Debate na Globo: Bolsonaro cumpre missão e Lula cai em armadilhas, aponta levantamento
Por Fernanda Alves — Rio de Janeiro O GLOBO
O candidato do PT Luiz Inácio Lula da Silva foi quem se saiu pior no debate da Globo desta quinta-feira entre os quatro principais candidatos à Presidência, segundo levantamento da consultoria Quaest. Dados coletados mostram que Ciro Gomes (PDT) teve mais menções positivas na internet, seguido por Jair Bolsonaro (PL) e Simone Tebet (MDB). A avaliação é de que o petista se mostrou irritado com as provocações dos adversários, enquanto Ciro e Tebet se mantiveram estáveis e Bolsonaro não aumentou sua rejeição.
Segundo o diretor da Quaest Felipe Nunes, o ex-presidente perdeu pontos ao cair nas armadilhas dos adversários. Lula se irritou com questionamentos do atual presidente e do candidato do PTB, Padre Kelmon. Em um dos embates, após o padre vincular o petista a escândalos de corrupção e ao governo da Nicarágua, ele respondeu o chamando de “impostor” e candidato “laranja”. Os dois tiveram que ser interrompidos mais de uma vez pelo apresentador, William Bonner.
— Lula caiu na armadilha da estratégia bolsonarista e, irritado, não fez um bom debate. Bolsonaro jogou para não aumentar sua rejeição e saiu do debate com a missão cumprida. Ciro e Tebet precisavam segurar seus eleitores. Os dados coletados pela Quaest mostram que foram bem sucedidos nessa empreitada— explica.
Quem teve mais menções positivas nas redes durante o debate foi Ciro Gomes, com 49,2%, contra 50% de posts negativos. Jair Bolsonaro aparece em segundo lugar, com 49% de comentários favoráveis, seguido por Simone Tebet, com 45,2%. Lula aparece em quarto lugar, com 43,5 %.
O levantamento mediu também as palavras mais comentadas na internet durante os blocos do debate. Termos como "direito de resposta", "padre de festa junina", "candidato laranja" e "leis Paulo Gustavo e Aldir Blanc" estão entre as expressões mais populares.
Felipe Nunes ressalta ainda o impacto eleitoral que o debate pode causar nos votos, principalmente nos eleitores indecisos. Dados da pesquisa Quaest divulgada na quarta-feira mostravam que 21% dos eleitores diziam poder mudar de voto após o embate entre os presidenciáveis.
— Foi um debate com grande impacto na sociedade. Para efeito de comparação, o debate da Band teve alcance de 134 milhões de contas, já o debate da Globo chegou a um alcance de 204 milhões — avaliou Nunes.
Carro e casa de ex de Bolsonaro são vandalizados em Brasília
O carro da ex-mulher do presidente Jair Bolsonaro (PL), a candidata a deputada distrital Ana Cristina Valle (PP-DF), foi depredado e a casa dela foi pichada na noite desta quinta-feira (29), em Brasília.
Ela e o filho, Jair Renan Bolsonaro, publicaram vídeos curtos nas redes sociais sobre o ocorrido.
"Pixaram a porta da minha casa em represália não só a minha mãe que é candidata a deputada distrital, que automaticamente se percebe o ódio entregue gratuito a família Bolsonaro", afirmou o quarto filho do presidente.
"Morte ao Bolsonaro", escreveram, com tinta vermelha, no muro da casa.
O carro depredado, com vidros quebrados, foi mostrado pela própria Ana Cristina. "Olha o que fizeram comigo. Querem me pegar", ela disse, chorando.
Segundo a assessoria da candidata, ela, uma irmã e um assessor estavam no veículo, na porta da casa de Ana Cristina, quando houve o ataque. Saíam para um comício quando perceberam pancadas no carro, que pareciam vindas de um taco ou barra de ferro.
Os ocupantes do veículo sofreram pequenos cortes provocados por estilhaços.
A mansão da candidata é alvo de um pedido de abertura de inquérito da Polícia Federal à Justiça Federal. O pedido é baseado em dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) que apontam incompatibilidade dos valores da transação imobiliária com a função de assessora parlamentar exercida por Ana Cristina à época da compra do imóvel.
