A legalização da esperteza
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Enquanto o Congresso ensaia a discussão de uma reforma administrativa, o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), ministro Vital do Rêgo, articula a distribuição de um novo penduricalho aos seus funcionários. Rêgo enviou recentemente ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), um projeto de lei para instituir um bônus a servidores que ocupam cargos de confiança. Seu pleito tem tudo para ser bem-sucedido, pois há poucos dias os deputados aprovaram o regime de urgência da proposta, o que evidencia a disposição em acelerar a sua tramitação na Casa.
A ideia é criar a Indenização por Regime Especial de Dedicação Gerencial (IREDG). Trata-se de um adicional de até 25% sobre a renda bruta, incluindo salário-base e gratificações, o que pode elevar os ganhos mensais a mais de R$ 70 mil. É de questionar como o rendimento de um servidor do TCU será turbinado sem que seja acionado o abate-teto, que é o instrumento constitucional que impede o pagamento de salários de servidores acima do subsídio de um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), hoje em R$ 46,3 mil mensais. E a nomenclatura do benefício esconde a catimba jurídica: indenizações ficam fora do teto e sobre elas não incidem o Imposto de Renda (IR) nem a Previdência.
Esse movimento bastante comum no Judiciário e no Ministério Público (MP) tem se alastrado por carreiras da elite do funcionalismo de outros Poderes. A exposição de motivos do Projeto de Lei (PL) 2.829, de 2025, do TCU, é a prova cabal dessa contaminação, pois, segundo o tribunal, o novo benefício “encontra respaldo em precedentes já consolidados na administração pública”, citando os penduricalhos criados por resoluções do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Sem constrangimento, o TCU afirmou que “essas experiências demonstram a coerência e legitimidade da criação de instrumentos indenizatórios para reconhecer a dedicação extraordinária de servidores em funções sensíveis, sobretudo quando não há a possibilidade de remuneração adicional pelas vias ordinárias”.
Essa justificação do PL 2.829 mostra que, em vez de atacar, como órgão de fiscalização e controle, essa profusão de benesses, o TCU reconheceu ter se inspirado no apetite da magistratura e do MP por supersalários, além de ter admitido como válida a subversão da natureza jurídica das indenizações e da remuneração. É uma confusão intencional que, na prática, acarreta somente em “remuneração adicional”. Pior: o TCU considerou haver “coerência e legitimidade” nas iniciativas do CNJ e do CNMP de se autoconcederem benefícios pela via administrativa e ao arrepio do processo legislativo, driblando a elaboração, a discussão e a votação do Orçamento público.
Mas, como não detém o poder normativo dos quais gozam esses órgãos citados como modelos a serem seguidos, e não inibidos, o TCU precisará do aval do Congresso, com a aprovação do PL 2.829 para engordar os contracheques de seus funcionários. Se a proposta for aprovada e sancionada, será a legalização da esperteza.
Multidões contra blindagem e anistia expõem constrangimento do PT com pauta ética
Por Diogo Schelp / O ESTADÃO DE SP
O mérito não é dos artistas. O público significativo que compareceu aos protestos realizados neste domingo, 21, foi, acima de tudo, resultado de uma onda de indignação legítima e espontânea formada ao longo da última semana contra as votações no Congresso Nacional que fizeram avançar o Pacote da Impunidade – composto pelo PL da Anistia, para livrar Jair Bolsonaro e outros golpistas condenados da cadeia, e pela PEC da Blindagem, para reduzir enormemente as chances de que políticos com foro privilegiado paguem por seus crimes.
Há tempos a esquerda não conseguia reunir tanta gente nas ruas, o que sugere que nem só de militantes empolgados eram feitas as multidões em mais de uma dezena de capitais do País. O PT seria o partido mais apto a explorar esse ânimo popular renovado, mas não vai conseguir completar essa tarefa porque fica meio ridículo na fantasia de defensor da ética na política.
Parlamentares de oposição, quando sobem num carro de som na Av. Paulista ao lado da família Bolsonaro, do pastor Silas Malafaia e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, sabem exatamente o que a massa ali reunida pensa e quer – e por quem ela seria capaz de se jogar no abismo. Quando voltam a Brasília, atuam para atender a esses anseios e para usar todos os meios com a justificativa de defender seu líder. Para eles, os discursos a favor da liberdade de expressão e do combate à corrupção, por exemplo, são moldáveis às circunstâncias. Podem ser perfeitamente relativizados quando isso for do interesse do projeto político de Bolsonaro – e quem vai às ruas por ele está de bem com isso.
