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Petistas pedem voto útil a quem até outro dia chamavam de gado

Eduardo Affonso / Arquiteto e cronista / O GLOBO

Tática arriscada, essa de pregar para os convertidos, no próprio cercadinho, e não buscar ampliar a base de apoio.

Se tivesse mantido meu título de eleitor no Paraná, eu não seria elegível para receber a propaganda virtual de Sergio Moro, postulante a uma vaga no Senado. Nem eu nem qualquer outro fã de Chico Buarque ou Caetano Veloso. O que significa que praticamente toda a minha geração está fora do foco do candidato.

 

Os marqueteiros do ex-juiz devem ter imaginado que suas propostas não encontrariam eco entre aqueles que se emocionam com Futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber/Com o amor que eu um dia deixei pra você ou Gente é pra brilhar/Não pra morrer de fome.

Falando em fome, eu seria descartado também por ser vegetariano. Só carnívoros, supõem os estrategistas da campanha, se sensibilizariam com a pauta de combate à corrupção, reforço à segurança pública, defesa das liberdades individuais.

 

Sim, há uma correlação entre vegetarianismo/veganismo e questões éticas (que envolvem o sofrimento animal). Mas delimitar o público-alvo em função da dieta talvez só faça sentido para redes de comida kosher ou de churrascarias (mesmo assim, apenas as que desistiram de investir no bufê de saladas).

Tática arriscada, essa de pregar para os convertidos, no próprio cercadinho, e não buscar ampliar a base de apoio, tentar furar a bolha. Até porque gosto musical e fonte de proteína não definem ideologia.

Os petistas passaram os últimos meses xingando metade da população de fascista, nazista ou — quando se lembravam de que é preciso não perder a ternura jamais — de gado. A duas semanas do pleito, correm para laçar alguma rês desgarrada que lhes permita completar o plantel de 50% dos votos mais um — e retomar a posse do curralzinho do Alvorada. Para isso, trocaram o salto alto pela coação do “voto útil” (como se a utilidade do voto estivesse vinculada ao sucesso eleitoral do seu candidato).

Quando o jogo parecia ganho antes mesmo de começar, Lula esnobava empresários, atacava a classe média (“ostenta um padrão de vida acima do necessário”) e chamava a elite nacional de “escravista”. Seu partido não via necessidade de fazer uma nova “Carta ao povo brasileiro”, pedir perdão pelos inúmeros malfeitos ou aderir ao “mimimi do mercado”. Com Bolsonaro não foi muito diferente.

Agora, no sufoco para conseguir votos suficientes e chegar ao segundo turno (caso de Bolsonaro) ou para liquidar a fatura no primeiro (caso de Lula), os candidatos finalmente mandam às favas os escrúpulos (ou os preconceitos). Um ensaia críticas à desastrosa gestão de sua sucessora e se compromete com uma agenda ambiental mais consistente; outro reconhece que “aloprou” durante a pandemia e, tendo desdenhado 685 mil sepultamentos em solo nacional, vai ao funeral da rainha.

Quem Lula terá excluído dos seus anúncios? Consumidores de whey, proprietários de motocicletas, fãs de Sérgio Reis, Zezé Di Camargo, Gusttavo Lima? Quem Bolsonaro terá deixado de lado? Devotos do candomblé, mulheres jornalistas, ouvintes de Anitta e Pabllo Vittar?

Às vésperas da eleição, pode ser tarde demais para distribuir bolo nas calçadas. Ou, no caso de Moro, croquete de soja e coxinha de jaca.

Margem estreita

Estabilidade indica que até abstenção pode ser importante no pleito presidencial

 

Os números mais relevantes das pesquisas do Datafolha acerca da disputa pela Presidência quase não se alteraram desde o início oficial da campanha eleitoral.

A partir de meados de agosto, a intenção de voto em Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno variou entre 45% e 47%; a de Jair Bolsonaro (PL), de 32% a 34%. A rejeição ao petista oscilou entre 37% e 39%; a do presidente, entre 51% e 53%; em um segundo turno, Lula marcou de 53% a 54%; Bolsonaro, de 37% a 39%.

A parcela do eleitorado que avalia o governo como ruim ou péssimo flutuou entre 42% e 44%; os que o consideram bom ou ótimo, de 30% a 31%. Desde fins de agosto, Lula tem 48% dos votos válidos, em tese a 2 pontos percentuais de uma vitória em primeiro turno.

Ademais, a grande maioria declara desde cedo já ter o voto decidido. Hoje são 78% os que não veem possibilidade de mudar a escolha, cifra que sobe a 86% no caso dos eleitores da dupla que está na dianteira dos levantamentos.

As perspectivas eleitorais de Bolsonaro melhoraram até julho. Desde então, avanços econômicos, como no emprego, parecem ter pesado quase nada na escolha do conjunto do eleitorado. Também parece ter sido o caso do efeito de um Auxílio Brasil mais generoso.

O saldo dos ataques do mandatário a Lula também foi irrelevante, considerada a estabilidade da taxa de rejeição do petista desde o início oficial da campanha.

