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‘Tenho pena dos ricos’, diz autor que se infiltrou entre milionários e expôs a elite brasileira

Por Gabriel Zorzetto / O ESTADÃO DE SP

 

 

Michel Alcoforado não é um homem ingênuo. Ao decidir se infiltrar no mundo dos multimilionários brasileiros, sob o traje postiço de “antropólogo do luxo”, para escrever Coisa de Rico (Ed. Todavia), ele sabia do potencial deste tema. Não imaginava, contudo, que sua tese de doutorado, após 15 anos de pesquisa, se tornaria um dos livros mais comentados no Brasil em 2025, com 10 mil exemplares vendidos e sete impressões apenas no mês de agosto.

 

Em entrevista ao Estadão, por videoconferência, o autor carioca explica que o fascínio pelas elites é uma tendência global, citando o sucesso de séries como The White Lotus e Succession, e que o ódio contra a classe abastada não permeia a sociedade brasileira.

 

“Nenhum rico sabe se é rico no Brasil. Os ricos estão comprando o livro para saber se são ricos, e aqueles que não se consideram ricos estão comprando para parecer mais ricos do que são”, analisa. “Um dos lugares onde mais temos vendido livros são nas livrarias da Faria Lima, que atende público indubitavelmente rico, mas também temos movimentado bastante as classes médias”.

 

Testes no mundo dos ricaços

 

Entrar no universo dos ricaços não foi uma tarefa fácil. Alcoforado não pertence a esse mundo, precisou fazer muitos contatos, estudar os gostos dos privilegiados e até criar uma falsa secretária (para parecer um homem extremamente ocupado) a fim de penetrar nas festas e propriedades de alto padrão. Aos poucos, foi sendo aceito e passou por alguns “testes de reconhecimento”: silêncios hierárquicos, name-dropping [citação de nomes, na tradução] e duelos de cifras.

 

“No Brasil, os traços de distinção são muito mais frágeis do que em outras culturas. Na França, por exemplo, se você tem um determinado sobrenome, facilmente qualquer cidadão reconhece que você vem de uma família com herança nobre. No Brasil, a gente nunca sabe direito com quem está falando. Então, aquele [ricaço] que está liderando um encontro vai se esforçar a todo momento para entender você e fazer você entender quem ele é”, conta.

 

Os silêncios hierárquicos são uma estratégia inconsciente para os endinheirados saberem até que ponto alguém está dentro ou fora desses círculos. Perguntas de foro pessoal são praticamente proibidas e as conexões se dão por meio de marcas restritas, do domínio da língua inglesa ou até mesmo do conhecimento do cardápio de algum restaurante chique.

 

“Depois dessa cena, que é quase como se fosse um teatro, temos o name-dropping. Toda vez que você encontra alguém importante, você certamente viu essa pessoa falar nomes de pessoas que para ela são meros conhecidos, que ela chama pelo o primeiro nome. Por exemplo, não chamam o Ministro da Economia de Fernando Haddad. Falam que estiveram com o Fernando no final de semana. Partem do pressuposto que você certamente saberia qual o Fernando estão se referindo”, diz Alcoforado.

 

Já o duelo de cifras mede o poderio financeiro dos membros das elites. É a capacidade de testar a prontidão de alguém para viajar ao exterior no dia seguinte ou para adquirir cartões exclusivos a clientes que possuem R$ 30 milhões investidos em determinado banco. São testes fundamentais para que os ricos avaliem com quem vale a pena perder tempo ou não.

 

Milionários possuem consciência social?

 

Uma das principais reflexões despertadas em Coisa de Rico é que as elites não se enxergam como parte do problema da desigualdade social no Brasil. “Eles acreditam que esse é um problema que deve que ser resolvido pelo Estado, e no qual eles não têm nenhuma participação”, afirma.

 

O autor reforça, no entanto, que os multimilionários não são “abobalhados” e possuem plena noção do abismo social que há no País. “As elites brasileiras são preocupadas e empáticas diante da grave situação dos mais pobres. Nenhum rico paulistano acorda de manhã e, no sentido do aeroporto de Guarulhos, passa pelo centro de São Paulo e não se comove com a situação dos usuários de crack, por exemplo”.

 

Em termos de orientações políticas, Alcoforado detectou predomínio maior de alinhamento à centro-direita, mas também encontrou ricaços de centro-esquerda, conectados às pautas progressistas. “O interessante é que, tanto num lado quanto no outro, há preocupação social desde que as distâncias [entre as classes] não mudem”, aponta.

 

‘Tenho pena dos ricos’

 

Alcoforado alterou os nomes de todas as figuras retratadas e afirma não ter sofrido medo de represália dos poderosos. “Não vou lançar o Coisa de Rico 2, eles podem ficar em paz", brinca, ao comentar as reações deles diante da publicação.

 

“Quando voltei aos meus interlocutores dizendo que o livro estava às vésperas de ser lançado, contando as histórias que vivemos juntos, eles riam e falavam: ‘Michel, rico é muito engraçado, né?’. Eles não se identificavam. Para eles, rico é sempre o outro. Por mais que eu tenha dito que sou um antropólogo e estava fazendo pesquisa, ao longo do tempo isso se foi e ninguém se lembra de mim. Estamos falando de um fenômeno social, e não de experiências individualizadas”, comenta.

 

Por se tratar de uma obra descritiva e sem julgamento de valores, Coisa de Rico não revela os sentimentos de Michel quanto aos ricos. Ele nega ter nojo deles – nutre, na verdade, sentimento de pena.

 

“Dá um trabalho do caramba ser rico. Ter um almoço de família como momento de perpetuação do patrimônio, ou enxergar uma viagem como canal de aquisição de novos comportamentos. Ter uma vida pensada em organizar fronteiras entre os de dentro e os de fora, não é uma vida que facilmente alguém deseje ter”, reflete. “Eu diria que comecei a pesquisa espantado e saí com pena. Não uma pena cristã, no sentido vê-los como coitados, mas sendo consciente do esforço desumano que eles precisam dedicar para se manter onde estão”, finaliza.

 

Coisa de Rico

  • Autor: Michel Alcoforado
  • Editora: Todavia (250 págs.; R$ 74 e R$ 59 o e-book)

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