O erro de Flávio Bolsonaro que inviabilizou Tereza Cristina como vice, segundo aliados
Por Malu Gaspar / O GLOBO
A negociação com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) para ser vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi adiante por conta da posição do partido dela e de seu presidente, Ciro Nogueira, de manter neutralidade na campanha presidencial. Mas internamente no PL e até mesmo no PP, aliados de ambos apontam um fator que consideram ter feito toda a diferença para o fracasso da iniciativa: a demora de Flávio em procurar a própria Tereza.
Embora a senadora tenha sido citada muitas vezes pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, como a vice ideal para o filho de Jair Bolsonaro, o próprio Flávio nunca tinha conversado com Tereza Cristina até a última quarta-feira, quando ela foi chamada a Brasília às pressas para uma reunião com o candidato e o coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN).
Nessa conversa, a senadora sinalizou que toparia compor a chapa, desde que a federação formada pelo PP e pelo União Brasil aprovasse – o que o próprio partido rechaçou em uma nota pública em que reafirmou que vai ficar neutro na disputa pelo Palácio do Planalto.
Tereza Cristina foi ministra da Agricultura no governo Bolsonaro e também foi cotada como vice na chapa da reeleição do então presidente, que resistiu à ideia e escolheu o general Walter Braga Netto (PL) a despeito dos apelos de Valdemar e Ciro.
“Foi a primeira vez que alguém da família Bolsonaro colocou esse assunto na mesa. Até então só quem falava sobre isso com ela era Valdemar, que aliás insistiu muito”, diz um interlocutor frequente da senadora. “Aí já era tarde.”
O mesmo diagnóstico veio de uma liderança do PL, segundo a qual Flávio tem sido lento nas iniciativas e não toma as rédeas da própria campanha, diferentemente do pai, que comandava pessoalmente as conversas e articulações. “Ele perdeu o timing. Se ele tivesse feito um esforço maior desde o começo, talvez as coisas tivessem tomado outro rumo”.
Para esse aliado, Flávio estava de “salto alto” por aparecer bem colocado nas pesquisas, mas foi atropelado pelo caso Dark Horse. “Ele ficava fechado com Rogério Marinho numa sala tomando todas as decisões, ignorando que no final quem decide mesmo é a política”.
Nesta sexta-feira, Flávio admitiu que as conversas com a senadora do PP fizeram água por decisão do partido, mas disse que ainda vai tentar reverter a situação até o dia 5, quando termina o prazo da lei eleitoral. “Óbvio que eu respeito, mas eu sou brasileiro, não desisto nunca. Vamos continuar nas conversas”, declarou.
A frustração com o desfecho das conversas com Tereza Cristina reflete o clima geral de preocupação com a falta de rumo da campanha. Nesta mesma semana, Flávio trocou de marqueteiro pela segunda vez. Saíram Alexandre Oltramari e Eduardo Fischer e entrou Duda Lima, que fez a campanha de Jair Bolsonaro em 2022 e desde então cuida do marketing do PL.
Além das muitas críticas ao tom utilizado nas propagandas, integrantes da cúpula do PL também consideraram que a convenção do partido foi ruim e desorganizada – um exemplo citado várias vezes na conversa foi o fato de o discurso de Flávio Bolsonaro ter acontecido com muito atraso e com o centro de convenções do Pacaembu esvaziado, quando boa parte das caravanas já deixava o local para voltar para casa.
Dirigentes do PP rejeitam aliança com Flávio Bolsonaro após sinalização de Tereza Cristina para vice
A maioria dos dirigentes do PP se manifestou contra uma coligação com Flávio Bolsonaro (PL) e, assim, barrou a chance de a senadora Tereza Cristina (MS) ser vice na chapa do pré-candidato à Presidência. A decisão ocorreu após o presidente nacional da sigla, o senador Ciro Nogueira (PI), consultar lideranças estaduais da legenda. A senadora Tereza teve antes um encontro com Flávio e aceitou integrar a chapa dele.
Segundo dirigentes ouvidos pela Folha, alguns sob condição de anonimato, a consulta ocorreu entre a quarta e quinta-feira (30). A maioria indicou a preferência pela neutralidade na eleição nacional, com liberação de apoio dos diretórios a Lula (PT), Flávio Bolsonaro ou outros candidatos à Presidência. Há uma margem estreita para o PL articular uma mudança de postura do PP, até 5 de agosto, prazo limite para realização das convenções.
"Abriu-se uma consulta interna com oito integrantes do partido. A maioria foi pela neutralidade. Eu, além de Arthur Lira, Agnaldo Ribeiro e Doutor Luizinho, todos pela neutralidade", afirmou o deputado Eduardo da Fonte (PE).