O PT não pode dizer o mesmo de quem lotou praças, praias e avenidas neste domingo. As palavras de ordem eram contra uma ideia ampla de impunidade: exigiam punição a quem atentou contra a democracia e recusavam dar a deputados e senadores a palavra final sobre se podem ser processados ou não.
O que o PT tem a oferecer a essa massa de inconformados? O ex-ministro José Dirceu, condenado em 2016 por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa, que agora, em seu esforço de reabilitação política, fez até discurso no ato em Brasília dizendo que é preciso “mudar o Congresso Nacional”? Ou os 12 deputados petistas que votaram a favor da PEC da Blindagem, sob os argumentos de que o fizeram em troca do apoio do Centrão para pautas do governo Lula e para evitar a anistia a Bolsonaro? Ou tudo isso e mais um pouco, sem medo do constrangimento?

Jornalista e comentarista político, foi editor executivo da Veja entre 2012 e 2018. Posteriormente, foi redator-chefe da Istoé, colunista de política do UOL e comentarista da Jovem Pan News. É mestre em Relações Internacionais pela USP.
Captura de instituições fragiliza a democracia
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
O Brasil vive um momento particularmente perturbador. Algumas instituições às quais cabe organizar a vida do País parecem ter sido definitivamente capturadas pelos interesses privados de seus cada vez mais desinibidos integrantes. O resultado disso, perigosíssimo, é a apatia de grande parte da sociedade, que não se enxerga nos arranjos políticos feitos em seu nome e tende a desvalorizar a própria ideia de democracia – abrindo uma avenida para o bonapartismo de aventureiros desqualificados que prometem governar diretamente com o povo, sem as amarras institucionais.
Partiu do Congresso o mais recente exemplo dessa degeneração, com a aprovação, pela Câmara, de um projeto ultrajante, que na prática coloca os deputados e senadores acima da lei. Ainda é possível derrubá-lo no Senado, mas só o fato de ter sido aprovado com expressiva votação, de quase todos os partidos, indica que os senhores parlamentares não estão nem um pouco preocupados com a repercussão de tamanha desfaçatez entre os eleitores.
E isso faz sentido: nos últimos anos, os políticos encontraram diversas maneiras de financiar partidos e campanhas eleitorais sem precisar convencer eleitores a apoiá-los. O dinheiro jorra de bilionários fundos públicos, que crescem em proporção geométrica ano a ano, e também da cornucópia de emendas parlamentares ao Orçamento, que são distribuídas com escassa fiscalização, conforme interesses paroquiais, ou simplesmente desviadas para bancar relações corruptas. É esse patrimônio que, hoje, decide eleições, dispensando boa parte dos políticos de apresentar propostas aos eleitores para ganhar votos ou mesmo de representá-los de fato no Congresso, uma vez eleitos.
Entrementes, os eleitores são levados a crer que “participação política” é bater boca nas redes sociais, distorcendo os propósitos da política numa democracia. Enquanto o País se distrai com o circo dessa “polarização” artificialmente criada e alimentada por aqueles que dela se beneficiam, perdem-se de vista quais são as reais necessidades do País, deixando confortáveis os que, seja posando de paladinos da liberdade de expressão, seja apresentando-se como intérpretes dos pobres, vivem de rapinar os dinheiros públicos.
Mas o Congresso, infelizmente, não é um raio em céu azul. O Judiciário, como se sabe, insula-se cada vez mais em seu mar de privilégios. Parece muito confortável com os inúmeros penduricalhos que fazem troça do teto salarial do serviço público. Questionados, alguns magistrados reagem indignados, como se o populacho não compreendesse a missão civilizatória que lhes cabe desempenhar.
