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Entrada de Lula projeta eleição menos pulverizada

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

14 de março de 2021 | 05h00

O restabelecimento dos direitos políticos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva impactou as estratégias e alterou a projeção que líderes políticos envolvidos com a sucessão presidencial vinham fazendo do cenário de 2022. De imediato, além de acelerar o processo de articulação de futuras candidaturas, a entrada de Lula no jogo eleitoral estreitou o espaço para candidatos. Por dois motivos: por um lado porque o ex-presidente cria uma expectativa de aliança na esquerda e por outro porque fica mais restrita a viabilidade de candidaturas que queiram se oferecer como alternativa à polarização.

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Ciro Gomes, Luciano Huck, João Doria e Sérgio Moro Foto: ABA BENEDICTO, FELIPE RAU, NILTON FUKUDA/ESTADÃO E MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL

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No contexto atual, há três nomes que se apresentam no chamado “centro expandido” da política nacional: Ciro Gomes (PDT), Luciano Huck e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Como mostrou o Estadão, em meio à novidade Lula, Doria admitiu pela primeira vez que pode deixar de lado o projeto presidencial e optar por disputar a reeleição no ano que vem.

A raia mais estreita da corrida eleitoral afeta também as articulações de Huck e Ciro. O ex-ministro e presidenciável do PDT terá agora de partir para negociações mais efetivas no campo do centro, já que a esquerda passa a gravitar na órbita de Lula. No caso do empresário e apresentador da TV Globo, as tratativas com o PSB ficam mais incertas e um dos pilares de sua retórica – o combate à desigualdade social – passa a ter forte concorrência.

“A entrada de Lula acelerou o processo sucessório e também acelerou para o Huck. A pressão agora não é mais só profissional”, disse o ex-deputado Roberto Freire, presidente do Cidadania. “Lula força uma discussão mais profunda sobre a criação de um polo alternativo.”

Freire tem conversado com Ciro e dirigentes do PDT não descartam que o Cidadania se alie ao ex-ministro caso Huck decida não concorrer.

Huck deverá, até meados do ano, tomar a decisão de renovar ou não o contrato com a Globo, indicando sua disposição de manter ou não o projeto eleitoral para 2022. Ele voltou a conversar com o DEM e abriu diálogo com emedebistas – a senadora Simone Tebet (MDB-MS) jantou recentemente na casa do apresentador. Seu grupo político, porém, agora tem dúvidas se o PSB vai caminhar para um convite formal e público a Huck.

A interlocução entre Huck e os pessebistas tem sido feita pelo prefeito do Recife, João Campos. A avaliação é que o rumo do partido em 2022 será ditado justamente pelo arranjo que melhor favorecer os interesses eleitorais da ala dominante do PSB, concentrada em Pernambuco – onde Lula é forte catalisador de votos (mais informações na página ao lado).

“Já estamos conversando com o centro. O Ciro tem aprofundado o diálogo com o PSD, DEM, PV e Rede”, afirmou o presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, para quem Huck “perde base popular” com a volta de Lula. Ciro tem, prioritariamente, investido na construção de uma ponte mais sólida na ala nordestina do DEM – um dos seus interlocutores mais frequentes é o ex-prefeito de Salvador ACM Neto, presidente nacional do partido.

Caso mantenha os direitos políticos até a eleição do ano que vem, Lula também impacta o projeto do PSOL. O apoio ao petista ainda sofre resistências internas, especialmente dos líderes da legenda que foram expulsos do PT, mas o debate ganha volume na sigla. O presidente nacional do PSOLJuliano Medeiros, disse ao Estadão que “a presença de Lula no debate público reforça a luta da oposição contra Bolsonaro”. “Queremos criar um espaço formal para discutir a unidade com os partidos.”