Outro líder do PP no Congresso, o deputado federal Aguinaldo Ribeiro (PB) afirma que a opção pela independência está bastante consolidada. "É o que eu defendi [ao Ciro], a posição de neutralidade", diz o parlamentar.
Segundo três aliados que acompanham as negociações, Tereza Cristina conversou com o senador Flávio Bolsonaro na quarta-feira e indicou, pela primeira vez, que aceitaria ser candidata a vice na chapa dele à Presidência da República.
Tereza estava totalmente contrária à ideia, mas foi pressionada nos últimos dias pela família Bolsonaro, pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e por lideranças do agronegócio.
A formação da chapa dependeria, porém, de uma composição entre o PL e a federação formada pelo PP, partido dela, e o União Brasil. Politicamente, o grupo teme que um alinhamento atrapalhe a eleição em estados onde Lula é mais forte que Flávio.
Um argumento adicional levantado pelo PP foi a impossibilidade de realização de uma convenção. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) estabeleceu até o dia 5 de agosto como limite para isso. Pela norma interna da sigla, essa reunião precisa ser convocada com, no mínimo, oito dias de antecedência.
Tereza divulgou uma nota nesta quinta dizendo que "nada foi decidido" sobre a possibilidade de ser vice. Ela classificou a conversa com Flávio como "produtiva" e acrescentou que a decisão passa por "acertos partidários".
"No encontro, produtivo, falou-se pela primeira vez sobre a Vice-Presidência, mas nada foi decidido —até porque qualquer composição de chapa depende de avaliações políticas e pessoais, além de consultas e acertos partidários", disse.
Levar Tereza para a chapa de Flávio se tornou uma das principais prioridades do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto. Ele chegou a dizer que ela seria a vice dos sonhos de Flávio, mas que a parlamentar estava decidida a disputar a presidência do Senado no próximo ano.
Uma coligação é importante porque aumenta o tempo de TV e rádio de um candidato e facilita o compartilhamento de fundo eleitoral. Se ficar isolado, Flávio Bolsonaro deve ter 20% a menos de tempo de televisão do que Lula , seu principal adversário.
Além da federação União Brasil-PP, Flávio Bolsonaro tem insistido no Republicanos. O partido, presidido pelo deputado Marcos Pereira (SP), abriu consulta aos diretórios sobre uma eventual coligação com o PL.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (PB), é contra uma aliança com Flávio e defende a neutralidade. O governador Tarcísio, outro nome forte na sigla, defende a coligação com o PL.
Propaganda eleitoral oficial
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
A Presidência da República desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade no primeiro semestre de 2026. Como mostrou o Estadão, é o maior valor gasto com esse propósito para o período em pelo menos 17 anos. A coincidência entre essa escalada de gastos e o calendário eleitoral é eloquente demais para ser tratada como mero acaso administrativo.
A publicidade institucional é instrumento legítimo do Estado quando serve para informar o cidadão sobre serviços, direitos e campanhas de interesse público. O problema surge quando passa a divulgar realizações do governo em volume recorde, às vésperas de uma eleição. Nesse momento, a fronteira entre Estado e governo se embaralha e a comunicação assume contornos de propaganda política financiada pelo contribuinte.
Também chama a atenção onde esse dinheiro foi parar. Entre campanhas permanentes de fortalecimento da imagem do governo, a maior campanha temática foi justamente a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda. Ainda que a proposta tenha mérito próprio, não deixa de ser a principal vitrine eleitoral do governo para 2026.
A comparação com outras áreas do governo reforça essa impressão. Enquanto a Presidência desembolsou R$ 255,3 milhões em publicidade apenas no primeiro semestre, o Ministério das Mulheres executou R$ 118,3 milhões em todo o ano passado. As escolhas orçamentárias também comunicam. Quando divulgar ações passa a consumir mais recursos do que políticas voltadas a enfrentar problemas concretos do País, o governo revela o peso que atribui à própria exposição.
O problema, evidentemente, não nasceu com Lula. Presidentes de diferentes partidos recorreram à máquina de comunicação do Estado para ampliar sua presença no debate público. É justamente por isso que a questão não pode depender da moderação de cada governo. Cabe à legislação impor limites claros ao uso desse instrumento. Em ano eleitoral, o dever de informar não pode servir de atalho para promover quem disputa a permanência no poder.