Antes fosse só pelo dinheiro. Cheios dessa certeza moral, alguns ministros da mais alta Corte do País, por exemplo, consideram-se acima de miudezas como o Regimento Interno ou a Constituição e entregam-se de corpo e alma à tarefa de obrigar o Brasil a converter-se à sua visão de mundo, sem ter um único voto popular para isso. Essa militância desabrida ajudou a fazer do Supremo Tribunal Federal (STF) o principal ator político do País, com poder incomparável sobre as demais instituições. Além de mandar prender e soltar conforme suas conveniências, de instaurar inquéritos infinitos e de tomar decisões monocráticas gravíssimas sem submetê-las ao colegiado, o STF legisla e negocia, como se Parlamento fosse – e denuncia como “ataque à democracia” qualquer tentativa de lhe impor algum limite.
Como estão hoje, Legislativo e Judiciário parecem em guerra aberta entre si pela manutenção de seus espaços de poder. Nesse campo de batalha, estropia-se o Brasil, e não parece haver, num futuro previsível, a possibilidade de uma trégua. Onde estão os líderes capazes de desarmar esse estado de ânimo? Por ora, não se vê ninguém à altura desse desafio, mas líderes assim não surgem por abiogênese: é a sociedade que deve produzi-los – e para isso precisa acreditar que, malgrado as aparências, a democracia ainda é o melhor regime político.
Não há censura no Brasil? Listo dez casos dos últimos anos
Por Fernando Schüler / o estadão de sp
“No Brasil não existe censura”, disse o ministro Barroso, esta semana, na abertura de uma sessão do STF. A declaração me surpreendeu. Tenho apreço pelo ministro, de modo que dou uma resposta popperiana: listo dez casos de censura, no Brasil dos últimos anos. Se eles não existirem, está tudo bem. Mas se eles forem reais, quem sabe vale refletir sobre o que vem se passando, afinal, em nossa democracia.
O primeiro é o ato inaugural. Muita gente acha que os inquéritos surgiram para salvar a democracia, mas não. Foi para censurar uma revista, em 2019. Depois vem o caso do PCO. Um tuíte que quase ninguém leu, um “ataque” ao STF, quem sabe em nome da justiça soviética, e o minúsculo partido comunista foi apagado. O terceiro é o professor Marcos Cintra. Tuíte elegante sobre o resultado de algumas urnas. Nenhum “ódio”. Apenas o direito de questionar alguma coisa, na internet. O próximo é o deputado Homero Marchese. Divulgou um protesto, em Nova York. Estava no Paraná. Mas foi a pique. Censurado durante meses, recorreu. Sua indenização foi anulada e, o juiz que a concedeu, investigado. Curioso caso em uma democracia onde “não existe censura”.
Depois vem a turma do WhatsApp. Grupo privado, papo-furado. Um sujeito diz que prefere uma ditadura à eleição de um candidato. Bobagem, não crime. Os demais, nada. Um deles, Luciano Hang. Dois anos de censura por dizer coisa nenhuma, no WhatsApp. A lista segue com o Monark. Primeiro, censurado por achar que mesmo um partido nazista deveria ter direito à expressão. Princípio elementar da Primeira Emenda Americana. Crime? Foi censurado ainda uma segunda vez por críticas ao STF. Ameaça nenhuma, apenas uma opinião ácida. Dessas a que estão sujeitos os que ocupam funções públicas.
Censurar um documentário sobre o atentado a Bolsonaro, sem conhecer o conteúdo? Caso clássico, e algo ridículo, de censura prévia; Indiciar um deputado, Marcel Van Hatten, por uma denúncia de abuso de poder, na tribuna da Câmara? Um deputado não pode fazer uma denúncia, no Parlamento, se julgar relevante? E as plataformas digitais obrigadas a apagar sua visão sobre o “PL das Fake News”? E uma autoridade, numa manhã de Brasília, dando ordens para “desmonetizar” revistas? E depois de ouvir que “não tem nada”, que há apenas “matérias jornalísticas”, mandar que se “use a criatividade” para incriminar veículos de comunicação?
Desde que o mundo é mundo, liberdade de expressão é para ideias desagradáveis e controversas. Ideias que “odiamos”, como lembrou Oliver Holmes. Liberdade só para ideias aceitáveis ao poder é democracia café com leite. Ou para as tantas formas do iliberalismo atual. Quero crer que o ministro concorde com isso. Muitos cidadãos foram agredidos, em seus direitos, e isto jamais deveria acontecer em nossa democracia. Oxalá o tempo e a sabedoria nos ajudem a corrigir essas coisas.