Moro

Analistas e líderes partidários ainda avaliam, e também divergem, a respeito do impacto que o fato da última semana tem sobre o ex-ministro Sérgio Moro. Apesar da decisão do ministro Edson Fachin de anular as condenações de Lula na Lava Jato em Curitiba, a Segunda Turma da Corte manteve o julgamento que analisa a suspeição do ex-juiz titular da operação.

Recolhido desde que deixou o governo federal, Moro se tornou sócio-diretor da consultoria americana Alvarez & Marsal no ano passado. Mantém conversas com Huck e Doria, mas sem indicar pretensão de ser protagonista no ano que vem. Diante do fator Lula, o ex-juiz é visto por dois ângulos: um cenário em que é considerado parcial e perde capital político para uma investida eleitoral e outro em que a presença do ex-presidente revitaliza também o antipetismo e abre uma “estrada” para Moro.

Seus apoiadores confiam na segunda hipótese e reforçaram a pressão para que ele tome o mais rápido possível uma decisão sobre 2022. “Moro está sendo convocado à luta para defender a causa do combate à corrupção, que se enfraquece. Esta é uma decisão muito pessoal: aceitar a convocação para o enfrentamento ou se acomodar. A Lava Jato está sendo golpeada de forma fatal. Vejo como uma convocação ao enfrentamento”, disse o senador Alvaro Dias (PR), principal interlocutor entre o ex-ministro e o Podemos.

No campo governista, parte dos aliados de Jair Bolsonaro admite que o retorno de Lula pode dividir o apoio que o presidente tem hoje dos partidos que integram o Centrão. Aliados articulam a volta dele ao PSL e pregam que, para enfrentar Lula, é preciso entrar na disputa com uma sigla bem estruturada – ou seja, com dinheiro em caixa e tempo de televisão.

“O tsunami que elegeu Bolsonaro em 2018 não vai se repetir em 2022. Vai voltar o jogo da estrutura partidária”, disse ao Estadão o deputado bolsonarista Luiz Philippe de Orleans e Bragança (SP), que integra o círculo político mais próximo da família Bolsonaro. As conversas entre o PSL e o presidente foram retomadas e o partido isolou a ala de oposição ao governo no Congresso.

EXAME/IDEIA: Bolsonaro seria reeleito com ao menos 7 pontos de vantagem contra Lula ou Huck em 2022

Por Gilson Garrett Jr. / EXAME

 

Se a eleição presidencial fosse hoje no Brasil, Jair Bolsonaro (sem partido) seria reeleito para mais quatro anos de mandato. No primeiro turno, ele tem vantagem de 12 pontos percentuais em relação ao segundo colocado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

 

Já em um eventual segundo turno, o atual presidente aparece com pelo menos sete pontos de vantagem contra Lula e contra o apresentador Luciano Huck (sem partido), os candidatos que mais rivalizam com Bolsonaro.

Os dados são da mais recente pesquisa EXAME/IDEIA, projeto que une Exame Invest Pro, braço de análise de investimentos da EXAME, e o IDEIA, instituto de pesquisa especializado em opinião pública. O levantamento ouviu 1.000 pessoas entre os dias 10 e 11 de março. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos. Clique aqui para ler o relatório completo.

A sondagem é a primeira feita após decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, que anulou todas as condenações de Lula na Lava Jato de Curitiba. Entre os entrevistados, 73% disseram que tiveram conhecimento do julgamento do ministro do STF.

A decisão tornou o ex-presidente apto a concorrer novamente ao Palácio do Planalto. Mesmo dizendo que não sabe se será candidato, Lula fez um discurso, na quarta-feira, 10, em tom de disputa.

“Jair Bolsonaro segue favorito, mas não será simples nem para ele nem para o ex-presidente Lula. Há uma demanda evidente de opinião pública por uma terceira via. Maior mesmo se comparada aos tempos da polarização PT-PSDB. Só falta a oferta”, avalia Maurício Moura, fundador do IDEIA.