Esses limites, porém, ficaram mais frágeis. Até 2022, a legislação restringia os gastos efetivamente realizados com propaganda oficial em anos eleitorais. Como a expressão “despesa” gerava disputas interpretativas, o Congresso alterou a lei e passou a limitar apenas os empenhos. Na prática, controla-se o compromisso de gasto, mas não necessariamente a propaganda que chega ao cidadão. Não por acaso, especialistas ouvidos pela reportagem defendem que o parâmetro deveria ser o pagamento ou a liquidação das campanhas, porque é a publicidade efetivamente veiculada e não a apenas autorizada.
Não importa quem ocupe o Palácio do Planalto. A comunicação do Estado não pode funcionar como extensão da campanha do governante de turno. Enquanto a legislação permitir que recursos públicos ampliem a exposição política de quem já está no poder, a disputa eleitoral continuará começando com um dos candidatos vários metros à frente dos demais. O Estado existe para informar o cidadão, não para financiar a vantagem eleitoral de quem temporariamente o governa.
As urnas em números
Não é apenas em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, que se decide a eleição presidencial, mas também em São Paulo, o maior. Em Minas, há uma divisão regional comparável à do Brasil, por isso o vencedor lá geralmente ganha no país. É como se o estado fosse uma amostra do país. Mesmo que vencer em São Paulo não signifique vencer no país, uma vitória expressiva no maior colégio eleitoral pode garantir a eleição. Em 2018, Jair Bolsonaro saiu de São Paulo com 8,1 milhões de votos à frente de Fernando Haddad, garantindo uma vitória ampla sobre o PT. Em 2022, quando perdeu para Lula, a diferença a favor de Bolsonaro caiu para 2,7 milhões, redução de 5,4 milhões de votos.
A situação hoje é bastante diferente. Flávio Bolsonaro está à frente por cerca de 1,5 milhão de votos em São Paulo, como mostra a nova pesquisa Genial/Quaest. Para Minas Gerais, a sondagem apontou: Lula 30% e Flávio 29%. Nesse levantamento, Lula supera Flávio por 1 ponto percentual no primeiro turno. Embora haja empate técnico, esse resultado representa uma mudança importante em relação a 2018, quando Bolsonaro venceu o PT por cerca de 2,27 milhões de votos de diferença. Em 2022 Lula já havia vencido o primeiro turno em Minas por 564 mil votos, consolidando o estado como um dos principais campos de disputa da eleição. A vitória apertada em Minas refletia uma eleição disputada voto a voto — em 2022 Lula venceu no Brasil todo por apenas 1,8 ponto percentual, uma diferença mínima de 2.139.645 votos, a menor margem de vitória numa eleição presidencial desde a redemocratização.
O PT hoje vive uma dicotomia. Enquanto “desmelhora” no Nordeste, onde sempre reinou, “despiora” no Sudeste. Essa é a maneira delicada como os petistas veem o quadro político atual. Mesmo que continue favorito na Região Nordeste, Lula hoje enfrenta uma oposição forte em vários estados, como o Ceará, onde Ciro Gomes está na frente; a Bahia, onde uma disputa acirrada com ACM Neto põe em risco a hegemonia petista no estado que o partido já governou por vários mandatos seguidos depois da era carlista; e Pernambuco, onde o PSD da governadora Raquel Lyra pode vencer, fortalecendo a candidatura presidencial de Ronaldo Caiado. Esse, aliás, é um detalhe interessante dentro da corrida eleitoral. O PSD em São Paulo estimula o voto em Tarcísio de Freitas para governador, mas com Caiado para presidente, o que pode atrapalhar muito Flávio.
O empate técnico entre Lula e Flávio em Minas define o que será a disputa eleitoral; é a velha história de que Minas reflete o Brasil. Então, até o final haverá disputa acirrada entre os dois. Tudo indica que chegarão embolados no segundo turno, em empate técnico com ligeira diferença numérica a favor de Lula, mas nada que garanta sua vitória.
Por mais erros que tenha cometido, Flávio ainda atrai os votos antipetistas, além dos bolsonaristas. Os antipetistas não escolhem o candidato, escolhem aquele capaz de derrotar Lula. Não precisa ser bolsonarista para querer derrotar Lula — e o antipetismo parece ser mais forte que o próprio bolsonarismo. O problema é definir se vale a pena derrotar Lula com Flávio, ou se existe mesmo essa possibilidade. As pesquisas sugerem que o antipetismo se juntará todo no segundo turno. Dos outros dois candidatos, os ex-governadores Zema e Caiado, Zema está naturalmente melhor em Minas, mas com participação pequena. Deveria ter uma vantagem grande no estado que governou por oito anos, capaz de colocá-lo na disputa do segundo turno.
