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O salto alto de Lula - Ascânio Seleme - O GLOBO

Em menos de dez dias, Jair Bolsonaro ameaçou duas vezes golpear a democracia brasileira… e o mundo veio abaixo porque Lula falou de aborto. Na terça-feira passada, o golpista deu sinal inequívoco do que pretende ao afirmar que as Forças Armadas podem ajudar o país “a rumar para a normalidade”. Na quarta-feira da semana anterior, disse que o povo armado não será escravizado e atacou ministros do STF. Já escrevi aqui que o presidente vai tentar dar um golpe. Uma prévia foi experimentada no dia 7 de setembro do ano passado, quando por muito pouco um grupo ensandecido não invadiu o Supremo Tribunal Federal. Mas, hoje, só se fala nas gafes do Lula.

Está certo, foram muitas gafes, podem atrapalhar a sua campanha e por isso merecem ser analisadas. Nota de Mônica Bergamo na “Folha” de quinta-feira talvez dê uma pista do que passa na cabeça do Lula nestes dias. A jornalista escreveu que empresários fazem fila para conversar com o petista em razão de sua liderança nas pesquisas eleitorais. E que Lula tem recusado reuniões mais amplas, fazendo exceção apenas aos mais chegados. Isso tem nome. Trata-se de soberba, mas pode ser chamado também pelo seu apelido popular: salto alto. Logo ele, que já reclamou publicamente do salto alto dos companheiros mais empolgados.

Foram alguns episódios. O primeiro, e talvez o mais importante, foi o do aborto. Lula tem razão, trata-se mesmo de uma grave questão de saúde pública, e ele apenas repetiu, com mais ilustração, o que sempre defendeu. Pregou tratamento igual para mulheres ricas e pobres que não querem seguir com uma gravidez indesejada, o que só ocorre se o aborto for legalizado. Poderia ter evitado o assunto, já não caberá a ele qualquer medida nesse sentido. Quem legaliza qualquer coisa no Brasil não é o presidente, mas o Congresso Nacional.

Desnecessário e errado foi o ataque desconcertante à classe média brasileira. Lula disse que ela “ostenta um padrão de vida acima do necessário”. O contingente atacado por Lula é formado por 105 milhões de brasileiros com renda média per capita que varia entre R$ 670 e R$ 3,7 mil. Francamente, você sabe, não dá para fazer extravagância com este tipo de ganho mensal. Lula também atacou a elite, que chamou de “escravista”. As classes média e alta, segundo o Datafolha, votam mais em Bolsonaro (38% e 39%) do que em Lula (27% e 26%).

Outro sinal da soberba foi pedir aos petistas que fossem “incomodar a tranquilidade” de parlamentares da oposição em suas casas. A fala do candidato reavivou o “nós contra eles” da era Dilma, quando parlamentares, juízes e jornalistas eram perseguidos e atacados verbalmente nas ruas, nos aeroportos, em suas casas. Quem não se lembra do ministro Gilmar Mendes sendo constrangido numa calçada de Lisboa? Petistas e antipetistas usavam o mesmo expediente que Lula propõe agora.

Lula errou também ao anunciar que demitiria oito mil militares do governo se ganhar a eleição (veja nota ao lado Macacão ou Farda). Nada contra, mas para quê comprar esta briga? Quer demitir, demite, mas não avisa antes. Em outro momento, o candidato disse a uma emissora de rádio do Paraná que eventualmente imagina que “Deus é petista”. Falou a tontice para elogiar a paranaense Gleisi Hoffmann. Num país religioso como o Brasil, não se brinca impunemente como essas coisas, menos ainda para se turbinar uma candidata a deputada.

Com mais de 40% das intenções de voto nas pesquisas, podendo ganhar no primeiro turno em todas elas, a situação de Lula é confortável. Talvez por isso tenha cometido os erros desta semana. O candidato levou uma bronca e recuou nas questões do aborto e da pressão da militância sobre parlamentares da oposição. A sorte de Lula é que ainda tem gente no PT com coragem para admoestá-lo, houve até quem dissesse para ele “falar menos e ouvir mais”. Recomendaram que antes de tratar de alguns temas sensíveis, escute especialistas. Seria a versão para campanha do “Ministério do Vai Dar Merda”, idealizado por Chico Buarque em 2003.

Leia mais:O salto alto de Lula - Ascânio Seleme - O GLOBO

Percalços de Lula - editoriais@grupofolha.com.br

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terminou o ano passado no que parecia uma posição das mais confortáveis para a disputa pelo Planalto. Liderava com folga as pesquisas, enquanto Jair Bolsonaro (PL) amargava a reprovação de 53% do eleitorado, a mais alta desde o início de seu governo.