A pesquisa EXAME/IDEIA testou três cenários de primeiro turno, todos incluindo Bolsonaro e Lula. Nas sondagens, os dois são os que mais têm chances de irem a um eventual segundo turno. A pesquisa também perguntou se ambos merecem mais um mandato no comando do Brasil. Para 48%, Bolsonaro não merece um segundo mandato, enquanto 46% acham que Lula é quem não merece um terceiro mandato.

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 (Arte/Exame)

Na sondagem de segundo turno, foram testados quatro possíveis cenários. Em uma disputa entre Bolsonaro e Lula, o cenário é de 44% a 37%, respectivamente. Já contra Huck, Bolsonaro tem 46% e o apresentador, 37%. Quando o nome do ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT) aparece, ele recebe 34% das intenções de voto e o presidente, 45%. Contra o governador de São Paulo (PSDB), Bolsonaro tem 47%, e João Doria, 26%.

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 (Arte/Exame)

Maurício Moura destaca que, para crescer nas pesquisas, o ex-presidente Lula precisa conquistar a população com maior renda. “Além disso, para 54% dos brasileiros a anulação da sentença de Lula foi injusta. O consenso no imaginário da opinião pública sobre sua inocência é minoritário. O PT e Lula terão de reconquistar a classe média”, afirma.

 

Só os ingênuos acham que a campanha será em 2022

A ideia de que é cedo para iniciar uma campanha presidencial, dado que temos uma pandemia para combater, é politicamente ingênua. Em democracias, os eleitores estão sempre julgando potenciais candidatos. Para os governantes, fazer a coisa certa em situações de crise é parte da campanha. Se os resultados aparecem, aumentam as chances de reeleição. 

O raciocínio vale para os opositores. Nas situações de crise, eles têm a oportunidade – e a obrigação – de fiscalizar e criticar. Devem também apresentar alternativas, para que o eleitor acredite que farão melhor caso conquistem o poder. 

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Tal regra básica das democracias merece ser lembrada nesta semana, em que o ex-presidente Lula, para usar uma expressão dele próprio, colocou seu bloco na rua. Fez um discurso clássico de candidato dois dias depois da decisão do juiz Edson Fachin – tão clássico que não assumiu ser candidato. Em sua fala, colocou-se na posição de antagonista preferencial do atual presidente, Jair Bolsonaro – que está em campanha desde o primeiro dia de governo. 

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O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz pronunciamento em São Bernardo do Campo, na Grande SP Foto: REUTERS/Amanda Perobelli (10/3/2021)

O editor Daniel Bramatti, da área de jornalismo de dados do Estadão, analisou no domingo, dia 7, uma pesquisa em que Lula lidera o potencial de voto para 2022. Em segundo lugar aparece Bolsonaro. No levantamento feito pelo instituto Ipec, os dois têm uma certa folga sobre o segundo pelotão – composto por Sérgio Moro, Luciano Huck, Fernando Haddad e Ciro Gomes. Teríamos um segundo turno já desenhado para 2022? 

A resposta é não se considerarmos outra pesquisa – esta qualitativa, realizada nas classes A e B e patrocinada pela fundação alemã Friedrich Ebert. Ela mostra falta de convicção entre os potenciais eleitores de Lula e Bolsonaro. No levantamento, feito no fim do ano passado, o eleitor à direita já criticava Bolsonaro pelo desastre no combate à pandemia. 

Do outro lado, segundo a pesquisa, há desconforto com o projeto hegemônico do PT e a falta de renovação nas esquerdas. “Políticos jovens como Guilherme Boulos aparecem como opções até entre eleitores de centro”, diz a cientista política Camila Rocha, coordenadora do levantamento ao lado da socióloga Esther Solano. Ela é a personagem do minipodcast da semana. 

Camila Rocha transita por várias correntes ideológicas, com interlocutores à esquerda e à direita. Ela é autora de “Menos Marx, Mais Mises”, uma tese de doutorado sobre os liberais brasileiros da nova geração (um livro baseado na tese sairá no segundo semestre pela Editora Todavia). O sentimento que captou entre integrantes dos dois campos foi de “orfandade”. “Há ainda muitos eleitores em busca de candidatos que os representem”, diz Camila Rocha. 

