Desânimo toma conta da campanha de Lula, abre crise no PT e Flávio aproveita onda da direita
Por Vera Rosa e Guilherme Caetano / O ESTADÃO DE SP
BRASÍLIA – A passagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) para o segundo turno da disputa ao Palácio do Planalto na frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu uma crise no PT. A partir de agora, a principal estratégia da campanha de Lula à reeleição será explorar o medo contra um possível retorno da família Bolsonaro ao poder. Flávio, por sua vez, vai jogar parado, aproveitando a vantagem obtida com a onda da direita no País.
No QG do presidente, a avaliação é de que será difícil virar votos porque há um clima antipetista no País. Pega de surpresa com o rápido avanço de Flávio, a cúpula do PT vai ampliar o ataque ao senador e buscar o apoio de eleitores dos candidatos derrotados na primeira etapa da disputa.
Flávio também tentará convencer Augusto Cury (Avante), Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) a declarar voto para ele. O senador avalia que pode se beneficiar da migração desse eleitorado, à direita do espectro político. Em 2022, porém, o Movimento Brasil Livre (MBL), de Renan Santos, pregou voto nulo no segundo turno entre o PT e o PL.
Vice na chapa de Caiado, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse neste domingo que, diante da “diversidade de cenários eleitorais” nos Estados, os diretórios e líderes do partido estão liberados para definir quem querem apoiar para o Palácio do Planalto.
O crescimento de Flávio na reta final desestabilizou a equipe de Lula, que fará uma reunião nesta segunda-feira, 5, para definir os próximos passos.
Em São Paulo, a apuração dos votos foi marcada por momentos de muita tensão no hotel onde estavam o presidente e dirigentes de sua campanha. A portas fechadas, houve críticas internas à condução da campanha e à comunicação do governo, que não conseguiu se sobrepor ao discurso da oposição.
Antes mesmo da abertura das urnas, o PT já temia que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro virasse na frente. Pelos cálculos do comitê petista, Lula precisaria contar com uma diferença de quatro pontos porcentuais sobre Flávio para não ter sobressaltos no segundo turno. Terminou, porém, com 45% dos votos válidos e Flávio, com 47%.
A derrota do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad (PT), na primeira rodada, para o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aumentou o cenário de dificuldades para Lula. Além disso, Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (PSB) ficaram fora do Senado. Lula também não terá mais palanque em Minas, já que o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito para o governo.
“Tudo como previsto”, afirmou o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha do senador, ao chegar à casa onde o PL comemorou o resultado das urnas, em Brasília. O esforço do PL será concentrado agora nas articulações políticas, mantendo o foco das agendas no Sudeste.
A equipe bolsonarista deve repetir a estratégia de concentrar os atos de campanha em São Paulo, Minas e Rio, os três maiores colégios eleitorais do País, que reúnem 40% dos votos no País.
A eleição de governadores do PL, como Sérgio Moro, no Paraná; Luciano Zucco, no Rio Grande do Sul; e Jorginho Mello, em Santa Catarina, favorece Flávio, que também conta com o apoio de Tarcísio, em São Paulo.
“São Paulo vai ser decisivo para eleger Flávio no segundo turno”, disse o governador paulista, após ser reeleito. “Nós não vamos abaixar nossos acampamentos nem nossas bandeiras. Nós vamos derrotar o PT”.
A cúpula do PT identificou o cansaço da população “com tudo o que está aí”, o desgaste do governo e o desejo de mudança por parte do eleitorado como fatores que tornaram a disputa mais apertada do que o esperado.
Além disso, no diagnóstico dos petistas, a aliança de Lula com o Supremo Tribunal Federal (STF) pesou contra o candidato à reeleição neste momento em que a Corte enfrenta uma crise atrás da outra.
Até agora, nem o presidente nem o PT conseguiram renovar o discurso. A portas fechadas, dirigentes do partido admitem ser por isso que Flávio tem audiência quando se apresenta ao eleitorado como o antissistema.
O desafio de Lula, neste segundo turno, será superar o desgaste de sua própria imagem e vender esperança, nas três semanas que restam da campanha, com medidas que representem mudanças na vida da população.
Não foi à toa que, nas últimas propagandas na TV, Lula e Flávio vestiram o figurino da mudança. “Mudar não é voltar para trás. Mudança não é tirar o que você já conquistou. Não é armar o País nem entregar as nossas riquezas”, argumentou Lula, numa estocada em Flávio. “Desrespeitar mulher não é mudança; é passado”.
