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Após saída de Moro, Bolsonaro sobe 4 pontos em pesquisa

Paulo Moura - 06/04/2022 10h26 | atualizado em 06/04/2022 11h12

 
Presidente Jair Bolsonaro Foto: EFE/ Joédson Alves

O presidente Jair Bolsonaro (PL) avançou quatro pontos percentuais na pesquisa Ipespe/XP divulgada nesta quarta-feira (6). O cenário, já sem o ex-juiz Sergio Moro, que saiu da disputa presidencial após optar por deixar o Podemos e se filiar ao União Brasil, mostra o atual chefe do Executivo com 30%, contra 26% da última pesquisa divulgada no dia 25 de março.

De acordo com os novos resultados, também se beneficiaram com a saída do ex-juiz as candidaturas de Ciro Gomes (PDT), que avançou de 7% para 9%, de João Doria (PSDB), que passou de 2% para 3%, e de Simone Tebet (MDB), que subiu de 1% para 2%. O percentual dos que não sabem, não responderam ou votarão nulo e branco saltou de 9% para 12% com a saída de Moro.

Dentre os principais nomes, o ex-presidente Lula (PT) foi o único a não apresentar variação positiva nos números e manteve os 44% que registrava na pesquisa divulgada no fim de março.

O cenário é bem parecido com o apontado na pesquisa espontânea, quando os entrevistados não conhecem a lista de candidatos. Lula, por exemplo, manteve os 36% anotados em março. Já Bolsonaro oscilou positivamente dois pontos percentuais, e agora tem 27%.

A pesquisa, realizada pelo Ipespe e encomendada pela XP Investimentos, foi realizada entre os dias 2 e 5 de abril por meio de mil entrevistas. A margem de erro é de 3,2 pontos percentuais. A análise foi registrada na Justiça Eleitoral sob o protocolo BR-03874/2022.

 

Ou terceira via tenta desconstruir Bolsonaro ou já era

Reinaldo Azevedo

Jornalista, autor de “O País dos Petralhas”.

Isso a que chamam "terceira via", em conseguindo ser alguma coisa, teria a coragem, a clareza ou ambos de partir para a desconstrução de Jair Bolsonaro, deixando claro por que, para a sobrevivência da democracia, ou para a sua higidez, ele não pode ser reeleito presidente da República, ou estaremos todos fritos? Quando vão perceber que a tradução da fórmula "nem-nem" é esta: "nem bilheteria nem fortuna crítica"? Até agora, no entanto, vejo passos em sentido contrário. O caminho está errado.

E qual é o erro essencial da turma que se meteu na criação do que chamei aqui de "Quimera da Dupla Negação"? A ambição de se constituir como uma espécie de Comitê de Salvação Pública, mas com sinal trocado. Em vez do cego furor revolucionário, o que se vê —com todas as vênias às personagens envolvidas— é um reacionarismo meio salta-pocinhas, que é antibolsonarista por força das circunstâncias apenas, mas cuja vocação é ser, de verdade, antipetista e antilulista. "E não pode ser, Reinaldo?" Claro que sim! Mas, então, é preciso chamar as coisas pelo nome e ver se a postulação dá pé. Eu acho que não dá.

Olho a mais recente leva de pesquisas. Ainda que se tentem captar movimentos relevantes aqui e ali, e até há alguma coisinha, a verdade é que se tem uma impressionante estabilidade do quadro eleitoral. No dia 12 de maio de 2021, Lula bateria Bolsonaro no Datafolha por 55% a 32% no segundo turno. Depois de uma suposta tendência a uma fabulosa recuperação eleitoral do atual mandatário, o petista o venceria, quase um ano depois, por 55% a 34%, em dados de março.

O ex-presidente tem 40% ou mais (44% nesta quinzena) no primeiro turno das 12 últimas pesquisas Ipespe. Bolsonaro ficou entre 24% e 30% (dado mais recente) nesse intervalo e já havia chegado a 28%. Na Quaest, que começou a fazer pesquisas em julho do ano passado, Lula largou com 54% no segundo turno, número que repete agora, no 10º levantamento. Bolsonaro começou com 33% e hoje exibe 34%. Chegou ao fundo do poço, é certo, em novembro do ano passado, com 27%. E seu antípoda já marcou 57%.