O cruzamento das duas pesquisas, a quantitativa e a qualitativa, sugere que o presidente e o ex-presidente lideram porque foram os primeiros a “colocar o bloco na rua”. Os levantamentos mostram que muitos brasileiros votarão em Lula ou Bolsonaro. Há, no entanto, um enorme contingente em busca de alternativas. Cabe aos demais partidos suprir a demanda dos “órfãos”. No Brasil os pleitos são livres e quem não se apresenta ao escrutínio do eleitor não tem o direito de reclamar. Assumir a candidatura é o primeiro passo, mas não basta. É preciso apresentar ideias. 

Em plena pandemia, a campanha está a todo vapor. Se os postulantes não colocarem logo seus blocos na rua – e se não perceberem a urgência dessa tarefa –, Lula e Bolsonaro brincarão sozinhos o carnaval das eleições. 

João Gabriel de Lima / 

ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTORANDO EM CIÊNCIA POLÍTICA NA UNIVERSIDADE DE LISBOA

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Polarização não significa disputa entre extremos, diz Cláudio Couto

Por Bernardo Mello Franco / O GLOBO

 

Polarização eleitoral não é sinônimo de disputa entre extremos, afirma o cientista político Cláudio Couto, da Fundação Getulio Vargas (FGV) de São Paulo.

Ele diz que o presidente Jair Bolsonaro deverá ser o único radical no páreo em 2022. E aposta que o ex-presidente Lula buscará uma aliança “além da esquerda” para enfrentá-lo.

O professor avalia que a volta do petista reduz o espaço para pré-candidatos que tentam se apresentar como alternativas de centro.

Para Couto, o país vive um processo de “deterioração democrática”, marcado pela hostilidade do governo à cultura, à imprensa, às universidades e às organizações da sociedade civil.

Leia a seguir trechos da entrevista:

O que muda com Lula livre para disputar eleições?

É um movimento muito importante no cenário de 2022. Lula fez um discurso mais amplo, falou em conversar com setores conservadores. Buscou mostrar que não é extremista, que é diferente do atual presidente. Foi um discurso de candidato, sem dúvida.

Para o governo, a volta de Lula é um abalo sísmico. Ele já obrigou Bolsonaro a usar máscara e botar um globo terrestre na mesa (em transmissão ao vivo na quinta). Isso mostra que o presidente acusou o golpe.

Como seria uma candidatura Lula em 2022?

Lula está claramente em busca de uma aliança que vá além da esquerda. Isso significa que ele tentará atrair partidos da base do governo, como o PSD. Muita gente que está com Bolsonaro hoje não vai acompanhá-lo até o cadafalso.

O discurso mostrou uma estratégia eleitoral clara. Havia um debate sobre a construção de uma candidatura de centro, alternativa a Lula e Bolsonaro. O que Lula quis dizer foi: "O candidato de centro sou eu". Isso muda o cenário, e vai tornar a vida do Ciro Gomes particularmente difícil.

Lula ainda é eleitoralmente viável após a prisão na Lava-Jato? 

Lula não voltará a ser o que era em 2010, quando deixou o governo. No entanto, não estamos mais em 2016, quando o Congresso aprovou o impeachment de Dilma Rousseff e o PT perdeu 60% das prefeituras na eleição municipal. O antipetismo ainda é forte, mas mas passou a ser contrastado pelo antibolsonarismo.

Em 2018, candidatos ditos de centro somaram menos de 10% dos votos. Como fica este campo numa disputa com Lula e Bolsonaro?

Já está claro que não vai haver espaço para todo mundo. Alguns pré-candidatos correm o risco de repetir o que aconteceu com a Marina Silva, que encolheu de 20% para 1% em 2018.