Mas não está acontecendo. Foi aprovado como governador, mas não consegue convencer os mineiros de que é a melhor solução em nível nacional. Caiado surge aqui e ali como a alternativa segura a Flávio na direita. A propaganda eleitoral mostrará se essa tendência persiste.
Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos — Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil, Edilson Dantas / Agência O Globo, Reprodução/TV Globo, Divulgação e Genial/Divulgação
Um candidato nanico
Por Notas & Informações / O ESTADÃO DE SP
Um desavisado poderia imaginar que o candidato do PL à Presidência da República é Javier Milei, tamanho o protagonismo do presidente argentino na convenção do partido destinada a consagrar Flávio Bolsonaro. Pudera: sem nada a oferecer ao eleitor além do sobrenome de seu pai, Flávio revelou seu verdadeiro tamanho no evento: minúsculo, sem apoio dos principais partidos do Centrão, o senador socorreu-se da “direita internacional” – o argentino Milei, o americano Donald Trump e o israelense Benjamin Netanyahu – e de um avatar de Jair Bolsonaro produzido por inteligência artificial para dar algum sentido à sua candidatura.
Por quase meia hora, Milei, ao lado de um embevecido Flávio, atacou aos gritos e palavrões o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Temos muitas razões para criticar ambos, mas é preciso fazê-lo com um mínimo de civilidade – mais ainda quando a crítica parte de um chefe de Estado, como Milei, e no momento em que esse chefe de Estado estava no Brasil.
No entanto, Milei representa como poucos essa vertente política direitista que faz da falta de vergonha e da insolência institucional seus principais ativos políticos. Flávio Bolsonaro, como candidato a presidente de todos os brasileiros, e não somente daqueles que urraram a cada palavrão proferido pelo presidente argentino, deveria ter evitado esse espetáculo constrangedor que nada de bom produz para o País. Mas o senador, em razão de sua própria insignificância, está cada vez mais à mercê de forças que não controla, numa campanha que começa a apostar no ultraje para impulsionar suas chances de vitória.
Além disso, é digna de repúdio a sem-cerimônia com que Flávio atrelou seu destino como candidato a atores externos, como Milei e Trump. Cada vez mais impopular na Argentina, em razão da dureza de suas medidas econômicas e de um escândalo de corrupção, Milei veio ao Brasil não para apoiar Flávio, mas para criar um incidente que o colocasse nas manchetes. Conseguiu.
O caso de Trump é ainda mais perigoso. O presidente americano não disfarça seu interesse em se intrometer nas eleições brasileiras, com o objetivo de instalar no Palácio do Planalto um títere para impulsionar seu projeto de converter a América Latina em seu quintal.
Soube-se pela imprensa americana que Trump queria enviar representantes seus para o Brasil para disseminar suspeitas sobre nosso sistema eleitoral. O governo brasileiro negou-lhes o visto e, como esperado, capitalizou o caso politicamente, o que mostra a toxicidade de uma associação com Trump. Como revelou uma pesquisa Datafolha divulgada no fim de semana, 52% dos eleitores acreditam que o tarifaço imposto pelo presidente dos EUA às exportações brasileiras é uma manobra para beneficiar a candidatura de Flávio. Ou seja, a maioria do eleitorado já enxerga no prejuízo econômico imposto ao País um benefício a um candidato que só existe como tal para resgatar o “legado” do pai – e nada mais.
O patriotismo proclamado por Flávio é, portanto, mais uma das farsas do bolsonarismo, cujo objetivo é transformar o Brasil em vassalo dos EUA de Trump.
Para piorar, tal comportamento joga água no moinho da campanha de Lula, que se refestela como protetor da “soberania” brasileira ante os ataques externos – das tarifas de Trump festejadas pelos bolsonaristas ao comportamento delinquente de Javier Milei em solo brasileiro. O mesmo Lula que outrora alinhou o Brasil ao bolivarianismo chavista, ao peronismo kirchnerista e à nostalgia castrista de Cuba agora posa de herói da Pátria contra o entreguismo de Flávio.
Eis aí o legado da família Bolsonaro ao Brasil: dar a um presidente medíocre, com ideias envelhecidas e sem projeto de futuro para o País, como Lula, a chance real de permanecer mais quatro anos no poder. Imperdoável.
Terminada a convenção do PL, ficou claro que falta a Flávio o que nenhuma ferramenta de inteligência artificial jamais será capaz de gerar: credibilidade moral, história política independente, compromisso com a democracia e um eleitorado que o siga por convicção, não por imposição. Até lá, o PL terá um avatar mal ajambrado de Jair Bolsonaro como seu candidato a presidente.