A frase traz embutida uma ameaça velada do que pode aparecer neste segundo turno. Há dossiês contra o senador com acusações da participação dele em orgias e negócios suspeitos. A exibição de imagens com esse teor, no entanto, divide a campanha. De qualquer forma, a propaganda eleitoral de Lula na TV vai destacar mais escândalos protagonizados por Flávio, como o da rachadinha, além de tentar associá-lo a milicianos.
“Nós vamos mostrar as ligações que Flávio Bolsonaro tem com as milícias e o legado do pai, que ele carrega, com 714 mil covas abertas na pandemia”, afirmou o presidente do PT, Edinho Silva, coordenador da campanha de Lula. “Tudo isso será confrontado com o projeto representado pelo presidente”.
Fim da escala 6x1 é visto como ativo, mas oposição promete barrar proposta
A aprovação da proposta de emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala de trabalho 6x1 é vista como essencial pelo comando do PT para mostrar que o governo trabalha para melhorar a vida da população.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), marcou para terça-feira, 6, uma sessão para analisar a proposta, que já foi aprovada pela Câmara. Alcolumbre tentará acelerar a votação, mas a oposição promete barrar a iniciativa, ainda mais agora que a direita saiu fortalecida das urnas, e não só na disputa presidencial. Bolsonaristas ampliaram suas bancadas na Câmara, no Senado e nos governos estaduais.
No diagnóstico da campanha de Lula, medidas como o fim da taxa das blusinhas e a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil não surtiram o efeito esperado. O discurso da soberania também não provocou impacto e, na visão do PT, será necessário um ajuste de rota para mostrar como os Estados Unidos de Donald Trump poderão interferir no Brasil, se Flávio vencer a disputa.
Ao menos 31 senadores eleitos defendem impeachment de ministros do STF
Por Danielle Brant, Pedro Augusto Figueiredo, Gabriel Serpa, Lucas Allabi, Lara Schweitzer e William Brizola / o estadão de sp
BRASÍLIA E SÃO PAULO -BRASÍLIA - A maioria dos eleitos para o Senado neste domingo, 4, defende a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e também uma limitação aos mandatos dos integrantes da Corte.
O resultado foi compilado a partir de respostas a levantamento do Estadão com os candidatos que registravam, nas últimas semanas, melhor desempenho numérico em pesquisas. Evair de Melo (Republicanos), eleito ao Senado pelo Espírito Santo, foi o único que não foi consultado.
Foram enviadas cinco perguntas aos então candidatos. Dos 53 eleitos ouvidos, o número de respostas variou de 31 a 35 senadores, a depender da pergunta.
Um dos principais argumentos usados é que os ministros não estão acima da lei e devem responder por eventuais crimes de responsabilidade. Eles defendem ainda que o Senado precisa exercer sua prerrogativa de processar integrantes da Corte e que o impeachment poderia ajudar a preservar o equilíbrio entre os Poderes e resgatar a credibilidade do Supremo.
O ministro Alexandre de Moraes é citado explicitamente, com críticas ao que é visto como abuso de autoridade por parte do magistrado. Outros destacam as suspeitas que cercam a relação do ministro com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o contrato do banco com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, sua mulher. Nas respostas, o caso é usado para defender investigação, afastamento ou impeachment do ministro.
O mandato fixo é outro tema em torno do qual a maioria dos senadores eleitos converge. Dos 34 que responderam à pergunta sobre se deveria haver uma limitação, 31 (91,2%) disseram que “sim”. Entre as justificativas estão a de que é preciso assegurar renovação e alternância na composição do STF, para evitar que ministros permaneçam por décadas no cargo.
Outro argumento é o peso das indicações presidenciais: como um ministro pode permanecer no STF por muitos anos, a escolha feita por um presidente produz efeitos sobre a composição do tribunal muito depois do fim de seu mandato no Palácio do Planalto. Há ainda a avaliação de que o prazo não comprometeria a independência dos ministros.
Os candidatos também haviam sido perguntados sobre idade mínima, forma de indicação dos ministros e restrição de decisões monocráticas.Segundo o levantamento, 27 de 31 que responderam à pergunta (71%) concordam com a definição de uma idade mínima para indicação ao STF. Hoje, a Constituição exige que o indicado tenha mais de 35 e menos de 70 anos.