A nota emitida por MDB, PSDB (tendo o Cidadania como chaveirinho) e União Brasil (UB), nesta quarta (6), anunciando que devem definir em 18 de maio um nome para disputar a eleição, ficando a UB de escolher o seu representante no grupo até o dia 14, é uma aberração única na política. Logo no primeiro parágrafo do texto, lê-se que o grupo reafirma "tratativas para apresentar um candidato(a) à Presidência da República como a alternativa no campo democrático."

Não entendi direito. É "uma" alternativa, de modo que há outras, ou a turma considera que o J. Pinto Fernandes (vejam poema de Carlos Drummond de Andrade), a personagem ainda indefinida, é mesmo "a" alternativa, de sorte que, por ora, uns 70% dos brasileiros estariam escolhendo nomes contrários à democracia? Outra pergunta que tenho feito há mais de ano em toda parte —e que irrita também os bolsonaristas, levando-os de novo a defender a tortura, como se viu no ataque criminoso a Míriam Leitão: no que respeita aos valores democráticos e à defesa dos direitos humanos e das garantias fundamentais, Lula e Bolsonaro são mesmo males opostos e combinados? O "nem-nem" é, antes de qualquer coisa, uma falsificação da história.

O jogo ainda não está jogado, é claro. Erros importantes podem ser cometidos. Mas não vejo leitura possível do jogo que justifique essa ideia tola do "Comitê Conservador de Salvação Pública". Caso se consiga definir quem é J. Pinto Fernandes, a tarefa óbvia de tal personagem é tentar tirar Bolsonaro do segundo turno —por enquanto, ele está ganhando musculatura para assegurar a vaga. E olhem que não faltam ruindades e insucessos no seu governo. Ocorre que a turma do "Comitê" está muito ocupada trocando tapas.

No PSDB, Eduardo Leite ignora o resultado das prévias. Na UB, Luciano Bivar usa Sergio Moro, o "Bolsonaro Nutella", como uma espécie de cavalo de Troia, evidenciando que o partido já nasce sob os auspícios do bifrontismo. E se permite que o único nome do grupo que tem uma obra de dimensão nacional —e tem— seja jogado às cobras. Refiro-me, claro!, a João Doria. Não há terceira via possível se o caminho está errado.

Percalços de Lula - editoriais@grupofolha.com.br

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o ano passado no que parecia uma posição das mais confortáveis para a disputa pelo Planalto. Liderava com folga as pesquisas, enquanto Jair Bolsonaro (PL) amargava a reprovação de 53% do eleitorado, a mais alta desde o início de seu governo.

O cacique petista também já havia encaminhado a aliança com o ex-tucano e rival Geraldo Alckmin, agora no PSB, o que indicava um passo rumo à moderação e criava um obstáculo estratégico para os postulantes de uma terceira via entre os dois polos da campanha.

Hoje, o cenário não se mostra mais tão cômodo. Bolsonaro recuperou algo de sua popularidade —os que consideram sua gestão ruim ou péssima caíram para 46%, segundo o Datafolha— e reduziu sua distância para Lula. Ao dar sinal de vida, o mandatário mantém a seu lado o centrão fortalecido em um novo quadro partidário.

No dia a dia, os atos e declarações do oposicionista ganham atenção crescente à medida que se aproxima o pleito. A exposição é mais arriscada para quem tem mais intenções de voto a perder —e também para quem se ampara em ambiguidades no discurso e na prática.

Na semana que se encerra, o PT buscou contatos com meios empresariais e fez saber que um ex-banqueiro, Gabriel Galípolo, passou a integrar a equipe da pré-candidatura. Já Lula manteve a cantilena demagógica em favor do controle dos preços dos combustíveis, além de distribuir impropérios contra a elite e até a classe média.

O ex-presidente defendeu de forma corajosa que o aborto seja tratado como questão de saúde pública, posição há muito advogada por esta Folha. Mas também deu munição aos adversários com uma bravata tola, ao exortar militantes do sindicalismo a pressionar parlamentares em suas casas.

Tratando-se do líder petista, seria ingênuo imaginar que as falas não tenham sido calculadas, assim como o tom mais ameno ao retomar os assuntos na quinta (7). Mais uma vez, Lula vai se equilibrando entre excitar os fiéis e acalmar os possíveis aliados de ocasião. Ora descontenta uns, ora outros.