O cacique petista também já havia encaminhado a aliança com o ex-tucano e rival Geraldo Alckmin, agora no PSB, o que indicava um passo rumo à moderação e criava um obstáculo estratégico para os postulantes de uma terceira via entre os dois polos da campanha.

Hoje, o cenário não se mostra mais tão cômodo. Bolsonaro recuperou algo de sua popularidade —os que consideram sua gestão ruim ou péssima caíram para 46%, segundo o Datafolha— e reduziu sua distância para Lula. Ao dar sinal de vida, o mandatário mantém a seu lado o centrão fortalecido em um novo quadro partidário.

No dia a dia, os atos e declarações do oposicionista ganham atenção crescente à medida que se aproxima o pleito. A exposição é mais arriscada para quem tem mais intenções de voto a perder —e também para quem se ampara em ambiguidades no discurso e na prática.

Na semana que se encerra, o PT buscou contatos com meios empresariais e fez saber que um ex-banqueiro, Gabriel Galípolo, passou a integrar a equipe da pré-candidatura. Já Lula manteve a cantilena demagógica em favor do controle dos preços dos combustíveis, além de distribuir impropérios contra a elite e até a classe média.

O ex-presidente defendeu de forma corajosa que o aborto seja tratado como questão de saúde pública, posição há muito advogada por esta Folha. Mas também deu munição aos adversários com uma bravata tola, ao exortar militantes do sindicalismo a pressionar parlamentares em suas casas.

Tratando-se do líder petista, seria ingênuo imaginar que as falas não tenham sido calculadas, assim como o tom mais ameno ao retomar os assuntos na quinta (7). Mais uma vez, Lula vai se equilibrando entre excitar os fiéis e acalmar os possíveis aliados de ocasião. Ora descontenta uns, ora outros.

A velha fórmula ainda está por ser testada em um ambiente político mais tóxico e uma situação econômica mais precária que a da década retrasada —e tendo o PT um passado de feitos mas também de desmandos a explicar.

 

O aliciamento a novos filiados para os partidos do governo deu certo

BOLSONARO E CIRO NOGUEIRA

O uso da máquina pública para atrair parlamentares para a base aliada do governo deu resultados concretos para o presidente da República. Graças à janela partidária, que é o prazo de trinta dias que os deputados tiveram para trocar de legenda sem o risco de perder o mandato e que foi fechada no último sábado, 2, os partidos do Centrão (PL, PP e Republicanos) aumentaram suas bancadas, provocando mudanças no cenário político às vésperas das eleições mais importantes das últimas décadas no país. O PL, partido de Valdemar Costa Neto e do presidente Jair Bolsonaro, cresceu 70% e ganhou 42 novos deputados, totalizando 75 parlamentares, tornando-se a maior bancada na Câmara. O PP, partido do ministro Ciro Nogueira (Casa Civil), passou de 41 para 56 deputados e o Republicanos saltou de 33 para 43.

Para o deputado Marcelo Freixo (PSB-RJ), o crescimento dos partidos da base do governo é resultado do uso de dinheiro público, através do orçamento secreto liberado por meio das emendas de relator, que serviram para comprar apoio parlamentar. “O que aconteceu foi consequência do velho toma lá, dá cá em troca de verbas de emendas parlamentares e de cargos na máquina pública. Não é o Centrão que está nas mãos de Bolsonaro, é o presidente que está nas mãos do Centrão”, denunciou o parlamentar.

O governo já contava com uma base importante e essa correlação de forças apenas ampliou o poder de fogo do mandatário na disputa pela reeleição. Na verdade, o PL cresceu após receber a ala do PSL que era bolsonarista, sob a liderança de deputados umbilicalmente ligados ao presidente, como seu filho 03, o deputado Eduardo. Esse movimento de mudanças nos partidos em direção às siglas governistas já era esperado. Afinal, além da questão do uso da máquina governamental e empregos para apadrinhados, existe um outro fator atrativo para a mudança para as legendas do Centrão, que é a promessa de maiores recursos do fundo eleitoral.

“Não é o Centrão que está nas mãos de Bolsonaro, é o presidente que está nas mãos do Centrão” Marcelo Freixo, deputado do PSB-RJ

De acordo com o cientista político Paulo Baía, os partidos que têm maior fundo eleitoral são aqueles que mais se beneficiam com a possibilidade de mudanças de parlamentares dentro da janela partidária. “As máquinas dos governos federal e estaduais ajudam nessa atração na medida em que têm cargos e verbas públicas para impulsionar as campanhas. Esses benefícios, contudo, estão sendo concedidos de maneira muito camuflada, por que se forem explícitos podem caracterizar abuso do poder econômico e abuso do poder político, tornando os candidatos inelegíveis”.