Cientista político, doutor em Filosofia (UFRGS) e professor do Insper. Escreve aos
Anistia não é legal, mas é legal
Demétrio Magnoli / Sociólogo, autor de “Uma Gota de Sangue: História do Pensamento Racial”. É doutor em geografia humana pela USP / FOLHA DE SP
Os projetos de anistia, amplas ou estreitas, que circulam no Congresso não são iniciativas legais, isto é, elogiáveis, pois oferecem abrigo ao golpismo. Contudo, ao contrário do que proclamam os sábios juristas Alexandre de Moraes e Flávio Dino, seriam atos legais, ou seja, constitucionais.
Assevera-se por aí, com ar de superioridade, que só especialistas deveriam pronunciar-se sobre o significado das leis. Ignorância pura: leis não são livros sagrados ou herméticos manuscritos oriundos de seitas místicas. São textos escritos por legisladores eleitos, isto é, gente comum de variados ofícios. Você e eu somos capazes de compreender o sentido dos códigos legais.
A lei não admite ilegalidades justificadas pela alegação de incompreensão da lei. Implicação: todas as pessoas alfabetizadas dispõem dos meios para entender as leis. No caso da anistia, a Constituição é clara como a luz do deserto, dispensando a interpretação sistemática dos especialistas.
O artigo 5º, inciso XLIII, elenca os "crimes insuscetíveis de graça ou anistia", entre os quais não se encontra nada parecido com golpe de Estado. O inciso seguinte, XLIV, trata especificamente da "ação de grupos armados contra a ordem constitucional e o Estado Democrático", qualificando-a apenas como "crime inafiançável e imprescritível". Inexiste omissão sobre anistia a golpismo, pois o legislador escolheu situar ações golpistas no inciso que não proíbe perdão.
Moraes e Dino podem contar outra: a do papagaio. Alternativamente, podem decidir que o STF escreve uma Constituição a cada dia, segundo a sua vontade soberana. "A Constituição sou eu", diria um Luís 14 de toga. Contudo, trilhando tal caminho, os juízes invadiriam a competência do Congresso, sabotando a educação política do conjunto da sociedade.
A via constitucional manda os juízes saírem de cena, colocando os congressistas alinhados ao golpismo diante do tribunal da opinião pública. O Datafolha indica maioria de 54% a 39% contrária à anistia para Bolsonaro e sua trupe criminosa. Apesar dos discursos dos extremistas, os brasileiros preferem a democracia. Por que evitar o entrechoque da maioria da população com um Centrão disposto a conceder perdão aos golpistas em troca da passagem do bastão de Bolsonaro a Tarcísio?
Democracia não é o governo dos juízes, mas o governo do povo, filtrado pelas instituições e leis. A maioria parlamentar não pode revogar o Estado Democrático de Direito, que figura como cláusula constitucional pétrea —mas, obviamente, aprovar a anistia não o revoga. E o artigo 48 da Constituição esclarece que a "concessão de anistia" faz parte das "atribuições do Congresso Nacional".
No seu voto, o erudito Dino alegou que "nunca a anistia se prestou a favor dos que exercem o poder". Incultura? Amnésia? A Lei de Anistia de 1979 prestou-se principalmente a proteger os que exerciam o poder, perdoou o crime hediondo de tortura e —surpresa!— foi acolhida pelo STF. Por isso, mesmo condenado, Brilhante Ustra, herói de Bolsonaro, jamais cumpriu pena.
A anistia que hoje se discute seria ainda mais vergonhosa, pois instituída na democracia. Os congressistas sem coluna vertebral têm o direito de tentar. A resistência compete aos outros, que expressam a vontade da maioria dos cidadãos e têm o dever de mobilizá-los.
A péssima notícia da pesquisa Genial/Quaest para o governo Lula
Por Johanns Eller / COLUNMA MLU GASPAR
A nova rodada de pesquisa de avaliação do presidente Lula divulgada nesta semana pela Genial/Quaest apontou uma estabilidade nos índices do petista, mas trouxe uma péssima notícia para o governo: a quase um ano da eleição, a comunicação segue entre seus principais desafios do Palácio do Planalto. De acordo com o levantamento, 43% dos entrevistados disseram não ter ouvido nenhuma notícia positiva relacionada à sua gestão.