Como ainda se mostra viável uma vitória do líder das pesquisas na primeira rodada, a discussão do voto útil torna-se mais intensa. Dada a escassez de eleitores ainda sem candidatos, os adeptos de Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) podem decidir a eleição.

Da perspectiva de Bolsonaro, a resistente rejeição majoritária a seu nome exige uma campanha para degradar a imagem do principal adversário. O nível de agressividade política tende a aumentar, como já se nota.

As disputas estaduais, em particular no Sudeste, podem ter relevância marginal. Uma eventual ausência de aliados em segundos turnos nesses estados não deve ser favorável à reeleição do presidente.

Por fim, uma possível decisão em primeiro turno por margem mínima tende a conferir relevância até mesmo às taxas de abstenção em cada segmento do eleitorado ou região geográfica.

O cenário de polarização, infelizmente, não é propício ao debate programático, dado que os dois principais postulantes concentram suas estratégias na rejeição ao adversário —e na busca de cada vez menos indecisos ou ainda propensos a mudar de ideia.

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Ato com Lula no RS tem apelo a eleitores de Ciro e Tebet por decisão em 1º turno

Caue Fonseca / FOLHA DE SP

 

PORTO ALEGRE

Na reta final para o primeiro turno das eleições de 2022, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pregou foco em vitória no primeiro turno e fez discurso voltado a mulheres em comício realizado na noite desta sexta-feira (16) em Porto Alegre.

Os apelos para que os eleitores se esforçassem em decidir a eleição presidencial já no dia 2 vieram principalmente de aliados. A ex-deputada Manuela D’Ávila (PC do B), por exemplo, pediu à militância "15 dias de gás por quatro anos de paz".

Nomes como Glesi Hoffmann, presidente do PT, e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) bateram na mesma tecla, de que é preciso vencer no primeiro turno.

"Essa eleição mostra duas coisas. Mostra a força política das mulheres, mas também a consciência elevada das mulheres que não se deixam convencer por aquele que é, talvez, o pior presidente para o seu próprio povo de todo o mundo", disse a ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em referência a Jair Bolsonaro (PL).

Dilma também insistiu em uma resolução da eleição presidencial em primeiro turno, e fez um aceno ao PDT, seu partido de origem, citando Brizola: "Eu tenho certeza que se Leonel Brizola estivesse vivo, ele estaria sentado aqui hoje ao lado de Lula", disse Dilma.

"Essa eleição precisa ser resolvida no primeiro turno. O povo brasileiro não merece mais 30 dias de uma campanha em que o ódio está dominando", completou Gleisi.

"Se vocês souberem de alguém que quiser votar no 15 [número de Simone Tebet], no 12 [de Ciro Gomes] diga que eles têm esse direito, mas que, se o fascismo ganhar, eles não terão esse direito no futuro", disse Randolfe Rodrigues, senador pela Rede e integrante da coordenação da campanha de Lula.

Após Janja, mulher de Lula, dedicar o jingle da campanha a Debora Moraes, coordenadora do Movimento dos Atingidos por Barragens em Porto Alegre, vítima de feminicídio no dia 13, o ex-presidente discursou ligando as medidas armamentistas de Jair Bolsonaro ao crime:

"No nosso governo, com o Estatuto do Desarmamento, nós recolhemos 620 mil armas e queimamos em praça pública. Quem está comprando arma é vocês? Não, quem está comprando arma é o crime organizado com o decreto do Bolsonaro. Quem é que precisa de 10 fuzis e milhares de munições?, disse Lula.

O ex-presidente também rebateu os últimos programas eleitorais de Bolsonaro, que vem ligando Lula a corrupção.

"Ele está me ofendendo na televisão me chamando de ladrão. Mas não fui eu que comprei 51 imóveis em dinheiro vivo com R$ 26 milhões. […] O Lulinha Paz e Amor vai quebrar todo o sigilo dele. Vai saber tudo o que ele está escondendo de nós."

Lula também fez menções ao agronegócio, citando diferenças na questão ambiental. "Eu não tenho problema com o agronegócio. Por que alguns deles não gostam da gente? Por que a gente vai acabar com essa história de desmatamento na Amazônia. A gente vai cuidar da questão climática com mais carinho do que da outra vez", disse o petista.

Piso da enfermagem: o que acontece agora?

Cristiane Gercina / FOLHA DE SP

 

SÃO PAULO

A implantação do piso nacional da enfermagem está suspensa em todo o país após decisão do STF (Supremo Tribunal Federal). Por 7 votos a 4, a maioria dos ministros referendou liminar de Luís Roberto Barroso em favor da suspensão até que sejam apresentadas informações sobre o impacto econômico da medida.

Aprovada em julho e sancionada em agosto, a lei 14.434/2022 fixou piso salarial mínimo de R$ 4.750 para os enfermeiros. Técnicos em enfermagem devem receber 70% desse valor (R$ 3.325), e auxiliares de enfermagem e parteiros, 50% (R$ 2.375).

Antes que o piso passasse a ser pago, a CNSaúde (Confederação Nacional da Saúde) foi ao STF solicitando liminar contra o valor mínimo para a categoria. O argumento é que poderá haver demissão em massa, elevação do valor cobrado por planos de saúde e fechamento de leitos.