Os candidatos à esquerda de Bolsonaro e à direita de Lula deverão lutar por cerca de um terço do eleitorado. Se houver dois candidatos nessa faixa, a coisa já complica.

Entre os pré-candidatos, quem parece ser mais viável?

Não creio que João Doria tenha potencial para se expandir além das fronteiras de São Paulo. O governador paulista sempre é visto como um candidato forte, mas o último a chegar à Presidência foi Jânio Quadros, em 1960.

Não sabemos se Luciano Huck quer ser presidente ou substituto do Faustão. Se eu fosse fazer uma aposta hoje, apostaria no Luiz Henrique Mandetta. Ele pode se apresentar como uma voz de sensatez na direita moderada.

E o ex-ministro Sergio Moro?

Moro sofreu muito desgaste e perdeu fôlego como fenômeno de massa. Ele parece não levar jeito para a coisa. Talvez seu momento tenha passado. 

É correto dizer que o país pode se polarizar entre dois extremos em 2022?

Na literatura de ciência política, polarização é um confronto entre alternativas claras. É uma disputa entre dois polos, não necessariamente entre dois extremos. Por muitos anos, as eleições presidenciais foram polarizadas por PT e PSDB, e nenhum deles era extremista.

Não creio que Bolsonaro e Lula sejam comparáveis. Dizer que Lula é um extremista não só é uma rematada bobagem, como pode levar a uma escolha desastrosa. Em 2018, esse discurso levou a uma falsa simetria entre Bolsonaro e Fernando Haddad.

Depois de dois anos de governo, Bolsonaro pode ser classificado como um extremista?

Sem a menor dúvida. O Brasil está sofrendo um processo de deterioração democrática. Bolsonaro enxerga quem não se curva a ele como um inimigo a ser destruído. E reproduz essa lógica na relação com a cultura, a educação, as universidades, as organizações da sociedade civil.

O extremismo também está claramente configurado na negação da ciência, na ideia de que é preciso pegar em armas contra os governadores e prefeitos que não se alinham a ele.

Chamo Bolsonaro de fascista subletrado. O culto a morte e à violência, que está presente no discurso dele, é uma características do fascismo. A frase do general franquista Millán-Astray, "Abajo la inteligencia, viva la muerte!", caberia neste governo.

Como o presidente chegará a 2022?

Ele tende a sofrer uma corrosão, como já disse o senador Tasso Jereissati. A questão é que o bolsonarismo tem raízes profundas no nosso modo de ser. Por isso ele mantém o apoio firme de parte do eleitorado, por mais barbaridades que diga.

Em caso de derrota, Bolsonaro vai aceitar o resultado das urnas?

O cenário é muito preocupante. Nós vimos o que aconteceu nos EUA com a invasão do Capitólio após a derrota de Donald Trump.

A principal variável é saber o tamanho do desgaste de Bolsonaro, se ele sairá da eleição com apoio significativo ou não. Se ele sair muito frágil, terá dificuldade para mobilizar os grupos radicalizados que o apoiam.

PSDB pode abrir mão de candidatura em 2022 para unir centro, diz Aécio Neves

Igor Gielow / FLHA DE SP
SÃO PAULO

Após um ostracismo de mais de três anos, no qual deixou a condição de presidenciável favorito para ser hostilizado ao votar na sua cidade natal, Aécio Neves está de volta à cena política.

O deputado federal mineiro, 61 anos, protagonizou um embate com governador João Doria (SP), principal nome do PSDB, e nesta sexta (12) assumiu a prestigiosa Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional.

Na sua primeira grande entrevista desde que a gravação na qual combina receber R$ 2 milhões do empresário Joesley Batista veio à luz, em 2017, Aécio analisa o panorama político e apresenta sua defesa das acusações que sofreu.

Nega ser bolsonarista, mas afirma que a vocação tucana nunca é a de uma oposição radical.