Alguns sugerem aumento, enquanto outros concordam com os critérios atuais. Aqueles que citam a elevação da idade sugerem entre 40 e 60 anos.
A mudança na forma de indicação tem apoio de 22 dos 32 que responderam (68,8%). Entre as justificativas usadas estão a necessidade de reduzir o peso do presidente da República na nomeação e a adoção de critérios mais técnicos. Outros também afirmaram que é preciso ter uma sabatina mais rigorosa no Senado.
No que diz respeito às decisões monocráticas, o apoio à restrição é maior: 30 dos 32 que responderam defendem limitar esse tipo de decisão (93,8%). Predomina a avaliação de que um único ministro não deveria ter poder para suspender leis, atos de outros Poderes ou decisões tomadas pelo Congresso em temas de grande impacto.
Reportagem: Ana Xavier, Danielle Brant, Gabriel Serpa, Lara Schweitzer, Lucas Allabi e Pedro Augusto Figueiredo; Edição: Ricardo Corrêa; Desenvolvimento e Design multimídia: William Brizola; Editora de infografia multimídia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia multimídia: Adriano Araujo e William Mariotto; Editor Executivo em Brasília: Murilo Rodrigues Alves; Editor Executivo de Política: Renato Andrade.
'Tá querendo trair o Camilo e, lá atrás, traiu até o Lula', dispara Capitão Wagner sobre Cid Gomes
O candidato ao Senado Federal Capitão Wagner (União Brasil) alfinetou o adversário Cid Gomes (PSB) ao relembrar antigas posturas adotadas pelo postulante, classificando-o como "traidor". As declarações foram dadas nesta quinta-feira (1º), durante o Debate PontoPoder com candidatos ao cargo de senador.
Conforme Wagner, haveria uma série de nomes que foram, ou ainda serão, traídos pelo senador e candidato à reeleição. O assunto surgiu durante o segundo bloco, enquanto os políticos presentes abordaram o abandono do projeto do Aquário de Fortaleza durante o governo Cid Gomes, bem como sua ausência no debate.
Ao todo, três figuras foram enumeradas pelo candidato: Ciro Gomes (PSDB), irmão de Cid e postulante ao Governo do Estado pela chapa opositora nessa eleição; Camilo Santana, sucessor de Cid na época de governador e atual senador; e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente da República e candidato à reeleição.
Debate PontoPoder
Os candidatos para as duas vagas destinadas ao Ceará no Senado Federal participaram, nesta quinta-feira (1º), do Debate PontoPoder, com transmissão pelo Diário do Nordeste, Verdinha FM e TV Diário.
Foram convidados os postulantes que atenderam aos critérios de representatividade para participação no debate e também somam mais de 5% de intenção de voto na pesquisa estimulada mais recente do Instituto Quaest, contratada pela TV Verdes Mares e publicada em 23 de setembro.
Apenas Alcides Fernandes (PL) e Capitão Wagner (União Brasil) compareceram ao momento eleitoral. A assessoria de Cid Gomes informou que, “em razão de alterações na agenda desta reta final de campanha, o senador não poderá participar do debate promovido hoje pelo Sistema Verdes Mares”.
Já a coordenação da campanha de Luizianne Lins (Rede) informou que “ela não poderá participar do debate promovido pelo Sistema Verdes Mares, nesta quinta (1º), devido à alteração na agenda de campanha, que prevê compromissos no Cariri ao lado do governador Elmano”.
*Estagiária sob supervisão do jornalista Wagner Mendes.
Alcides defende Ciro e chama Cid de covarde: 'Seu irmão é macho'
Escrito por Igor Cavalcante / DIARIONORDESTE
O candidato ao Senado Alcides Fernandes (PL) fez críticas ao senador Cid Gomes (PSB) e saiu em defesa de Ciro Gomes (PSDB) durante o Debate PontoPoder, realizado nesta quinta-feira (1º). Ao comentar o combate às facções criminosas, o deputado estadual chamou Cid de “covarde” por não comparecer ao confronto e afirmou que o irmão dele é “macho” e “corajoso”.
Cid e a deputada federal Luizianne Lins (Rede), que disputam as duas vagas pela base governista, haviam confirmado presença, mas informaram, nesta quinta, que não participariam devido às alterações na agenda de campanha.