A velha fórmula ainda está por ser testada em um ambiente político mais tóxico e uma situação econômica mais precária que a da década retrasada —e tendo o PT um passado de feitos mas também de desmandos a explicar.

 

O salto alto de Lula - Ascânio Seleme - O GLOBO

Em menos de dez dias, Jair Bolsonaro ameaçou duas vezes golpear a democracia brasileira… e o mundo veio abaixo porque Lula falou de aborto. Na terça-feira passada, o golpista deu sinal inequívoco do que pretende ao afirmar que as Forças Armadas podem ajudar o país “a rumar para a normalidade”. Na quarta-feira da semana anterior, disse que o povo armado não será escravizado e atacou ministros do STF. Já escrevi aqui que o presidente vai tentar dar um golpe. Uma prévia foi experimentada no dia 7 de setembro do ano passado, quando por muito pouco um grupo ensandecido não invadiu o Supremo Tribunal Federal. Mas, hoje, só se fala nas gafes do Lula.

Está certo, foram muitas gafes, podem atrapalhar a sua campanha e por isso merecem ser analisadas. Nota de Mônica Bergamo na “Folha” de quinta-feira talvez dê uma pista do que passa na cabeça do Lula nestes dias. A jornalista escreveu que empresários fazem fila para conversar com o petista em razão de sua liderança nas pesquisas eleitorais. E que Lula tem recusado reuniões mais amplas, fazendo exceção apenas aos mais chegados. Isso tem nome. Trata-se de soberba, mas pode ser chamado também pelo seu apelido popular: salto alto. Logo ele, que já reclamou publicamente do salto alto dos companheiros mais empolgados.

Foram alguns episódios. O primeiro, e talvez o mais importante, foi o do aborto. Lula tem razão, trata-se mesmo de uma grave questão de saúde pública, e ele apenas repetiu, com mais ilustração, o que sempre defendeu. Pregou tratamento igual para mulheres ricas e pobres que não querem seguir com uma gravidez indesejada, o que só ocorre se o aborto for legalizado. Poderia ter evitado o assunto, já não caberá a ele qualquer medida nesse sentido. Quem legaliza qualquer coisa no Brasil não é o presidente, mas o Congresso Nacional.

Desnecessário e errado foi o ataque desconcertante à classe média brasileira. Lula disse que ela “ostenta um padrão de vida acima do necessário”. O contingente atacado por Lula é formado por 105 milhões de brasileiros com renda média per capita que varia entre R$ 670 e R$ 3,7 mil. Francamente, você sabe, não dá para fazer extravagância com este tipo de ganho mensal. Lula também atacou a elite, que chamou de “escravista”. As classes média e alta, segundo o Datafolha, votam mais em Bolsonaro (38% e 39%) do que em Lula (27% e 26%).

Outro sinal da soberba foi pedir aos petistas que fossem “incomodar a tranquilidade” de parlamentares da oposição em suas casas. A fala do candidato reavivou o “nós contra eles” da era Dilma, quando parlamentares, juízes e jornalistas eram perseguidos e atacados verbalmente nas ruas, nos aeroportos, em suas casas. Quem não se lembra do ministro Gilmar Mendes sendo constrangido numa calçada de Lisboa? Petistas e antipetistas usavam o mesmo expediente que Lula propõe agora.

Lula errou também ao anunciar que demitiria oito mil militares do governo se ganhar a eleição (veja nota ao lado Macacão ou Farda). Nada contra, mas para quê comprar esta briga? Quer demitir, demite, mas não avisa antes. Em outro momento, o candidato disse a uma emissora de rádio do Paraná que eventualmente imagina que “Deus é petista”. Falou a tontice para elogiar a paranaense Gleisi Hoffmann. Num país religioso como o Brasil, não se brinca impunemente como essas coisas, menos ainda para se turbinar uma candidata a deputada.

Com mais de 40% das intenções de voto nas pesquisas, podendo ganhar no primeiro turno em todas elas, a situação de Lula é confortável. Talvez por isso tenha cometido os erros desta semana. O candidato levou uma bronca e recuou nas questões do aborto e da pressão da militância sobre parlamentares da oposição. A sorte de Lula é que ainda tem gente no PT com coragem para admoestá-lo, houve até quem dissesse para ele “falar menos e ouvir mais”. Recomendaram que antes de tratar de alguns temas sensíveis, escute especialistas. Seria a versão para campanha do “Ministério do Vai Dar Merda”, idealizado por Chico Buarque em 2003.

