais procurados do Ceará.

 

Desde então, a PCCE iniciou uma nova fase da investigação, que resultou em seis prisões de integrantes do grupo criminoso atuantes nas seis cidades do Vale do Jaguaribe, no dia 1º de setembro. Ainda assim, o clima de insegurança e abandono permanece no distrito. O retorno da população não aconteceu, e os poucos que ficaram vivem com medo constante.

 

– Estive lá pessoalmente após a operação. Passei uma noite em Uiraponga para entender a situação de perto. Hoje, na localidade, restam apenas cinco famílias. E elas só continuam lá porque não têm para onde ir – relatou Wagner Sousa.

 

De acordo com o especialista em segurança pública, mesmo com a operação realizada no início do mês, o cenário piorou: casas vazias tiveram as portas arrombadas, móveis estão revirados e as propriedades estão sendo usadas para consumo de álcool e drogas.

 

– Apesar das prisões e da presença pontual da polícia, o Estado ainda não garantiu uma estrutura mínima para o retorno seguro dos moradores. Falta tudo: moradias seguras, policiamento permanente, apoio social, assistência logística. A sensação é de abandono completo – acrescentou o especialista.

 

Questionada pelo GLOBO sobre as possíveis medidas a serem adotadas no distrito, a Defensoria Pública do Estado do Ceará informou, em nota, que "tem atuado junto à comunidade para verificar os direitos civis que estão sendo violados e quais as principais necessidades, em especial, nas áreas de educação, saúde e moradia". A instituição também ressaltou que "já encaminhou ofícios para a Prefeitura e se reuniu com o Ministério Público para buscar uma solução conjunta".

 

*Supervisão de Daniela Dariano

 

 

Uiraponga se tranformou em uma cidade-fantasma após escalada de violência no distritoUiraponga se tranformou em uma cidade-fantasma após escalada de violência no distrito — Foto: Reprodução / Whyn e Netinho

Retrocesso lamentável

Por  Merval Pereira / O GLOBO

 

 

A impressão de fim de feira que o Congresso passa à opinião pública cobrará um preço alto em credibilidade de seus futuros integrantes, mesmo que eles não liguem muito para isso, mas apenas para a reeleição, que consideram garantida pelo volume de dinheiro com que podem contar, saído dos indecentes fundos eleitoral e partidário. Só a premissa de que poderão se reeleger dependendo do dinheiro que possam gastar na campanha, e não pela atuação no exercício do cargo, já demonstra o que a maioria dos parlamentares pensa sobre si e seus pares e, além deles, sobre os eleitores brasileiros.

 

Se a veleidade se confirmar, teremos um índice de renovação quase nulo na prática, pois a maioria dos “novos” parlamentares serão os velhos políticos de sempre, que deixam de ser prefeitos para ser deputados federais, que deixam de ser senadores para ir para a Câmara, ou vice-versa. Todas as negociações em andamento são indecentes, quando se sabe que houve votos a favor da blindagem de Suas Excelências em troca da promessa de contenção da anistia ampla, geral e irrestrita que os bolsonaristas queriam enfiar goela abaixo da opinião pública.

 

A anistia generalizada é uma ofensa a homens e mulheres de bem do país. Mas exigir a impunidade total em troca de uma anistia restrita — ou ameaçar com a volta da anistia total alegando descumprimento de acordo espúrio de bastidores — é exibir publicamente falta de pudor num nível bastante elevado, mesmo para um Congresso como este, que bate o recorde de ações amorais.

 

A impunidade dos parlamentares, incluindo presidentes de partidos que não têm mandato, mostra claramente que a maioria tem receio de explicar o que fez com o dinheiro arrecadado com as emendas parlamentares, y otras cositas más. É a ação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), ex-senador e governador maranhense Flávio Dino que provoca o alvoroço todo. Ele simplesmente exige transparência, impessoalidade, responsabilidade na distribuição do dinheiro público e provoca a ira dos parlamentares que não querem, por ser impossível, revelar o que foi feito do dinheiro das emendas que enviaram a prefeituras amigas, a parentes e aderentes.

 

Incomoda a exigência de prestação de contas das emendas, como se o dinheiro fosse deles. Está aí uma questão que vai além da moral pública, reflete a distorção da função pública que de há muito assola o país. Não saber diferenciar o público do privado é um mal comum entre nós, que corrói a credibilidade do Congresso, mas não apenas dele. Todo o sistema político-partidário que viceja nesse conluio espúrio fica desacreditado diante da sociedade. A partir daí, as decisões nascidas dele perdem a força de representação da vontade majoritária do eleitorado.

 

Dizer que um Congresso capaz de medidas de autoproteção como essas representa a sociedade, por isso tem de ser respeitado, é uma ofensa ao povo brasileiro. É exatamente por essas e outras manobras burocráticas a viciar o resultado das urnas que o Congresso perde a representatividade do povo brasileiro para se transformar em representante de guildas, corporações, lobistas, até criminosos mais explícitos como os integrantes das facções bandidas que se infiltram nas instituições justamente pelas brechas legais e pelo sistema de proteções que faz deles membros pretensamente respeitáveis.

 

Resta ao Senado restaurar pelo menos em parte a credibilidade da classe política brasileira, derrubando a PEC da Blindagem e propondo uma alteração das penas sem que o caráter pedagógico delas, ditado pelo STF, seja desperdiçado. O julgamento da tentativa de golpe, ainda em curso no Supremo, foi um ponto alto da defesa da democracia. Esperemos que não seja desperdiçado por medidas casuísticas, como já perdemos a oportunidade algumas vezes nas últimas décadas.

Hugo Motta em sessão na CâmaraHugo Motta em sessão na Câmara — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
 

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