Ciro concorre ao Governo do Ceará e tem Alcides como um dos candidatos ao Senado ligados à sua chapa.
“Você não veio porque você é covarde. Era para você estar vindo para eu olhar para a sua cara e chamar você de traidor. Você está traindo, você é uma vergonha”, declarou Alcides
Na fala, o candidato do PL também acusou Cid de ser conivente com políticos supostamente envolvidos com organizações criminosas. "Agora você vai lacrar, fazer um videozinho dizendo: 'Estão me atingindo, estão me atacando'. Ninguém está mais com você, Cid. Camilo já te abandonou, o Lula não quis ir para Sobral porque você está lá embaixo, ninguém acredita mais em você, ninguém acredita", acrescentou.
Debate PontoPoder para o Senado
Os quatro políticos candidatos ao Senado foram convidados por atenderem aos critérios de representatividade para participação no debate e também somam mais de 5% de intenção de voto na pesquisa estimulada mais recente do Instituto Quaest, contratada pela TV Verdes Mares e publicada no dia 23 de setembro.
O Debate PontoPoder teve formato com quatro blocos, todos com confronto direto entre os candidatos. O primeiro e o penúltimo contarão com temas livres, enquanto o segundo e o quarto serão de temas determinados.
Fracasso do Move Motos expõe limites das políticas eleitoreiras
Por Editorial / O GLOBO
Não é de surpreender o fracasso do programa do governo federal que facilita o crédito a entregadores e mototaxistas de aplicativos para compra de veículos novos. O Move Motos, uma das muitas medidas adotadas para tentar aumentar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem frustrado as expectativas. Desde o início, em meados de julho, 17,7 mil entregadores contrataram empréstimos, num valor de R$ 384 milhões, como mostrou reportagem do GLOBO. Técnicos esperavam entre 700 mil e 1,2 milhão de beneficiados.
As limitações do programa já haviam ficado claras pela baixa adesão das instituições financeiras. Além dos estatais Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal, só aderiram os bancos Yamaha e Honda, ligados a fabricantes de motos, por interesse na iniciativa.
O programa é destinado a ciclistas e motociclistas cadastrados em aplicativos há pelo menos seis meses com no mínimo cem corridas, ou ciclistas, motofretistas ou mototaxistas profissionais com contratos formais há pelo menos seis meses. As condições são atraentes: juros de até 0,99% ao mês para homens e 0,91% para mulheres. O parcelamento pode ser feito em até 48 meses. Houve reserva de R$ 1,25 bilhão do Fundo Garantidor de Operações para cobrir possíveis calotes.
Apesar das condições favoráveis, os interessados encontram dificuldades que não foram vislumbradas pelo governo. Um entregador que trabalha no setor há mais de três anos tentou comprar uma moto pelo programa, mas não foi aprovado. Ele acredita que tenha sido barrado porque seu nome está negativado por dívidas não pagas. “Tentei aderir pelo gov.br, deram prazo para o requerimento e, quando fiz, não foi aceito. Parecia fácil pela propaganda”, disse. Casos como esse são uma realidade que o governo parece ignorar.
O Move Motos integra um programa maior, o Move Brasil, que também enfrenta dificuldades. No início de agosto, pouco mais de um mês depois de lançado, o financiamento de automóveis para taxistas e motoristas de aplicativos não havia deslanchado. Dos R$ 30 bilhões reservados, a demanda atingira R$ 2,2 bilhões, ou 7,3% do total. Entre os principais empecilhos são apontados a inadimplência, o endividamento alto e a dificuldade para comprovar renda. Situações previsíveis.
Não há nada de errado em facilitar condições para que taxistas, mototaxistas, motoristas de aplicativos ou entregadores renovem seus veículos de trabalho. O problema é esses programas terem surgido não da demanda legítima das categorias, mas de objetivos puramente eleitoreiros. Políticas públicas devem ser formatadas de acordo com seus efeitos na economia e na sociedade, com base em estudos academicamente robustos — e não nos índices de popularidade, para agradar a este ou àquele público arredio.
Chega a ser irônico que o governo lance programas, e os potenciais beneficiários não possam participar porque têm dívidas que não conseguem pagar devido ao descontrole fiscal do próprio governo — maior causa dos juros altos que perpetuam o endividamento.
Entregadores em atividade em São Paulo — Foto: Edilson Dantas /Agência O Globo/29/10/2025