Leia mais:O salto alto de Lula - Ascânio Seleme - O GLOBO

O novo Alckmin, o velho Lula

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 03h00

Anunciada pela sua nova legenda, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), a indicação de Geraldo Alckmin para ser vice na chapa presidencial do petista Lula da Silva oficializa um equívoco singular, que vem causando, desde suas primeiras movimentações, imensa perplexidade entre o eleitorado do ex-governador paulista. Com o ato, Alckmin renega toda a sua biografia política para participar do engodo petista de que a volta de Lula ao poder seria nada menos que a salvação da democracia.

Na vida política, é normal que haja mudanças. Mas não é nada normal que um político abandone, de forma tão espetacular, seu eleitorado construído ao longo de décadas. Por mais explicações que agora queiram dar, o fato é que Alckmin sempre se colocou em campo político-ideológico diametralmente oposto ao do PT. E verdade seja dita: atuando dessa forma, conquistou e manteve a confiança do eleitor paulista. Prova disso é sua longa permanência no Palácio dos Bandeirantes, sempre pelo PSDB.

Sendo tão contraditório com sua trajetória política, o passo que Geraldo Alckmin agora dá contribui para a desconfiança da população na política. As dúvidas brotam abundantes. Então era esse o candidato a presidente que, em 2006, prometia governar de forma diferente do PT, sem corromper o Congresso com o mensalão, revelado no ano anterior? Então era esse o candidato que, em 2018, se colocava como representante do centro democrático, distante tanto do lulopetismo quanto do bolsonarismo? A política, a genuína política, requer um pouco mais de constância nos princípios.

Para piorar, as novas vestes políticas de Alckmin reforçam o embuste contra a democracia que o PT pretende impor ao eleitor brasileiro. Depois dos anos de desgoverno e negacionismo de Jair Bolsonaro, é preciso reconduzir o governo aos trilhos da responsabilidade e do interesse público, mas Lula obviamente não é a solução e, menos ainda, a única solução, como os petistas querem fazer acreditar.

Lula da Silva e Jair Bolsonaro são parte do problema, como tão bem mostram suas propostas de intervencionismo na economia, de irresponsabilidade fiscal, de demagogia nos preços administrados e de enfraquecimento da autonomia das agências reguladoras. Os dois propõem o atraso e querem que o eleitor acredite que não há alternativa a eles. 

Se a preocupação de Alckmin é com a democracia no País e com os rumos tomados pelo governo Bolsonaro, não é se juntando a Lula da Silva que vai realizar seus propósitos. De novo, a política, a genuína política, é mais do que simplesmente aderir a quem aparece na frente nas pesquisas. Sucumbir ao canto do populismo é reproduzir precisamente o percurso que tanto mal tem feito ao País – e do qual, até há pouco, se pensava que Alckmin fosse um combativo opositor.

De forma muito concreta, o caminho da democracia passa pela união de forças em torno de uma candidatura de centro, responsável e comprometida com o interesse público. Certamente, não é se aliando ao partido que produziu os maiores escândalos de corrupção da história nacional e uma profunda crise econômica resultante de irresponsabilidade fiscal que Alckmin contribuirá com a reconstrução do País.

“O que estará em questão nas eleições de 2022 é o confronto decisivo entre democracia e autoritarismo”, disse o presidente do PSB, Carlos Siqueira, ao oficializar a disposição do partido de unir-se à chapa petista. É realmente esquisito como alguns partidos se submetem à pretensão de hegemonia petista, reforçando um discurso que nada tem de democrático. A democracia é plural. 

O PT finge que não sabe, mas quem é democrático respeita as leis do País, não trata quem pensa diferente como inimigo, não chama de “golpe” decisões constitucionais do Congresso e do Judiciário, não faz aparelhamento político-ideológico do Estado, não destrói as estatais. Tudo isso já era conhecido. A novidade é contar agora com o aplauso de Alckmin, que pautou sua bem-sucedida vida como governante em São Paulo sendo a antítese perfeita do petismo.

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