De toda forma, toda essa movimentação, principalmente em função do fundo eleitoral e do fundo partidário, fez com que partidos como o PL e o União Brasil se beneficiassem. O PL, além de um grande fundo eleitoral, conta com o presidente da República e vários governadores, o que também facilitou estimulou a mudança. O que se ouve nos corredores do Congresso em Brasília é que o PL saiu vitorioso por ter recursos pouco ortodoxos para movimentar na campanha eleitoral.

PODER EVANGÉLICO O Republicanos, do pastor Marcos Pereira, ganhou 15 novos deputados, mas perdeu cinco (Crédito:Adriano Machado)

Na opinião do senador Carlos Portinho (PL-RJ), líder do PL no Senado, essa dança das cadeiras, na verdade, nada mais é do que o crescimento da base aliada do presidente. “Esse crescimento reflete o apoio dos partidos e dos parlamentares que representam suas bases junto a Bolsonaro na campanha. Por outro lado, a redução da representatividade de outros partidos, inclusive dos adversários do presidente, mostra a fragilidade da oposição. Teremos uma campanha em que a capilaridade dos partidos nos municípios e nos estados será determinante. E as pesquisas vêm alinhadas a esse novo cenário”.

A verdade é que estão em jogo uma série de benesses: oferta de verbas milionárias de campanhas, tempo de propaganda de TV, controle de diretórios regionais, empregos em estatais, emendas de relator, etc. Para o senador Paulo Paim (PT-RS) essa troca partidária tem dois olhares. Um para dentro da máquina pública e outro para a rua.

“A máquina facilita o voto. No caso do governo, ganhando ou não a eleição, esses partidos que inflaram têm tudo para eleger um novo presidente da Câmara, por exemplo”. O senador explica que esse movimento é natural na política porque os deputados querem buscar as melhores condições para se elegerem. A estrutura do governo conta muito para as eleições e por isso houve esse deslocamento na base. “O poder atrai, essa é a verdade. O que o pessoal está de olho é na estrutura. Isso é falta de compromisso com a ideologia, mas é assim que tem funcionado nosso parlamento, infelizmente”. ISTOÉ

O novo Alckmin, o velho Lula

Notas & Informações, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2022 | 03h00

Anunciada pela sua nova legenda, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), a indicação de Geraldo Alckmin para ser vice na chapa presidencial do petista Lula da Silva oficializa um equívoco singular, que vem causando, desde suas primeiras movimentações, imensa perplexidade entre o eleitorado do ex-governador paulista. Com o ato, Alckmin renega toda a sua biografia política para participar do engodo petista de que a volta de Lula ao poder seria nada menos que a salvação da democracia.

Na vida política, é normal que haja mudanças. Mas não é nada normal que um político abandone, de forma tão espetacular, seu eleitorado construído ao longo de décadas. Por mais explicações que agora queiram dar, o fato é que Alckmin sempre se colocou em campo político-ideológico diametralmente oposto ao do PT. E verdade seja dita: atuando dessa forma, conquistou e manteve a confiança do eleitor paulista. Prova disso é sua longa permanência no Palácio dos Bandeirantes, sempre pelo PSDB.

Sendo tão contraditório com sua trajetória política, o passo que Geraldo Alckmin agora dá contribui para a desconfiança da população na política. As dúvidas brotam abundantes. Então era esse o candidato a presidente que, em 2006, prometia governar de forma diferente do PT, sem corromper o Congresso com o mensalão, revelado no ano anterior? Então era esse o candidato que, em 2018, se colocava como representante do centro democrático, distante tanto do lulopetismo quanto do bolsonarismo? A política, a genuína política, requer um pouco mais de constância nos princípios.

Para piorar, as novas vestes políticas de Alckmin reforçam o embuste contra a democracia que o PT pretende impor ao eleitor brasileiro. Depois dos anos de desgoverno e negacionismo de Jair Bolsonaro, é preciso reconduzir o governo aos trilhos da responsabilidade e do interesse público, mas Lula obviamente não é a solução e, menos ainda, a única solução, como os petistas querem fazer acreditar.