Em seu voto, Barroso ponderou os motivos de sua decisão. "De um lado, encontra-se o legítimo objetivo do legislador de valorizar os profissionais de saúde, que, durante um longo período de pandemia, foram exigidos até o limite de suas forças", disse.

"De outro lado, estão os riscos à autonomia e higidez financeira dos entes federativos, os impactos sobre a empregabilidade no setor e, por conseguinte, sobre a própria prestação dos serviços de saúde."

COMO FICA O PISO DA ENFERMAGEM?

Enquanto não há um posicionamento final sobre o tema, o piso da categoria segue suspenso e os enfermeiros e demais profissionais da saúde continuam com os salários como estão, já que não havia valor mínimo nacional aplicado a eles anteriormente.

A liminar contra o piso foi levada à apreciação da corte a pedido do ministro Barroso. O julgamento no plenário virtual começou na sexta-feira (9) e chegou ao fim às 23h59 desta sexta (16), com placar a favor de sua decisão.

Em seu relatório, Barroso deu 60 dias para que entidades representativas de saúde pública e privada façam considerações sobre a medida, para que possa decidir sobre o mérito da ação. Por se tratar de uma ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade), o caso deverá ser julgado pelo plenário presencial.

A LIMINAR PODERÁ SER DERRUBADA?

O próprio ministro Barroso pode suspender a liminar concedida após analisar os argumentos enviados pelas entidades de saúde. O ministro deve fazer um novo relatório sobre o caso.

Em sua decisão, ele pede para que sejam intimados Ministério da Saúde, CNS (Conselho Nacional de Saúde), Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde), Conasems (Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde) e FBH (Federação Brasileira de Hospitais) para que se manifestem.

O ofício de notificação das entidades ainda será enviado. Com isso, o prazo para uma nova decisão termina em meados de novembro, quando Barroso poderá manter o que decidiu ou suspender os efeitos da liminar.

O PISO DA ENFERMAGEM SERÁ JULGADO NOVAMENTE?

Segundo o advogado Gustavo Ramos, sócio do escritório Mauro Menezes & Advogados e mestre em direito das relações sociais e trabalhistas, após o prazo de 60 dias, o ministro Barroso preparará o seu voto sobre o mérito da questão e liberará o caso para julgamento pelo plenário físico do STF.

No entanto, não há prazo para que o caso seja julgado. "Quem decidirá sobre a inclusão do processo em pauta para julgamento de mérito, após a liberação do caso pelo relator, será a atual presidente do STF, ministra Rosa Weber."

POR QUE A LEI ESTÁ SENDO DISCUTIDA NO SUPREMO?

De acordo com Ramos, compete ao STF decidir sobre constitucionalidade ou inconstitucionalidade de qualquer lei federal e essa decisão é tomada todas as vezes em que a corte é "provocada" sobre a medida.

Para ele, no entanto, não foi apontada inconstitucionalidade na legislação. A decisão de Barroso foi tomada levando em consideração impactos orçamentários que deveriam ser discutidos pelo Poder Legislativo. "É equivocada a noção de que pagar baixos salários mantém ou gera empregos", diz.

ENTIDADES SE DIVIDEM

Representantes de hospitais privados e de convênios médicos são contra o piso, assim como a CNM (Confederação Nacional dos Municípios), alegando aumento de custos que podem levar a demissões e corte nos serviços.

Já os conselhos de enfermagem e o CNS (Conselho Nacional de Saúde) defendem que a implantação da medida beneficiará não só os trabalhadores, mas toda a sociedade.

A Folha procurou todas as entidades citadas na decisão de Barroso para comentar a decisão e informar sobre os possíveis argumentos a serem apresentados no Supremo, mas nenhuma delas respondeu até a publicação deste texto.

PoderData: Bolsonaro tem melhor desempenho da série histórica no 2º turno; Lula vence por 9 pontos

Pesquisa PoderData divulgada nesta quarta-feira, 14, mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com 43% das intenções de voto, ante 37% do presidente Jair Bolsonaro (PL). Ambos se mantiveram no mesmo patamar da semana passada, quando saiu a rodada anterior do levantamento. Vale mencionar que a sondagem já capta a opinião dos eleitores após o 7 de Setembro.

 

Na simulação de segundo turno, Lula tem 51% da preferência, com 9 pontos de vantagem sobre Bolsonaro, que tem 42%. Este é o índice mais alto registrado pelo chefe do Executivo para o segundo turno no PoderData. A distância entre eles era de 12 pontos na rodada anterior e de 14 em agosto.

 

Ciro Gomes (PDT) tem 8%; Simone Tebet (MDB), 5% no primeiro turno. Ambos também se mantiveram no mesmo patamar da primeira semana de setembro. Felipe d’Avila tem 1%. Outros candidatos não pontuaram.

 

O instituto consultou 3.500 eleitores por telefone entre os dias 11 e 13 de setembro. A margem de erro é de dois pontos porcentuais, para mais ou para menos. A sondagem foi financiada pelo próprio PoderData. O registro na Justiça Eleitoral é BR-02955/2022. O ESTADÃO

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