Ela informou à Justiça Eleitoral ser proprietária da mansão no Lago Sul, área nobre de Brasília. Segundo a declaração, o valor do imóvel é de R$ 829 mil.
A declaração contrasta com afirmação anterior da própria candidata, que negou no ano passado a o UOL ser dona do imóvel onde mora com o filho 04 de Bolsonaro.
Ana Cristina disputa a eleição usando o sobrenome e fotos do ex-marido, o que provocou críticas indiretas da primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Michelle disse que existem "alpinistas que estão tentando subir na vida" e declarou que o irmão, Eduardo Torres (PL), é o "nosso" único candidato a deputado distrital pelo DF.
Em publicação nos stories, no Instagram, Jair Renan, o 04, defendeu a mãe e disse que apoia sua candidatura. O filho do presidente afirmou ainda que a "fala de terceiros" sobre o termo "alpinista não reflete a realidade".
"Minha mãe Cristina Bolsonaro teve uma história de vida com o atual presidente Jair Messias Bolsonaro, onde foram casados por 16 anos, e sou fruto desta relação; onde houve parceria e muito amor", escreveu.
Para ele, a mãe contribuiu para a eleição de Bolsonaro à Presidência da República e tem o direito de usar o sobrenome.

VITÓRIA NO PERIMEIRO TURNOÉ TÃO INCERTA QUANTO AO TERCIERO LUGAR
Eliane Cantanhêde / O ESTADÃO
As eleições chegam ao seu dia D com os dois principais candidatos, Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, procurando ganhar no grito, ou na narrativa, ou no imaginário popular, produzindo demonstrações de força, sejam elas reais ou apenas para inglês, ops!, eleitor ver. É a derradeira busca pelo voto, especialmente pelos 13% de eleitores indecisos ou pelos que podem mudar de candidato na última hora. No caso de Ciro Gomes, 46%. No de Simone Tebet, 38%.
Lula ostenta troféus, com listas diárias de adesões em setores-chave, que influenciam eleitores e podem puxar votos, como artistas, atletas, intelectuais, economistas, ex-candidatos à Presidência, ex-ministros principalmente do tucano Fernando Henrique Cardoso e ex-presidentes do Supremo.
São eles Joaquim Barbosa, Celso de Mello, Ayres Britto, Nelson Jobim (que foi ministro de Lula) e, sem necessidade de notas ou declarações, Sepúlveda Pertence. Só Ellen Gracie, consultada pela campanha petista, preferiu não manifestar voto. E, mais uma vez, já fora do STF, Marco Aurélio Mello, é voto vencido: é o único pró-Bolsonaro.
Já Bolsonaro coleciona imagens de comícios e motociatas com multidões, quando a velha militância aguerrida do PT não pareceu muito animada. E, além das fotos e vídeos reais, a campanha do presidente distribui descrédito contra as pesquisas mais respeitadas do País.
A ansiedade no QG lulista é para fechar a eleição no primeiro turno, temendo um adversário poderoso, a abstenção, que atinge os segmentos em que o petista é mais forte: mais pobres, menos escolarizados, mulheres, Nordeste. O foco é convencer esse eleitor a ir votar.
No QG bolsonarista, o esforço é para garantir a realização do segundo turno, quando seus estrategistas acham que haverá tempo e material suficiente para reverter a desvantagem para Lula. Citam que a população poderá então saber e usufruir da melhora da economia, com recuo do desemprego e da inflação abaixo dos 10% e gasolina mais barata.
Além da guerra entre Lula e Bolsonaro, que se enfrentaram ontem no debate da TV Globo, até a madrugada de hoje, há também uma disputa, ponto a ponto, pelo terceiro lugar. Ou pelo pódio. Na reta final, há expectativa de Tebet ultrapassar Ciro, como já começou a acontecer dias antes do pleito em São Paulo. Além disso, Tebet poderá ser a candidata mais votada à Presidência da história do MDB.
Se houve uma sólida estabilidade ao longo de toda a campanha, uma coisa é certa: emoção irá até o último minuto. Assim como o Datafolha deixou o debate de ontem ainda mais eletrizante, também jogou uma grande interrogação no domingo: vai ter ou não segundo turno?