A vacina não é um ativo? - Sim, seu papel foi fundamental para que o Brasil tivesse acesso a um conjunto mínimo de vacinas, mas a obsessão pelo marketing não deixa as pessoas julgarem isso positivamente.

Em relação aos governadores, por exemplo, era o espaço natural para ele assumir uma liderança. Mas ele conseguiu o oposto. Como dizia Tancredo Neves, quem quer ser general em Brasília tem de sargentear um pouco pelo país.

Falta vivência política ao governador. Mas é um dos nomes que temos em condições de nos convencer. Até agora, não aconteceu, mas talvez haja tempo para isso.

Fora do PSDB, qual o melhor nome desse centro? - Não tem um nome natural. Precisamos de um projeto para o Brasil que não seja personalista. Ele pode ter 20%, 25%, 30%. Se for para o segundo turno, tem grande chance de vitória.

O sr. foi acusado por Doria de ser bolsonarista, pelo suposto apoio ao centrão na disputa da Câmara, o que nega. O PSDB é ou não é oposição a Bolsonaro? - O PSDB é oposição. Nós nos negamos a nos aliar a Bolsonaro em Minas, por exemplo. Não teve BolsoAnasta [em oposição ao BolsoDoria] com o Antonio Anastasia [candidato derrotado do PSDB].

Mas é natural que no Parlamento haja relação entre correntes políticas. Governadores fora do Congresso podem ser mais assertivos. Condeno essa cobrança permanente.

Não é da natureza do PSDB ser uma oposição radical. Se não construirmos, o eleitorado só poderá optar pelo PT ou o Bolsonaro. Se houver mais de uma candidatura de centro, vamos nos curvar à polarização.

Defina o governo Bolsonaro. - É um governo que teve oportunidades extraordinárias e vem desperdiçando uma a uma. Mas não vejo só as agruras, há virtudes na questão econômicas.

Mas o Paulo Guedes está manietado há muito tempo. - Sim. São as oportunidades perdidas. Passos atrás em meio à tragédia da pandemia. Mas nada se compara ao mal que o PT fez ao Brasil na economia.
Nós tínhamos de apoiar o governo Michel Temer porque era uma responsabilidade com o país, e mesmo tendo de sobreviver no cargo, ele arrumou a economia.

Na política externa, foi um momento de recuperação. Estávamos submetidos ao bolivarianismo. Agora, saltamos o Rubicão e fomos para outro extremo, a subserviência ao trumpismo. Mas no meio do caminho, foi o PSDB com os chanceleres José Serra e Aloysio Nunes Ferreira, que restabeleceu nossas melhores tradições.

A Comissão de Relações Exteriores, que o sr. assumiu, era presidida pelo filho presidencial Eduardo (PSL-SP), e toda a área externa é vista como um castelo do bolsonarismo radical. É um recado ao Itamaraty? - Esse é o papel da comissão, buscar recuperar o equilíbrio. Meu papel agora é suprir as lacunas que a gestão de política externa brasileira.

Temos de tentar restabelecer a política externa, temas como o ambiente, de que o Brasil se afastou. Não podemos nos arvorar como Poder Executivo, mas temos instrumentos para discutir mecanismos para permitir a reinserção maior do Brasil no mundo.

Não é simples, mas a pandemia mostrou isso da forma mais perversa. Veja a posição do governo ante a China há um ano e agora, com a necessidade de insumos e vacinas.

Globalização não é uma opção, é uma realidade. Política externa mal conduzida afeta a vida das pessoas, falta insumo, crescimento de emprego.

A comissão trata também de Defesa Nacional, e este é um governo altamente militarizado. Prevê dificuldades? - Os militares sempre gostaram da interlocução com o Congresso. Temos democratas extraordinários nas Forças Armadas. Podemos ajudar muito do ponto de vista orçamentário.

Defesa não pode ser vista com preconceito, temos de trazer a sociedade. Não pode ser algo fechado nos gabinetes militares e no do ministro da Defesa. Já recebi manifestações favoráveis das Forças.

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