Lula da Silva e Jair Bolsonaro são parte do problema, como tão bem mostram suas propostas de intervencionismo na economia, de irresponsabilidade fiscal, de demagogia nos preços administrados e de enfraquecimento da autonomia das agências reguladoras. Os dois propõem o atraso e querem que o eleitor acredite que não há alternativa a eles. 

Se a preocupação de Alckmin é com a democracia no País e com os rumos tomados pelo governo Bolsonaro, não é se juntando a Lula da Silva que vai realizar seus propósitos. De novo, a política, a genuína política, é mais do que simplesmente aderir a quem aparece na frente nas pesquisas. Sucumbir ao canto do populismo é reproduzir precisamente o percurso que tanto mal tem feito ao País – e do qual, até há pouco, se pensava que Alckmin fosse um combativo opositor.

De forma muito concreta, o caminho da democracia passa pela união de forças em torno de uma candidatura de centro, responsável e comprometida com o interesse público. Certamente, não é se aliando ao partido que produziu os maiores escândalos de corrupção da história nacional e uma profunda crise econômica resultante de irresponsabilidade fiscal que Alckmin contribuirá com a reconstrução do País.

“O que estará em questão nas eleições de 2022 é o confronto decisivo entre democracia e autoritarismo”, disse o presidente do PSB, Carlos Siqueira, ao oficializar a disposição do partido de unir-se à chapa petista. É realmente esquisito como alguns partidos se submetem à pretensão de hegemonia petista, reforçando um discurso que nada tem de democrático. A democracia é plural. 

O PT finge que não sabe, mas quem é democrático respeita as leis do País, não trata quem pensa diferente como inimigo, não chama de “golpe” decisões constitucionais do Congresso e do Judiciário, não faz aparelhamento político-ideológico do Estado, não destrói as estatais. Tudo isso já era conhecido. A novidade é contar agora com o aplauso de Alckmin, que pautou sua bem-sucedida vida como governante em São Paulo sendo a antítese perfeita do petismo.

Incertezas paulistas - editoriais@grupofolha.com.br

A nova pesquisa Datafolha para o governo de São Paulo foi realizada num momento em que o quadro de pré-candidaturas mostra-se menos nebuloso, embora ainda marcado por incertezas de monta.

O avanço da aliança entre o ex-tucano Geraldo Alckmin (PSB) e o ex-presidente Lula (PT) na chapa presidencial, o afastamento de João Doria (PSDB) da disputa estadual e a presença no páreo do ex-ministro da Infraestrutura Tarcísio de Freitas (Republicanos) são definições importantes.

Sobrevive, porém, a dúvida relevante quanto à permanência da postulação de Márcio França (PSB).

No cenário que inclui os nomes de França e Fernando Haddad (PT), o ex-prefeito lidera com 29% das intenções de voto, seguido pelo ex-governador com 20%. Tarcísio de Freitas surge com 10%, e o agora governador Rodrigo Garcia (PSDB), com 6%.

A indecisão quanto à candidatura de França está ligada, como se sabe, ao acordo eleitoral entre PT e PSB para a corrida pelo Planalto, processo que tem provocado atritos regionais e demandado ajustes, nem sempre bem-sucedidos. As pretensões do ex-vice de Geraldo Alckmin assentam-se em atuação conhecida no estado e em resultados consistentes nas urnas.

Há quem considere no terreno do PT e do PSB que a participação dos dois na campanha poderia, além de ampliar o palaque paulista de Lula, conter o crescimento de Rodrigo ou mesmo o eventual avanço de Tarcísio, que é o candidato apoiado pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) e apareceu na sondagem com índice digno de nota.

No cenário em que França é retirado da lista, Haddad continua à frente, com 35%, e Tarcísio e Rodrigo vêm a seguir com 11%, evidenciando-se a divisão dos votos do PSB entre o ex-prefeito e o governador —que tem a seu a favor a máquina estadual, sempre um fator a ser ponderado nas disputas.

No que tange às rejeições, Haddad lidera com 34%, seguido de França, com 20%, e de Rodrigo e Tarcísio, com 17% e 16%.

Entre os entrevistados, 46% dizem que não votariam de jeito nenhum em candidatos indicados por Lula. Por sua vez, o preferido de Bolsonaro seria descartado por 62%. O postulante petista é o mais conhecido dos eleitores, enquanto o governador e o ex-ministro são os mais desconhecidos.

Trata-se, é sempre prudente destacar, de um primeiro retrato da corrida pelo voto paulista, que certamente terá pela frente desdobramentos significativos. Não apenas pelo tempo que nos separa da votação como pelas características peculiares que vão se desenhando no contexto eleitoral mais amplo.

 

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