O QUE FALTA A LULA
ROGERIO WERNECK / O ESTADÃO
Bem mais de 60% dos eleitores não querem manter Jair Bolsonaro na Presidência. Quase 50% declaram-se dispostos a votar em Lula da Silva. E pouco menos de 15% preferem outros candidatos, como Ciro Gomes e Simone Tebet.
Lula já mostrou que só ele poderá impedir que Bolsonaro seja reeleito. O que ainda lhe falta é convencer a maioria do eleitorado de que, além de ser capaz de derrotar Bolsonaro, poderá conduzir o País com sucesso no enfrentamento dos desafios com que terá de lidar nos próximos quatro anos.
A chave desse sucesso é ter um plano de jogo coerente que viabilize a retomada do crescimento sustentado da economia, com geração de empregos, equilíbrio fiscal e inflação sob controle. Sem isso, todas as demais políticas públicas estarão fadadas a ter eficácia muito limitada, qualquer que seja o empenho do governo em implementá-las.
E qual é o plano de jogo de Lula? Até agora, ninguém sabe, ninguém viu. Na verdade, a cúpula da campanha de Lula anunciou há poucos dias que, para facilitar a ampliação da aliança que apoia o candidato, seu prometido plano de governo não seria mais anunciado. O que não chegou a ser uma surpresa. Já em maio, em entrevista à revista Time, Lula deixara claro que seu plano era não ter plano. “Nós não discutimos política econômica antes de ganhar as eleições. Em primeiro lugar, você tem de ganhar as eleições.”
Tirando bom proveito da enorme aversão a Bolsonaro, Lula quer extrair do eleitorado carta branca para conduzir a política econômica como bem lhe aprouver, a despeito do deplorável desempenho de governos petistas nessa área.
Não falta quem alegue agora que, dos problemas do governo Lula, o País cuidará depois. E que, por ora, o que importa mesmo é impedir que Bolsonaro seja reeleito. Não é tão simples. De uma perspectiva menos imediatista, é fácil ver que um novo governo petista com gestão destrambelhada da política econômica pavimentará o caminho para a volta do bolsonarismo em 2026.
A oportunidade de reduzir a chance de que isso ocorra é agora, no segundo turno, quando, diante da urgência de conquistar votos de centro, Lula se veja compelido a se comprometer, afinal, com uma condução consequente da política econômica.
Será lamentável se, aterrorizado pelos arreganhos golpistas do bolsonarismo, o País se privar das vantagens do realinhamento de forças políticas, bancadas parlamentares e programas de governo que a eleição presidencial em segundo turno propicia. Vantagens que poderão fazer muita diferença nos próximos quatro anos. E em 2026.
Abstenções têm efeito incerto, mas podem impedir definição da eleição no 1º turno
Ricardo Balthazar / FOLHA DE SP
De todos os fatores que podem contribuir para uma definição da eleição presidencial deste ano no primeiro turno, no domingo (2), o que mais tem desafiado os especialistas é o declínio dos índices de participação do eleitorado, que vêm diminuindo desde 2010.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 20% dos eleitores aptos a votar não compareceram às urnas nas eleições de 2018, quando o presidente Jair Bolsonaro (PL) foi eleito. Em 2006, quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito, 17% não votaram.
Vários motivos podem explicar o aumento da taxa de abstenção, incluindo dificuldades com transporte no dia da votação, falhas nos cadastros da Justiça e até o desinteresse das pessoas pela política, mas não há estudos que permitam saber qual razão tem prevalecido.
Nas eleições municipais de 2020, as abstenções atingiram 23%, mas o pleito desse ano foi atípico, por ter ocorrido no auge da pandemia de Covid-19. Pesquisas feitas pelo Datafolha na época indicaram que muitos eleitores ficaram em casa porque tinham medo de se contaminar.
Uma dificuldade para análise das abstenções é a desatualização das informações de muitos eleitores. Dos 156 milhões considerados aptos a votar neste ano, 24% ainda não fizeram o recadastramento biométrico, em que o TSE coleta assinaturas, fotos e digitais de todos.
Neste ano, analistas apontam as abstenções como um fator que pode reduzir as chances de uma vitória de Lula no primeiro turno. Para liquidar a fatura no domingo, o petista precisará obter mais de 50% dos votos válidos, excluídos da contagem votos em branco e nulos.