O percentual se refere a respostas espontâneas ao questionamento sobre as informações mais positivas do governo Lula. O percentual está muito à frente dos outros temas que se destacaram, como a ampliação dos programas sociais (7%) e o enfrentamento ao tarifaço do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (6%). O aumento do salário mínimo, que tem sido reajustado acima da inflação e é bandeira histórica do PT, só foi citado por 1% dos entrevistados.
Além disso, o índice dos que não souberam citar boas notícias relacionadas à gestão petista é o dobro daqueles que disseram não ter tido ciência de informações negativas sobre o governo (24%).
Quando os entrevistados foram questionados de forma estimulada se ouviram mais notícias boas ou ruins a respeito de Lula, as “mais negativas” (45%) também se sobrepuseram às ‘mais positivas” (27%). Logo atrás estão os que afirmaram não ter acompanhado notícias (23%).
Outro recorte da Genial/Quaest que chama atenção é o dos programas do governo do PT. Em relação ao Agora Tem Especialistas, carro-chefe do Ministério da Saúde que Lula espera apresentar como uma vitrine de seu terceiro mandato na campanha à reeleição, 80% disseram não conhecê-lo e, por isso, não podiam opinar sobre ele.
Como mostrou O GLOBO, as dificuldades na implementação do programa na gestão Nísia Trindade na pasta contribuíram para a demissão da então ministra em fevereiro passado pelo presidente. Pelo mesmo motivo, a bandeira foi abraçada como a principal prioridade de seu sucessor, Alexandre Padilha.
Para efeito de comparação, outra novidade do governo Lula, a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil, é desconhecida por apenas 30% dos entrevistados. Por outro lado, a taxa desaba no caso de programas consolidados desde as primeiras gestões do PT como o Bolsa Família (1%).
A comunicação tem sido um dos principais desafios do presidente no seu retorno ao Palácio do Planalto em um ambiente de polarização, notícias falsas e pulverização de conteúdos por diferentes redes sociais. Além disso, o domínio da direita bolsonarista nesta seara torna o processo ainda mais pedregoso para o presidente, pouco afeito às redes sociais antes de voltar ao poder.
Atribuir índices de popularidade abaixo do esperado à dificuldade em se comunicar com a população tornou-se um chavão entre ministros desde a posse de Lula, que aparentemente caminha rumo às eleições sem uma fórmula que solucione a questão.
Depois de dois anos com tropeços do governo, o presidente decidiu demitir o então ministro da Secretaria de Comunicação Social (Secom), Paulo Pimenta, e nomear o marqueteiro de sua campanha em 2022, Sidônio Palmeira, para o cargo com ares de “bala de prata”. A movimentação, inclusive, seria o prenúncio de uma ampla reforma ministerial que não se concretizou.
Passados nove meses desde a nomeação de Sidônio, os números da Genial/Quaest sugerem que o desafio está longe de ser superado – ainda que o titular da Secom tenha declarado na última quarta-feira não ter “absolutamente nenhuma preocupação” com os resultados da pesquisa.
A maior aposta do governo Lula para o setor segue sendo uma licitação de comunicação digital que se arrasta desde 2023. O edital foi finalmente aberto em 2024 projetando o contrato mais caro da história do Planalto no âmbito da comunicação, R$ 197,7 milhões.
O certame foi aberto na modalidade de melhor técnica no lugar da escolha pelo menor preço, como é de praxe na administração pública, mas acabou suspenso pelo Tribunal de Contas da União (TCU) depois que a lista de agências vencedoras foi antecipada na véspera da divulgação do resultado pelo site O Antagonista.
A corte contábil posteriormente liberou a retomada da concorrência, mas, já empossado na Secom, Sidônio preferiu abrir uma nova licitação. Isso só ocorreu em julho passado, e o custo estimado agora é de R$ 98 milhões.
O processo ainda está em curso, sem previsão de conclusão. A julgar pelos números da Genial/Quaest e pela proximidade do período eleitoral, a missão de corrigir as falhas de Lula na comunicação se assemelha cada vez mais a uma corrida contra o relógio, apesar do favoritismo nos cenários eleitorais a mais de um ano da eleição em uma disputa sem candidatos definidos.