Segundo o levantamento mais recente do Datafolha, divulgado nesta quinta (29), Lula tem 50% dos votos válidos. Como a margem de erro da pesquisa é de dois pontos para mais ou para menos, o candidato petista estaria com algo entre 48% e 52% dos votos válidos.
Estudiosos que analisaram dados das últimas disputas presidenciais notam que a abstenção foi maior em alguns dos segmentos do eleitorado em que Lula tem mais força, mas acham muito difícil prever o impacto que uma repetição desse fenômeno poderia ter agora.
Segundo o TSE, as taxas de comparecimento de eleitores com poucos anos de estudo foram menores em 2018 do que as de eleitores com maior escolaridade. É um indício de que Lula pode ter problemas com eleitores de baixa renda, que lhe dão grande vantagem nas pesquisas.
Em 2018, compareceram às urnas 79% dos eleitores que só tinham o ensino fundamental completo ao se registrar, e 88% dos que tinham ensino superior. A diferença é ainda maior entre os analfabetos: somente 49% dos que estavam aptos a votar participaram da eleição.
Por outro lado, o engajamento das mulheres tem sido maior que o dos homens, e as pesquisas também indicam vantagem para Lula nesse segmento, que representa a maioria do eleitorado. No Datafolha, o petista tinha 49% das intenções de voto entre elas há uma semana.
Segundo as estatísticas do TSE, votaram na última eleição presidencial 80% das mulheres inscritas e 79% dos homens. Nas eleições de 2014, quando a então presidente Dilma Rousseff (PT) foi reeleita, 82% das mulheres aptas e 80% dos homens participaram da votação.
"Muitos acham que a abstenção reflete insatisfação dos eleitores com a política, mas não temos elementos para saber isso", diz o cientista político Jairo Nicolau, da FGV (Fundação Getúlio Vargas). "Uma eleição mais disputada como a deste ano pode levar mais gente às urnas."
Os números do TSE mostram que, em 2018, o comparecimento às urnas aumentou no Nordeste. A região representa 27% do eleitorado e é uma das fontes principais da força eleitoral de Lula. Segundo o Datafolha, ele tinha 62% das intenções de voto no Nordeste há uma semana.
A abstenção foi maior no Sudeste, região que reúne 43% do eleitorado e onde a vantagem de Lula sobre Bolsonaro nas pesquisas é mais estreita. De acordo com as estatísticas oficiais, 22% dos eleitores aptos a votar no Sudeste não compareceram nas eleições de 2018.
Alguns segmentos em que a abstenção foi muito grande em pleitos anteriores têm pouco peso relativo no conjunto do eleitorado, como é o caso de analfabetos e idosos com mais de 70 anos, que não são obrigados a votar. Isso tende a reduzir o impacto no resultado final.
Fernando Meireles, pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), calcula que uma repetição dos baixos índices de comparecimento dos idosos causaria uma perda de 0,34% dos votos para Lula, cuja vantagem sobre Bolsonaro é menor nessa faixa etária.
Parece irrelevante, mas pode fazer diferença se a margem para vitória no primeiro turno se estreitar mais até a hora da votação. "Acho difícil que as abstenções alterem drasticamente o quadro", diz Meireles. "O voto útil e definições de última hora tendem a ser mais importantes."
Um fator que não esteve presente em outras eleições poderá contribuir desta vez para aumentar a abstenção, a preocupação do eleitorado com a violência política. Há duas semanas, 9% disseram ao Datafolha que podem não sair de casa por temer atos violentos no domingo.
Na semana passada, quando o instituto quis saber se os eleitores estão com vontade de votar, somente 3% disseram aos pesquisadores que não pretendem comparecer e 16% afirmaram que irão votar mesmo sem nenhuma vontade. Entre as mulheres, 21% se expressaram assim.
"As pessoas parecem mais convictas de suas escolhas nesta eleição e isso poderá levar mais gente a votar", diz Luciana Chong, diretora do Datafolha. As pesquisas mostram que a maioria dos eleitores de Lula e Bolsonaro se definiram há meses e não pretendem mudar o voto.

